“Democracia em Vertigem”: filme de Petra Costa faz a autópsia de um país chamado Brasil

“Democracia em Vertigem”: filme de Petra Costa faz a autópsia de um país chamado Brasil

Ao final das duas horas e um minuto de exibição, me senti zonzo como se tivesse tomado uma porrada na cara.

“Democracia em Vertigem” é o documentário brasileiro mais importante do período pós-ditadura militar, um libelo político e profundamente humano sobre a grande tragédia que assola o país.

Diretora, produtora, roteirista e narradora, a jovem cineasta mineira Petra Costa, 35 anos, formada na Universidade de Columbia, conta a história recente do Brasil, tendo como pano de fundo a sua trajetória pessoal e a da sua família.

Parece ficção, mas é tudo dramaticamente real neste filme produzido com imagens e diálogos captados no calor dos acontecimentos que levaram ao golpe de 2016.

Neste filme, que estreou na última quarta-feira na Netflix, a narrativa vai se encadeando de tal forma, cena após cena, que só podia dar no que deu.

Tudo que foi omitido dos brasileiros ao longo dos últimos poucos anos, em que o país foi virado de pernas para o ar, é apresentado ali como uma velha e boa reportagem, sem censura, sem firulas e sem tomar partido.

Assisti ao filme sábado no telão do auditório de um convento, em Interlagos, junto com mais de 100 amigos, que celebravam ali os 40 anos dos nossos grupos de oração.

Foi o nosso retirão espiritual para recarregar as energias do corpo e da alma, como fazemos uma vez por ano, com os grupos de São Paulo, Rio e Minas, reunindo gente de todos as idades, profissões, classes sociais, credos religiosos, preferências sexuais, esportivas e partidárias.

Tem até ateus e abstêmios nestes grupos _ a mais completa salada da nossa diversidade social e cultural.

Como todos assistiram ao filme no mais absoluto silêncio, sem ninguém ter combinado, pensei que, ao final, em torno de uma farta mesa de comes e bebes, saísse um grande debate sobre o que, afinal, cada um tinha achado.

Que nada. Acho que não fui só eu que fiquei absolutamente perplexo com o final do filme em que Moro foi nomeado ministro de Bolsonaro e Lula continuava preso.

Disso todos já sabíamos, mas como chegamos a este desfecho?

É isso que Petra e seu filme procuraram fazer o tempo todo: revelar, de forma bem didática, todas as trágicas farsas jurídicas e midiáticas, desde as jornadas de junho de 2013; depois, da Lava Jato para combater a corrupção, com o único objetivo de derrubar Dilma e prender Lula, com Supremo e com tudo, para devolver o país aos antigos donos do poder; acabar com a soberania nacional e os direitos trabalhistas, entregar a Amazônia e o pré sal, armar as milícias da nova ordem e instaurar um regime de terror.

Sem saber o que dizer depois da porrada que todos levamos no meio da testa, os orantes-retirantes falaram de tudo, menos do filme.

Fiquei com a impressão de que sobre a mesa estava, com as entranhas abertas, um morto autopsiado pelo filme, e era melhor mudar de assunto, já que nada mais havia a fazer.

Ninguém chorou, nem falou bem ou mal do defunto, era apenas uma tácita constatação.

Só me lembro de ter ouvido um comentário: “Essa tragédia está só começando, não vimos nada ainda”.

E o que pode acontecer depois da morte?

Eu, que não acreditava em ressurreição, passei a botar fé, por absoluta necessidade de sobrevivência, sem ter a menor ideia de como isso poderia se dar.

Chega uma hora no filme em que tudo parece inverosímel, um delírio da diretora.

Demorei a pegar no sono, com medo de ter pesadelos.

Mas acordei mais animado, e pensei: aquele Brasil pode ter morrido, mas nós continuamos vivos, apesar de tudo.

E enquanto sobrevivermos, animados por um cara chamado Frei Betto, o nosso Posto Ipiranga, que inspirou a criação destes grupos, 40 anos atrás, nos estertores da ditadura militar, há esperanças.

Só não podemos perder a esperança e o bom humor.

Vida que segue.

 

12 thoughts on ““Democracia em Vertigem”: filme de Petra Costa faz a autópsia de um país chamado Brasil

  1. Este momento do país tem nome: “livrando-se do sofá, para tapar o sol com a peneira”.
    Houve quem repetisse aqui até cansar: com verniz jurídico operacional, a micro-ditadura de um estado paralelo de exceção, um estado dentro do próprio estado, forja as provas que quiser para encurralar toda sociedade organizada, no limite, todas as pessoas comuns. Curioso, exigir agora dos outros todas as provas da existência de si mesmo, depois de condenar sem elas o favorito disparado das eleições. Julgamento sem juiz, piada no mundo inteiro.
    Bolsonaro começou antes de Bolsonaro, presidencialismo de coagulação.

  2. Prezado Kotscho: Se “Essa tragédia está só começando, não vimos nada ainda” como você ouviu num comentário, ainda bem que não temos uma rainha da Inglaterra e tampouco três princesas que se metem em tudo, não é mesmo?

  3. Assisti ao documentário, não foi em um convento com um grupo de oração, situação propícia, alias, para ver filme religioso. A diretora é tão devota a Lula quanto o Zé Padilha é a Moro. Precisamos acabar com messianismo, é Lula o messias ou o Jair messias, não há diferença entre os esquerdominions e os bolsominions. Como diz a música do Milton Nascimento: …Fé cega, faca amolada.

  4. Aterrorizante. Catastrófico. Terra de ninguém. Democracia arrazada. A Casa Grande sempre vence. Esperança desesperançada. Petras tem muito talento e soube alinhar o fio da meada.

  5. E bota vertigem nisso, Mestre, afinal como não revirar o estomago com o ‘STF que, ao invés de zelar pela Constituição, é o carcereiro que garante Lula sequestrado conforme ordens do comando de ocupação, enquanto seletivo ‘garantista’, vive a soltar baratas no Rio e a evitar que presos sejam rato da Moóca e urubus das Geraes e Higienópolis, sem esquecer o Marreco de Maringá, Flamingos do Cosme Velho e o Fuinha da Barra da Tijuca.
    Petra, incomoda não apenas a omissos, covardes e vendilhões, desse tempo, como também a nós resistentes que não conseguimos barrar a barbárie diante da civilização e a obscuridade diante da inteligência.
    Encerro com palavras de Eduardo Ramos, no GGN: “(…) penso que a “graça” que estamos finalmente recebendo nos últimos dias, é isso a que chamo de “redenção que vem pela Verdade!” – Não éramos nós os loucos, afinal! Não éramos nós “esquerdopatas fanáticos com bandidos de estimação” (sic….). Não éramos nós os que não enxergávamos a realidade, o horror, os pântanos fétidos em que uma sociedade rasa, ignara, obscurecida, tornada num trágico rebanho tosco e fanático, nos atirou a todos… Glenn Greenwald e Petra Costa…, nos trouxeram a esse lugar de “remissão de nós mesmos” – um lugar do qual podemos gritar aliviados, “que os loucos eram eles” (…)
    – Se alguém lúcido pôde atravessar tudo isso sem momentos de desespero, “normal” não é… “

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