Jorge Araújo: 40 anos da pomba branca da anistia na praça da Sé

Jorge Araújo: 40 anos da pomba branca da anistia na praça da Sé

Não sei qual é o tempo de vida de uma pomba.

Mas essa da foto aí acima foi imortalizada, há exatos 40 anos, pelo fotógrafo Jorge Araújo, enquanto o Congresso Nacional votava a lei da Anistia.

Na noite de 21 de agosto de 1979, às 21h23, na praça da Sé, durante um comício em defesa da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, munido de uma câmera Nikon F-2, com objetiva 24 milímetros e filme Kodak 400, que seria revelado quatro vezes, o fotógrafo da Folha foi o único a ver e capturar, pousada sobre uma faixa da campanha, a pomba branca olhando para a multidão.

Foi no fotograma 23, ele lembra bem, “que eu construí o meu primeiro discurso em silêncio”.

A edição já estava fechada quando ele apareceu com a foto na redação.

Odon Pereira, então o secretário de redação, parou tudo para mudar a primeira página e abrir espaço para a “pomba da anistia”.

Três dias depois, nascia Filipe, o filho mais velho de Jorge Araújo, hoje também fotojornalista.

O que fica da vida de um jornalista são as histórias que temos para contar com textos ou imagens.

Jorge Araújo tem muitas pra lembrar, mas essa marcou para sempre sua vitoriosa e premiada carreira, porque foi o retrato de um divisor de águas entre a ditadura e a redemocratização do país.

Ao lado de outro veterano daquela época, o fotógrafo e editor Helio Campos Mello, revivemos aquele momento nesta quarta-feira, durante nosso almoço mensal na feijoada do Sujinho.

Jamais poderíamos imaginar, naquele dia, há 40 anos, que o Brasil viveria de novo uma guerra entre a civilização e a barbárie.

Hoje trabalhamos outra vez juntos fazendo reportagens para a Folha mas, em lugar da pomba branca, bandos de urubus sobrevoam a pátria amada, ameaçando nossa jovem democracia.

Uma das poucas vantagens de ficar velho nesta profissão é ter a memória das tragédias passadas para que elas não se repitam nunca mais.

Legenda:  Jorge Araújo à esquerda, Hélio Campos Mello e Ricardo Kotscho no restaurante Sujinho

Vida que segue.

 

14 thoughts on “Jorge Araújo: 40 anos da pomba branca da anistia na praça da Sé

  1. Vivi essa época para contar RK. Aliás, você
    passou um dia inteiro sentado no caminhão de som, na porta da agência central do Banco do Brasil, na memorável greve dos bancários em em 1986.

    1. Fernando, você me despertou grandes lembranças. Fui um ativo grevista em Campinas na greve dos bancários de 1986. Nunca fiz tantos amigos e conheci gente tão politizada como naqueles dias. Sofremos demais, afinal a pressão é grande, mas valeu a pena. Orgulho-me de ter estado lá. Naqueles dias minha primeira filha havia nascido. Briguei pelo futuro dela. Tomara que essa coragem de brigar pelos direitos volte aos jovens brasileiros.

  2. Comovente. Fotos que dispensam legendas. Três protagonistas de um sonho. A pomba da paz no resgate da História. Gratidão para com Hélio, Araújo e Kotscho. A pombinha bateu asas e alçou voo para longe do Brasil de Bolsonaro. Deixou aqui o ninho da liberdade nas mãos dignas de gente como Jorge Araújo, Hélio Campos Mello e Ricardo Kotscho.

  3. Prezado Kotscho: É verdade: “Jamais poderíamos imaginar, naquele dia, há 40 anos, que o Brasil viveria de novo uma guerra entre a civilização e a barbárie.” E para terminar com essa guerra, Impeachment Já! Fora Bolsonaro!

  4. Vida que segue. Vida do aqui e agora. Vida que não é chegada. Vida que é travessia. A pomba pousou para saborear o “futuro”, voando nas asas da esperança que a multidão construiu no passado. O voo suave proporciona encontros para compartilhar a vitória da paz. Iluminados… nesse momento se constrói o encanto, porque é nele que se vive.
    Como diz Albert Camus, escritor francês: “A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente”.

  5. “Foi no fotograma 23, ele lembra bem, ‘que eu construí o meu primeiro discurso em silêncio’.”
    Eita texto lindo! Dá gosto e faz dessa profissão uma coisa deliciosa

  6. A pomba simbolo marcante da tão desejada paz- Tantas vezes esquecida.A foto memorável do marco histórico na trajetória cheia de maus e bons momentos do Brasil.

  7. Localizei-me na foto. De braços cruzados com camisa enxadrezada. À época não havia reparado, nem havia qualquer preocupação com estar ou não na foto. A luta que interessava era aquela no dia a dia das fábricas, universidades e nos campos.
    Não se dispunha dos recursos de ampliação e massificação hoje disponíveis nas ferramentas da internet.
    Inacreditável que tenhamos visto aqueles tempos tenebrosos terem passado pelo funil da transição concertada democraticamente pelos Tancredos e Ulysses que se foram de vez.
    Audálio Dantas, Raymundo Faoro, Barbosa Lima Sobrinho e Dom Paulo Evaristo Arns foram os condutores que energizaram a sociedade civil e honraram à altura os sacrifícios imortalizados de Herzog e Fiel Filho.
    Olho, olho e olho até cansar as retinas, mas vinha vista não alcança nenhuma personalidade na Igreja, no Jornalismo e na OAB que, minimamente, se assemelhem àquelas estaturas hercúleas ancoradas na dignidade e no profissionalismo autêntico que dedicavam ao bem comum e aos direitos mais sagrados da pessoa humana.
    Dolorosamente trágico constatar que o país e a sociedade deram, de simultaneamente, um grande salto para trás.

    1. Bate na madeira em fogo. Hoje temos doriA, BolsonarO, maiA, aeciO, Huck, malafaiA, romariO, morO, daltan, Joice, oniX, bolsominionS e miseráveis 30 milhões de desempregados. E todos na foto do fim do mundo. Estás de parabéns.

      k
      k

      k

      1. Não sei porque estes k(s) saíram. Peço desculpas. Não domino em essa parafernália. Sou de geração que usava o lápis e a borracha, apanhando de rabo de tatu. Peço, novamente, desculpas. Camisa xadrez, usei muito. Com respeito.

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