Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC

Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC

Lauro Jardim no Globo desta quarta-feira:

“A uma semana da posse, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro passaram o Natal ontem puxando briga no Twitter. Os alvos foram partidos de esquerda, a imprensa e até o Facebook. Um Natal em paz.”

***

No final de 2002, nesta mesma época do ano, às vésperas da passagem de poder de FHC para Lula, o Brasil era um outro país, movido a alegria e esperança.

Brasília vivia dias de festa.

Ninguém falava em esquemas de segurança para a solenidade de posse, ninguém tinha medo de nada, um clima de alto astral tomava conta da cidade..

Eu já estava lá há quase dois meses, trabalhando no governo de transição.

Não dava conta de ir a todos os almoços e jantares que varavam a madrugada, com jornalistas e funcionários do antigo e do novo governo, misturados nos mesmos bares e restaurantes, muitas vezes na mesma mesa.

Acho que foi nessa época que comecei a ficar gordo.

É impressionante o contraste com o que vemos agora, a menos de uma semana da posse do governo Bolsonaro.

Para lembrar como foram aqueles dias, recorro mais uma vez a meu livro de memórias (“Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, Cia. das Letras).

Antes do final do ano, Marisa convidou minha família para almoçar na Granja do Torto.

Não fosse a presença de Martins, o mordomo, dos garçons e seguranças espalhados dentro e fora da residência, eu não teria notado nenhuma mudança nos hábitos da família Silva desde a primeira vez que fui à casa deles na Vila Pauliceia, no ABC, em 1978.

Nem o cardápio mudara: arroz, feijão, bife, salada. Tinha-se a impressão de que ninguém ali vivia a ansiedade do momento histórico que antecedia a posse do primeiro presidente operário do Brasil.

Acho que o mais nervoso era eu, preocupado com o gigantesco esquema de cobertura da imprensa nacional e estrangeira que me consumira nos últimos dias.

Tudo fora acertado em comum acordo com a equipe da minha amiga Ana Tavares, secretária de imprensa de FHC, e o pessoal do Itamaraty, como se pertencêssemos ao mesmo governo.

Após nossa derradeira reunião, Ana me deu o conselho final:

“Vou tirar todas as minhas coisas daqui até amanhã. No dia da posse, é bom você colocar alguns retratos da família e deixar a Mara aqui tomando conta. Se não, vão acabar te tomando esta sala…”

Eu já tinha ouvido falar de disputa de poder dentro de governos, mas não imaginava que elas envolvessem também salas, tamanho de mesas e tipo de cadeiras.

O dia da posse amanheceu bonito em Brasília, depois teve até arco-iris no cerrado.

Enquanto a multidão começava a tomar todos os espaços na Esplanada dos Ministérios, lá na Granja do Torto Lula ainda dava os últimos retoques no discurso que pronunciaria no Congresso Nacional, o mais importante do dia.

Mas não foi por isso que quase Lula se atrasou para a cerimônia.

Quando o comboio presidencial, que tinha até uma ambulância, já se preparava para sair do Torto, Marisa se lembrou que precisava prender Michele, a fox terrier do casal, que vivia correndo pelos jardins.

Pouco antes das três da tarde, hora marcada para o início da festa na esplanada, Lula e Marisa embarcaram no carro com a bandeirinha e as placas da Presidência da R$pública.

Naquele momento, descobriram que a vida deles passaria a ser cronometrada por dois militares, que logo se tornariam amigos do casal: Marco Gonçalves Dias, coronel do Exército, o chefe da segurança, e Rui Chagas Mesquita, tenente-coronel da Aeronáutica, chefe da ajudância de ordens. Estava na hora de partir.

Lula queria porque queria abrir as janelas do carro blindado que estavam travadas por questões de segurança.

Brincando com o coronel Gonçalves Dias, ameaçou pular do carro para cumprimentar as milhares de pessoas que se espalhavam por todo canto no caminho do Lago Norte até a catedral de Brasília, na entrada da Esplanada dos Ministérios.

O problema foi resolvido quando Lula passou para o Rolls-Royce modelo 1953, o conversível que o levaria primeiro ao Congresso Nacional.

No início da rampa do Congresso, onde o carro enguiçou e precisou ser empurrado por seguranças, Lula ficou comovido ao ver o povo se jogando nos espelhos d´água diante dele para saudá-lo.

Foi a imagem mais bonita que guardei da posse.

Depois, na subida a pé da rampa do Palácio do Planalto, era difícil saber quem estava mais emocionado: se o presidente que entrava ou o que saia.

Lula e Fernando Henrique pareciam dois velhos amigos se reencontrando na hora de um passar a faixa para o outro.

No final da cerimonia, ao se despedir do presidente que saia, na porta do elevador do segundo andar, Lula lhe estendeu a mão e disse: “Fernando, saiba que você terá sempre um amigo aqui”, o que deixou FHC com lágrimas nos olhos.

Como Lula e sua sucessora Dilma Rousseff foram reeleitos para um segundo mandato, esta seria a última passagem do poder de um partido para outro nos últimos 16 anos, um inesquecível exemplo de civilidade, dignidade e tolerância, algo tão em falta no Brasil de hoje, a exemplo do que se pode ver na abertura deste texto.

O que era para ser uma festa da democracia agora virou uma guerra com data marcada para começar. Bons tempos, aqueles.

Vida que segue.

 

28 thoughts on “Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC

    1. Silvana, um dia alguém vai conseguir explicar o que houve com as milhões de pessoas que, como você, enxergam tudo ao contrário. Se queixam do Brasil que crescia e faz festa no Brasil que se acaba. A situação em que fomos metidos é obra de milhões de infelizes incapazes de lidar com a alegria alheia. Só isso explica o fato de, mesmo vencedores, continuarem infelizes. Você vir a este espaço, notadamente oposto ao que você defende, somente para deflagrar o seu “viva bolsonaro” já denuncia todo o seu rancor, que não se esvaiu com os resultados das eleições. Você é infeliz, o que é uma pena, porque decidiu se juntar a milhões de infelizes para socializar a infelicidade que sentem.

  1. “Lula e Fernando Henrique pareciam dois velhos amigos”.
    Como disse Vinícius de Moraes, a vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. O que será que aconteceu que afastou esses dois a ponto de se colocarem em lados tão opostos?
    A vaidade ou orgulho de ambos, não sei, podem ter contribuído para nos trazer ao triste lugar em que nos encontramos agora.
    Essa é uma característica da política ao redor do mundo e certamente é uma das que eu menos admiro.

      1. É, Ênio… FHC entregou o país quebrado para o Lula, depois de controlar a inflação que durava décadas, a Dilma foi tirada de um governo bombando, e o Temer destruiu tudo em 2 anos… Puxa vida, desculpe, ia me esquecendo que o PT criou o Brasil. O partido que foi contra a constituição, contra o plano real, do fora FHC, que se apropriou dos programas sociais da Ruth Cardoso… Como bem disse FHC “Lula não sabe criar onda, surfa na onda dos outros”

        1. E tu ainda surfa na onda do PSDB.
          Se “os programas sociais” Ruth Cardoso e FHC foram tão espetaculares como tu diz, por que a prancha se espatifou ???

          1. Desculpe, Ênio, ia me esquecendo, o Lula criou a onda Dilma, a gerentona super competenta. E pode tirar as aspas de “os programas sociais” de Ruth Cardoso, pois existiam de fato, tenho uma assistente social na família que trabalhou à época, Vale Gás, PETI (Programa de erradicação do trabalho infantil), entre outros. Como bem disse o Hélio Bicudo, o Zé Dirceu, aquele líder partidário que prestava “consultorias”, neste caso convém as aspas, esperto que só, com a ajuda dos marqueteiros do partido, transformou os programas da Ruth no Bolsa Família, o maior cabresto eleitoral da história do Brasil. Bem de Zé Dirceu e seus marqueteiros, Duda, Xepa e Feira, nem é preciso dizer muito. Fé cega faca amolada. Cuidado com a devoção, Ênio.

        2. Se não pensar, não informar-se, abster-se da lógica e replicar besteiras, pagassem impostos, o Brasil certamente estaria mais inteligente, informado e desenvolvido.

      2. Enio, esta é a visao mais rasa que eu já vi sobre qualquer situacao…”FHC quebrou blah,. blah”…patética análise. Um excelente ano novo a todos…

      3. É fato, FHH entregou o país a Lula com US$ 17 bilhões de reservas, mais US$20 bilhões, saldo do empréstimo do FMI em 2002, para socorre-lo na última quebra e quitado por Lula em 2015, com o Brasil passando a ser credor do FMI. Lula deixa o governo em 2010, com reservas de US$288,5 bilhões e Dilma inicia seu segundo mandato, em 2015, com US$374 bilhões de reservas internacionais, que explicam o Brasil nunca mais ter quebrado, inclusive na atual crise turbinada pelos golpistas e que entra em sua quinta temporada.
        É fato, FHH e quase todos países vizinhos, “controlaram” a inflação, após década de planos e mais planos, tanto quanto nós e os vizinhos, “derrotamos”, no mesmo espaço de tempo, as longevas ditaduras sofridas, como sofremos hoje golpes jurídicos-midiáticos que espalham-se pelo continente, como passe de mágica soprada do norte, como antes sopraram, a inflação e as ditaduras, que como passe de mágica também terminaram, no mesmo espaço de tempo.
        O PT não criou o Brasil, quer apenas livra-lo do peso da desigualdade campeã mundial, criada por entreguistas suportados por medíocres, através de séculos, condenando-o a miséria e consequentemente ao atraso.
        Afinal, a lapidar, “Masturbação Sociológica”, a que(m) mesmo se destina?

  2. Tenho 73 anos e não me lembro de alguém tão despreparado para o cargo como essa família. E não estou falando de opções político-ideológicos ou algo que o valha, mas de educação básica, respeito pelo outros e coisa e tal. Verdadeiros cafajestes.

  3. Olá RK.
    É difícil de entender, e talvez você consiga explicar a razão pela qual Lula trocou o “você terá um amigo aqui” pela “herança maldita”.
    FHC e Lula/Dilma tem muitos prós e muitos contras nos seus governos, mas a beligerância atual, no meu modo de ver, tem bastante a ver com essa necessidade de, sem descanso, tentar massacrar politicamente quem é adversário, necessidade essa praticada incessantemente por Lula desde que assumiu o poder.
    Não sou ingênuo de achar que isso explica a eleição do capitão, mas ajuda e entender boa parte desse Fla Flu que se tornou política no Brasil.

  4. Ninguém importante virá à posse deste chefe dos Btralhas pois estão com medo da contaminação pela falta de escrúpulos, competência, pela enganação dos 27 anos como membro do baixo clero, pelo patrimônio não explicado, pelo uso do auxílio moradia “prá comer gente”, pelos robos ilegais de campanha, pelas ameação à ex mulher, pelas idéias em geraL, enfim, pela burrice generalizada da família.

  5. O Fernando Henrique sempre foi corretíssimo com o Lula antes, durante e depois da posse. Pena que a recíproca não foi verdadeira. O Lula tinha como mantra “herança maldita”. Foi de uma deselegância tremenda. E essa postura contaminou todo o partido, portanto não podem reclamar do isolamento. Você é um jornalista extremamente ético, mas é estranho essa memória seletiva.

    1. Mônica, meu texto é sobre o clima em Brasília nos dias que antecederam a posse e a transmissão do cargo, não sobre o que aconteceu depois.
      Não é um comentário político, apenas rememoração de fatos que acompanhei. Não se trata de memória seletiva, até porque eu sou amigo dos dois. Abraços

    2. Hoje, 5a feira 27, estamos sabendo que, na posse do capitão que lava roupa será assim:
      1-diz q nao sabe se será carro aberto de brincadeirinha pois s.a.b.e. muito bem;
      2- periodista nao poderá entrevistar autoridades, claro
      3- periodista algum não poder entrevistar o povo na praça (isso mesmo que voce leu)
      4-Mochila pra periodista credenciado levar seu equipamento, nem pensar, jamais!
      PS.
      Não foi esclarecido se podem cochichar entre si ou ainda entrevistar cachorro nas ruas próximas.
      Sobre periodistas da Tv Record nada disse nem lhe foi perguntado.

  6. Está mesmo mais jeito pra guerra do que pra festa, que Deus cuide do nosso Brasil na mão desses insanos. Belo texto, poder relembrar fatos relacionados ao ex presidente Lula com tanta expectativa de mudança na época é muito bom. Obrigada

  7. Kotscho, o Poder Judiciário Federal e o MP já se encontram garantidos. Salários reajustados tudo nos mínimos detalhes. Claro, no pulo do gato; certeiro, antes da mudança do Governo.
    Os Bancos, como sempre, garantidos em seus ganhos. E ninguém, vai mudar isso. Ou melhor, vamos mudar a denominação, algo assim que pareça mais nobre. Sistema Financeiro.
    Em seguida os interesse dos Neos. Que também acho que se encontram em posição confortável. Certeza que já existe boa reserva de promessas assegurada aos “dizimulados”.
    E assegurado certamente o reajuste dos soldos e salários das Forças Armadas e o plano de carreira, que irá acontecer já no início do News Governo. Se bem que os miliares, comparando, não ganham tanto assim.
    E assim é que a vida dos brasileiros segue. Todos sabemos que a situação o povão continuará na mesma.

  8. A diferença está em quem perdeu. Lá a derrota foi levada numa boa, ninguém ameaçou o vencedor, inventou reportagens fake contra ele nem nada. Era gente civilizada. Mas os derrotados de agora são pessoas rancorosas que estão vendo suas fantasias de poder naufragarem. Até matar o vencedor tentaram, só faltava você querer que ele não se cuidasse.

    Mas a festa de quem venceu é a mesma, talvez até maior agora porque existe o alívio de termos nos livrado desse encosto de década e meia, oxalá para sempre.

    1. ernesto, quanto bobagem. Quem tentou matar o “vencedor”, se a campanha apenas tinha começado? O mito que aí vem foi o maior criador de fake news da história, fato comprovado por tudo e todos. E como é que há 16 anos a derrota foi levada numa boa se tudo fizeram para caluniar o Lula e demonizar o PT e, posteriormente, pedirem o impeachment de Dilma? Em que país você vive? Aliás, nome próprio se escreve com letra maiúscula, tá? Deixe de ser fake e mostre sua cara.

  9. Prezado Kotscho: Se na época da primeira posse do Lula “Ninguém falava em esquemas de segurança para a solenidade de posse, ninguém tinha medo de nada, um clima de alto astral tomava conta da cidade.”, concordo que o clima para os que vão subir a rampa no próximo dia primeiro de janeiro pode ser bem diferente. E isso será um sinal de que tem um monte de gente, digamos uns 75% da população brasileira, que não está muito de acordo com o que teremos pela frente. “Desconfiança é a melhor parte do conhecimento.” (Mahatma Gandhi).

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