Mídia e poder: Bolsonaro finge que briga com os donos, mas mira nos jornalistas

Mídia e poder: Bolsonaro finge que briga com os donos, mas mira nos jornalistas

¨Bolsonaro defende prisão de jornalistas que publicam mentiras” (Rádio CBN, do Grupo Globo, nesta sexta-feira).

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Quem ainda é capaz de dizer o que é verdade ou mentira no Brasil de Jair Bolsonaro, além dele?

No velho Estadão, onde eu trabalhava nos anos 70 do século passado, uma grande crise entre a direção e a redação só foi estourar quando a censura saiu do jornal.

Os jornalistas achavam que agora estavam livres para publicar tudo, mas não foi bem assim.

Um dos donos do jornal, Ruy Mesquita, dizia publicamente que a redação era coalhada de comunistas.

Saiu a censura prévia, mas começava a autocensura, para não prejudicar os negócios do grupo empresarial, cujos interesses não se limitavam à publicação de jornais.

Estas outras áreas dependiam de uma boa relação com o Banco Central e a Receita Federal.

O Estadão poderia até criticar o general de turno, mas não os dirigentes destas duas instituições, que sempre foram preservadas pela imprensa.

Eu só conseguiria fazer uma reportagem sobre desmandos da Receita Federal nas fronteiras, muitos anos depois, na Folha, quando o jornal era dirigido por Octavio Frias de Oliveira.

“Você tem provas de tudo isso?”, ele me perguntou.

“Sim, eu respondi”, e seu Frias me mandou escrever a matéria, que foi publicada na íntegra.

A pressão dos governos naquela época, como agora, não se dava diretamente sobre os donos da mídia, mas sobre seus anunciantes, a principal fonte de renda dos veículos.

Basta ver como estão minguando os anúncios de página inteira nos jornais e revistas que ainda ousam fazer críticas ao governo Bolsonaro.

A queda no faturamento é o principal álibi apresentado pelos donos em tempos de crise para os constantes cortes nas redações, os tenebrosos “passaralhos”.

A escolha dos nomes para a degola deve atender, ao mesmo tempo, aos interesses das empresas e do governo, ainda que nada seja previamente combinado.

Mas é algo implícito, que os dois lados tocam de ouvido: corta-se primeiro a cabeça de quem pode vir a causar problemas por pensar pela sua própria cabeça.

Os ocupantes de cargos de chefia sabem onde o calo aperta e para onde estão batendo os ventos do poder, dentro e fora das redações.

Por um instinto de preservação, procuram evitar problemas futuros e se antecipam ao pedido vindo de cima.

Na verdade, pensando bem, já nem restam muitas cabeças para cortar, pois as redações estão cada vez mais mansas, obedecendo sem contestar à ordem constituída, ao contrário do que  acontecia em outros tempos, nem tão distantes.

Quando um governo de extrema direita considera até Merval Pereira e William Waack como alvos a combater, o baixo clero da imprensa fica cada vez mais acoelhado.

Até notórios anti-petistas, que nada têm de vermelhos, estão dançando pela ousadia de fazer qualquer crítica ao governo.

Colunas são sumariamente cortadas e colaboradores dispensados ao sabor dos ventos e dos interesses dos grandes grupos empresariais que comandam a mídia nativa e não querem ter problemas com o governo.

Bolsonaro finge que briga com os donos, para agradar aos seus seguidores nas milícias digitais, mas o seu alvo são os jornalistas não amestrados.

Aos poucos, vamos voltando ao pensamento único para vender que a economia está melhorando, as reformas avançando e, em breve, todos seremos felizes, amigos para sempre.

Aqui e ali, não sei até quando, ainda se ouve alguma voz dissonante deste oba-oba do “agora vamos todos torcer para dar certo”.

Alguns poucos jornalistas, que eu admiro, ainda tentam bravamente denunciar a destruição do país, em todas as áreas, e a degradação das nossas instituições, sob um governo que se tornou motivo de chacota no mundo inteiro.

Não temos mais nenhum outro Mino Carta na nossa imprensa, o último chefe de redação capaz de desafiar, ao mesmo tempo, o governo militar e os seus patrões.

Grande Mino, um abraço!

Vida que segue

 

14 thoughts on “Mídia e poder: Bolsonaro finge que briga com os donos, mas mira nos jornalistas

  1. A besta do apocalipse que a caserna expulsou, está solta. Ela incendiou a esperança. Pibão piromaníaco para nossos irmãos. Se em cada abafador dos homens do fogo, colarem a cara do bozo, o incêndio de tanto pavor, consumirá a si mesmo, desaparecendo. Intolerável: o exército sobrevoou as queimadas, gastou combustível, poluiu mais, e …os aviões voltaram à base. Nota sádica na TV: “agora, farão o mapeamento e na próxima segunda feira começará o combate ao fogo”. Que zerda, nesta semana de mapeamento, o fogo já terá consumido uma Holanda e uma Bélgica inteirinhas. A TV lusa comentou a tragédia: “Exército brasileiro jogou panfletos sobre as queimadas, avisando que o combate ao fogo começará em uma semana”. O Brasil de 57 milhões de desmiolados recebeu lavagem cerebral da grande mídia. O desgoverno sabe desviar o foco de sua imconpetência. Loucura ao mandar para o inferno a biodiversidade da mãe Terra. Agora, cortam a língua de nossos jornalistas. Só nos restará Libras. O pobre, inocente útil e analfabeto… será bilíngue.

      1. Tem governo que parece pó de chão. E os 39 quilos de pó no avião da comitiva presidencial? E os 719 quilos de ouro roubados em Cumbica? A Federá presiza cubicá issaê, nenão? E as queimadas? Agosto já acabou! Sem desculpas. A Casa grande não sabe administrar com fogo, imagine com fogaréu. A Casa grande só sabe ganhar dinheiro, chamuscando a bunda da senzala. Brasil, “chama” a tua gente das classes C, D, E e a F/ G também. Miseráveis todos… dos 3 “pudê”. Fora Bozo, é estar por fora, ou fora de forma.
        Ordinário, marche! A caserna é igual água oceânica: sem forma, salgada e poluída. Não se pode confiar. Viu o tenente que pediu reforma? Manda no general. Hum, Bolsonaro se acha um Marechal. “Tipo assim” (credoemcruz) um comendador da caserna.

  2. Prezado Kotscho: “Os jornalistas achavam que agora estavam livres para publicar tudo, mas não foi bem assim.” Ou seja, seria mais ou menos mandar o seguinte recado: “não confundam liberdade de imprensa com liberdade de empresa, porque a empresa tem dono e é ele quem manda nas redações dos seus jornais”. Pode ser algo assim o que acontecia naquela época e hoje em dia está se repetindo?

  3. Bolsonaro endoidece qualquer um. Deveria ter nascido na Coreia do Norte. Noivaria bem com a caserna de lá. Gravidez provável. Louco se dá bem com seus pares. A missão seria acertar o passo. O castigo? Calibrar a língua. Imprensa não seria problema. Sim, problemas em penca: cada arminha… é um foguete. O melhor: nascido lá, lá “desgoverna”. Em se queimando a língua, desaparece amarrado num foguetinho.

  4. Que o diga Reinaldo Azevedo, que antes se gabava de ter 7 empregos e não baixar a cabeça para ninguém e hoje, virando o disco, só lhe resta um ou dois. Virou mais xiita do que quando combatia o petismo; agora que se aliou, caiu no ostracismo.

  5. As coisas estão de ponta cabeça no Brasil. Cada qual quer usar o remédio da melhor forma que lhe convém. Veja só o que está aprovado na famigerada Lei de Abuso de Autoridade:
    “obter provas por meios ilícitos ou usá-las contra alguém; ou divulgar gravações “sem relação com a prova que se pretenda produzir, expondo a intimidade” do investigado…. pena de cadeia…”-
    Partindo deste pressuposto, como fica a utilização por parte dos denunciados e condenados em crimes de corrupção, que agora querem justamente utilizar das provas que surgiram nas noticias divulgadas pela Intercept, que foram adquiridas exatamente por meios ilicitos?
    Vale ou não vale? ou… depende para quem…

  6. Kotscho, do teu post passo a pensar que o poder no Brasil, não tem nada a temer com críticas, más notícias e opiniões. De dar medo se nos colocarem como consumidores da mentira.
    Tomara pelo menos, que as pesquisas de opinião
    sejam mostradas ao Povão pautadas na verdade.
    É o que nos resta, além das ruas.

  7. Mas tem algo interessante, os jornais ou sites que tem sede em outros países, como EL Pais por exemplo ou DW brasil. Nesses encontra-se muitas críticas a Bolsonaro e ao governo atual

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