Lojas vazias, caras tristes, fones nos ouvidos, celular na mão: cenas de uma cidade morta

Lojas vazias, caras tristes, fones nos ouvidos, celular na mão: cenas de uma cidade morta

Vinha andando pela minha rua no final da tarde desta segunda-feira cinzenta em São Paulo, quando comecei a reparar na paisagem humana e nas lojas do caminho.

Sem pressa, sentei na varanda de um café, depois fiz vários pit-stop nos bancos espalhados pelas calçadas, para tentar descobrir o que estava acontecendo com aquela gente triste.

Nas lojas vazias, vendedores bocejavam debruçados sobre o balcão, não vendo chegar a hora de ir embora.

No salão onde fui cuidar dos velhos pés maltratados, era o único freguês.

Transeuntes caminhavam em marcha lenta olhando para o chão.

Mendigos ainda mendigavam sem muita esperança de receber um trocado, só pelo hábito, e seguiam em frente.

Vejo mais mulheres do que homens voltando do trabalho ou indo para a escola, carregando nas costas mochilas com todo o peso do mundo.

De repente, não passa ninguém, e a paisagem fica ainda mais melancólica.

Faróis continuam abrindo e fechando para ninguém, de vez em quando um apressado buzina. Motos passam zunindo para quebrar o silêncio.

Nem parece que estou na minha cidade, sempre barulhenta e apressada, ansiosa para chegar ao destino, qualquer um.

Ninguém para na banca de jornais, as manchetes já não chamam mais a atenção. Bares e restaurantes têm mais gente para servir do que fregueses.

O que mais se vende é cachaça e cerveja. Raro ver gente conversando nas poucas mesas ocupadas. Se alguém dá uma risada, devem achar que é maluco. Ri de quê?

Já não se briga mais por política nem futebol. Mulher bonita passa despercebida, não se ouve mais um fiu-fiu sem maldade.

Ensimesmados, parece que os paulistanos só pensam nas contas a pagar, ou no emprego que não vem.

Na grande cidade morta às seis da tarde, a estranha calmaria pode ser prenúncio de alguma tempestade.

Melhor ir logo para casa e ligar a televisão para ver as notícias.

Será que tem alguma boa?

Antes, porém, me deu vontade de escrever esta crônica do entardecer, sem maiores compromissos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23 thoughts on “Lojas vazias, caras tristes, fones nos ouvidos, celular na mão: cenas de uma cidade morta

  1. Parabéns pela lucidez e perspicácia.Já li alguns textos do Sr, em outros blogs.Sou de BH,e outro dia estava comentando com amigos e familiares,justamente que o que o Sr.escreveu maravilhosamente hoje.As caras tristes tem me incomodado bastante ,o pais esta triste.

  2. Kotscho , ainda não dá pra fazer uma leitura exata do que esta acontecendo, existe uma pequena parcela que ainda consome. Tenho um exemplo próximo, compadre meu dono de uma pequena metalúrgica que em 2014 tinha 55 funcionários, hoje com 17, faz as mesmas coisas de 5 anos atrás, viaja, troca de carro, faculdade particular etc. ate quando vai não se sabe, mas a pra ele a crise. A crise esta nos 38 funcionário que dispensou nesse período.

  3. Queria que você viesse aqui no Rio de Janeiro e dar um passeio pelo centro da cidade. Ruas inteiras com portas arriadas, onde antigamente o comércio era muito concorrido. Está uma tristeza total e as ruas tomadas por mendigos, sujeira, um horror. Pensa no prefeito que temos, totalmente incapaz e cínico, mente deslavadamente todos os dias, diz que tem de tudo nos hospitais e a gente vê o reporter lá na porta mostrando que nada é verdade. E o governador? Todos dois evangélicos! Sabia que está até sendo bom que é pra toda essa gentalha que vota neles, ver e assistir de camarote como são falsos e mentirosos e que não sabem governar. Infelizmente meu amigo, o Rio está na miséria total, e o governador, igual ao presidente fascista, só pensa em matar gente. Favelados, negros e lgbts. Um abraço, gosto muito de tudo que escreve. Primeira vez aqui no seu BALAIO DO KOTSCHO.

    1. Vcs falaram de tudo e não falaram que tudo isso é ESPIRITUAL É BÍBLICO. Tudo isto acontece, por que às pessoas querem ASSIM. Ninguém quer mudar ou enxergar o que tem por VIR. JESUS CRISTO está voltando. PREPARA-TE.

  4. Mestre Kotscho, além dessa baita recessão, atualmente temos um regime de direita. Uma característica da direita é ser sem graça, sem imaginação, vazia e cinza. Os argumentos são sempre primitivos e simplórios. Vivem com medo. Medo do diferente, medo de mudanças, medo de cometer pecados, medo de ficar sem dinheiro, medo de não mostrar sucesso aos vizinhos com um brinquedo novo. Então, rir de quê?

  5. Travessia.
    Kotscho é um obstinado pela construção do bem comum. Pensa em todos nós.
    Que bom ter os olhos do jornalista e sua sabedoria na leitura do nosso aqui e agora.
    Texto digno de bancos escolares, pautado por educadores que sonham ver os educandos, protagonistas de um futuro feliz.
    É reconfortante iniciar o dia lendo o Balaio.
    Estamos juntos na travessia da vida que segue.

  6. Prezado Kotscho: Se é uma realidade mesmo que “O que mais se vende é cachaça e cerveja.”, pode ter certeza que não é para comemorar nem a situação do seu time de coração no campeonato. É de tristeza mesmo, desânimo com o futuro. E isso é muito ruim. Diretas Já!

  7. Quanta diferença de alguns anos atrás, quando o país respirava e exalava confiança e otimismo. Mas bastaram três anos para tudo mudar.

  8. Kotscho, para variar mais uma bela e certeira crônica de sua autoria, que traduz num texto simples e revelador o cotidiano que estamos vivendo neste momento de desesperança e desencanto.

    Sua crônica me fez lembrar de uma outra escrita pelo genial Carlos Drummond de Andrade, publicada no Caderno B do Jornal do Brasil em 1980, que numa parte do texto diz:

    “Vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos.
    Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro”
    Forte abraço!

  9. Causa-me uma sensação estranha ao ler a crônica com as constatações do Kotscho. Sensação estranha por saber que uma grande parte dessas pessoas moribundas e cabisbaixas, as lojas fechadas, o cenário de terra arrasada é culpa de parte dessas personagens que apesar de tudo, ainda acreditam que seus votos valeram a pena. Que pena.

  10. Como bem descreveu a Maria do RJ, aqui no Rio a situação é ainda pior. Soma-se a essa melancolia uma forte depressão, um olhar perdido de quem não vê qualquer solução.
    Certa vez, há uns 10 anos atrás, ouvi uma palestra de um magistrado paulista chamando o Rio de “balneário decadente”. Lembro que fiquei indignado. O triste é ver, hoje, que a profecia acabou se confirmando.
    Esperemos que surja, não faço ideia de onde, uma fagulha de esperança que possa nos fazer olhar pra frente de novo.

  11. Exercício do bom senso na prática segundo os antropólogos sempre casa com comunhão de espíritos, de repente, estamos diante de um sociólogo e não estamos sabendo, a julgar pela conexão de quem busca respostas da conexão de análises de fatos presentes e futuros, sem desprezar os idiotas presentes por toda parte.

  12. Caro Kotscho, vivemos sim tempos sombrios onde a alegria foi substituída pela melancolia. o país foi assolado pela mediocridade e perversidade dessa corja de bolsonaristas que querem o povo triste, pobre é burro.
    Obrigada pelas palavras que sintetizam tão bem nosso mundinho

  13. Se voce ve as pessoas passando pelas calçadas de Sampa e nao é de agora, repare bem.
    Sao rostos de pessoas doentes, na maioria. Repare e tente advinhar o q lhes passa na alma.
    Isso era antes, ha bastante tempo. Agora eh adicionalmente medo, fuga, sensaçao de inelutabilidade – salve se quem e como puder.
    A filosofia de vida de nosso mundo ocidental é
    o individualismo, “faça o que quiser” , voce é o que importa’, ‘aproveite ao maximo’, empreenda que vai dar certo’, pendur-te na ultima besteirinha do gugle ou do yutube.
    Enquanto isso milhoes de asiaticos focam no coletivo, na patria, em fortaceler sua educaçao e suas empresas nacionais, manter sua cultura ancestral.
    Ta absolutamente na cara quem vai detonar-se ate o pó e quem vai vencer.

  14. Caro Kotscho,
    Sintetizas com perfeição e belas palavras o que observo a algum tempo.
    Trabalho a 30 anos no setor bancário. Estamos na primeira semana do mês e os clientes sumiram! Isso é absolutamente anormal. Banco vive de dinheiro: sem cliente, sem dinheiro!
    Um colega comentou que é por causa dos aplicativos dos bancos. Será mesmo?
    De resto, nas ruas da minha cidade aqui no Sul – essa região atrasada que votou em peso no Bozo – a tristeza impera e a miséria se aprofunda.
    Parabéns aos milhões de boçais, ignorantes e idiotas inúteis que elegeram esse sujeito.
    Abraços e obrigada pelas tuas palavras sempre tão lúcidas.

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