Domingo sem lei: lavajatismo de Moro cevou o boçalnarismo e deu voz aos neofascistas

Domingo sem lei: lavajatismo de Moro cevou o boçalnarismo e deu voz aos neofascistas

Para prender um homem, destruíram um país, poderão escrever os historiadores do futuro sobre estes tempos tenebrosos.

Rasgaram a Constituição no embalo do lavajatismo de Sergio Moro, que cevou o boçalnarismo, e deu voz aos neofascistas broncos, cada vez mais ousados, como se fossem os donos do mundo.

Num país de 208 milhões de habitantes, um bando de crentes da seita morolista saiu às ruas no domingo para assustar o resto do país, como se fossem os donos do mundo.

Com faixas, bonecos e gritos histéricos, enrolados em bandeiras nacionais, saíram em defesa do ex-juiz, pedindo o fechamento do Congresso e do STF.

“Eu vejo, eu ouço”, escreveu Moro no Twitter, aderindo ao discurso messiânico dos seus seguidores.

Se Bolsonaro bobear, seu ministro da Justiça vai acabar tomando o lugar dele como líder da extrema direita cabocla.

Embora tenham diminuído de tamanho, os fanáticos cresceram em estupidez e nas ameaças às instituições.

A começar pelo enlouquecido general Augusto Heleno, apresentado como tutor de Bolsonaro, que vociferou em Brasília, empoleirado num carro de som:

“O ministro Moro (…) está sendo colocado na parede para tirarem da cadeia um bando de canalhas que afundaram o país. Acho que é uma calhordice quererem colocar o ministro Sergio Moro na situação de julgado ao invés de ser juiz. Estão querendo inverter os papéis e transformar um herói nacional num acusado.

Com aqueles óculos escuros dos generais folclóricos dos anos 50 do século passado e camiseta verde-amarela, Heleno chamou os adversários políticos de “esquerdopatas, derrotistas e calhordas”, ao lado de Eduardo Bolsonaro, o filho presidencial para quem basta um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal.

Desse jeito, logo o capitão vai ter que tomar conta do general-tutor.

Para quem acompanhou pela televisão, com imagens de longe, não deu para ter ideia do que se falou durante o protesto a favor, pois os repórteres tinham que seguir sempre o mesmo script, repetido o dia inteiro: manifestantes dão apoio a Sergio Moro, ao pacote anticrime e à reforma da previdência.

No asfalto, a conversa era outra, bem mais beligerante, como se pode constatar nas frases que recolhi ao acaso no noticiário da Folha:

  • “Esquerda escrota, pare de atrapalhar!¨’ (cartaz na avenida Paulista).
  • “General Mourão, faça a intervenção. Fim do congresso e do STF” (idem).
  • “Eu estou vendo que o povo está bravo! O povo quer que o Congresso Nacional acorde!” (orador no carro de som do Vem pra Rua). .
  • “Rodrigo Maia, presta atenção, nós queremos a reforma de 1 trilhão” (idem, como se essa bolada fosse destinada aos aposentados).
  • “Todo mundo aqui tem que pressionar os deputados pela reforma. É para fazer bullying digital, sim” ( orador no caminhão do movimento Nas Ruas).
  • “A imprensa comprou a versão da Intercept. Perdeu o norte, transformou jornalismo em militância” (Irineu Ramos, que se apresentou como jornalista e segurava um cartaz onde estava escrito “Imprensa Inimiga do Brasil”).
  • “Esses diálogos são falsos na sua origem. Quem está divulgando são canalhas que querem atemorizar os juízes, os promotores, os que querem acabar com essa rede de corrupção” (jurista Modesto Carvalhosa no carro de Som do Vem pra Rua).
  • “Como pode um preso em Curitiba ser tratado como um pop star?” (Luciano Hang, dono das lojas Havan, o mais feroz defensor de Bolsonaro).

Além de Carvalhosa e Hang, havia poucas celebridades da direita na avenida Paulista: a atriz Regina Duarte, o cantor Latino e o apresentador Otávio Mesquita, o que dá uma ideia do perfil dos apoiadores do ex-juiz, entronizado pelo general Heleno como herói nacional.

O casamento tóxico do lavajatismo com o boçalnarismo, celebrado nas manifestações pelo impeachment de 2016, gerou esta exótica paisagem humana, que deixou 43 milhões de trabalhadores sem renda e a indústria pesada nacional quebrada.

“A escadinha disso tudo foi terrível: Moro ajudou a derrubar a esquerda, sua esposa fez propaganda para Bolsonaro e ele agora assume um cargo político. Não podemos olhar isso e achar natural”, escreveu a procuradora Monique Chequer nos diálogos agora divulgados pelo site The Intercept.

De fato, nada disso é natural, normal ou legal, mas para Moro e seu sócio Dallagnol o que importa é o resultado: Lula preso e Bolsonaro no governo.

Tudo isso poderia não ter acontecido se, desde o início da Operação Lava Jato, em 2014, a imprensa tivesse cumprido seu papel republicano.

Sob o título “Lava-jornalismo”, o editorial desta semana da Agência Pública, da qual sou conselheiro, resume o que aconteceu:

“Um dos maiores erros do jornalismo, sem entrar no mérito dos interesses políticos, está na origem da cobertura: a adesão incondicional, abdicando de sua função investigativa, crítica, questionadora e reflexiva sobre a precária narrativa que a força-tarefa passou a ditar a partir da delação do então diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto da Costa”.

Do delator Costa, há tempos já em liberdade, não se teve mais notícias, mas os estragos feitos no sistema político e na economia do país ainda deixarão sequelas por muitas décadas.

O pior de tudo, certamente, foi o surgimento desta furiosa seita fundamentalista que saiu do armário e veio para ficar, dando uma banana para os fatos, a democracia, a civilidade, o Estado de Direito e a Constituição.

Vida que segue.

 

17 thoughts on “Domingo sem lei: lavajatismo de Moro cevou o boçalnarismo e deu voz aos neofascistas

  1. Fazia tempo que eu não via aqui. Entre ver o que acontece e o que é ruim, o que é ruim é retratado todo dia por aqui.
    O Brasil junto com a Argentina conseguem fechar um acordo histórico e a população vai às ruas pacificamente defender o que acha que é o certo, direto que qualquer um tem, e tudo isso é coisa de broncos e facistas.
    É uma pena, mas cada um escreve o que quer.
    A todo instante têm um assassinato, mas também tem um bombeiro salvando uma vida. Podemos escolher o que retratar.

  2. Os sinais de que uma onda extremista empinara a crista, na direita extremada do arco político, e encorpava a plataforma de lançamento de seu arsenal ideológico apenas visto em 1964, haviam ficado nítidos há pelo menos 2 anos. Tempo suficiente para permitir a análise rigorosa e profunda do quadro institucional e da conjuntura social que levavam Dilma ao corner do ringue, de onde suas chances de cair grogue estavam explícitas pela completa falta de capacidade da ‘gerente’ de lidar com as forças descomunais que despertara contra si. Os opositores desprezaran tais sinais sem saber interpretá-los. A soberba lulo-petista cegara o núcleo duro do partido para o risco elevado de colapso eleitoral e encarceramento definitivo de sua cúpula dirigente. Agora vemos que há uma tática explícita de cercar o Judiciário para fazer valer a vontade castrense, sobre a qual repousa a tranquilidade presidencial de fazer o que se lhe dá na telha, porque inaugurou um novo tipo de presidencialismo: o “presidencialismo de coerçao”!
    Cada vez mais o “poder militar” aproveita qualquer oportunidade para lançar seus ‘sinais de fumaça’. O dito popular é bem conhecido: “onde tem fumaça, tem fogo”.

  3. Kotscho, bem lembrado, o fascismo bolsonarista criou varias seitas, temos os moristas, os olavistas, os intervencionistas, os idiotas, os imbecis, os ignorantes, os monarquistas, os terraplanistas, os crentes enganados, os milicianos, e por ultimo os traficantes mulas.

  4. Kotscho, acho que seria mais correto se referir as palavras “atribuídas” à procuradora, que negou tê-las dito e demonstrou que sequer estava nos lugares em que a colocaram os militantes do Intercept. Foi agora, neste final de semana, quando ficou comprovado que, além de não mostrarem nada de irregular e serem retirados de contexto, os textos publicados são manipulados, inclusive com trocas de nomes.

    Essa comprovação terminou de esvaziar as manifestações a favor do Moro, cujo apoio é enorme (79% do pessoal com nível superior, segundo pesquisa). Se já não era realmente necessário fazer nada antes, porque não havia nada concreto contra o ministro, muito menos depois. Só foram para a rua os mais “belicosos”, nisso você tem razão.

    Mesmo assim, não me parece que a manifestação tenha sido pequena. Em primeiro lugar porque ela foi a favor e você precisa botar o bloco na rua quando é contra, como aconteceu nos dois impeachments. Depois porque é a favor de um simples ministro; quando tivemos algo assim? E em terceiro lugar porque ninguém sai às ruas contra ele ou suas decisões. Creio que é este tipo de comparação que se deve fazer.

  5. A via “sacra da política” e o novo “tiririca”.
    Elegeram um Salvador da Pátria.
    Desalento! A seita Morista quer outro “cristo”.
    Ungiu seu novo e falso “herói”.
    Moro, o Judas, seduz a caserna e a direita.
    Bolsonaro não se vê crucificado.
    Mas a cruz desse calvário é dele.
    Boçalnaro, o “tiririca” de 2018.
    A caserna venceu. A seita exige nova vitória.
    O povo que se dane.
    O parcial juiz Moro é o novo “Salvador”.
    Ungido “tiririca” de 2022.
    Um calvário de 3 anos e meio na via profana.
    A caserna lavará as mãos.
    A seita Morista dará uma guinada na história.
    Elegerá o parcial juiz de preto, metido a herói.
    Heleno é general, mas nem tanto… idiota
    O capitão sangrará na cruz.
    Milhares de Judas querem a vitória.
    Estará tudo consumado?
    Não!
    O povo tem sede de Justiça.

  6. Falam das divisões internas nas duas últimas manifestações da extrema direita. É verdade: para muitos, fulana não é suficientemente fascista ou não deu mostras de adesão incondicional aos mitos baratos da gente-de-bem. Mas tem outra cisão que conta muito, embora não se possa saber qual parte é a pior: entre, por um lado, quem crê no teor dos vazamentos, só que se compraz com as “tabelinhas” entre juiz e acusador, pois para este tipo de gente era mesmo o que deveria ser feito (vale tudo diante da tarefa pós-direito de escorraçar as esquerdas) e, por outro, quem não vai acreditar jamais nas revelações (tudo invenção para macular o juiz enviado por Deus com a angelical missão de trancafiar o Lula). Pelo que vimos nas ruas, há razões de sobra para ficarmos muito tristes, cabe no entanto o registro anedótico: entre os engajados na defesa do (atual) desfiguramento caricato daquela promissora lava-jato inicial, uns gargalhavam da credulidade dos outros em pleno asfalto quente.
    E é claro que no interior de instituições como MP e PF, de competência internacionalmente reconhecida, rachaduras começam a aparecer agora por todos os lados. Eu não me surpreenderia se começassem a surgir também dúvidas internas sobre o que ali dentro se dava como líquido e certo. A pressa com que se juntaram não era apenas para acossar o STF e o Congresso, era desespero para tentar deter uma debandada endógena onde antes havia unidade sob intimidação.

  7. Uma nova hierarquia está sendo gestada.
    Uma (des) ordem inspirada na desqualificação e desprezo do outro, que será ainda mais corrompida e levará à radicalização absoluta. Diante do medo, ninguém precisa de lideranças racionais.
    Só de força, sob o único pretexto de, supostamente, assegurar segurança a todos, a qualquer preço.
    As milícias do novo status quo não somente são encontradas na baixada fluminense.
    Elas são crescentes e ocupam as principais avenidas.
    A nova desordem adota um dogma. Política não é arte. Política é força.
    Uma força dessa armada e que não hesita em ranger os dentes.

  8. Prezado Kotscho: Você tem razão “Se Bolsonaro bobear, seu ministro da Justiça vai acabar tomando o lugar dele como líder da extrema direita cabocla.” E aquele bigodinho de fita isolante do Adolfo é fácil arrumar para a foto.

  9. Ninguém assusta esse país.Nem mesmo os sucessivos escândalos de corrupção e crimes.A nossa bandeira continuará verde e amarela,azul e branco.O nosso hino:Ouviram do Ypiranga.Nada muda.

  10. Boçalnarismo tem a ver com o nariz da mula privilegiada que bateu carreira do aeroporto de Brasília até OndejáSevilla a caminho de Osaka no Zapón. Novo conceito para nosso febêapabecedário!
    Parabéns a mais um Balaiopor seus brilhantes achados entre perdidos…
    Paulo Caruso

  11. O Brasil precisa reduzir o Congresso para 240 deputados federais e 27 senadores. Proibida a reeleição para o Legislativo e Executivo, cujo mandato seria de 5 anos. Os ministros do STF e outras cortes teriam mandato de 6 anos, permitida uma única recondução. Prefeitos e vereadores teriam mandato de 5 anos e sem reeleição. Nos municípios, uma nova candidatura somente depois de 5 anos sem ligação com cargos municipais. O regime político seria o Parlamentar. Temos de cortar na própria carne. Não é possível um Ministro do STF ter 222 assessores. Sim, duzentos e vinte e dois nas custas do pobre. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe formariam um único estado. A mamata de desembargadores e tribunais no Brasil é um câncer.
    Quanto mais, menos serviço. Um dia o povo acorda e se não fizerem essas mudanças em tempos de paz, ela virá com ditadura sanguinária. A vida já não vale nada, imagine com um ditadura disfarçada. Moro fez o que quis e pode chegar à presidência, passando por cima da Lei. Pra mim, isso já é gestação ditatorial. As dores em sequência.

  12. Mestre, antes do Fax e do CD, havia frase muito utilizada em campos de futebol, aos domingos, no interior, para fazer sentar parte da torcida que levantava-se a cada bola que passava do meio de campo em direção a meta visitante: “SENTA QUE A VACA É MANSA”.
    Pois é, essa boiada fascista desperta pela mídia e judiciário, parceiros da classe dominante posseira do Brasil, para lembrar slogan da época, “Parece [brava], mas não é”.
    Parece ser maioria, mas não é, basta ver o fracasso no domingo, com menos da metade de participantes da manifestação anterior, por sua vez menor que prevista.
    Parecem fortes, mas não, basta observar os incapazes, capitão, prole e escatolavógico, no comando de medíocres inconsequentes, também incapazes além da ‘conjugação’ de, alaranjar, mentir, destruir e odiar.
    O que se viu domingo foi o repetir-se da micareta da terceira idade com exóticos diversos e regidos por decrépito general de ‘(m)urros à mesa’, representando a miséria dessa força de ocupação e vigilância, necessária para que o país possa ser ‘entregue numa boa’.
    “SENTA QUE A VACA É MANSA, Mestre, ou melhor, “LEVANTA E PRENDE A VACA NO PASTO”, de onde jamais deveria ter escapulido.

  13. Bom, vou abrir uma excecãozinha e tal. Kotscho, isto não é topete nenhum, nao é megalokualquerkoisa, não é papagaismo de pirata, não é. É só preocupaçao mesmo.
    Por favor, vc que é poderoso no sentido de poder dar dois telefonemas e conseguir alguma coisa a ser feita no seu mundo (o da comunicaçao). Ajude, por especial favor.
    Faça chegar a teu amigo de longa data, Lula, um pedido para que nao fale. Nao fale mais, nao fale extensiva nem tao intensivamente sobre o corrente processo em CURSO de revelaçoes de quem é MORO… e o que foi a Vazajato. E questao so tatica, é verdade.
    Ele nao fale sobre isso em entrevistas assim. Que diga no maximo: “Voces brasileiros estao vendo: julguem voces mesmos! Julguem voces mesmos o que Fez Moro, e por qual razão. O que ocorreu e acontece na realidade.”
    Tem muita razoes e muitissimas ‘reaçoes ‘ populares por tras disso.
    Kotscho, que ele em resumo que o ex juiz se enforque sozinho. Corda e m uita altura do laço, isso ele ja construiu sozinho.

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