Eles sabem tudo, explicam tudo, estão em todas as TVs: são os cientistas políticos

Eles sabem tudo, explicam tudo, estão em todas as TVs: são os cientistas políticos

Desde o golpe de 2016, assistimos a uma invasão de cientistas políticos em todos os programas de entrevistas no rádio e na TV, vocês já devem ter notado.

Eles falam com científica sabedoria e cheios de certezas sobre todos os assuntos, explicam o que a gente não consegue entender e, no fim, sorriem para a câmera como se perguntassem: “Viram como eu sou inteligente? Entenderam agora?”.

Em épocas diferentes, nós já tivemos economistas, cientistas sociais e filósofos exercendo esse papel de iluminados explicadores da realidade que os simples mortais não conseguem enxergar.

Como eles não cobram nada por suas aparições nestes tempos de borderôs magros nas emissoras, que servem de vitrine para suas empresas e consultorias, foram ocupando o lugar antes reservado aos chamados jornalistas especializados.

Antes que alguém me acuse de estar defendendo a reserva de mercado dos coleguinhas, lembro que, no começo dos anos 1970, fui aluno da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas  da USP, onde FHC foi professor, na época considerada a melhor do país, hoje uma grande fornecedora de cientistas políticos para as emissoras de rádio e TV, ao lado do Insper e da FGV.

Por conta de viagens a trabalho como repórter, é verdade que nunca cheguei a me formar, mas fui um bom aluno.

Portanto, nada tenho contra este elenco científico que nos ilumina em tempos de escuridão do pensamento e de perseguição ao que chamam de intelectuais e artistas “vermelhos” disseminadores do “marxismo cultural”.

Já eram figurinhas manjadas, que pulavam de estúdio para estúdio, às vezes no mesmo dia, como se fossem artistas contratados.

Mas mudaram muito os atores ultimamente. Antes, eles eram poucos, sempre os mesmos,  e havia maior diversidade, para contrapor esquerda e direita, mas agora predomina o pensamento único a favor do deus mercado.

Todos falam as mesmas coisas, plagiadas geralmente dos relatórios das suas próprias consultorias.

Nem há mais debate. Cada um apenas complementa ou reforça o que o outro falou, e o apresentador do programa se dá por satisfeito. É como um jogral.

Expressões como “novo normal” para justificar os maiores absurdos da nova ordem passaram a ser comuns e encerram qualquer polêmica.

Com os políticos em maré baixa, os empresários na muda e a sociedade civil recolhida, sem que surjam novos interlocutores confiáveis, eles se tornaram os donos da bola.

Fora os advogados criminalistas, que ganharam muito dinheiro com a Lava Jato, diante do aumento da clientela, são eles os que mais ganham com a inversão de valores neste Brasil do leve vantagem em tudo, movido a fake news e lives das autoridades constituídas nas redes sociais.

Espero que os historiadores e os cientistas políticos do futuro possam nos explicar melhor o que aconteceu com o Brasil de 2019.

Só acho difícil ainda estar por aqui para ver isso acontecer.

Por isso, me limito a constatar uma realidade do presente, em que os cientistas políticos assumiram o papel dos políticos e dos jornalistas como formadores da opinião pública.

Sem entrar no mérito, estamos vivendo tempos estranhos, como vive dizendo aquele ministro do STF, Marco Aurélio Mello, uma raridade que insiste em remar contra a maré.

Na ausência de qualquer sinal de articulação política de governistas e oposicionistas, são os togados e fardados que assumem o comando do nosso destino.

É esse o “novo normal” a que os sábios tanto se referem?

Normal para quem?

E vida que segue.

 

11 thoughts on “Eles sabem tudo, explicam tudo, estão em todas as TVs: são os cientistas políticos

  1. Olá Sr. Ricardo, tudo bem? Adorei o comentário, sempre me faço a pergunta de como brotam esses seres em programas televisivos, e ainda devo lembrar dos economistas entrevistados, sempre do lado do seu patrão, sempre a mesma opinião, preocupados não em informar a população, mas sim se mostrar e informar os donos do dinheiro.

  2. Ninguém me contou. Assisti um programa na Globonews com 3 “cientistas” políticos, todos “da casa” e um deles , notoriamente ligado ao PSDB, conhecido doutor da USP, disse que o governo Temer era uma ” janela de oportunidades” para reformas que ” nunca teriam a aprovacao popular” indispensaveis a modernizacao etc. Todos concordaram e, em coro, atacavam os ” populistas”

  3. Realmente este Brasil está mesmo desanimador quando lemos:”o ministro Marco Aurélio Melo ainda teima em remar contra maré”,desanimador quando assisto a torcida do pessoal das minhas relações vibrando com a eleição do novo presidente do senado.Olho para minhas filhas vibrando com este partido” NOVO”,tem que ser muito otimista pra acreditar em algum futuro.

  4. Mania besta, essa de brasileiros, você incluido, de não ilustrar suas opiniões com nomes . Por que esse medo ? Proteger quem ? Vamos aos nomes, aos exemplos concretos. Ou isso fere a “cordialidade tupiniquim” ?

  5. Plateia de pé. Post acima leva a nocaute nos primeiros segundos do combate. Que leitura, meu. Cientistas políticos com inchamento exposto. Kotscho, Ph.D no que faz. Sem tempo para terminar o Curso? Bem feito pra Universidade. Esta, perdeu substância. Cientista político na tela: pior programa, impossível. Só não entendo porque o burrico, charge imbatível, acima, do Paulo Caruso…. está cada vez mais feliz. O quê? Ele ajudou no nocaute?

  6. Normal, sem dúvida, por conta da quantidade de “mercadistas” (mercenários seria mais apropriado) em posições de poder e de exposição midiática, determinando o que se deve pensar e fazer. Mas totalmente imoral, por permitir que togados e fardados ultrapassem seus limites de ação, ao executarem a vontade de uma minoria elitista contra a maioria que os sustenta!

  7. Historiadores? Que pena, os comprometidos com a verdade estão em extinção. Corre-se o risco de Moro, depois de instalado na cadeira do STF, travestir-se de contador de historietas, escrevendo sobre a própria sina, Brasil……….. no meio, dominantes à extrema direita governando para si mesmos, e à esquerda….. ah, vai Corintians, carnaval e cerveja. É a rua desempregada, previdência na mão dos banqueiros e etecétera e tal. Cientista político, ser execrável, jamais crível. Uma regra sem exceção. Servilistas por inteiro em qualquer mídia.

  8. Prezado Kotscho: “Desde o golpe de 2016, assistimos a uma invasão de cientistas políticos em todos os programas de entrevistas no rádio e na TV, vocês já devem ter notado.” É verdade. E parece que boa parte deles apoiaram o golpe.

  9. Bom, kotscho, tu esqueceste de completar o quadro mencionando os especialistas em RI, que andam muito ativos na telinha.
    Que nos ”explicam” o ponto de vista do império estadunidense e /ou de sua face pentagonal, a cada evento mais inesperado que ocorra no mundo.
    Ai sao chamados para falar cinco-dez minutos com admirável catedraticismo.
    Eles são notáveis pelo que falam, e mais ainda pelo que NAO falam jamais…
    Voce e todos nos assim somos reconfirmados no que já ”sabíamos” pela grande Mídia, isto é: que o Kim Jong Un não passa de um maluco agressivo, que a China NÃO pode construir no mar suas próprias ilhas embora o Usa possa livremente tomar as alheias, que D Trump ganhou por causa dos
    diabÓlicos russos; que o Brexit ocorreu por uma distração dos bons cidadãos britânicos, que é inútil procurar salvação fora do globalismo e principalmente que a ”comunidade internacional” continua firme e forte na defesa da universal da democracia.

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