Preso ou em liberdade, Lula continua sendo o maior líder político do país

Preso ou em liberdade, Lula continua sendo o maior líder político do país

Lula não é para amadores, que o digam seus carcereiros lavajatistas de Curitiba.

Toda a discussão desencadeada esta semana sobre a libertação ou não de Lula serve para provar um fato incontestável, goste-se dele ou não: em qualquer condição, a vida política do país continua girando em torno do ex-presidente.

Está fazendo agora 30 anos, desde a sua primeira campanha presidencial, em que não passa um dia sequer sem que a imprensa fale dele e especule sobre o que Lula fez ou deixou de fazer, e o que está pensando sobre os próximos passos, o mundo e a vida.

Quem tiver dúvidas, vá ao doutor Google.

Na manhã desta terça-feira, 1º de outubro de 2019, a palavra Lula tinha 121.000.000 de citações. É isto mesmo: 121 milhões, mais do que a metade da população brasileira.

Para se ter uma ideia, o rei Pelé, o brasileiro mais conhecido no mundo, tem 32,8 milhões.

Como velho amigo dele e de toda a família há mais de 40 anos, e seu assessor de imprensa nas campanhas e no governo, já deveria ter aprendido esta lição: não tente lhe dar conselhos e dizer o que deve fazer.

“E o que você entende de política? Quantos votos você teve na última eleição?”, ele me peguntava no governo, e cortava o papo, quando eu queria dar algum palpite fora da minha área, que era cuidar das relações com a mídia.

Desde o tempo de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, quando irrompeu na cena nacional, Lula sempre se moveu pela intuição e na fé cega naquilo que lhe ensinou dona Lindu, sua mãe.

Como Pelé, Lula enxerga na frente e vê o que os outros não conseguem enxergar para vislumbrar o próximo lance, mesmo cercado de adversários.

Até quando erra, encontra sempre um jeito de consertar na jogada seguinte, e segue em frente, sem olhar para trás.

Nunca dá para saber o que se passa na cabeça dele antes de tomar uma decisão importante como foi aquela de se entregar ou não à Polícia Federal, nas condições e no horário determinado pelo ex-juiz Sergio Moro, o seu carrasco juramentado.

Ouviu um a um as centenas de amigos e parentes acotovelados nos corredores do sindicato, cercado por uma multidão de seguidores, no dia 6 de abril do ano passado, mas sua decisão já estava tomada desde cedo.

Muitos achavam que ele deveria resistir ou pedir asilo político em alguma embaixada, mas isso nunca passou pela cabeça dele. Não tem a palavra fugir ou se esconder no seu dicionário.

Só se entregou no dia seguinte, no horário que ele determinou e com as condições que impôs.

A mesma coisa acontece agora.

Preso há mais de 500 dias numa cela em Curitiba, posso imaginar o martírio que é para ele ficar encarcerado numa solitária de 15 metros quadrados, longe dos filhos, dos netos e da bisneta,  ainda mais agora que está com namorada nova.

Lula sempre viveu cercado de gente, muita gente, arrastou milhões de pessoas em todo o país nas suas cinco campanhas presidenciais e nas muitas caravanas que fez, várias vezes, pelo país inteiro, de ponta a ponta.

Qualquer um de nós, simples mortais, correria para a liberdade, na primeira chance dada pelos carcereiros e justiceiros lavajatistas, quaisquer que fossem as circunstâncias.

Mas, ao contrário de jornalistas como eu, metidos a dizer o que os outros devem fazer e o que é melhor para eles, Lula tem seu próprio jeito de tomar decisões, e dele nunca abriu mão.

Não é frescura. Isso não quer dizer que ele está sempre certo, pois já tomou muitas decisões erradas das quais se arrependeu, mas nunca admitiu isso publicamente.

Como os matutos do sertão pernambucano de onde veio, embora hoje seja um homem do mundo, Lula traça uma linha imaginária e toca a boiada por caminhos que a gente só descobre depois.

Mais do que a liberdade, o que Lula perseguirá até a morte é provar a sua inocência, ainda que esse seja o caminho mais difícil, cheio de pedras e armadilhas togadas e fardadas.

Qualquer que seja, é preciso, no mínimo, respeitar a decisão a ser tomada por Lula e seus advogados.

Fico abismado ao ler e ouvir tantas sandices sobre Lula na imprensa e nas redes sociais, mas hoje fiquei com a alma lavada ao ler o artigo “Lula livre?”, do meu colega e amigo Juca Kfouri, na Folha, que já visitou Lula na cela em Curitiba.

Com a clareza de costume, Juca escreve:

“Há, na imprensa, quem chame de sala Vip o cubículo em que ele está preso há um ano e meio (…) Lula estaria apenas jogando para a torcida, segundo dizem crer. Incapazes de reconhecer a grandeza do gesto de alguém que, por indignação, por se considerar injustiçado, diz que não é pombo correio para usar tornozeleira eletrônica e se recusa a ser solto a não ser inocentado”.

Em poucas palavras, Juca resumiu o que também penso e sinto:

“Neste país de Silvérios e Paloccis, a cafajestagem tem espaço na mídia para gente tão pequena, incapaz de aceitar o tamanho do adversário. A história será inclemente com tais formadores de opinião”.

Até hoje tem “formadores de opinião” que simplesmente não aceitam Lula ter sido eleito duas vezes presidente da República e saído do governo com mais de 80% de aprovação, respeitado como um dos grandes líderes mundiais do seu tempo.

Bolsonaros, Moros e Dallagnois passam, somem na poeira da insignificância, mas este tal de Lula, como dizem seus detratores, ficará para sempre na memória dos brasileiros como o melhor presidente que este país já teve, assim comprovam todas as pesquisas.

Ao contrário de outros ex-presidentes, Lula nunca mudou de lado e, aos 74 anos, tudo que lhe resta é lutar para salvar sua biografia que a Lava Jato tentou destruir.

Agora, seus algozes tentam se safar de qualquer jeito, porque uma hora a Justiça, em que Lula nunca deixou de acreditar, será implacável com eles.

Lula faz seu próprio tempo e isso eles nunca conseguirão entender. Como cantava Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

E está chegando a hora da volta do “cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.

Não existe meia verdade, meia liberdade, meia democracia, meia justiça, meia inocência.

Mais uma vez, acho que o nego véio está certo, rendo-me.

Aconteça o que acontecer, tudo continuará girando em torno de Lula _ e é por isso que seus adversários morrem de medo.

Lula mudou a História do Brasil, mas ninguém será capaz de mudar a história de Lula.

Vida que segue.

 

16 thoughts on “Preso ou em liberdade, Lula continua sendo o maior líder político do país

  1. Não há a menor dúvida de que o tempo decantará quase tudo e dirá o que ficou, como ficou e o porquê. A conferir, portanto, o que dirá o amanhã do porvir histórico.
    Todavia, Lula ainda está muito longe de ser, o personagem decalcado na postagem.
    Há quem conheça Lula há muito mais tempo e que fundou o partido junto com o ex-metalúrgico.
    Trata-se do sociólogo falecido em 2019, que deixou o PT em 2003, logo após Lula jurar a Carta aos Brasileiros e, mais tarde,em 2006, beijar a cruz do FMI.
    O falecido sociólogo Francisco de Oliveira declara, literalmente, em entrevista, o seguinte: “O único estadista que o Brasil produziu em seus quinhentos anos de existência”. Não se referia a Lula, mas a Vargas. A entrevista é de 9 de junho de 2012, antes, portanto, das tempestades de junho de 2013, da reeleição de Dilma, do golpe parlamentar de 2016, da alcaguetagem do “Italiano”, da rendição do “Amigo” das empreiteiras ao Judiciário da Casa Grande.
    O link da íntegra da entrevista segue abaixo: https://issuu.com/gauchazh/docs/chico_de_oliveira_2012

    1. Netho, eu gostava muito do Chico de Oliveira dos tempos do c/ebrap com FErnando Henrique Cardoso, mas ele envelheceu mal, cheio de rancores e amarguras por não ter ocupado no PT o espaço que se imaginava merecedor.
      Outros deixaram o PT pelo mesmo motivo, com exceção da grande Luiza Erundina, que é maior do que qualquer partido. abraços

      1. Kotscho, há uma lição de Celso Furtado à qual Lula faz menção – conforme registrado no livro “A navegação venturosa” -, nos seguintes termos: “Celso aconselhava para eu não ficar longe dos radicais, porque eles apontam primeiro os riscos e perigos”.
        Lula perdeu Plínio de Arruda Sampaio, que foi o líder do PT na Constituinte e o relator do capítulo do Ministério Público porque Plínio era promotor de origem. Plínio foi o responsável pela redação do estatuto do PT que garantia a democratização partidária pela base e que levou às comunidades eclesiais de base, haja vista que Plínio (que se originara na Democracia Cristã, pelo antigo Partido Democrata Cristão) foi quem deu asas àquilo que tornou o PT maior do que o “novo sindicalismo” do ABC.
        Não esqueça de que o PT expulsou Luíza Erundina, quando a ex-prefeita paulistana aceitou participar no governo de união nacional liderado por Itamar Franco e assumir a responsabilidade pelo impeachment de Collor de Mello (Collor também insistia que havia sido vítima de um golpe parlamentar, porque o caixa 2 e as despesas “não contabilizadas” eram prática comum a todos os partidos). Todos lembram que Collor atacava o lulo-petismo como os “sindicalistas do golpe”.
        Conhecia Chico de Oliveira bem.
        Sua crítica nunca foi por não ter ocupado cargo (briga muito comum entre os que coabitam o partido até hoje). Nunca foi homem dotado desse tipo de veleidade, nem alpinista da burocracia partidária. Muito pelo contrário. Sua crítica sempre foi calcada no pragmatismo incoerente de Lula, que juntou o pior da política nacional, não só os “300 picaretas”, mas também as empreiteiras, das quais, o próprio Lula, em 1989, não aceitava “doações partidárias”, com uma única frase: “É uma fria”.
        Machado de Assis tem um conto famoso cujo eixo é uma indagação: “Mudou o Natal ou mudei eu?”. No caso em epígrafe, quem mudou não foi Chico de Oliveira. Lamento que Lula, também não tenha dado ouvidos a Você, que nem radical foi, nem é. Não estaria onde se encontra hoje caso não se imaginasse onisciente, onipresente e onipotente. Abraços!

  2. Não existe meio Ricardo Kotscho.
    Quer a leitura inteira e democrática do nosso povo? Releia o Post acima, era Lula, felicíssimo.
    Kotscho, Vandré cantou o caminho, você cantou a História, ambos afinadíssimos.
    Lula regia a Orquestra, de ouvido, ou, partitura.
    O migrante nordestino, continua metendo o dedo em riste na cara dos poderosos.
    Fez muito para a elite, mas antes, salvara da miséria, 40 milhões de irmãos.
    A única vez que alguém, DEDO em RISTE, apontou para Lula, acrescentou à cena, alto e bom som, para o mundo ouvir: “ESSE É O CARA”!
    Esse alguém era o Presidente dos Estados Unidos da América do Norte.

  3. É um preso político em uma pós-democracia, no sentido comum dado a esta expressão por pensadores tão diferentes como Habermas e a húngara genial Agnes Heller, que nos deixou há poucos meses.
    As revelações da lava-jato trouxeram uma confirmação inesperada do que algumas já suspeitavam: em dado momento, um estado de exceção foi parido e se desgarrou do interior de um moderno estado democrático constitucional; desde lá, desde muito antes da posse, todos os movimentos da vida normal do país estão sob ameaça (tudo na defensiva, todos acuados). A conclusão é simples: o governo de corte bolsonarista começou antes de Bolsonaro, quando, por trás da reprimenda severa de Teori ao Moro, movia-se já sem freios uma geringonça insurrecional e messiânica da pior espécie. Este “governo” atingiu seu ápice na prisão do Lula e desde a posse experimenta um paradoxal, lento e vigoroso declínio, com ainda muito endosso popular. Quando Trump, modelo enlouquecido da extrema-direita nativa, ameaça com uma nova guerra civil para se safar do impeachment, podemos ter ideia do que virá por aqui. Livre, Lula faria bem em escolher o exílio na França, onde ninguém mais duvida do seu estatuto de preso político!

  4. Leio todos os seus posts,sempre esclarecedores e bem escritos mas qdo vc escreve a respeito do ex presidente Lula, vc simplesmente se supera, seja qual for o motivo, parabéns, me sinto amiga dele como vc. Ele está certo mas não vejo a hora de ve-lo livre.

  5. O Dra Lebbos, pra que multa de 4.5 milhoes ?
    Porque ,data vênia, voce não vai buscar esse dinheiro no lugar em que o fraudador Moro o confiscou ou congelou – aquele oriundo das palestras?
    Se nós, lulistas, quisessemos e se acharmos produtivo e conveniente para teu prisioneiro Luis Inacio, nós levantariamos esse dinheiro tranquilamente em um cráud funding nacional , e com o troco ainda mandamos as tuas calcinhas para a lavanderia da esquina.

  6. “Sem política não existe economia”
    “Interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore, é no minério”

    Qual a dúvida, entre cidadãos do bem pensar os fatos, como prática, que em Brasília o piloto, pensando só naquilo, sequer compareceu, enquanto em Curitiba encontra-se politicamente sequestrado também o Brasil?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *