O desafio de provar que está vivo para quem tem dificuldade de andar a pé

O desafio de provar que está vivo para quem tem dificuldade de andar a pé

A distância continua a mesma, apenas três quarteirões, mas a cada ano aumenta minha dificuldade de andar até a agência bancária para fazer “prova de vida”.

Como ninguém pode fazer isso por mim, não tenho mais carro e fica chato pegar um táxi para percurso tão pequeno, encarei mais uma vez o desafio.

Em vários acidentes de percurso na longa estrada da vida, já acumulo fraturas nos dois joelhos e nos dois braços, entre outras quebraduras, o que me deixou meio torto, fora de eixo.

Morro de medo ao atravessar a rua ou andar pelas calçadas da cidade cheias de obstáculos.

Faixas de pedestres, como sabemos, não passam de enfeite em São Paulo.

“Você só não pode cair de novo, porque aí não tem mais conserto”, advertiu-me o dedicado e competente ortopedista André Matias, que me operou no ano passado.

Desde então, caminho sempre olhando para o chão para evitar as armadilhas antigas e as novas.

Além dos desníveis, dos buracos, das obras e dos cocos de cachorros, entre outros perigos, agora tem os fanáticos por celular.

Vira e mexe esbarro em alguém digitando furiosamente no seu aparelho, que passa por cima de mim, sem nem reparar que eu existo.

Ando agora com os dois braços esticados para a frente a título de para-choque.

Devem achar estranho, mas é melhor do que levar uma trombada pedestre.

Após algumas paradas no caminho, chego enfim ao destino, uma agência do Itaú nos Jardins, quase deserta de funcionários e clientes na hora do almoço.

Pensei que seria tudo muito rápido, só mostrar os documentos e dizer. “Vim aqui para provar que estou vivo”.

Havia só duas caixas atendendo e meia dúzia de septuagenários como eu esperando sua vez na fila com o mesmo objetivo.

A fila não andava e só ao ser atendido descobri o motivo.

O caixa, depois de registrar a sobrevivência do cidadão no computador, condição “sine qua non” para continuar recebendo a aposentadoria, oferece outros serviços do banco que você não pediu.

Para ir embora logo, aceitei fazer um “seguro protetor do cartão de crédito”, por módicos R$ 10 mensais, sem entender qual a serventia daquilo.

Já pensaram quanto rende isso para quem tem muitos milhões de clientes?

Mas provar que você está vivo até que não é tão complicado.

Difícil mesmo, no Brasil, é provar que você morreu, como aconteceu com minha mãe, 15 anos atrás.

Já contei essa história aqui no blog, mas não custa repetir, para mostrar porque, entre outros motivos, a previdência está quebrada, e querem tungar a aposentadoria dos velhinhos _ só dos civis, é claro, que recebem pelo INSS, como é o meu caso.

Mesmo depois de comunicar o falecimento de minha mãe aos órgãos competentes, com o devido atestado de óbito, o INSS continuou depositando a aposentadoria dela, mês após mês.

Como eu trabalhava no governo, fui reclamar até com o ministro da Previdência na época, o Amir Lando, se não me engano, mas não teve jeito. Seguiam depositando religiosamente em dia o valor da pensão, como se ela ainda estivesse viva.

Nesse meio tempo, o ministro caiu, e entrou outro, ninguém menos do que o inefável Romero Jucá. Sim, ele mesmo, aquele do “supremo com tudo”.

Pedi a ajuda de um assessor dele para resolver o problema e a resposta do ministro que recebi nunca vou esquecer:

“Fala pro Kotscho que é mais fácil a mãe dele ressuscitar do que resolver este problema aqui”.

Só meses depois consegui finalmente receber um documento com o valor dos benefícios indevidos, que deveria restituir ao Tesouro Nacional.

Perdi um dia inteiro em diferentes filas, e vários carimbos depois eu estava quites com a República.

Meu desafio anual agora é provar que estou vivo e tenho direito a receber a merreca que me pagam, após 54 anos de trabalho como jornalista, que não dá nem para pagar o plano de saúde.

“Nos vemos no ano que vem”, despediu-se o gentil e otimista bancário que me atendeu, mas eu tenho lá minhas dúvidas.

Ainda bem que só preciso ir lá uma vez por ano, depois que inventaram o caixa eletrônico.

Da próxima vez, ainda espero encontrar lá algum funcionário, já que o grande sonho dos banqueiros é ter um banco sem bancários.

Para quem vou provar que estou vivo, se estiver?

Com atestado de vida no bolso, achei mais seguro voltar de táxi.

Vida que segue.

 

28 comentários em “O desafio de provar que está vivo para quem tem dificuldade de andar a pé

  1. Há duas coisas no Brasil que me intrigam e às vzs me irritam: Comprovante de residência e Atestado de vida. Uma amiga minha teve sérios problemas para sacar a aposentadoria da mãe, que estava internada e não podia sair do hospital. Detalhe: o dinheiro era fundamental para o tratamento, mas a titular do benefício tinha que comparecer na Caixa, só que ela não podia e a Caixa não aceitava atestado médico, nada. Um horror. Eu nem sei se ela conseguiu. E essa história de comprovante de residência, certa vez me foi exigido para instalar uma linha telefônica ou de NET na minha casa, eu disse: a maior prova de que moro aqui é que estou pedindo o serviço para este endereço, rsrsrs… não adiantou tive que forjar uma prova. É curioso, aceitam uma prova falsa para uma coisa que é verdadeira. O Brasil é muito louco!

  2. Caro Kotscho,
    Esse seu banco levou cerca de um ano para me isentar de uma multa no cartão de crédito de minha mãe, falecida em 2015.
    Por outro lado, com a dívida saldada, outros atendentes desse espaço itaútico passaram o mesmo tempo querendo cobrar uma dívida de minha mãe e pedindo para falar com ela ao telefone.
    Um dia, não aguentei mais e forneci o telefone para que falassem diretamente com ela: o número do telefone do Cemitério Municipal de Petrópolis.
    Infelizmente, nunca saberei qual foi a conversa.
    Por outro lado, via Banco do Brasil no Rio, também demonstro todo ano a UNICAMP que sou um organismo vivo.
    Vida que segue, ainda bem!
    Abraços,
    Marcio

  3. Penso que seria mais correto um servidor do INSS visitar o aposentado em sua residência ou trabalho, após este agendar uma data e hora da visita. Custo irrisório e um grande conforto para os idosos. Já vi casos na TV em que cadeirantes são levados nos braços por parentes. Desgastante e até humilhante.

  4. Agora, ja pensou no inverso: se o atestado de vida não chegar lá e os proventos for cortado?
    Quanto tempo vai levar para reativar..
    Só mesmo Jesus na causa e um caminhão de anjos
    Deixa pra lá;… vai dar tudo certo

  5. Caro Kotscho, na minha condição de cadeirante sofro com as calçadas há dez anos, eu prefiro “andar” na rua, junto ao meio fio do que enfrentar os desníveis, os aclives e a buraqueira dessas desgraças que foram um dia pensadas para “proteger” os pedestres de acidentes e dos egoístas que se dizem cidadãos. PENSE !!! O “caba” tem sua entrada de carro digamos um metro acima de altura em relação à rua, daí o “fela
    ” constrói uma puta rampa na frente da sua casa que ele vai usar só duas vezes por dia, pra sair e pra voltar, enquanto isso os idosos, a dona de casa com o carrinho de feira, a mãe com carrinho de bebê, os idosos, os cadeirantes e os “bengalantes” durante o dia todo são obrigados a escalar essas montanhas ou desviar para o meio da rua e tentar a sorte de sobreviver. Alguém precisa criar urgente um Código Nacional de Trânsito nas calçadas antes que nós todos viremos estatísticas.
    Tu é aventureiro novo nessa selva. Já passei por tantas que daria um livro!!!
    Em tempo : Já fizeram uma matéria jornalística comigo sobre esse tema, segue o link
    https://youtu.be/9HY-KNmeLSk

    1. “Alguém precisa criar urgente um Código Nacional de Trânsito nas calçadas antes que nós todos viremos estatísticas”. Meu computador tá sem áudio, mas pelas imagens dá pra sentir o drama. O PT tem 56 deputados federais, logo, dá pra criar bastante leis de trânsito.

  6. Feliz Ano Novo, caro Kotscho. Toda vez que contemplo a Arte incomparável do Paulo Caruso, fico a pensar que o fiel burrico de tantas jornadas… está a tirar um sarro do teu desafio anual. Olhe a pose e a postura com que domina a feliz charge, seus olhos estão a dizer: “também estou vivo e por vários lustros terei a companhia do Ricardo e família. Fico triste, nunca fui convidado a acompanhá-lo, ele, certamente, não quer que eu encontre uma cara metade pelo caminho. Certa noite ouvi o Kotscho dizer para os seus: “não há mais lugar na charge”. A sorte é que tenho o telefone do Caruso, qualquer dia desses… Tudo isso pra dizer que estamos bem vivos! Zé Ferino tem certeza, caro burrico. E mais: Morto parece ter nascido esse MF-TJM… ( Movimento fundamentalista teocrático-jurídico-militar)
    Muita paz a todos.

  7. Kotscho, além dos obstáculos todos citados faltou um. BUNDAS !!! (especialmente as de mulheres)
    Eu nunca imaginei reclamar disso na minha vida mas o fato é que elas (as bundas) são também muito perigosas. Explico :
    Todo cadeirante fica com a cara mais ou menos na altura da bunda de quem caminha a sua frente. No caso das mulheres (e aqui não cabe nada de machismo por favor) ocorre uma ação naturalissima que é a lentidão com que caminham devido às vitrines das lojas,temos que ficar sempre alerta pois quando (quase sempre) elas dão aquela parada brusca e inesperada, não há tempo de reação e o atropelamento é certo!!! Elas não tem aquela luzinha de freio como tem os carros!!! São um perigo pra quem vem atrás e que se atropela o cadeirante ainda pode ser processado ou ter a sua cadeira apreendida para o resto da vida!!! E quanto maior a bunda, tanto pior, porque elas tapam a visão lateral dos espaços a frente impossibilitando as ultrapassagens.
    O Bozo que é especialista em assuntos idiotas, estúpidos, insignificantes e sem noção, “tem que ver isso aí, talquei? Uma solução para normatizar o trânsito de bundas.

    1. Nota 10 e com louvor. Impagável ! Enio, só mesmo você para tal insight contextual e nobreza de pena. País de “otoridades”, bundões, lacaios dos dominantes.

  8. Eu fiz uma artrose de quadril que me mostrou uma utilidade insuspeita da bengala. É que ao ver um idoso de bengala as pessoas se tornam subitamente gentis. Até motoristas me davam preferência ao atravessar a rua. Já fiz minha cirurgia mas eventualmente ainda saio apoiado porque ajuda mesmo.

  9. Caro amigo Kotscho,no brasil(minúsculo mesmo),criam dificuldades para poder vender facilidades(no caso, seguro)e voçê acabou pagando 10 reais mensais para provar que está vivo!
    É o brasil amigo!!!
    Alguém tem dúvida de que nesta estória só os bancos que ganham!!
    E eu depois de 2 semanas de ferias, sem tv,sem internet, sem celular e com muita paz de espírito voltei!
    Confesso contra minha vontade ,pois,ficar 2 semanas longe das notícias ruins ,já é uma boa notícia!!
    Força amigo,estou de volta e juntos na resistência!!

  10. A propósito da saga dos ‘valores indevidos da aposentadoria’, lembrei da indignação ao ler em 2000, reportagem em que novo rico gabava-se por atitude inversa a tua, exibindo-se sem qualquer receio.
    Garimpei-a e não encontrei, mas na Piauí, edição 11/2008, em “De zero à esquerda a muitos zeros à direita”, achei trecho relativo ao caso:
    “(…) o empreendedor dormia no sofá da sala do apartamento de um quarto em que morava com a família – a avó, a irmã e a mãe. Os quatro viviam da aposentadoria da avó. Todo dia 5, ela ia com o neto até o caixa eletrônico retirar o dinheiro. (…) Fez assim até ser atropelada.
    A dor do luto veio acompanhada de um aflitivo “E agora?”. Alexandre imaginou que o banco talvez não soubesse do óbito. No dia 5 seguinte, digitou a senha e sacou o dinheiro. Foi o que sustentou a família por seis meses.
    “Eu tenho certeza que a minha avó me protege. Logo depois que ela morreu a minha vida começou a dar certo”, disse.”
    Assim, Alexandre Accioly, hoje apontado operador de esquema de corrupção a favor do inimputável amigo Aécio Neves, regojizava-se que, graças a aposentadoria da avó falecida, conseguiu sustentar-se no inicio da ‘Quatro A’, empresa de telemarketing que o fez embolsar R$ 150 milhões, ao ser vendida a Telefonica.
    Coisas do Brasil, né, Mestre?

  11. Prezado Kotscho: Acho que não serve de consolo. Mas você não está sozinho nessa luta diária para ser um pedestre ou ser um cidadão que trabalhou mais de cinco décadas e precisa receber a pensão do glorioso INSS. De fato as “Faixas de pedestres, como sabemos, não passam de enfeite em São Paulo.”. Gostaria de saber quem foi o gênio da lâmpada que as inventou. Você sabia que a parte pintada de branco quando chove é escorregadia? Já escorreguei e caí duas vezes com guarda-chuva e tudo e só não me estraçalhei por pura sorte. E simplesmente andar na calçada? Você descreve bem a dificuldade: “Vira e mexe esbarro em alguém digitando furiosamente no seu aparelho, que passa por cima de mim, sem nem reparar que eu existo.”. Acrescento a esse cenário os idiotas que andam de bicicleta nas ciclovias, sem as mãos, sem olhar para quem vem na outra mão, porque estão pilotando os malditos celulares. Por várias vezes já me livrei de colisão e foi por pura sorte. Na hora a mãe deles foi bem lembrada. “Mas provar que você está vivo até que não é tão complicado.”. Pode até não ser muito complicado ter que provar no banco para não ter a interrupção da pensão do INSS. Mas é revoltante, porque, até onde sabemos, até agora não deu em nada o depoimento do PM motorista Fabrício Queiroz que trabalhou para aquela proba família. Esse sim é muito vivo e não precisa provar nada, certo?

    1. Caro Heraldo, bem lembradas as faixas de pedestres. Vou te dizer mais uma : Guias rebaixadas para cadeirantes!!! Para cumprir lei, prefeitos do país inteiro, principalmente os de São Paulo, fazem esses acessos no modo “que se foda”!!! Cortam a guia da calçada, metem lá um cimentado e depois com os sucessivos recapeamentos de asfalto a “obra” vira um “canyon” intransponível onde todo cadeirante entala e só sai por levitação ou ajuda de boas almas. Em São Paulo só as guias rebaixadas da Av. Paulista e algumas no centro expandido seguem o padrão exigido talvez para “saírem na foto”, na periferia nem tem e quando tem causa pânico. Você sabia que as guias rebaixadas de Fortaleza, Curitiba e Salvador tem degrau ??? Pois tem !!!! Certa vez eu disse a minha amiga Luiziane Lins, então prefeita de Fortaleza que ela deveria construir guias rebaixadas para as guias já rebaixadas de sua cidade, numerosas e bonitas (porém ineficientes) para os cadeirantes cearenses tentarem acessar as ruas.
      Como dizia o “Jaime” (personagem de Chico Anisio), É IMPISSIONANTE !!!

  12. Bueno,
    agora , colegas internautas, ousarei cometer um pedido.dicazinha.prece.sugestão a quem quer que trabalhe com estes periféricos com mais facilidade do que eu:
    Que tal você pegar um pen drivezinho e ai for gravando todo o santo dia um, dois ou mais dos twitteres e similares de Jair messias e seus mais próximos comandados. Com a data e o tema, nada mais. Um pouco de disciplina dia a dia pra começar.
    Grande matéria prima para os historiadores, teatrólogos e humoristas – seja isso posto na ordem que quiserem
    PS.
    Por ultimo devo de dizer que realmente apreciei a tese baseada na nova perspectiva baseada anatomia geopolítica das bundas. E pensarei mais a respeito.

  13. Feliz Ano Novo, meu caro Kotscho, que você continuo vivo por muito tempo!
    Outros desafios nos aguardam e seu humor afiado vai nos ajudar a enfrentá-los.
    Grande abraço,
    Ubalda

  14. É caro Kotscho é triste mas é verdade
    Lembrei- me de um incêndio terrível acontecido no Rio de Janeiro há anos atrás no edifício Andorinha onde morreram várias pessoas entre os quais aposentados que ali estavam para fazer a prova de vida.Ironico não? Quanto a questão do óbito fui informada uma vez por um advogado que quando um cartório lavrava a certidão de óbito de um segurado ou pensionista isso era automaticamente informado ao INSS. Pergunta se eu acreditei? É ruim hem? Conclusão ser idoso nesse e em qualquer país do mundo é ser invisível aos olhos e ao coração. Vida que segue.

  15. A tarefa parece menos árdua para mim. Utilizo qualquer terminal do banco Bradesco para prova de vida. Basta fazer um saque dentro do mês solicitado e através de biometria da palma da mão a prova de vida é realizada, sem qualquer tipo de contato com funcionários do banco.

  16. Um dica, querido amigo. Pego táxi para andar um dois três quarteirões se for o caso, especialmente depois das 10 da noite quando tudo ameaça cabeças brancas como a minha. Mas para o motorista não achar ruim já vou avisando que nunca pago menos de dez reais. Eles gostam, riem comigo e dá tudo certo. Realmente correr o risco de ser atropelado por quem nem se enxerga porque está abduzido pelo celular, é de lascar. Abração saudoso.

  17. Kitscho, com toda irritacao, percalços, dissabores, inconveniências, esse ainda e o melhor método para evitar fraudes. O que poderia ser feito, e aplicar um sistema biométrico pra agilizar a conferência, evitando ter que entrar na agência e ser agraciado com 300 ofertas de serviços e enfrentar a fila de espera.

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