Jornalistas dão vexame e Glenn Greenwald detona Lava Jato no Roda Viva

Jornalistas dão vexame e Glenn Greenwald detona Lava Jato no Roda Viva

Os 90 minutos do Roda Viva de segunda-feira, com Glenn Greenwald, editor do The Intercept, vão passar para a história do programa como um dos maiores vexames já promovidos por jornalistas amestrados desde os tempos da ditadura militar.

Foi um jogo de seis inquisidores ferozes, mas despreparados, contra um entrevistado sereno, que manteve a calma o tempo todo e detonou a Lava Jato, defendida pelos repórteres nativos com unhas e dentes afiados.

Parece até que fizeram midia-training com a Polícia Federal de Curitiba, sob a supervisão dos dallagnois do MPF, pois todos seguiram o mesmo script nas perguntas repetitivas, para Greenwald confessar que pagou pelas mensagens hackeadas e cometeu um crime contra a segurança nacional.

Logo no primeiro bloco, o jornalista americano premiado com o Pulitzer derrubou uma a uma as teses, ilações, insinuações e cobranças da moderadora e dos cinco desconhecidos integrantes da bancada.

“A autenticidade desse arquivo não está mais em dúvida. Esse jogo cínico que o Moro e o Dallagnol estavam fazendo no começo acabou. Sabemos que temos o ministro da Justiça e o coordenador da Lava Jato que usavam métodos completamente corruptos, não em casos isolados, mas o tempo todo”, disparou o entrevistado, sem deixar de sorrir diante de cada pergunta encomendada pelas chefias.

Em tom pausado e didático, Greenwald deu uma lição do que é jornalismo com ética, um departamento em que os acusadores da bancada não parecem ter muita familiaridade.

Eles não se conformavam de ouvir o entrevistado repetir reiteradas vezes que Sergio Moro era o chefe de um sistema judiciário corrupto, em que o Jornal Nacional atuava como parceiro da Lava Jato.

Como não comecei ontem na profissão, senti vergonha dos coleguinhas que não sabiam mais o que fazer para pegar o entrevistado na curva, falando ao mesmo tempo, e não conseguindo concluir as perguntas.

Mas não fui só eu. Durante todo o programa, publiquei vários posts no meu Facebook, que tiveram 2.827 acessos/participações (mais de 30 por minuto de programa) e 400 comentários.

Todos foram unânimes em criticar a atuação desrespeitosa e inquisitorial dos integrantes da bancada, algo totalmente fora da curva dos propósitos do programa. Não apareceu um único vivente para defendê-los (e eu não deletei nenhum participante).

Já participei dezenas de vezes do Roda Viva, até já perdei a conta de quantas, como perguntador, e nunca vi nada parecido.

O que mais se aproximou do espetáculo de sabujice e agressividade de ontem foi um programa, no ano passado, em que eu não estava, com a então candidata a presidente Manoela D´Ávila, no qual o moderador e os jornalistas convidados partiram para cima dela, por pertencer a um partido, o PC do B, que tem a palavra “comunista” no nome.

Também ali o programa virou um tribunal em que a entrevistada foi julgada e não se falou do que mais interessava aos telespectadores: quem é, o que pensa, quais suas propostas de governo.

Da mesma forma, ninguém perguntou a Greenwald sobre o conteúdo das denúncias feitas pela Vaza Jato, como é conhecido o conjunto de reportagens divulgado pelo Intercept, em parceria com alguns dos principais veículos nacionais.

Curiosamente, nenhum desses veículos estava representado na bancada para dizer se as gravações foram ou não manipuladas.

Greenwald foi tratado como um criminoso, que ousou cumprir seu papel de jornalista e divulgar tudo o que é de interesse público, preservando a sua fonte, um direito assegurado pela Constituição.

Nem o marido de Glenn Greenwald, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), com quem tem dois filhos pequenos, escapou das acusações baseadas em supostas investigações da Polícia Federal.

Com pegadinhas infantis, tentaram encurralar o entrevistado de todo jeito, até que, no final, introduziram o tema da sua homossexualidade e insinuações de desonestidade, como último recurso, a chave de ouro do programa.

Jornalista não é advogado de defesa nem assistente de acusação, não é juiz nem promotor, mas apenas um profissional que deve fazer perguntas para atender ao interesse público, não aos seus eventuais empregadores.

Repórter tem que fazer suas próprias apurações, checar dados e versões, e não apenas oferecer o prato feito que recebe de autoridades com objetivos político-partidários, como aconteceu durante estes cinco anos de Lava Jato.

Que Greenwald continue fazendo seu trabalho e os jornalistas tenham aprendido alguma coisa sobre os compromissos da nossa profissão para informar a sociedade.

Liberdade de expressão é um direito de todos, não só de quem tem carteirinha de jornalista.

Vida que segue.

 

34 thoughts on “Jornalistas dão vexame e Glenn Greenwald detona Lava Jato no Roda Viva

  1. Para muitos o green deveria pedir a prisão de todos os membros da operação Lava a Jato. Porém nem mesmo o grande “herói Lula detonou a operação em recente entrevista.Lula não é contra todos os atos praticados contra a CORRUPÇÃO!.

  2. Caro Kotcho
    Num primeiro momento pensei, é despreparo ou submissão(?), mas logo conclui: “é submissão”.

    um grande abraço

    “Aquele que executa de bom grado as ordens escapa ao lado penoso da submissão: fazer o que nos repugna”.
    Sêneca

  3. Se este jornalista é tão profissional quanto aqui se fala, porque até agora ele só publicou mensagens dos celulares de juízes e promotores.
    Segundo consta do depoimento do Hacker que conseguiu as gravações, ele “passeou” por diversos celulares, dos mais diferentes autoridades, incluindo ai Lula e Dilma. Porque até agora não publicou nada destes outros hackeados? Isto é o que chamamos de Isenção apartidária?
    Por outro lado, se pela Lei de abuso de autoridade Juìzes, Promotores e Policia não pode fazer uso de provas conseguidas por meios escusos e anonimos, podem os reus e bandidos, como querem os advogados deles, servir-se destas provas? O que não serve para o Chico, serve para o Francisco?

    1. O jornalista pode e deve fazer uso sim das tais provas ilegalmente obtidas.
      O juiz, pós promotor ou pós defesa, TAMBEM pode fazer uso para inocentar -quem
      alguem que tenha sido injustamente condenado. Quem diz sao os juristas.
      O dossier completo era sobre a LJ. Quem entregou sabia quem era Greenwald, sabia da dimensao do caso snowden leaks ,escolheu um periodo fixo coisa de 2 anos, tinha noçao clara do alcance politico…,sabia que somente um cara da estatura, experiencia e força de GG podia combater isso. Acho muita areia para o caminhãozinho do Delgati do interior paulista que se parece DEMAIS com coisa encomendada…
      Encomenda montada para forçosamente ‘achar’ uma ilegalidade na vazajato.
      Tanto que evitaram ao máximo expor o rapaz a perguntas / respostas públicas… ia ficar obvio numa tela ou microfone o despreparo e o desnivel da encomenda morista.

    2. Você comprou a versão do Moro. Mas, o Intercept nunca revelou quem é sua fonte. Pelo teor das mensagens publicadas, o Intercept só tem dados do celular do Deltan Dallagnol. Mesmo as reportagens que afetaram a credibilidade do Moro são de conversas travadas com Dallagnol.

  4. As palavras do grande Lula,maior presidente de todos os tempos,sobre está mesma operação Lava a Jato.” …não ou contra a Lava a Jato,até mesmo porquê quem foi pego e CONFESSOU tem que ser PUNIDO”!.VIVA AS SÁBIAS PALAVRAS DO LULA!.

  5. O Roda Viva só teve credibilidade enquanto conduzido pelo Paulo Marlkun e o Heródoto Barbeiro.
    Glenn e Manuela permitiram que se desvelasse o padrão jornalístico que produziu aquilo que o Netho definiu bem, em comentários anteriores, como “Era Beócia”.

    1. Agradeço-te o crédito, Karla. Da mesma forma que FHC passou à história como o demiurgo da “Era Maldita”, o Líder dos Imbecis será conhecido nos livros de história como o parteiro da “Era Beócia”.
      Se quiseres conhecer um jornalista digno da verdadeira acepção da palavra, então compareça ao Centro Barão de Itararé, Rua Rego Freitas, 454, 8° andar, em São Paulo, no próximo dia 26 de setembro, para o lançamento do livro “Audálio, Deputado”, pela Editora Scortecci.
      Para dizer o mínimo, Audálio liderou o Sindicato dos Jornalistas no momento mais difícil da ditadura, com uma altivez e dignidade que fizeram história, ombreando-se a outros magníficos representantes da sociedade civil brasileira, como Dom Paulo Evaristo Arns, Raimundo Faoro e Barbosa Lima Sobrinho.
      Detalhe, Karla:
      Audálio, que se dizia acima de tudo um “repórter”, descobriu Carolina de Jesus, autora do clássico “Quarto de Despejo”.

  6. Kotscho:
    depois, acho, de uns 5 anos, assisti ao roda viva de ontem. Só havia um sujeito inteligente, tranquilo, firme, o Glenn Greenwald. O resto parecia um bando de focas , puros paus mandados, sem se perdiam nas próprias perguntas.
    Abraços,
    José Maria

  7. Jornalista Ricardo Kotscho. como se faz para assistir o Roda Viva? Este, pauta feliz do Post. Navego , quase tão somente, pelo Balaio e quando saio a navegar, é naufrágio certo. Para não precisar de resgate e incomodar os que me são caros, fico em porto seguro. Seguir o Balaio, eu aprendi, leio e, à vezes, interajo. Agradeço e pergunto: é possível assistir alguma reprise. O que devo fazer? Seja o mais didático possível, porque de internet, sou burrinho… dá dó. A memória, então. Rabisco alguma coisa e 10 minutos depois, não me lembro de nada. as coisas do passado é que me alimentam o espírito. Desculpe-se a franqueza e exposição. Grande abraço. (Wagner-75)

    1. Wagner, com certeza você não é mais burro do que eu, um nalfabeto digital completo.
      Mas por sorte minha filha Mariana Kotscho publicou hoje um programa Roda Viva antigo com Dom Pedro Casaldáliga, reapresentado em fevereiro de 2018, na série “Entrevistas inspiradoras”.
      Entra no site da TV Cultura ou voce pode ver no meu Facebook. Abraços

  8. Glenn expôs o nome de um jornalista e sua fonte.
    Interessante ver um jornalista de sua envergadura não se opor a isto.
    Então vale tudo?
    Ele assumiu q errou a edição de uma msg e q teve outro erro de edição na data de outra msg.
    Foi com edição, tá ok?

    1. Tá bom, Paulo “Chato”, se você pensa assim, vamos respeitar. É melhor não contrariar.
      Entre os mais de 400 comentários publicados no meu Face nos posts sobre o programa, você foi o único até agora a ficar ao lado da bancada de jornalistas contra o Glenn Greenworld.

    2. Tá sumido, Paulo. Depois de tanta vergonha que o governo Bolsonaro expôs a seus eleitores, foi bom tirar umas férias do Balaio.

      Quanto à entrevista do Glenn, parabéns pelo pela sua observação, digna de troféu Cata Piolho.

  9. Jornalista amestrado é uma especie mutante que cresce a sombra, caracterizada pela ausencia de voz propria, espinha curvada e rabinho balançante.

  10. “Moço, olha o vexame, o ambiente exige respeito, pelos estatutos da nossa…”

    Que jornalistas, Mestre?

    No ‘Roda Morta’, ontem, à exceção de Glenn Greenwald e do cartunista Paulo Caruso, tinha de tudo sentado naquele trambolhão cenográfico, menos jornalistas.
    Tá feia a coisa única que cresce no país, a mediocridade.

  11. Prezado Kotscho: Mas desse programa do Roda Viva era de se esperar outra coisa além de “um dos maiores vexames já promovidos por jornalistas amestrados desde os tempos da ditadura militar”? Afinal, a tv não pertence a uma fundação que é controlada pelo estado que está alinhado, ideologicamente, com o governo federal?

  12. Entrevista historica. O perigeu da gloria do PIG. [homenagem a PHA)
    O ponto mais agudo foi quando a periodista perguntou o que ele achava das pretensões politicas do servonarola Moro.
    Sob toda a pressão inimiga da banca , louca para pega-lo na curva, Glenn deu uma resposta precisa e hilariante mas ao mesmo tempo que enterrava a faca até o cabo:
    “Se Bolsonaro conseguiu ser presidente, qualquer um consegue”.

  13. Alguma mensagem mostra um crime do Moro? Simples, podemos até esquecer que elas foram roubadas. Diga qual lei específica foi descumprida, pegue a mensagem específica que demonstra isso e prove que ela não foi adulterada.

    Nem tentam fazer isso porque sabem que não têm nada. Falam das mensagens no plural buscando criar um clima que não tem valor legal e se baseia mais nas longas interpretações do falso ganhador do Pulitzer (*) do que nas poucas mensagens que ele tira de contexto (e possivelmente edita) para recheá-las.

    (*) Retiro o “falso ganhador” se alguém me informar o ano e a categoria em que ele venceu. Eu procurei e não há Pulitzer algum no nome do espertalhão.

    1. Claro que não há seu nome porque não é assim que acontecem. Vem The Guardian como ganhador e a equipe…que ele liderava, obviamente. Portanto ele ganhou embora não apareça seu nome. Todo mundo sabe disso e com certeza você também sabe. Ou talvez não saiba e ficou procurando Glenn Greenwald…E não acharia mesmo porque não soube como procurar. O ano foi 2013. E este foi apenas um dos inúmeros prêmios que ele recebeu. Veja aqui: Greenwald recebeu em 2009, juntamente com Amy Goodman, o primeiro Prêmio Izzy por realizações especiais em mídia independente[104] e o Prêmio de Jornalismo Online de 2010 por Melhor Comentário por seu trabalho investigativo sobre as condições de Chelsea Manning.[105]

      Suas reportagens sobre a Agência Nacional de Segurança (NSA) ganharam inúmeros outros prêmios em todo o mundo, incluindo os principais prêmios de jornalismo investigativo do Prêmio George Polk,[106] o Prêmio de Jornalismo Online 2013,[107] o Prêmio Esso de Reportagem por seus artigos no jornal O Globo sobre a vigilância massiva da NSA sobre os brasileiros (tornando-se o primeiro estrangeiro a ganhar o prêmio),[108] o prêmio Libertad de Expresion Internacional 2013 da revista argentina Perfil[109] e o Prêmio Pioneiro 2013 da Electronic Frontier Foundation.[110] A equipe que Greenwald liderou no The Guardian recebeu o Prêmio Pulitzer também pelas reportagens sobre a NSA.[111] A revista Foreign Policy nomeou Greenwald como um dos 100 principais pensadores globais de 2013.[112]

      Em 2014, Greenwald recebeu o Geschwister-Scholl-Preis, um prêmio literário anual alemão, pela edição alemã de No Place to Hide.[113] Greenwald também foi nomeado o ganhador de 2014 da Medalha McGill de Coragem Jornalística do Colégio Grady de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade da Geórgia.[114]

      Em 2019, Glenn ganhou o Prêmio Especial Vladimir Herzog após divulgar diálogos entre os procuradores da Lava Jato com Sergio Moro.[

  14. Não deu pra ver o programa. Mas assino embaixo Ricardo. É uma vergonha o que fizeram com esses “inocentes úteis” como diziam os milicos na ditadura para desqualificar a estudantada.

  15. Depois da condenação do Luiz Inácio, o juizeco compareceu ao “Roda Morta”. Lá estavam Augusto Nunes, Cantanhêde, Nêumane Pinto, Noblat (acho) e uns outros. Eis algumas pérolas da sentença do juizeco:
    “Caracterização presumida de crime”. Ele presumia a existência de crime.
    “A culpabilidade do réu não é clara, visível, aparente, não está escrita, mas este juízo pode fundamentá-la”. “Não tenho provas mas vou condená-lo”.
    Fora da sentença, o juizeco declarou:”Este juízo nunca disse ou escreveu em lugar algum(?!!, o certo é em lugar nenhum) que o triplex é fruto de propinas de três contratos da Petrobras”.
    Depois de confessar esse festival de irregularidades jurídicas, não houve um daqueles “jornalistas” a perguntar:”Então, por que você o condenou?”. Uma pergunta óbvia, não?
    Lula foi condenado por “atos indeterminados”.
    RK, se um dia você tiver o desprazer de conversar com o juizeco, profissionalmente ou não, faça essa pergunta a ele.

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