Como fica a vida de quem já não consegue mais andar e a doença não tem cura

Como fica a vida de quem já não consegue mais andar e a doença não tem cura

Como cidadão e repórter, participei de quase todas as principais manifestações contra a outra ditadura militar (1964-2019).

Agora que a desgraça ameaça voltar pelas mãos de um presidente kamikase, o capitão Bolsonaro, não tenho mais pernas nem saúde para ir às ruas.

Embora more a poucas quadras da avenida Paulista, senti muito não poder participar dos protestos da semana passada, mas fiquei feliz porque meus netos foram.

Depois de quebrar quase todos os ossos do corpo em acidentes variados, já não consigo andar nem ficar de pé por muito tempo.

Não poder caminhar sobre as próprias pernas é uma das limitações mais dolorosas para quem passou a vida viajando por todo o Brasil e metade do mundo.

Já fiz todo tipo tratamento, anos de fisioterapia,  mas estou cada vez mais “com dificuldades de locomoção”, como falam nos aeroportos.

Estacionado na minha casa, de onde pouco saio, só pude ver as manifestações pela TV e no computador.

Por coincidência, ou não, estou lendo por estes dias o maravilhoso e comovente livro do meu amigo Nirlando Beirão, um dos melhores textos e dos mais decentes jornalistas do país, que vai lançar domingo “Meus Começos e Meu Fim” (Companhia das Letras), no restaurante Frontera, a partir das 16 horas.

Nirlando tem uma trajetória profissional parecida com a minha, começamos na mesma época e temos a mesma idade, e também passou a vida viajando e pousando nas nossas melhores redações.

Fomos os dois, sob o comando do bravo Hélio Campos Mello, cofundadores e repórteres da revista “Brasileiros”, que tanta falta nos faz nos tempos atuais.

Ao mesmo tempo, trabalhamos juntos, como comentaristas políticos, por sete anos, no Jornal da Record News, do Heródoto Barbeiro, e fomos demitidos no mesmo dia, sem maiores explicações.

Já estou terminando de ler o livro, mas sem pressa, porque é tão bom que não quero que acabe.

Uns três anos atrás, ainda na Record News, Nirlando começou a andar mancando, mas ninguém podia imaginar o motivo, nem ele.

Certo dia, apareceu na redação de bengala, depois de andador, por fim numa cadeira de rodas, onde está até hoje, precisando de ajuda de bombeiros para chegar ao estúdio.

Depois de mil exames, o amigo foi diagnosticado com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), uma doença rara, que vai enfraquecendo os músculos cada vez mais, e ainda não tem cura.

No livro, o jornalista e escritor ainda tem forças para brincar com ele mesmo, com seu texto finamente irônico, sem nunca descambar para o piegas nem se fazer de vítima do destino.

Conta a sua história e a da família como se estivesse falando de personagens de um romance ficcional, sempre com leveza, pesando cada palavra, apesar do enredo dramático.

Um desses personagens parece mesmo ter saído de Eça de Queiroz, mas era de carne e osso:  seu avô paterno, Antonio Cabral Beirão, nascido na Beira Alta, daí o nome.

É em torno dele, um padre que se apaixonou por uma beata, na pequena cidade mineira de Oliveira, largou a batina e criou uma bela família, que gira toda a narrativa.

Corintiano e mineiro, acima de tudo, o autor deste belo livro nos mostra como é possível viver sem ceder às pedras do caminho, empurrando-as com sutileza, na maciota.

NIrlando é um artista da palavra, capaz de transformar um caso banal do cotidiano em obra prima, com economia de letras. Tenta sempre arrancar pelo menos um sorriso do leitor.

Quem melhor resume o que Nirlando viveu e está vivendo é um dos seus médicos e também nosso amigo, Drauzio Varela, na contra-capa do livro:

“Os textos de Nirlando Beirão sempre estiveram entre os melhores do jornalismo brasileiro. Neste livro, reúne histórias do passado para confrontá-las com as adversidades enfrentadas por alguém com uma doença que impõe debilidade muscular progressiva, com graves limitações físicas. O resultado é uma reflexão profunda sobre o significado e a fragilidade da existência humana”.

Outro dia, no ano passado, o malandro com jeito de lorde nos deu um belo susto.

Após um almoço no mesmo restaurante aonde será lançado o livro, sem mais, ele acionou sua cadeira de rodas motorizada e avisou que estava indo embora para casa.

Apenas disse que tinha chamado um táxi especial que o costumava transportar com a cadeira.

Saímos à calçada e não vimostáxi nenhum, nem o Nirlando, que tinha sumido sem deixar vestígios.

Até hoje, não sabemos se pegou um táxi invisível ou se foi pilotando seu veículo até em casa, a muitos quarteirões de distância.

Nirlando sempre foi assim: uma figura imprevisível e adorável, com seu sorriso matreiro de matuto das gerais.

Pena que não será mais possível nos encontrarmos nas manifestações em defesa da democracia. Vamos ficar só torcendo de longe, sem parar de escrever…

Apesar das limitações e de só trabalhar em casa, Nirlando Beirão ainda é o redator-chefe da Carta Capital, uma revista de resistência do Mino Carta, que não se entrega nunca, a cara dos dois amigos.

Sucesso, garoto!

Vida que segue.

 

 

18 thoughts on “Como fica a vida de quem já não consegue mais andar e a doença não tem cura

  1. Prezado Kotscho, eu acredito que quando Deus dá vida às pessoas, ele as classifica de modo que muitos terão que “andar” muito na vida para tentar fazer alguma coisa; outros, como você, são pré-selecionados para usarem muito a cabeça, produzindo então textos maravilhosos, livros incríveis, estórias divertidas, registrando os fatos e deixando um legado que nunca será apagado nem esquecido. Continue sempre pensando muito, escrevendo mais ainda e nos ajudando a sermos melhores e mais esclarecidos. Essa é sua missão, felizmente. Abraços.

  2. ERRATA…
    TAMBÉM ESTOU ASSIM RICARDO…DUAS VIRADAS E DUAS QUEDAS, DE CABAÇA PARA O CHÃO,DORMINDO E ROLANDO NA CAMA, COM DIREITO A DOIS MESES DE LEUCEMIA NAS NO INSTITUTO DO CÂNCER DO CEARÁ … SALVO POR UM FIAPO, NA COMPETÊNCIA DE UMA EQUIPE DE DUAS MULHERES E DOIS HOMENS, ESTOU TENTANDO — SEM SAIR DE CASA, DE MOLETA COMO COMPANHEIRA —- ESCREVER MINHAMINHAS DORES E MEUS ALÍVIOS DESSA VIDA CHEIA DE ESPINHOS. COMO REPÓRTER ANDARILHO. TAMBÉM NÃO CONSIGO
    FICAR DE PÉ POR MUITOS MINUTOS. MINHA COLUNA NÃO ME SUSTENTA. PARA COMPLETAR O BEM BOM DA VIDA, PERDI A FALA. NÃO CONSIGO MAIS FALAR. APENAS ESCUTO E ESCREVO. ISSO ME ACONTECEU DURANTE UMA VIAGEM QUE FIZ, BUSCANDO MATERIAL PARA UMA REPORTAGEM PARA A REVISTA CAROS AMIGOS APESAR DE TOMAR , ATUALMENTE, UMA CESTA BÁSICA DE REMÉDIOS TODA MANHA ´ ´ 12 COMPRIMIDOS – – NÃO HA PERSPECTIVAS DE MELHORA.
    ABRAÇO EM TODOS COM A MESMA SORTE – – DO SOBREVIVENTE MENOR
    GERVÁSIO DE PAULA.

  3. Para os jornalistas e autores Nirlando Beirão e Ricardo Kotscho.
    .
    Clarice Lispector: “Sou um coração batendo no mundo.”
    Cora Coralina: “Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”.
    As emoções são importantíssimas e essenciais em nossa VIDA QUE SEGUE aprendendo com o Balaio e seus nobres amigos.
    O burrico, Arte de Paulo Caruso, está mais feliz. Nota 10 (dez) e com louvores mil.

  4. Fui assinante do jornal Estado de Minas durante muitos anos. Parei de assinar devido às mudanças no jornalismo daquele veículo. Se queríamos saber sobre Minas era necessário abrir outros periódicos. A censura financeira dos governos Aecio Neves e Anastasia simplesmente transformaram este jornal num chapa branca que quando não defendia o governo mineiro abertamente, deixava de noticiar coisas que corriam à boca miúda pela capital.
    Nirlando tinha uma coluna de política no jornal. Se não me falhe a memória com outro repórter. Fazia gosto ver as notícias sendo publicadas de forma tão perspicaz, com uma agudeza que os leitores palacianos passavam batidos nas várias beliscadas que as palavras tratavam e traziam.
    De toda forma meu velho, esta máquina chamado corpo humano também tem as suas falhas. Ora por desgastes naturais, ora por falhas naturais. Mas o cérebro, este que até hoje não pôde ser desvendado a fundo, em ambos os casos (RK e Beirão) estão mais afiados do que nunca!
    Um abraço a você e ao Nirlando que aprendi a admirar desde muito cedo!

  5. No aguardo do livro do Nirlando, que embora ainda não tenha lido, já gostei muito: seus textos brilhantes são sempre uma aula pra quem curte quem sabe escrever como ele é Vc!!!

  6. Kotscho, que tristeza!
    Não esmoreça e continue a nos ajudar a entender o Brasil.
    Melhoras para você e o Nirlando Beirão.
    Ambos são imprescindíveis.

  7. Que beleza de artigo esse seu, de hoje. Que sensibilidade e afeto para com seus amigos. Acompanho seu blog, leio com atenção e compartilho, o que é uma das minhas formas de fazer resistência.
    Obrigada por continuar escrevendo.

  8. Velho, nosso querido velho, os seus textos estão entre os melhores que podemos ler…mas este foi muito especial…foi um prazer lê-lo…poesia pura…eu sempre disse: O Balaio do velho Kotscho, é o único Blog que tem alma.

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