Jornalismo Lava Jato estilo B.O. só serve o prato feito das delações

Jornalismo Lava Jato estilo B.O. só serve o prato feito das delações

Entre outros estragos na vida nacional, a Lava Jato rebaixou o jornalismo a transcrever boletins de ocorrência, os chamados B.O, servidos no prato feito das delações.

Podem reparar: até a linguagem mudou, tornou-se mais burocrática e tosca, no estilo do juridiquês de Sergio Moro e seus procuradores.

Ao longo dos último cinco anos, com honrosas exceções, o “jornalismo investigativo” se limitou a servir de porta-voz da Lava Jato, na maioria das vezes sem investir em apurações próprias.

Com a divulgação dos diálogos dos procuradores pelo The Intercept, em parceria com outros veículos, ficamos sabendo que até a pauta do dia era acertada entre eles com repórteres e editores, e não só com o Jornal Nacional.

Engana-se quem imagina que a aliança mídia-Lava Jato formada para o golpe de 2016 já se esgotou com a prisão de Lula.

Para se defender das denúncias da Vaza Jato e embaralhar o noticiário, esta semana voltaram suas baterias novamente para Lula e seu irmão Frei Chico, Dilma e, agora, o deputado federal David Miranda, do PSOL, que é casado com Glenn Greenwald, o editor do The Intercept.

Sempre que a coisa aperta para o lado de Moro & Dallagnol, eles ressuscitam as velhas delações do ex-ministro petista Antonio Palocci, que está em prisão domiciliar.

O fato novo do dia foi a revelação de que, apenas dois dias após as primeiras denúncias da Vaza Jato, o Coaf enviou ao Ministério Público um relatório que aponta “movimentações atípicas” de 2,5 milhões na conta do deputado David Miranda.

O MP abriu imediatamente uma investigação sobre as movimentações bancárias de Miranda. Mas nesta quarta-feira a Justiça barrou a tentativa de quebrar o sigilo fiscal do deputado. Miranda afirmou que as movimentações são compatíveis com sua renda familiar. Junto com Glenn, o deputado tem uma empresa de turismo.

Nota divulgada pela assessoria de imprensa da ex-presidente Dilma Rousseff constata a coincidência da ofensiva contra a ex-presidente com  as denúncias da Vaza Jato:

“É curioso que a ofensiva da Lava Jato contra Dilma Rousseff ocorra no momento em que os procuradores da República e o ex-juiz Sergio Moro estão sob suspeita, desmascarados pelo The Intercerpt Brasil e demais veículos de imprensa que revelaram as manipulações e distorções feitas a respeito da gravação ilegal entre a então presidenta e o ex-presidente Lula”.

A nota afirma ainda que “a democracia está sob o fogo cruzado dos amigos da ditadura, da tortura e das milícias”.

Em lugar de fazer reportagens para comprovar ou não as delações, como o Intercept faz com as gravações que obteve de fonte anônima com as conversas entre procuradores e juízes de Curitiba, um grupo de jornalistas “especializados” em Lava Jato, o mesmo que comemorou a prisão de Lula, adota o método copia e cola.

O resultado é um jornalismo preguiçoso, chato, burocrático, repetitivo, sem espaço para o contraditório, que “normaliza” as ações da Lava Jato.

Claro que em todas as redações ainda há profissionais que resistem ao prato feito, mas o estrago provocado pela Lava Jato no jornalismo em geral pode ser tema para estudos na academia.

Em todas as áreas, a história recente do Brasil agora pode ser dividida entre antes e depois da Lava Jato, que degradou as relações institucionais, o sistema político e quebrou a economia do país.

O resto é consequência. Deu no que deu.

Vida que segue.

 

23 thoughts on “Jornalismo Lava Jato estilo B.O. só serve o prato feito das delações

  1. Neste onze anos do Balaio, e diante de um quadro mundial contraditório, muitos grupos no poder se autoproclamam democráticos e modernos-, mas são dominadores e promotores de desigualdades sociais. Todos somos iguais quando sonhamos com um mundo repleto de utopias; entre elas, todas oriundas da falta de uma educação libertadora e de uma sociedade democrática. Se a experiência dos mais velhos sempre antecede o conhecimento, então o pensamento e a liberdade de expressão darão os passos predecessores de caminhos que apontamos para ultrapassarmos não a esfera do imediato, mas a esfera do vital. Ninguém tem uma certeza exata do futuro deste sistema, nem se conseguirá muito de tudo aquilo que se anseia na buscar da verdade. Creio, eu, que, até o Paulo Freire jogou a toalha ao pensar na Educação como arma única para a transformação definitiva dessa sociedade. A questão não é somente ter muita cultura, mas sim, ter uma visão mais profunda da realidade do mundo atual.

  2. Ficou muito na vista esta reação repentina contra a família de Lula, contra também a família do Greenwald.
    Os inquisidores esbanjavam antes extrema autoconfiança. Na antevéspera das eleições, a delação do Palloci tinha o timing perfeito da bolsonarometria combinada destes hiperativos missionários jurídicos-religioso, adorados e intimidadores na alta temporada de caça política seletiva do maior dos seus hereges. Auto-exibicionice bandeirosa e sintomática (outdoor, esculturas, algo entre o santo e super-herói na imagem publicitária de si mesmos), autoretrato nada discreto, nada humilde desta extrema-direita-do-direito, no momento mesmo em que convencia boa parte do país da nobreza “superior” da sua cruzada místico-legal e entrava triunfante em Heidelberg. Isso, claro, antes de defender o sniper preventivo do Witzel e a forte comoção dos assassinos do Carandiru e da Candelária.
    Olhando retrospectivamente, no escurinho do cinema do Telegram tramavam-se coisas muito graves, de forma infantilizada; como crianças entretidas, distraídas, brincando impunes e seguras de si com o fogo. Nomes ficcionais, claro: Di, vai sair na Globo, Estadão; Ji, o “9” quer é se exibir no enterro; Lu, apressa a delação; Ni, o russo pediu, Mi, reze também para que não saia a entrevista Je, Ju, inho, inha. Não era só linguagem abreviada do Telegram, era uma autocogratulação suspeita, cheia de diminutivos de confraria dos mais eficazes protobolsonaros de toda a campanha, ainda que alguns detestassem a identificação.
    Baixa temporada agora: a retaliação parece sem timing, desajeitada e com objeto trocado: contra o Intercept (querem matar o mensageiro), contra Lula de novo (o preso político do estado de exceção faz com que o mundo olhe negativamente para o Brasil, daí a lava-jato de raiz golpeá-lo, desesperada, para fazer o que não pode, mostrar que estava certa). Brigam entre si: ira, ora, não era o Aras, o rato roeu a roupa do “errei de rumo”.
    Querem chamar a atenção, sem mexer com a família armada na UTI.

  3. Prezado Kotscho: É verdade que “Sempre que a coisa aperta para o lado de Moro & Dallagnol, eles ressuscitam as velhas delações do ex-ministro petista Antonio Palocci” e requentam outras notícias, porque isso faz parte de um plano para não se resolver nada que atinja essa conhecida dupla maquiavélica. Em 2009 fui assistir a uma palestra do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony na Feira do Livro de Ribeirão Preto daquele ano. Num determinado momento a jornalista mediadora perguntou por que ele, em meados dos anos 70, havia parado de escrever? A explicação dada por ele foi que como a época era dos anos de chumbo, em plena ditadura militar, os artigos para os jornais não serviam para mais nada. Esse foi o motivo da parada e, então, ele começou a pintar. Como parece que nada se resolve, por desilusão, será que vamos ter que pensar, também, em nos dedicarmos somente à pintura?

  4. Kotscho, por adonde anda aquele porta voz do, se nao me engano, corpo de bombeiros de MG, muito jovem e de feições nipônicas, nisseis, e que dava um show de competência e de RP nas entrevistas à TV e ao público em Brumadinho, lembra-se? E tudo isso sob intensa pressão dos acontecimentos e olhos atentos de todos?
    Gostaria de saber.
    Tem muita autoridade por ai que não tem um décimo de porta voz como ele.

  5. Novos métodos, Mestre, do velho novo golpe: Dilma deposta e Temer posto presidente.
    Renovando a velhaca Casa Grande e a golpista Globomarinho com 94 anos de prática no metiê, em 130 anos de República.
    Para Lula preso, aécio, temer, fhc, marinhos, dallagnol…, soltos, o capitão ‘presidente’ e moro premiado ministro da ‘justiça’.
    E a Democracia em transe com o novo velho: bolsonaros em perigosas transações para extingui-la, a Amazônia em chamas e o país sendo entregue, rumo ao atraso futuro de República da(o)s Bananas.
    “Que país é esse?”, de novo ecoa no Brasil, vinda não do além, mas do aqui e agora inconsequente da mediocridade da tal gente de bem que assola e desconsola o país, sob patrocínio da Casa Grande e adestramento da Globomarinho.
    Triste, mas com a Democracia em transe, a suruba corre solta no lupanar Brazil, em transas de medíocres empoderados dando desordens no salão, enquanto o STF e outras instituições, em paúra permanente, ficam apenas na obsequiosa indecisão silenciosa entre o ‘mato ou morro’ (não sabem se correm pro mato ou pro morro), quando deveriam resgatar a nesga de decência e civilidade que lhes resta e agirem como a vida pede, segundo Rosa:
    “O correr da vida embrulha tudo.
    A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
    O que ela quer da gente é coragem.”

    1. Caro Paulo Caruso, você faz parte desta história, desde o primeiro dia. Teu burrico teimoso é a marca deste blog.

      É uma honra e uma alegria ter você aqui. E vamos balançando ao sabor dos ventos pra não cair. Viva nóis! Abração

  6. Na Radio Bandeirantes tem um “jornalista” que foi porta voz do Collor, Claudio Humberto, que é um horror. Aliás, o Ricardo Saud da JBS denunciou-o como receptor de uma mesada de 18.000,00. Tem alguma notícia da evolução disto?

  7. O alcagueta-mor do petismo reside em um apartamento de 500 metros quadrados, avaliado em R$ 12.000.000,00.
    A despesa condominial mensal é de R$ 10.000,00 e o IPTU custa R$ 4.000,00 mensais.
    O alcagueta-mor do petismo devolveu o equivalente a R$ 40.000.000,00 no acordo de alcaguetagem premiada.
    Ainda dispõe de um patrimônio orçado em R$ 85.000.000,00. Enquanto perdurar o cumprimento de sua pena, relaxada em regime domiciliar aberto, com tornozeleira eletrônica, a bufunfa milionária permanece bloqueada.
    O alcagueta-Mor do petismo é considerado, conforme percebeu o blogueiro, aquilo que no dialeto dos picaretas é chamado “chave de cadeia”.
    Lula deveria ter lido as memórias de Trotsky para saber que a rendição ao judiciário da Casa Grande jamais deveria ter sido considerada sequer uma opção.
    Trotsky anotava como exemplar o caso do Czar russo da dinastia Romanov. Segundo Trotsky nenhum Romanov poderia ficar vivo.
    A razão do mais popular revolucionário de 1917 restaurar a pena de morte foi uma só: eliminar todos aqueles que implicassem quaisquer riscos de uma volta ao passado.
    Quem quiser conhecer a melhor série a respeito daquele período que mudou a história mundial, não pode deixar de assistir a excelente produção russa disponível no Netflix: “Trotsky”.

  8. Lembro de uma ex-porta-voz da lava jato, demitida pelo juizeco, que estranhava o fato dos repórteres e jornalistas que cobriam a operação, nunca questionarem nada. Engoliam tudo, quietinhos e repassavam as releases para suas redações, Globo principalmente. E no final da tarde, lá vinha o Bonner anunciando “novos fatos” sobre a operação. E como diz o Greenwald, sem fazer nenhum esforço. Tudo prontinho.

  9. “A justiça estará feita. Para cada milhão massacrado como porcos, um solitário monstro infeliz é executado humanamente.” Henry Miller
    Quando os culpados serão punidos? E quando os inocentes serão reconhecidos?
    A história é um ´prostituta´ velha que nos mente e inebria o presente, e só nos revela verdades depois que o tempo corroeu o corpo das vítimas.
    “É aqui que se localiza o ‘inacessível’ de todo historiador: a vida mesma é essa perplexidade diante dos ‘inacessíveis’ , sempre tardia para o passado e prematura ainda para o futuro” Francisco Foot Hardman
    Enquanto milhões sem história morremos como porcos vítimas de canalhas do poder, a história reserva espaço para a execução de alguns monstros.
    Se ´Trotsky não perdoaria nenhum Romanov´, quando começaremos a executar os nossos monstros e jogá-los na cova da história?
    “Quanto mais abstrata a verdade que desejas ensinar, mais deverás seduzir os sentidos para que sintam atraídos por ela”. Nietzsche
    Enquanto milhões de corpos, frangos e operários são massacrados para alimentar o sistema, quando os ´Romanov´ começarão a ser executados para a não repetição da história?
    “Amo todos aqueles que são como gotas pesadas caindo uma a uma da nuvem escura que pende sobre os homens: eles anunciam que o relâmpago vem, e vão fundo como anunciadores.”Nietzsche
    “Algumas pessoas confundem marasmo com segurança.”

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