Brasil volta às ruas: o papel dos repórteres na defesa da democracia

Brasil volta às ruas: o papel dos repórteres na defesa da democracia

Há várias semanas estão sendo organizadas manifestações de protesto contra o governo pelas 12 centrais sindicais unidas, a União Nacional dos Estudantes e centenas de outras entidades mobilizadas em todo o país.

Você viu alguma notícia sobre os atos programados para esta terça-feira, dia 13 de agosto de 2019?

O único registro que encontrei até agora foi uma nota no Painel da Folha, com o título “Bloco na rua”:

“Organizadores de novos protestos contra cortes na educação se animaram com o monitoramento de adesões aos atos marcados para esta terça (13). Além de professores e alunos, que estão deliberando o assunto em assembleias nos diretórios acadêmicos, artistas reforçaram a mobilização”.

Não são só os estudantes, professores e artistas.

A inédita união das centrais sindicais está mobilizando trabalhadores de todas as áreas, assim como os movimentos sociais e populares, que andavam sumidos das ruas.

É a sociedade civil organizada que está voltando a se manifestar, num momento de sufoco extremo, em que ninguém aguenta mais os desmandos desse governo demente e entreguista, comandado por um capitão desvairado, que agora deu para desfilar de motocicleta e jet-sky por Brasília.

Por onde andei neste final de semana _ não sei como ficaram sabendo dos protestos _ muita gente já se programava para ir à avenida Paulista, local da manifestação aqui em São Paulo, a partir das 16 horas.

Hoje cedo, o primeiro e-mail que abri foi o do premiado escritor Luiz Ruffato, comunicando a um grupo de amigos que estava desmarcando outros compromissos para ir à avenida, e os convidando a fazer o mesmo. Me deixou animado.

São pessoas de todas as tendências políticas, que já andavam desesperançadas, e agora voltam a se juntar para dar um basta ao avanço deste desgoverno cívico-militar contra a democracia.

É um clima muito semelhante ao do final de 1983, nos estertores da ditadura militar, quando líderes de diferentes partidos e de movimentos sociais começaram a discutir formas de mobilização pela redemocratização do país, com a volta de eleições diretas para a Presidência da República.

Repórter de geral, como se dizia na época, eu tive a oportunidade de acompanhar, desde o início, a formação embrionária de um movimento popular que, no dia 25 de janeiro de 1984, inundaria de gente a praça da Sé, sob chuva, com faixas e cartazes, gritando “Diretas Já!”

Conto a história completa no livro “Explode um Novo Brasil” (Editora Brasiliense).

Era o dia do aniversário da cidade, e muitos colegas se surpreenderam ao ver aquela multidão de mais de 400 mil pessoas, reunida pela primeira vez desde o golpe dentro do golpe do AI-5 de 1968, que mergulhou o país na fase mais cruel da ditadura.

Não existiam ainda as redes sociais e a imprensa da época tentou esconder até o último momento a mobilização que crescia silenciosa nas periferias da cidade e do poder (a TV Globo registrou a grande festa democrática da praça da Sé como um evento do aniversário da cidade).

A cobertura política se limitava aos gabinetes nada arejados de Brasília. Poucos se arriscavam a sujar os sapatos para ir, como cantava Milton Nascimento, onde o povo está.

Achavam, até no jornal onde trabalhava, que eu estava maluco por acreditar que aquele primeiro comício da praça da Sé logo se reproduziria em outras capitais, com concentrações cada vez maiores, até o ponto em que a chamada grande imprensa não poderia mais ignorar o que estava mudando no Brasil.

Quem acreditou desde o primeiro momento nesta grande aventura, como dizia o velho Ulysses Guimarães, foi o dono da Folha, onde eu trabalhava, o visionário Octavio Frias de Oliveira.

O jornal abriu suas páginas para cobrir o dia a dia do movimento em todo o país, informando os preparativos, locais e horários das manifestações, e deslocando repórteres para cobrir todos os comícios.

Além dos partidos de oposição, estavam à frente do movimento a Ordem dos Advogados do Brasil(OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), além da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Não por acaso estas siglas da sociedade civil se uniram novamente para lançar nesta quinta-feira, dia 15, na sede da OAB, em Brasília, a Comissão Arns Contra a Violência, movimento criado em março por várias igrejas e entidades de defesa dos Direitos Humanos.

O nome da comissão foi dado em homenagem a D. Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo na época das Diretas Já, que teve importante papel nas articulações para mobilizar a sociedade e foi o responsável pela edição do livro “Brasil Nunca Mais” sobre as torturas de perseguidos políticos durante o regime militar, do qual participei, junto com Frei Betto e outros jornalistas e advogados.

Por pior que seja a situação, as coisas podem mudar de uma hora para outra, se cada um de nós cumprir seu papel de cidadão, sem ficar esperando um milagre caído do céu.

Nós, repórteres, precisamos estar sempre atentos a essas mudanças e, para isso, precisamos ir aos lugares onde a vida real pulsa, independentemente do governo.

Confesso que não esperava viver tudo isso de novo, a esta altura do campeonato da vida, mas tem hora em que não há outra escolha.

É lutar, resistir, juntar forças, fazer reportagens e renovar esperanças.

Vida que segue.

 

14 thoughts on “Brasil volta às ruas: o papel dos repórteres na defesa da democracia

  1. No dia seguinte da sua condenação em 1ª instância, Lula foi entrevistado por Kfouri, Trajano, Naka e Bob Fernandes. Naquela oportunidade ele se disse confiante na justiça. Ora, àquela altura e bem antes já se tinham como certa a condenação como peça da tomada de poder dessa gentinha que está aí. Como Lula e seu entourge não perceberam o óbvio?

    1. O Luiz Inácio é republicano, até o último fio de seus cabelos . Republicano ingênuo. Ele acredita nas pessoas, nas instituições, nas leis, nos códigos penais, nos tribunais “superiores” em sua maioria ornados de juízes “inferiores”, na IMPRENSA, nesta IMPRENSA brasileira, preguiçosa e vagabunda, pois foi preciso um jornalista gringo vir aqui e mostrar como se faz jornalismo de verdade. Isso que o Intercept está fazendo deveria estar sendo feito por TODA a imprensa brasileira. Que vexame!! Que vergonha, jornalistas brasileiros!!
      Já escrevi isso aqui, alhures e algures: “Lula, quando sair da prisão – se é que um dia sairá – continue sendo republicano, mas com um porrete na mão”.
      Aí eu o respeitarei. Antes disso, não.

      1. Caro amigo Celso Junqueira, desista, pois Lula usa porretes apenas em situações específicas e essa não é uma delas…Aguarde que você verá Lula e Michel Temer juntos em alguma eleição futura.

  2. Faltam um Plínio Marcos e um Gianfrancesco Guarnieri para reviver a magnífica dramaturgia de ” Quando as máquinas param” dos anos 60 e de ” Eles não usam Black Tie” dos anos 70. Plinio Marcos como ” repórter de um tempo maldito” e Guarnieri como um ” cronista da luta social”.
    O mapa da dramaturgia atual é um sintoma de que não existem dramaturgos hoje fazendo outra coisa que não seja entretenimento ou besteirol.
    Ainda há que piorar muito para tirar da letargia depressiva a força social e política necessária capaz de remover o bloco de poder que se apossou do aparelho de Estado e dos centros de decisão.
    As FFAA permanecem sendo o fiel da balança e continuam 100% em total apoio e sintonia fina com o capitão que Ernesto Geisel, general 4 estrelas, julgava ser um ” mau militar”.

    1. Sem dúvida, Karla tocou um ponto exposto que ninguém houvera percebido: a dramaturgia brasileira recente parece ter esquecido a importância de se fazer presente nos “tempos malditos” e na “luta social”.
      À falta dos dramaturgos, no entanto, há uma tênue linha de resistência, tão-somente observada em alguns jornalistas, que sabem interpretar a realidade concreta, digamos, com algum êxito.
      É o caso de Mino Carta, cuja Carta Capital segue aos trancos e barrancos, como diria Darcy Ribeiro.
      Na linha do que Karla constata e Kotscho suscita, ora recorto e colo, do editorial de Mino Carta. datado de hoje, dia 12/06, coincidentemente.
      Infelizmente, até agora, o povo e a sociedade têm engolido bovinamente as estupidezes, velhacarias, vulgaridades, indecências, irracionalidades, crueldades e injúrias, em pleno silêncio, sem fazerem ouvir sua rejeição, intolerância e intransigência com a legião de imbecis que tomou conta “do aparelho do Estado e dos centros de decisão”, para fazer uso da precisa identificação dos pontos nevrálgicos e das alavancas de poder e mando.
      Senão vejamos:
      ” ….nas nossas penosas circunstâncias faltam as lideranças de outros tempos, sobram a covardia de um empresariado seduzido pelo rentismo e pronto à genuflexão diante do vociferante ex-capitão e da sandice irremediável, salvo mais esperançoso juízo, de um pretenso governo sem rumo entregue à demência.
      As razões desta decadência parecem claras, embora nos empurrem até a conclusão inescapável, resumo da ópera terrificante: somos o que registra o nosso DNA e exala malignidade das entranhas da terra, contra a vontade da natureza, a nos credenciar a um destino bem diferente. Somos velhacos e primitivos, na própria ignorância, próxima do oblívio, reservada à senzala, naufraga a casa-grande que cuidadosamente a programou…”.

  3. Prezado Ricardo,
    amanhã dia 13/08, estarei por livre e espontânea vontade faltando ao trabalho (Embrapa) e participando junto com minha filha, minha companheira desta manifestação em prol de todos nós. Defendendo o nosso trabalho de resistência não só em prol da educação, em defesa da previdência mas também a pesquisa agropecuária. A musa do veneno e o louco tb. estão destruindo nossa Empresa, que temos muito orgulho de fazer parte e contribuir efetivamente para o desenvolvimento da agricultura brasileira.
    Forte abraço

  4. Prezado Kotscho: Já “que ninguém aguenta mais os desmandos desse governo demente e entreguista”, como você bem lembrou, estou convencido que os 57 milhões de nossos compatriotas, responsáveis por elegerem o anticristo jabuticaba para presidente, vinham há algum tempo praticando essa ordem dada pelo capitão do exército de ir um dia sim e outro dia não ao banheiro. Acho que só isso justifica o fato de terem colocado um cocô no poder supremo do país porque, convenhamos, não é nada saudável essa prática alternada de se fazer as necessidades básicas de um ser humano, certo? Todos para as ruas nas manifestações desta terça-feira, 13 de agosto de 2019. A luta continua!

  5. Admiro aos que resistem, principalmente os jovens que tem tempo e disposição, pois dediquei as duas coisas por muitas vezes e…cansei.
    Não fui à rua em 2013 por enxergar um movimento meio que esquizofrênico e logo sequestrado pela direita e por vários anencéfalos que nem sabiam o que faziam ali, logo também aderindo às piores pautas teleguiadas pela imprensa suja que domina os pensamentos de grande parte da população.
    Como resistência, fui em vários “não vai ter golpe”. Teve. Fui em vários “fora Temer”. Temer governou até o fim. Fui em vários “ele não”. Ele sim. Fui no “Lula livre”. Lula tá lá no xadrez. Recentemente fui no 15M e 14J. Os cortes continuaram e as federais estão a ponto de fechar. Tanto se fala que é preciso a população nas ruas.
    E aí?

  6. Um texto que deve pautar os debates do STF no caso mais emblemático da Lava Jato.
    Sem dúvida, também, deverá pautar o julgamento do procurador curitibano no CNMP.
    Creio ter sido a melhor síntese combinando os vazamentos do The Intercept, o “modus operandi” da Lava Jato e o “imbroglio” do Judiciário como um todo. O que não implica concordância com todo o seu conteúdo.
    Segue o link gaúcho:
    https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/lava-jato-queria-usar-lula-como-trof%C3%A9u-1.357082

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