Um goulash para espantar o frio, os amigos em volta: a vida pode ser boa

Um goulash para espantar o frio, os amigos em volta: a vida pode ser boa

Domingo, 7 de julho de 2019.

Faz já um bom tempo que eu não me sentia tão feliz.

Reunir mais de 50 amigos do peito num sabadão gelado, em torno de um prato de comida e bom vinho, não é muito fácil nem tão comum hoje em dia.

Não era aniversário de ninguém, não havia motivo de festa, nem era boca livre: cada um pagou sua conta, e ninguém reclamou.

A ideia foi do nosso mestre de cerimônias Beto Ranieri, dono da taberna do mesmo nome.

Com o inverno chegando, ele me convocou semanas atrás para preparar um goulash (cozidão de origem húngara, com músculo, pimentão, tomate, cebola e muita páprica), que aprendi a fazer com minha mãe alemã, a dona Beth.

Comi muito este prato em cumbucas fumegantes, servidas com um pedaço de pão nos carrinhos das ruas de Bonn, antiga capital alemã, quando trabalhei lá nos anos 70 como correspondente do Jornal do Brasil.

Tarde da noite, quando terminava de mandar minha matéria para o Brasil, era a salvação da lavoura: farto, robusto e barato, o goulash quebrava o gelo e aquecia a alma.

Por uma feliz coincidência, o almoço foi marcado para o dia mais frio do ano, e o pessoal veio chegando com muita fome.

Na pequena casa de eventos do amigo Pernet, já estava tudo pronto: dois caldeirões de goulash borbulhante, travessas de spätzle (um pequeno e delicado nhoque), pão caseiro e salada verde.

A jovem brigada do chef Guilherme cuidou de tudo, seguiu à risca a receita familiar que lhe passei, e só me coube dar uns poucos palpites no acerto dos temperos e do molho espesso.

Estava tudo tão bom que nem sobrou espaço para discussões políticas, comuns entre pessoas de origens e ocupações tão diferentes, cada um com seus problemas.

Com crianças pequenas circulando pelo salão, os comensais rindo e falando alto, pedindo mais uma garrafa de vinho ou de cerveja, mais parecia festa de família numa cantina italiana.

Entre eles, havia até um grande médico, mas não foi preciso recorrer aos seus préstimos.

Apesar da fartança de comes e bebes, para minha felicidade, ninguém passou mal.

Já com a tarde caindo, as conversas continuavam animadas, Pernet e Beto circulando felizes de mesa em mesa, já pensando no próximo encontro da confraria.

Nem parecia que a gente estava no Brasil. Ali todos só queriam celebrar a amizade.

A vida também pode ser boa.

Vida que segue.

 

18 thoughts on “Um goulash para espantar o frio, os amigos em volta: a vida pode ser boa

  1. Paz, saúde e longa vida aos súditos desse reino invejável. A leitura faz esquecer as amargas necessidades do cotidiano. Confraternizar é preciso! Receita infalível.

  2. Prezado Kotscho: Que ótimo que “Estava tudo tão bom que nem sobrou espaço para discussões políticas” no seu almoço com os amigos, porque a coisa não tá fácil não de digerir. Ontem em casa, para não engasgar com a boia na hora do jogo da seleção, passei para um canal que estava falando sobre a origem do universo, porque a televisão chapa branca estava mostrando o ex-capitão e o ex-juiz nos camarotes do Maracanã. Só faltou colocar de fundo a música “Eu Te Amo, Meu Brasil”, da dupla Dom & Ravel, que deve ser a preferida desses patriotas de plantão. Diretas Já!

  3. Que legal, caro Kotscho.
    Nesse tempo de país virado às avessas, em que a democracia está seriamente abalada, a injustiça política estabeleceu-se desde que o estado de direito foi estuprado pelo golpe, realmente é muito bom poder celebrar a amizade.
    Relato muito gostoso de se ler.

  4. Uma aventura doce e picante à bordo de goulash e a gosto da amizade. Viagem por um mundo sem fronteiras e concorrida cumplicidade… esbanjando energia própria para energizar o amigo com um olhar de simpatia e amor. Cardápio refinado, tal qual edificante caminhada pelas veredas de Compostela, Jerusalém, Machu Picchu, Lourdes, Meca, Cataratas do Iguaçu, rio Bonito, entre outros santificados roteiros.

  5. Mestre, fez me lembrar que o húngaro Goulash, a brasileira Feijoada, a portuguesa Caldeirada e a espanhola Paella, entre outros, são típicos pratos campeões da chamada ‘culinária socialista’, aquela que não permite ser degustada só ou em poucos, para atingir-se o êxtase do bem viver a vida.
    Basta o pronunciar desses suculentos nomes para logo vir água à boca e sentir-se a excelência da sensação de muita gente junta celebrando, afinal, conforme Tom e Vinicius, “a gente leva da vida, a vida que a gente leva” e que, “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.
    Por fim, chama atenção nesse Goulash da ‘dona Beth’, a fartura do ingrediente principal, cinquenta amigos, e traz à lembrança, a gula ser um dos sete pecados capitais. Bem que Francisco, poderia ao menos passa-la a ‘provinciais’, pesando assim menos, não em nossos estômagos, em nossas contritas consciências.

  6. Me deu uma vontade danada de comer esta peste deste goulash…peguei ali esta receita…confere ???
    INGREDIENTES
    1 kg de alcatra
    1 colher de sopa de manteiga
    1 cebola picada
    1 colher de sopa de farinha de trigo
    4 xícaras de chá de água
    Sal a gosto
    1 colher de chá páprica picante
    1/2 kg de batatas picadas em cubos
    3 cenouras picadas em rodelas ( opcional )
    200 g de vagem ( opcional )

    MODO DE PREPARO
    Corte a carne em cubos de 2 cm, deixe fritar na manteiga (no fogo alto), acrescente a cebola e dê uma douradinha. Coloque a farinha de trigo aos poucos mexendo bem.
    Junte água quente, ferva por 10 minutos, tempere com sal e páprica, tampe a panela e deixe cozinhar até amaciar a carne.
    Antes de servir junte as batatas, vagem e cenoura e deixe cozinhar por cerca de 20 min em fogo médio/baixo.

  7. QUANTA INVEJA…
    MESMO, AQUIM, EM FORTALEZA, CERCADO DE PRAIA, NÃO APARECE UM MESTRE DE CERIMÔNIA CULINÁRIA PARA ORGANIZAR UM EVENTO DESSE, CERCANDO UMA CHEIROSA, GOSTOSA PEIXADA E UM PANELÃO DE CARANGUEJOS.
    REUNIÕES ECUMÊNICAS COMO ESSA, EM FORTALEZA NÃO ACONTECE.
    APENAS AOS TRISTES DOMINGOS, NAS TRISTES PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO DOS SHOPPINGS AS COMIDAS SEM GOSTO, REÚNEM-SE IDOSOS, PAIS E MÃES EMPURRANDO CARINHOS COM CRIANÇAS QUE PERGUNTAM INCONSCIENTEMENTE, A SI MESMO:” O QUE ESTOU FAZENDO AQUI” ? SALVA-SE DE LEVE, UMA LIVRARIA COM OS NOVOS LANÇAMENTOS, COM PREÇOS IGUAIS A CAMINHÕES DE BANANAS PRATA.
    FELIZMENTE, O TEMPO É RÁPIDO E NÃO ESPERA POR NINGUÉM. SONHO QUE DE UMA HORA PRA OUTRA, SURJA UM GRANDE FATO NOVO NO PAÍS E TODAS AS CULINÁRIAS BRASILEIRAS SE ESBALDEM EM SUAS RAÍZES, COMEMORANDO O QUE NINGUÉM ACREDITE O DESTINO COMANDE AGORA,
    Repórter Gervásio de Paula.

  8. Enfim, um pouco de paz e fraternidade nesses tempos de intrigas palacianas e política de bordel. Bom ler sua crônica sobre boas comidas e amigos legais. Abraço, Vera Queiroz (nada a ver com o laranjal do Jair)

  9. Moro caiu! Licença não remunerada por 6 dias? Me engana que eu gosto. O estrago tá feito. O mundo do dia e da noite tinha razão. Depois da “licença”, com que fucinho voltará. O rato jogou-se na ratoeira. Ainda falta muita Justiça! Aha uhu rima com Moro e Coritiba, o novo nome da capital paranaense. O ar tá mais oxigenado. Aha uhu!

  10. As vaias se envergonharam de seu ministrim da Justissim. Moro afastado. Agora vão inventar um câncer de próstata.
    Coitado, isso não, mas que é um covarde que se vendeu com produto falsificado, ah isso é a pura verdade. O super herói inflável não resistiu aos ventos do Maracanã. Último suspiro. Acho que ele já sabia e nem viu o jogo do Brasil. A cadeia te espera, malandrinho. Receberás apenas a visita do “conge”! O Faustão sumiu,
    kkkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *