Lembranças boas e amargas de um tempo em que nós nos unimos contra a ditadura

Lembranças boas e amargas de um tempo em que nós nos unimos contra a ditadura

Convidado para fazer uma palestra no Auditório Vladimir Herzog na noite de terça-feira, viajei pelo tempo, misturando sentimentos e lembranças, boas e amargas.

E saí de lá mais animado para enfrentar o que vem pela frente.

Assim que cheguei, Paulo Zocchi, o grandão que é o atual presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, logo me entregou uma pasta, sem dizer o que era.

“Parabéns! Dá uma olhada aí!”

Era meu histórico de vida sindical, desde que pedi filiação, em 1969. Por uma feliz coincidência, como o Paulo me lembrou, estou completando 50 anos de sindicato, o que hoje em dia não é uma coisa muito comum.

Tínhamos acabado de entrar no Ato Institucional nº 5, o golpe dentro do golpe, que marcou os tempos mais tenebrosos da ditadura militar para os jornalistas.

Colegas eram presos ou simplesmente desapareciam. A censura prévia foi implantada nas redações.

Era proibido criticar o governo, falar mal de amigos do governo, contar o que estava acontecendo no país.

Trabalhar como repórter era correr risco de vida, ou de morte, como se diz agora.

Quando olhei para a platéia, vi rostos cansados, desesperançados, de jovens e de velhos como eu.

Nem sabia o que lhes dizer. Fui contando minha experiência como secretário de Imprensa do governo Lula no período 2003-2004, o tema que me deram para a palestra.

Nem estava falando coisas tão importantes que justificasse o silêncio do auditório, vigiado por uma grande foto de Vladimir Herzog, o Vlado, que foi preso, torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI.

Até tentei contar algumas coisas engraçadas para quebrar o silêncio que me incomodava, mas os colegas continuavam olhando para mim com cara séria, até respeitosa demais.

O gelo só foi quebrado quando começou o debate e passamos a tratar da tragédia que vivemos hoje, comparando-a com aquela de 1975, o ano da morte de Vlado e da transformação do sindicato num reduto da resistência da sociedade civil, graças à liderança firme e valente de Audálio Dantas, o nosso líder.

A partir do grande ato ecumênico na Catedral da Sé, cercada por tropas da PM e agentes militares à paisana, fomos à luta.

D. Paulo Evaristo Arns, o arcebispo paulistano da época, pegando nos braços de Audálio, nos encorajou a não recuar e a denunciar a farsa do “suicídio de Valdo”, que os militares queriam vender à opinião pública.

Mas como denunciar o crime, se os jornais estavam sob censura?

Como repórter do Estadão, não saí mais do sindicato, e fazia matérias todo dia, que os algozes da censura cortavam, mas sempre passava alguma coisa.

É terrível pensar que agora corremos o grande risco de viver tudo isso de novo, desgovernados por um capitão alucinado, que tem ódio dos jornalistas, dos artistas e dos intelectuais, e de tudo que diga respeito à cultura e à ciência.

Para não terminar o debate em clima de baixo astral, procurei animar os estudantes e jornalistas que ali estavam, mostrando que é hora de nos unirmos de novo, em torno das entidades da sociedade civil, como fizemos 44 anos atrás, quando eu era um jovem repórter que tinha medo de sentir medo.

Foi só assim que conseguirmos reconquistar a democracia e espantar a ditadura militar, da qual o capitão sente tanta saudade e quer reimplantar no país, agora com outros métodos, sem tropas na rua, mas disseminando o pavor na sociedade, sob o silêncio do Judiciário e do Congresso.

Não temos ainda jornalistas presos nem deputados cassados, mas a autocensura volta a rondar as redações dos jornalistas ainda empregados que temem ser demitidos.

Mas os primeiros sinais da volta do arbítrio são preocupantes.

A polícia do governador João Doria, em São Paulo, até outro dia fiel aliado do bolsonarismo, já invadiu uma reunião de mulheres do PSOL e domingo passado algemou e prendeu um torcedor corintiano que xingava o capitão na arquibancada, sem ninguém reagir.

É assim que começa e, se nada for feito, eles vão avançar sobre os direitos civis, a liberdade de reunião e de expressão, e tudo o que só a democracia nos garante.

As lembranças amargas do passado reacenderam em mim a vontade de começar tudo de novo e foi isso que procurei transmitir aos colegas: esperança.

Não podemos mais ficar parados, de boca aberta, esperando a morte chegar, como na canção de Raul Seixas.

Duas grandes manifestações de resistência já estão marcadas para os próximos dias.

No dia 13, terça-feira, juntando as 12 centrais sindicais com os estudantes da UNE, que volta às ruas com atos marcados em todo o país contra a reforma da Previdência, que já foi aprovada na Câmara, e a destruição da educação brasileira e dos direitos trabalhistas.

Dois dias depois em Brasília, na sede da OAB em Brasília, com a participação da CNBB e da ABI e dezenas de outras entidades da sociedade civil, será lançada a campanha da Comissão Arns contra a Violência.

O Brasil resiste, se mobiliza, está se unindo de novo, ficando de pé, agora para defender a democracia ameaçada _ para que não tenhamos outros Vlados mortos na tortura.

S.O.S Democracia!

Vida que segue.

 

11 thoughts on “Lembranças boas e amargas de um tempo em que nós nos unimos contra a ditadura

  1. “Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”.
    Sai ano, entra ano e a Carta-Testamento continua viva, impávida, um colosso insuperável.
    Dia 24 próximo todos os ouvidos estarão surdos ao eco do tiro que atingiu, não o coração do gaúcho de São Borja, mas da construção econômica, social, política e institucional.
    Hoje, mais do nunca na história deste país, a Carta- Testamento deveria ser elevada ao verdadeiro Hino Nacional.
    Lamentavelmente, nunca foi celebrada como deveria tê-lo sido e nem reafirmada como imperativo categórico da nação, que um dia conseguiu escapulir do agro-pacto do café com leite das elites latifundiárias da República Velha e fundar as bases técnicas da industrialização nacional e das relações trabalhistas garantidas em contrato de trabalho formal, então lançando o país no cenário das dez maiores economias estruturadas do mundo, ora em desconstrução acelerada e degeneração progressiva.

    1. B sabe escrever?
      “Recitou” no JN, a declaração de RM apoiando a estupidez de 64.
      Deveria recitar em agosto, a Carta-Testamento e pagar pra publicar o vídeo na imprensa.
      Impossível? É só delatar no plantão de rota “suicidável”, que o autor da histórica e aludidas “bem traçadas” é o “Dotô Moro Conge. ”
      Reconheço minha maldade, B sabe falar e escrever o vocábulo “porra”. Que zerda, plagiando não sei quem.

  2. Kotscho,
    Foi uma excelente noite!
    Adorei tudo o que ouvi. Aprendi. Compartilhei.
    Gratidão pelo tempo e pelas palavras. Estas, proferidas de um homem experiente, humano.
    Fraterno abraço,
    Aurora Seles
    Jornalista – SP

  3. Prezado Kotscho: Vamos com força participar das “Duas grandes manifestações de resistência já estão marcadas para os próximos dias.” E por falar em resistência, um amigo corinthiano me enviou esse vídeo que acho interessante ser visto para quem também não é corinthiano. Lá vai a direção: https://youtu.be/F5thnm09jhk

  4. A revolução de 64 deixou muitas feridas abertas, de ambos os lados, que até hoje ainda sangram.
    De um lado, muitos militantes – jovens ainda – perderam a vida diante de um regime de militar feroz, que defendeu seu governo. De outro, muitos civis que também perderam a vida em função dos atos extremados dos militantes e que muito pouco se fala. Não saberia dizer, se neste caso, os fins justificariam os meios adotados, para que se trocasse a ditadura de mãos.
    Erra o presidente Bolsonaro quando insiste em reabrir uma discussão que não leva nada de positivo; muito pelo contrário, só acirra os ânimos, dividindo os brasileiros que são todos irmãos na pátria amada. Passou da hora dos ministros e auxiliares que cercam o Presidente, dar um cala boca nele.

  5. Não se conta a História do povo brasileiro sem antes dedicar capítulos à fonte cristalina e democrática. Sim, impossível superar a relevância do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Ricardo Kotscho e colegas no meio. Um povo que não respeita e valoriza sua Imprensa, não conhece a sua própria história. A pena independente do repórter é o sustentáculo de uma Nação que deseja continuar criando o futuro.

  6. Semana passada a postagem de Kotscho foi sobre a “guinada ditatorial” (um eufemismo porque não se poderia guinar mais, exceto com um golpe convocando as FFAA com base no artigo 142 da CF, o que não se faz necessário porque os 3 poderes tornaram-se genuflexos ao “Presidemente”),
    Comentei que apenas faltaria um Busto na Praça dos 3 Poderes para Ustra com a placa comemorativa da Tortura Sempre inaugurada ao som do hino nacional e uma reza brava apocalíptica terrivelmente mobilizadora das matilhas da canzoada.
    Não foi preciso esperar muito, porque o Busto já foi simbolicamente produzido com o convite e a recepção oficial da viúva do torturustra no Planalto com agenda institucional registrada nos anais. Sabe-se que, no mesmo dia, até onde é possível confiar nas publicações atualmente, o ministro da justiça não recebeu a viúva de Marielle Franco.
    Diz o presidemente>
    “”Ela conta uma história bem diferente daquela que a esquerda contou pra vocês. Tem um coração enorme. Eu sou apaixonado por ela. Foi… Não tive muito contato, mas tive alguns contatos com o marido dela, enquanto estava vivo. Um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda, hoje em dia, quer.”.
    Sempre pode piorar.
    E quando pode piorar, aí é que piora mesmo.

  7. Prezado Kotscho. Te acompanho há dezenas de anos. Apesar de ver cansaço em você. Quem não fica cansado com este lixo nauseabundo com o qual temos que conviver? O que me intriga muito, é ver muita gente se dizendo indignada com este desgoverno, mas as autoridades que poderiam fazer a diferença se escondem cada vez mais. Saudade da guilhotina.

    1. De acordo. Kotscho dá dando sinais de cansaço. Como diria o Lula: ‘Acorda, companheiro!’ Se espelha em seu ex-chefe, dando.show de energia e determinação lá da masmorra de Curitiba.

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