Em Brasília, estreia esta semana a Era Bolsonaro: o que nos espera?

Em Brasília, estreia esta semana a Era Bolsonaro: o que nos espera?

“Foi uma sucessão tão alucinante de notícias e eventos trágicos para o país que a sensação é de que passou muito mais do que uma semana; o país parece aprisionado por um pesadelo” (Mauro Lopes, jornalista, no Brasil 247).

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É a mesma sensação que tive, mas foi apenas uma amostra grátis do que vem pela frente.

A estreia oficial da Era Bolsonaro acontece esta semana em Brasília, na terça-feira, com a entrada triunfal do presidente eleito no Congresso Nacional, onde ele passou os últimos 27 anos da sua vida como deputado do baixo clero..

Na quarta, ele será recebido por Michel Temer, ainda em exercício, e pelo presidente do STF, Dias Toffoli, para quem o golpe de 1964 foi apenas um “movimento”.

Em guerra aberta com a imprensa e com meio mundo, disposto a não deixar pedra sobre pedra nas relações diplomáticas do país, da China ao Mercosul, passando pelos países árabes, o ex-capitão vai conversar com aliados para começar a montar sua base de apoio.

Entre eles, reencontrará um terço do plenário com processos na Justiça e deputados que devem R$ 158 milhões à União, segundo reportagem do Estadão desta segunda-feira.

Se forem mesmo seus amigos, estes parlamentares lhe darão um choque de realidade e, quem sabe, explicar que um presidente da República pode muito, mas não pode tudo.

Baixar um pouco a bola e não comprar tantas brigas ao mesmo tempo, antes de tomar posse, pode ser um bom conselho para não queimar seu estoque de popularidade.

Nem Donald Trump, seu êmulo, pode tudo, como vai aprendendo aos trancos e barrancos.

Montado num tripé de superministros já indicados (general Heleno na Defesa, xerife Moro, na Justiça, e o polivalente Paulo Guedes, na Economia), Bolsonaro poderá finalmente explicar ao país quais são de fato as suas prioridades para tirar o país do buraco, algo que até agora não fez.

Certamente, não será liberando todo mundo para andar armado, reduzindo a maioridade penal e combatendo o inexistente kit gay, que o novo presidente poderá dar alguma esperança a 12,5 milhões de desempregados à espera de uma solução para o seu drama.

No encontro com os ex-colegas parlamentares, não deverá ter muitas dificuldades, porque sabe como as coisas ali se resolvem, a não ser que lhe peçam logo de cara uma anistia ampla, geral e irrestrita para as suas dívidas tributárias, e que o ministro Moro pegue leve com a Lava Jato daqui para a frente.

Temer poderá lhe dar boas dicas de como sobreviver ao mandato mesmo ameaçado por vários processos quando deixar o cargo.

Com Toffoli, poderá discutir o que, afinal, aconteceu em 1964 no Brasil, e o que pode ser feito pelo STF para garantir que a história não se repita.

Em sua beligerância permanente, Bolsonaro conseguiu arrumar confusão até com FHC, que estava quieto no canto dele, viajando pela Europa, ao colocar no Twitter uma foto do ex-presidente lendo o livro de um ex-premier chines, que foi deposto e preso, querendo insinuar que ele é comunista.

FHC ficou injuriado. “Isso parece como “prova” de que sou comunista. Só faltava essa. Cruz, credo!”, devolveu, também pelo Twitter.

Trump está fazendo escola por aqui. Haja Twitter!

O que será que podemos esperar?

Vida que segue.

 

23 comentários em “Em Brasília, estreia esta semana a Era Bolsonaro: o que nos espera?

  1. Caro Kotscho,sempre torci e torço para o Brasil dar certo,trabalho arduamente para que isto aconteça,mas fica dificil acreditar quando o “Nero” se elege presidente brasileiro prometendo colocar fogo em Roma (digo Brasil)!
    Agora é torçer para que o Nero brasileiro não faça nada do que esta prometendo e todos nós consigamos sobreviver aos proximos tenebrosos 4 anos!
    Força Amigo!Estamos juntos na Resistência!

  2. Responderia-lhe o realista, “o que prometeu fazer”:
    “O Brasil semelhante àquele que tínhamos há 50 anos atrás (sic)”, correndo risco de amantes da “última flor do Lácio” responderem-lhe que, atrás há apenas um.
    Mas deixemos desastres na língua, na política, de lado e curtamos os no futebol, onde Juca Kfouri, primoroso, tasca: “Agora só falta o Inter convidar o juiz que o beneficiou para ser diretor de futebol. E ele aceitar….”. (pano ‘fecha jato’).

  3. A regra n.o 1 da boa convivência: Dar tempo ao tempo, sem querer atropelar os fatos.
    Regra n.2 = Quem se elegeu, comandará. Quem perdeu, deve antes de mais nada, fazer uma auto avaliação do porque sua proposta foi rejeitada pelo eleitor. E se tiver juizo, faça uma oposição construtiva.
    Cabe aqui, uma lenda sobre a Águia : Quando ela completa 40 anos, ou ela caminha para a morte ou segue para o processo de renovação. Para tanto, ela voa para bem alto do penhasco e por lá imberna por um longo periodo. Primeiro ela arranca todas suas penas; depois bate com o bico nas pedras até quebrá-lo. Após este longo periodo de reconstrução, com novo penacho, o bico refeito e duro, salta em um voo triunfal, pronto para viver mais 40 anos.
    Não estaria no momento certo do PT escolher seu penhasco? Com exceção daqules que estão na gaiola, evidentemente.

  4. Se o mito tiver herdado o arcabouço administrativo dum Trump, já sairemos na frente como prova do crescimento vertical da economia americana – algo tão explicativo e justifica a tamanha inveja de partidários do bolivarismo da AL. Ele provou administrar bem até as suas empresas. Querer ignorar quem viveu como Bolsonaro 27 anos num parlamento complicado como o brasileiro “não é político”: isso é tese pra doutorado de cientista político lá da América, discutir. A primeira etapa que é a eleição já foi vencida. O articulista já começou mal quando iniciou seu discurso citando a fonte Brasil 247. Pelo menos, em tese, deu pequena trégua á Folha fonte sua de referência de leitor assíduo. Esquerdista nenhum gosta de citar o modelo chinês como protagonista principal de uma cena Econômica, pois, segundo eles, a China sempre escraviza o trabalhador fazendo-o trabalhar muito e com baixos salários. Sociólogos famosos, FHC, nem é exceção, estão sempre instigados porquê da China alcançar grande progresso no cenário internacional depois da 2ª guerra. Joga por terra ‘quem não é o maior tem que ser o melhor’. Mas a China é grande em tudo: até no mercado consumidor. Sei não, os chineses têm investido muito em ‘terras’ brasileiras – já basta nosso minério que vai, e ainda compete conosco no preço do aço. Isto é tema de maior investigação pelo Ministério da agricultura/comércio e a câmara dos deputados. Acho que o segredo Deles é muito planejamento e muito trabalho. É só analisar seus projetos de pontes. Sem dúvidas, trata-se do maior mercado consumidor do mundo. Mas impor regras de política externa ao nosso país, como premissa ou condição inicial, jamais poderemos admitir. Nenhum presidente sozinho consegue consertar o Brasil. Nem colocá-lo no eixo do Desenvolvimento sem a colaboração de todos; sem distinção de cor partidária. Sem preconceitos.

  5. E esperar a liberacao do porte de armas e ver o que acontece depois. As SS Bolsonazi imaginam que se elas terao carta branca. Quando o morro faminto e maltrapilho descer , legalmente armado, não haverá drones o suficiente para dete-los.

  6. É secundário, mas parece existir um desejo de apagar o Kit Gay, tratado em seu artigo, e em vários outros, como “inexistente”. Ora, basta uma pesquisa no Google para achar filmes do kit, declarações de quem participou da sua confecção e entrevistas com próprio Haddad sobre o tema (nas quais, aliás, se utiliza a expressão “kit gay”).

    Hoje em dia, não adianta negar o que já está na rede. Se o PT se arrependeu dessa iniciativa, não seria mais simples fazer uma autocrítica e pedir desculpas à população?

  7. Está muito aparentado com a fisionomia do Governo Collor e da sua Ministra da Economia. Collor também criou a figura do Super-Xerife encarnado em Romeu Tuma, que acumulou dois os dois cargos mais temidos da União: a PF e a SRF. Tuma comandava na Rua Tutoia, de sofredora memória, e foi chefe da Polícia Federal e também, simultaneamente, chefe da Receita Federal de Collor.
    Era o tempo do “Governo Jet-Ski” do “bateu, levou”, das gravatas Hermés e doe uísques Logan.
    Com espetaculares aparições sobre tatamis de karatê, Collor inventou até mesmo uma viagem ao Japão para demonstrar suas habilidades de faixa preta, na modalidade marcial ancestral nipônica. Deu no que deu.
    A diferença do “caçador de marajás” para o o “milicano youtuber”, sem dúvida, é sua sustentação castrense ampla e capilarizada.
    Com um vice da linha Médici duríssima e um chefe da Defesa que também mostra a sola do coturno sempre que pode.
    O que isso quer dizer? Por pior que seja, e o será, o presidente youtuber não cairá, como Collor e Dilma. Não cairá, de jeito nenhum, porque está sustentado pela corporação militar e policial que o apóia ostensivamente.
    Pode-se até dizer que o ex-capitão dispõe da maior “guarda pretoriana” já formada em torno de um presidente civil.
    Ademais, a oposição estará dividida e Lula não sairá da prisão nos próximos quatro anos, em virtude o xeque-mate no Judiciário aplicado pelo “presidente youtuber” combinadamente com o Super-Xerife Moro.
    O país continuará o seu processo de crises intermitentes, porque o youtuber presidencial não tem como entregar o que prometeu. A exemplo da ex-guerrilheira, o ex-capitão cometerá um estelionato eleitoral. A diferença é que, diferentemente da “mãe do Pac”, que nunca dispôs de nenhuma simpatia das casernas, o Youtuber dispõe de todas as divisões da marinha, aeronáutica, exército e das as guarnições policiais civis e militares, inteiramente fechadas com ‘ele’ na base do “agora-é-só-nóis-mano”.

  8. Uma coisa é certa.
    Não haverá uma boa notícia sequer para o ex-presidente encarcerado.
    Há sinais de que a juíza substituta não quer ficar conhecida como a magistrada que aliviou a canga do ex-metalúrgico.
    Na mesma toada, o ministro do tucanato no STF dá sinais de que mudou a direção da sua “jurisprudência” e não mais arriscará ser ‘dinamitado’ pela “milícia bolsonariana’ (não confundir com bolivariano) na Web.
    Já estava ruim para o ex-presidente que tomou a decisão errada, influenciado pela sua péssima assessoria jurídica, de se entregar à Justiça da Casa Grande, em lugar de se asilar, como perseguido político, na embaixada francesa onde seria recebido com honras de chefe de Estado. A situação do ex–presidente deve piorar cada vez mais, a cada dia. Basta ver a decisão já antecipada do STF de escorraçar Cesare Battisti. O vento virou totalmente contra o ex-presidente, que agora não terá mais nem a esperança de uma mínima chance.
    Perguntar não ofende? O PT já virou as costas ao seu líder? Haddad já visitou, pelo menos, o seu “cliente”, considerando que sempre se apresentou, também, como o “advogado” de Lula? O dito popular está rigorosamente certo: “a gratidão é a mais volátil das virtudes”.

  9. Uma vez eleito,o presidente passa a ser o presidente de todos.Estamos todos no mesmo barco.Torcer para não dar certo -Não dá.Eu não votei no Bolsonaro,mas torço para dar certo na sua gestão presidencial.

  10. Tudo indica que teremos 4 anos de um governo Temer piorado.
    Daqui a seis meses a coisa mais dificil do mundo vai ser encontrar alguém que diga que nele tenha votado.
    O capeta já faz um estrago danado quando chega de improviso, imagina quando é chamado ???

  11. Prezado Kotscho: Se o ex-capitão, segundo matéria de Marcela Lemos para o UOL em 04/11/2018, “[…] afirma que sua eleição foi decisão de Deus […]”, pergunto: que Deus é esse que decidiu sua eleição? Seria o Deus da ditadura, da tortura, do racismo, da misoginia, da homofobia e da violência? Se a resposta for afirmativa, sou ateu graças a outro Deus que não esse.

  12. Caro Kotscho, bom dia!
    O Capitão pode (e tem) todos os defeitos e rompantes de ditadorzinho dos trópicos bananeiros, entretanto, que fique bem claro que em sua campanha virtual, em entrevistas, nas inúmeras declarações emitidas o mencionado candidato eleito foi muito claro a respeito de suas pretensões, de sua visão do mundo, de seu desprezo pela democracia, de seu desprezo pelos pobres, negros, mulheres e outros. Que os amestrados por ele e nele votaram não me venham, num futuro próximo, alegar que estão arrependidos e que foram enganados.

  13. Seguindo a regra que mesma ação leva ao mesmo resultado, ele está certíssimo. Tem que fazer tudo diferente mesmo e pra isso não pode ter medo.
    Que implemente tudo o que prometeu.

  14. Do Nocaute de Fernando Morais:
    “No discurso de agradecimento pelo Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que completava 40 anos, o jornalista Bernardo Kucinski, ele e a família vitimados pela ditadura, fez um cruel, melancólico e assustador retrato do Brasil de 2018. Leia a íntegra a seguir: “A escolha do meu nome para o Prêmio Vladimir Herzog deste ano como um posicionamento coletivo de repúdio aos que pregam como proposta de governo a violação dos direitos humanos, mais do que homenagem a um indivíduo. E agradeço por ter sido escolhido o instrumento desse gesto. Sinto-me honrado. 48 anos atrás, em 1970, tempos de ditadura militar, eu e minha mulher partíamos para Londres para o que se chamava então de exílio voluntário. Levava no bolso uma cartinha de recomendação do Vlado para o chefe do serviço brasileiro da BBC, onde Vlado havia trabalhado. Levávamos na bagagem os originais de um livro escrito por mim e pelo jornalista Ítalo Tronca, denunciando as torturas no Brasil – encomenda do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que o publicou na França com o título “Pau-de-Arara, a violência militar no Brasil”. Pouco depois, em julho do ano seguinte, Luiz Eduardo Merlino foi preso ao retornar ao Brasil e torturado no pau-de-arara, no Doi-Codi de São Paulo, comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Merlino sofreu ruptura da veia femural e foi deixado à morte. Tinha apenas 23 anos. Era um dos mais brilhantes jornalistas da nossa geração. Passaram-se quatro anos. No dia 25 de outubro de 1975 parti outra vez para Londres, para um breve estágio numa redação. Ao desembarcar, recebi a notícia de que Vlado tinha sido assassinado no mesmo Doi-Codi de São Paulo em que mataram Merlino. Ao visitar amigos na BBC soube que agentes da embaixada tentavam extrair declarações de que Vlado era mentalmente instável. Vlado tinha apenas 38 anos. Também foi um dos mais brilhantes jornalistas de nossa geração. Em 2008, passados 40 anos da morte de Merlino, Ustra tornou-se o primeiro oficial condenado em ação declaratória por sequestro e tortura, movida pela família de Merlino. Entretanto, oito dias atrás, já como reflexo dos novos tempos, o Tribunal de Justiça de São Paulo derrubou sentença condenatória da primeira instância. E dentro de três dias, num dos episódios mais extravagantes de histeria coletiva de nossa história, poderá se eleger presidente do Brasil uma pessoa que além de desqualificada, em todos os sentidos da palavra, tem como ídolo esse mesmo o coronel Brilhante Ustra, responsável pelo assassinato de Merlino e corresponsável com seus colegas de repressão pela morte de Vlado e outras 433 pessoas, entre as quais 210 desaparecidos políticos”.

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