Para sobreviver nesta selva, melhor é esquecer Brasília e o governo

Para sobreviver nesta selva, melhor é esquecer Brasília e o governo

Sei que não é fácil, mas não tem outro jeito: para manter um mínimo de sanidade mental e sobreviver nesta selva bolsonariana é melhor esquecer Brasilia e o governo, o STF e o Congresso.

Não sei se isso acontece também com os caros leitores, mas ao terminar de ler o noticiário pela manhã não me dá vontade nem de sair de casa.

Pensei nisso ao ler na coluna do Nizan Guanaes, na Folha, sobre os 24 brasileiros que participaram com ele de um curso em Harvard:

“Gente que não quer saber de más notícias, gente que não quer saber de Brasília. Eles sabem e fazem a hora, não esperam acontecer”.

Nizan cita o exemplo do chef italiano Rodolfo De Santis, que chegou ao Brasil em 2010 e, de lá para cá, abre um restaurante ao lado do outro, todos com o maior sucesso.

“Neste momento econômico do Brasil, cheio de ansiedades e interrogações, quem é o maluco que vai investir? Rodolfo de Santis vai”.

Só reclamar da vida e fazer cara feia é que não vai pagar as contas de ninguém.

Se um caminho se fecha, é preciso abrir outro, correr o risco, botar a cara para bater, como o grande Mino Carta sempre fez na vida.

Mino gosta de dizer que criou seus próprios empregos, depois de ser demitido da Veja, ao abrir um leque de novas revistas por conta própria.

Jornalistas que ficaram sem espaço na grande mídia, cada vez com menos vagas e salários aviltados, não param de criar novos blogs, sites e agências de notícias.

Estão criando uma rede de repórteres independentes que hoje já fazem concorrência à imprensa tradicional.

Um bom exemplo é o site Intercept, do jornalista americano Glenn Greenewald, que fez as denúncias sobre as maracutaias da dupla Moro & Dallagnol na Lava Jato.

Mídias independentes fora do main stream deram e continuam dando ampla cobertura às denúncias, que já estão sumindo do noticiário de quem acha que a Lava Jato salvou o país da corrupção.

Outro exemplo é a Agência Pública, criada pelas repórteres Marina Amaral e Natália Viana, que estão quase sozinhas, com sua equipe de jovens jornalistas denunciando sem parar o escândalo da liberação de venenos na agricultura, entre outras reportagens que não se vê mais na grande mídia.

Com muito orgulho, faço parte, desde a sua fundação, do conselho editorial da Pública, que reúne alguns dos mais respeitados jornalistas do país.

Faço parte também do grupo Jornalistas Pela Democracia, que publica meus posts no portal Brasil 247.

Uma coisa não elimina a outra, todo trabalho pode ser bem feito em qualquer lugar.

Também estou muito feliz por poder continuar publicando minhas reportagens na Folha, com toda liberdade, já na minha quarta passagem pelo jornal, ao mesmo tempo em que toco sozinho este blog Balaio já faz quase 11 anos.

Uma coisa que me incomoda muito é ficar refém das pautas do governo, que só geram más notícias, e acabam nos fechando os olhos para a vida fora dos gabinetes oficiais, nas quebradas e nos becos, onde o povo brasileiro luta para sobreviver.

Em seu artigo, Nizan fala dessa “meninada empreendedora”, mas para fazer coisas novas não importa a idade.

Na Vejinha desta semana, fiquei sabendo que meu amigo Rogério Fasano, que deve ter a minha idade e não para de criar novos restaurantes, hotéis e resorts, inaugura hoje mais um, o Gero Panini, dedicado a sanduíches.

Eu mesmo estou planejando um programa de televisão no Youtube, o “Ricardão e Ricardinho”, junto com meu velho parceiro Ricardo Carvalho, na Agência Click, de Paulo Amaral, que vai passar no Google Brasil, em sua nova fase de investir em projetos jornalísticos.

E vou terminando por aqui porque agora tenho um almoço de trabalho para tratar de novas pautas e projetos com outros dois veteranos, os fotógrafos Helio Campos Mello e Jorge Araújo.

É isso, bola pra frente, que atrás vem gente.

Vida que segue, apesar do governo.

 

17 thoughts on “Para sobreviver nesta selva, melhor é esquecer Brasília e o governo

  1. Kotscho, passei aqui para desabafar um pouco depois de ouvir no rádio, durante a manhã inteira, ataques ideológicos contra Lula e PT que não fazem o menor sentido. Lendo seu novo texto, decidi fazer como você: relaxar e esquecer Brasilia e o governo, o STF e o Congresso, além, claro, da mídia comprada, que está dando nojo, principalmente a falada. Ótimo almoço com seus amigos fotógrafos Helio Campos Mello e Jorge Araújo e sucesso. Sucesso também ao futuro programa de televisão no Youtube, o “Ricardão e Ricardinho”, com seu velho parceiro Ricardo Carvalho, que com certeza vai brilhar no Google Brasil. Abraços, respiremos fundo e tentemos sobreviver. É o que nos resta.

  2. O grande Machado de Assis ainda jovem escreveu no efêmero hebdomadário “O Espelho” no ano de 1859 , uma crônica que poderia ser bem atual, quando disse:

    “A vida, li não sei onde, é uma ponte lançada entre duas margens de um rio; de um lado e do outro a eternidade. E como é doloroso o atravessar dessa ponte velha a desabar, que por ela passam reis e povos numa procissão de fantasmas ébrios, na qual uns vão colhendo as flores aquáticas que reverdecem à altura da ponte, e outros afastados das bordas vão tropeçando a cada passo nessa vida dolorosa…..

  3. O ‘Enganaes’ de novo, Mestre?

    Deixou de ser benevolência, passando a catarata ao ‘açucarado’.

    PS: Não dá para esquecer Brasília e o desgoverno, pela simples razão que não nos esquecerão. Portanto…

  4. Um governo prepotente, agora pegou o gosto do “poder” , ninguém mais segura, a truculência que se dirigiu ao Levi foi mais uma amostra grátis, grosseiro, me envergonho dessa pessoa ser presidente do meu país. Uma pergunta: cadê o Onix, sumiu? Será o próximo a ser frito tbm.
    É isso mesmo, é cuidarmos da nossa vida, cada um do seu quintal e esquecer esse povo que parece mais uns alienados da realidade brasileira.

  5. Ricardo, certa dia, assistindo à uma palestra da Heloisa Trajano, dona do Magazine Luiza, ele soltou uma que nunca mais esqueço e que vale muito bem para a discussão aqui colocada.
    Dizia ela que, certo dia, em meio à uma discussão acalorada, onde todos se achavam com a razão, ela parou e se fez a seguinte pergunta:
    “EU QUERO SER FELIZ OU TER A RAZÃO”
    Esse é o maioi mal que nos aflige: Querer sempre ter a razão.
    Confesso que muitas vezes eu peco neste quesito.

  6. Só na cabeça do Nizan – o cara que vendeu o Real como se fosse mais forte do que o franco suiço, a libra esterlina e o marco alemão -, que seria possível cerca de 20 milhões de pessoas erguerem-se puxando os próprios cabelos com base nessa rebimboca da parafuseta denominada “empreendedorismo”. Mais ou menos como diria o Macaco Simão: “sacoleira” agora é “empreendedora individual fashion”. Ora, bolas.
    A demanda agregada da economia vem caindo desde 2015/2016 até agora.
    Os números do desemprego em massa são equivalentes – “mutatis mutandis” -, ao desemprego nos EUA nos anos 30 do século passado, após o “crash” de outubro de 1929.
    O desemprego aberto está na casa dos 20%: um número que jamais antes na história deste país houvera sido atingido.
    É certo que meia dúzia de gatos pingados, bafejados por um enorme talento e muita sorte – para não dizer “network-, sempre escapam pela tangente e outros, mais capitalizados e bem informados, também encontram novos nichos que exploram.
    Porém, basta olhar a série histórica da curva do salário real médio e do desemprego para verificar que nunca estivemos tão longe de qualquer coisa minimamente decente e razoável.
    Vale a pena ler a matéria do El País de hoje, dia 18/06, para verificar que os ricos nunca estiveram tão ricos, e em número maior, enquanto os pobres nunca estiveram tão pobres e em número cada vez maior.
    Nizan é aquele cara que se vangloria de tirar da cartola soluções mágicas, com exemplos miseráveis e deploráveis, do tipo: “quando todo mundo está chorando é hora de vender lenços de papel ou de seda, conforme o velório”. Ou a mais conhecida do populacho: “quando chove é a oportunidade de vender guarda-chuvas”.
    Nizan é aquele que recomendava ao presidente do “tem que manter isso, viu”, aquele da mala de 500 mil, que ninguém mais sabe nem mais viu o Rocha Loures, que o presidente do Jaburu fizesse o mal de uma vez, porque sua popularidade já era tão ruim que não poderia melhorar.
    É preciso parar com palavrório e parolagem para vender otimismo e esperança quando o sinal está fechado para a esmagadora maioria e o guarda de trânsito seleciona a clientela para sentar na janelinha da lotação.
    Isso chama-se estelionato e, ademais, passa a pernóstica impressão de que aqueles que estão sendo despejados de malas e sem cuias no olho da rua são os próprios responsáveis pela sua indigência e de sentirem-se um lixo social.
    Dá-lhe picaretas de auto-ajuda e vendedores de terrenos na lua, a exemplo da discurseira do frentista do Posto Ipiranga de que “amanhã será melhor”, desde que os fundilhos de aposentados, pensionistas e trabalhadores em geral sejam tungados até morrerem de trabalhar ou trabalharem até morrer.

    1. Em aditamento: “Hoje, 22,7% dos domicílios não têm nenhuma renda do trabalho, o que é muita coisa. A crise bateu muito forte no mercado de trabalho e mais fortemente no trabalhador menos escolarizado, com emprego de pior qualidade e esse trabalhador tem sofrido mais com a crise”. (economista Maria Andréia Lameiras, técnica em planejamento e pesquisa do Ipea, órgão ligado ao Ministério da Economia). Hoje, do jornalão OESP.

  7. Prezado Kotscho: Acho que “para manter um mínimo de sanidade mental e sobreviver nesta selva bolsonariana” talvez o melhor mesmo seria ouvir “Renúncia” na voz de Nelson Gonçalves. Um trecho: “Hoje não existe nada mais entre nós / Somos duas almas que se devem separar / O meu coração vive chorando e minha voz / Já sofremos tanto que é melhor renunciar”.

  8. Kotscho, Crise nao cria oportunidades, gera pobreza. Nizan passa longe do mercado publico de Salvador, quem pode frequentar um Fasano, ou um resort em Trancoso?, endinheirados como ele, Juiz, politico, apresentador de tv, e eventualmente algum jornalista convidado, aos que estao do lado de fora, os restos.

  9. Ah, mestre Kotscho! Fiz isso há algum tempi e sabe que é bem bom viver assim sem saber o que acontece em Brasília ou qual foi a última da milícia!
    Agora mw dedico a ouvir o canto do bem-te-vi e maritacas. Confesso que esse som tem sido muito, infinitamente mais saudável do que os ruídos das famílias oligárquicas que produzem o noticiário!

  10. Caro Kotscho

    A mídia independente tem se restringido a replicar as pautas oriundas de Brasília.
    Precisamos de mais jornalismo investigativo. Talvez os sites e blogs tenham dificuldades financeiras de praticar este tipo de jornalismo, com exceção do Intercept.

  11. Parabens caro kotcho!
    Ansiosa por ver Ricardão e Ricardinho! A vida é se reinventar e reinventar a existência…
    Aliás com estas duas últimas palavras se forma a terceira: RESISTÊNCIA.
    Sucesso!

  12. Kotscho, sorte e sucesso no nove empreendimento jornalístico. Espero que saia do papel. Na parte do Guanaes, fico com o que disse o CesarT.
    Forte abraço!

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