O Brasil de Hebe a Marielle: um roteiro de lutas da mulher brasileira

O Brasil de Hebe a Marielle: um roteiro de lutas da mulher brasileira

No meio da tarde desta quinta-feira chuvosa de céu triste em São Paulo, com o sol ainda tentando furar as nuvens, recebo mensagem da minha filha caçula Carolina Kotscho, produtora, escritora e roteirista de cinema e televisão, neste dia em que o Brasil lembra um ano da morte de Marielle Franco.

Carolina está no Rio de Janeiro finalizando o filme “Hebe _ A estrela do Brasil”, que estreia dia 15 de agosto nos cinemas, e é tema de uma série a ser exibida pela Globo, onde ela trabalha.

E o que tem a ver a história de Hebe Camargo com a de Marielle Franco, duas mulheres brasileiras com trajetórias tão diferentes, mas com um ponto em comum?

São as muitas lutas das mulheres brasileiras, ao longo do tempo, por espaço, respeito e voz, e pelo direito de participar da vida política do país, cada uma à sua maneira.

Transcrevo abaixo, na íntegra, o e-mail que a Carolina me mandou, com um trecho do roteiro e o link para o trailer do filme.

***

De: Carolina Kotscho [mailto:ck@lomafilmes.com]
Enviada em: quinta-feira, 14 de março de 2019 15:37
Para: Ricardo Kotscho <rikotscho@uol.com.br>
Assunto: Texto sobre Hebe e Marielle

Oi, pai.

Ano passado você disse pra eu te mandar se quisesse publicar o texto sobre a Marielle que escrevi.

Hoje reescrevi o texto. Segue aqui, se você quiser publicar.

Vou te mandar por whatsapp as fotos com trechos do roteiro que publiquei junto, no meu Instagram e o link do trailer:

Beijo!

Carol

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Há uma semana lançamos o trailer de “Hebe”. O filme é sobre a maior apresentadora que esse país já teve, mas é também sobre ser mulher e ter voz. É sobre não ter medo e não se omitir. É sobre defender o que é correto, respeitar quem pensa diferente e aprender com o outro. É sobre encarar os próprios limites e os próprios defeitos. É sobre transformar a dor em força. E começar de novo.

Faz um ano que o mundo pergunta quem matou Marielle e Anderson e que eu me pergunto porque não publiquei o texto abaixo, qual é o meu papel nessa história e o que importa o que eu penso sobre ela. Faz exatamente um ano também que encontrei @luizabrunet no Rio de Janeiro e comecei a contar a sua história.

Hoje, na ponte aérea a caminho do Rio, me dei conta de que Hebe e Luiza me encheram de coragem e me fizeram um bem enorme.

***

Segue o texto sobre a morte de Marielle, escrito em 16/03/2018:

 

Marielle, Helena, Lota, Elizabeth, Celeste, Hebe, Luiza, você e eu.

 

Sou escritora e roteirista, me expresso por meio das histórias que escolho contar. Há muitos anos carrego comigo a dor e a garra de Helena Camargo. Com Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop entrei e saí algumas vezes do hospital. Fui enterrada viva com Celeste e a força das gargalhada e das lágrimas de Hebe Camargo me fascinam e me atormentam desde 2014. Ontem fui ao Rio conhecer a coragem e as feridas de Luiza Brunet e encontrei o grito onipresente do corpo sem vida de Marielle Franco.

O fato de só conhecer Marielle porque ela levou quatro tiros na cabeça me tirou o chão. Não sei se concordaria com todas as opiniões dela. E isso é o que menos importa. Uma mulher negra, gay, da favela, com mestrado e mandato surgiu ontem no noticiário como um sopro de esperança natimorto que dilacerou milhões de brasileiros que, como eu, só conheceram a vereadora carioca em seu obituário.

Hoje não consegui escrever uma única linha do último capítulo da série sobre Hebe que tenho que entregar. E também não consegui ficar quieta. Hoje chorei de manhã com a mulher do motorista Anderson, depois chorei por cada uma das mulheres que interpretei com palavras em mais de vinte anos de carreira. E chorei por mim.

É difícil estar nesse lugar. Sempre gostei de me perceber forte e acreditar que deu tudo certo. Mas a verdade é que ser mulher e ter voz nesse país é como caminhar sobre pregos, desviando dos tiros de inimigos sem rosto. E eu descobri que a dor é tão profunda, que eu nunca me dei sequer o direito de sentir. Muito menos de gritar.

Por que eu, uma mulher branca, com boa formação, saudável, cercada de amor, uma profissional respeitada, bem alimentada e bem remunerada, estou reclamando? Porque sim. Porque só eu sei o quanto o preconceito, o assédio, o machismo e a injustiça já doeram em mim e imagino o quanto deve doer exponencialmente mais em quem não teve as mesmas oportunidades que eu.

Eu, que nunca me senti no direito de reclamar, hoje tive vergonha de ficar calada. Hoje eu peço desculpas pelo meu silêncio e desejo que os tiros que mataram e tentaram calar Marielle façam nascer em cada um de nós a força, a coragem e a disposição para ocupar espaço e fazer política, no sentido nobre da palavra”.

Carolina Kotscho

[texto publicado originalmente no Instagram @carolinakotscho]

Segue abaixo, um trecho do roteiro do filme da Hebe, que responde à pergunta feita na abertura deste post:

 

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Esta fala da Hebe é de um programa dela no final dos anos 80 do século passado, mas poderia ser um discurso de Marielle hoje, se os milicianos dos anos 2000 não a tivessem fuzilado.

As duas já morreram, mas a luta das mulheres continua, como mostra minha filha Carolina.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

4 thoughts on “O Brasil de Hebe a Marielle: um roteiro de lutas da mulher brasileira

  1. O Post acima prova que os seguidores da Família Kotscho são privilegiados. Uma moderação aqui, dignifica o currículo de todos.
    Sobre o Post anterior, traquitanas eletrônicas no meio, o Balaio tem o aconchego do Sítio Ferino e a água de Porangaba.
    Muitos blogueiros deveriam conhecer a Universidade Balaio do Kotscho. A cada moderação… a vida segue mais feliz.

  2. Prezado Kotscho: Você tem razão “Esta fala da Hebe é de um programa dela no final dos anos 80 do século passado, mas poderia ser um discurso de Marielle hoje”. E olha que muita coisa que era falada, há quase trinta anos atrás, nas reprises da “Escolinha do Professor Raimundo” que estão sendo colocadas no ar, tem muito a ver também com os dias de hoje.

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