Bolso-Moro: toma-lá-dá-cá da política entrou com tudo na Justiça

Bolso-Moro: toma-lá-dá-cá da política entrou com tudo na Justiça

“Ministro Moro é Judiciário com partido _ Os protagonistas da Lava Jato estavam e estão empenhados em um projeto político” (Reinaldo Azevedo, jornalista, hoje na Folha).

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A festiva entrega do Ministério da Justiça plus size por Bolsonaro para Moro, na quinta-feira, apenas escancarou o que todo mundo já sabia: o papel decisivo da Justiça na eleição de 2018.

Antes mesmo da eleição, como revelou o general Mourão, já tinha sido acertada a entrada triunfal do juiz de Curitiba no novo governo.

Caíram apenas as máscaras de um teatro jurídico-político montado desde 2014 pela Operação Lava Jato, para afastar do caminho quem poderia impedir a manutenção no poder dos golpistas que derrubaram Dilma e mandaram Lula para a cadeia.

Depois de quatro derrotas seguidas nas eleições presidenciais, montou-se um esquema muito bem planejado, em parceria com a maior parte da grande mídia e o mercado, para disseminar o ódio antipetista, em nome do combate à corrupção.

Nem tudo deu certo porque o PT não acabou. Chegou ao segundo turno, fez a maior bancada na Câmara dos Deputados e elegeu o maior número de governadores.

Mas o objetivo principal foi alcançado: retomar o poder que os militares e seus sócios civis haviam perdido três décadas atrás, agora aliados ao fundamentalismo religioso e a tudo o que de mais atrasado existe na sociedade brasileira.

A ordem unida era não perder de novo em 2018, quaisquer que fossem os meios e o preço a pagar para atender a variados interesses daqui e de fora.

Logo na abertura da sua coluna, Reinaldo Azevedo, que pode ser chamado de tudo, menos de petista, resumiu a ópera em latim:

“Consummatum est”.  Escreveu ele: “Sergio Moro fulminou a classe política e sai como um dos dois grandes beneficiários da razia que promoveu. Já é o primeiro na fila de sucessão _ quando Jair Bolsonaro quiser, bem entendido”.

Apenas um ano atrás, quando a operação por ele comandada estava prestes a atingir seus objetivos, Moro descartou qualquer projeto político em entrevista à revista Veja:

“Não seria apropriado da minha parte postular qualquer espécie de cargo político, porque isso poderia, vamos dizer assim, colocar em dúvida a integridade do trabalho que eu fiz até o presente momento”.

Danem-se os escrúpulos, a tal da integridade foi para o espaço, agora não há mais dúvidas: Moro preparou a cama para ele mesmo deitar e quem não estiver satisfeito que vá se queixar ao bispo (epa!) que será recebido neste Dia de Finados pelo presidente eleito em seu bunker na Bara da Tijuca.

No oba-oba generalizado que tomou conta do país, em que tudo foi rapidamente normalizado e aceito como algo natural na alternância do poder, poucas vozes se levantaram para denunciar a grande maracutaia consumada na véspera do feriadão.

Uma delas foi a voz do jurista José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de FHC, meu companheiro de lutas pelos direitos humanos na Comissão de Justiça e Paz comandada por D. Paulo Evaristo Arns.

Dias considerou “lamentável” a rápida troca de emprego do juiz: “Mostra um partidarismo, uma posição política absolutamente contrária à índole do magistrado”.

Na mesma linha, manifestou-se Carlos Ayres Brito, ex-presidente do STF:

“Esse tipo de mudança de camisa, tão rapidamente, projeta o inconsciente coletivo uma imagem pouco favorável dos membros do Poder Judiciário”.

Há muito tempo estes membros não parecem preocupados com sua imagem, a julgar por todas as decisões que tomaram ao longo da campanha eleitoral para beneficiar um lado e prejudicar outro, e definir o resultado da eleição.

Partidarizado e seletivo, como agora ficou tão claro no açodamento de Sergio Moro para aceitar o convite do novo governo, já de olho no STF, o Judiciário adotou a velha prática do toma-lá-dácá da política.

Agora, neste circo-hospício que virou o país, num passe de mágica, todos viraram cidadãos exemplares desde criancinhas.

Parodiando Tim Maia, fumantes inveterados fazem discursos contra o cigarro, velhos cheiradores querem combater o tráfico, escroques defendem medidas contra a corrupção, cafetões querem acabar com o grande meretrício nacional e sonegadores contumazes tecem loas a Sergio Moro, o superministro que vai botar ordem na casa mal assombrada sob a batuta do capitão Bolsonaro.

Só a mídia global, de forma quase unânime, achou estranha a manobra operada no Brasil.

“Bolsonaro nomeia juiz que prendeu Lula”, foi o título-síntese  da matéria da Reuters, reproduzida mundo afora pelos principais jornais.

Por aqui, nos telejornais da Record e da Globo, cada vez mais parecidos, a maioria absoluta dos entrevistados só elogiou o “gol de placa” de Bolsonaro, como fez a senadora gaúcha Ana Amélia.

De superministro em superministro, vai sendo montado no Twitter o novo governo da Barra da Tijuca.

São tantas as fusões de ministérios que os funcionários federais já nem sabem onde irão trabalhar no dia 1º de janeiro nem a quem se deverão reportar.

Do jeito que vai, a Esplanada dos Ministérios pode virar cenário de prédios fantasmas _ ou, então, tudo não passará da encenação de uma dança das cadeiras.

A Era Bolsonaro está entrando hoje em seu quinto dia, mas por enquanto, hoje de manhã, só apareceram no bunker um cabeleireiro e um alfaiate para preparar o terno da posse.

Bom feriadão.

Vida que segue.

 

22 comentários em “Bolso-Moro: toma-lá-dá-cá da política entrou com tudo na Justiça

  1. Caro Kotscho, aquele vídeo “sexo-rotatório-self-service” que circulou no submundo da internet com o suposto protagonismo de João Doria foi o símbolo dessa eleição e retrato desse “novo país”.
    Mas eu tô mesmo é “raparigado” (pra não dizer “puto”) é com os roqueiros dos Titãs !!!
    Eles pediram e os bichos escrotos saíram dos esgotos, ganharam do cidadão civilizado e assumiram o poder.
    VÃO SE FU…!!!

      1. Me refiro a letra de “Bichos Escrotos” gravado por eles há 32 anos atrás:

        “Bichos, saiam dos lixos
        Baratas me deixem ver suas patas
        Ratos entrem nos sapatos
        Do cidadão civilizado
        Pulgas, que habitam minhas rugas
        Oncinha pintada zebrinha listrada
        Coelhinho peludo
        Vão se foder!
        Porque aqui na face da terra
        Só bicho escroto
        É que vai ter
        Bichos escrotos saiam dos esgotos
        Bichos escrotos venham enfeitar
        Meu lar
        Meu jantar
        Meu nobre paladar
        Bichos, saiam dos lixos
        Baratas me deixem ver suas patas
        Ratos entrem nos sapatos
        Do cidadão civilizado
        Pulgas, que habitam minhas rugas
        Oncinha pintada zebrinha listrada
        Coelhinho peludo
        Vão se foder!
        Porque aqui na face da terra
        Só bicho escroto
        É que vai ter…”
        …E por aí vai

    1. Grande Enio, nessa tenho que contraditá-lo.
      Na minha opinião, não haverá simbolo maior a representar esse tempo, que a imagem congelada da ‘Consagração Magna de Malta’.

  2. Caro Kotscho!
    Seus textos são cada vez mais elucidativos. E é deles que nos servimos para consolidar cada vez mais nossas convicções…até que um dia a censura caia sobre nós! Já assisti esse filme em cores e agora começaram a reeditar com cores mais escuras.

  3. É só o começo, todos achando o máximo a indicação do todo poderoso juiz de Curitiba, varinha mágica de repente como uma faca mágica, vc sabe que com isso tudo acontecendo, minha imaginação não tem limites, tudo muito orquestrado.Parece um pesadelo.

  4. A edição especial de Carta Capital sobre as eleições chegou às bancas. Imperdível. A chamada de capa é antológica: “A arma dos imbecis”. Lembrou-me a certeira definição de Umberto Eco sobre as redes sociais como parteira das “legiões de imbecis”.

  5. Kotscho, brilhante artigo na coluna do seu colega da Folha Vinicius Mota sob o titulo Nunca uma derrota foi tão promissora para a centro-esquerda brasileira. Acrescento, Pelo menos deveria ser.

  6. Mestre, primeiro, após o genial parágrafo ‘Tim Maia’, permita-me não mais tecer loas diárias e oferecer logo um manto costurado com as ditas, pelos substanciosos biscoitos de palavras em textura fina produzidos em seu ‘teclado’ e oferecidos grátis nesse ‘nosso’ Balaio, nos últimos difíceis dias, valendo por mês de agradecimentos mais que merecidos, precisos, pois escrever sobre a merdalhada ‘NORMAL’ que boia à superfície do estado falimentar da moral, da ética e da razão, em que medíocres transformaram o Brasil, e daí extrair excelência, prazer da leitura, resistência e informação, não é para qualquer um, apenas para Mestres e com coragem.
    Segundo, deixar aqui o lido por aí, que diz-se de Brecht:
    “(…) A maior confusão reinava no povo. Muitos votaram no inimigo da democracia por serem democratas. Houve ainda o grande número dos descontentes, insatisfeitos com determinados partidos, a saber, os partidos existentes.
    (…) Insatisfeitos com seus tosquiadores, tratadores e pastores, os novilhos decidiram então experimentar o açougueiro.” (segue)

  7. Terceiro, em tempo do medíocre desdenhar da modéstia, ser moda, descubro que o melhor complemento ao fino degustar dos substanciosos biscoitos do Balaio, não é como pensava, comentar, mas sim apreciar e divertir-se com comentários dos ‘na moda’ e alguns ‘fora da moda’, a tecerem tantas e boas más lambadas no lombo amplo, geral e irrestrito, do PT.
    O divertido fica por conta de capricharem no desancar o PT e ignorarem por completo o fato de não haver na história política do Mundo, a partir do seculo XVIII, partido marcado para ‘morrer’, há anos, pelo establishment, com emprego de instituições como, judiciário, procuradoria, política, polícias, igrejas, monopólio da mídia, ‘o supremo com tudo’ e o maior líder preso para não derrotá-los eleitoralmente, e não apenas restar vivo, onde a maioria de partidos que o queriam morto, restaram mortos ou gravemente feridos, e ainda, contra tudo e todos, contando com a militância e o povo imune a adestramentos golpistas, elege não apenas o maior número de parlamentares e governadores, entre todos os partidos, como leva o candidato substituto do líder ‘impedido’, em um mês, a 45% dos votos válidos, apenas não vencendo na falta de tempo hábil.

  8. Mais a conversa tete a tete no RJ com o embaixador imperial , a leveza e ar fagueiro dos militares, os acenos ao super poder de polícia, a falta de recursos para a tarefa…
    Nao sei se o RJ é bem Medellin mas pela cabeça de todos ai ja relampejou um novo plano Colombia.
    Non é vero?

  9. A republiqueta está montada. Para ficar melhor, só falta anunciar o Alexandre Feira, para o Ministério da Cultura, e instituir a nova “LEI Zé ruelê.

  10. com supremo com tudo!!!
    agora que o brasil regrediu 50 anos eu, quero desejar a todos feliz ano velho e dizer para que me acordem quando chegarmos no século XXI.

  11. Prezado Kotscho: De fato, como você chama atenção, o “objetivo principal foi alcançado: retomar o poder que os militares e seus sócios civis haviam perdido três décadas atrás” e acrescento que, outro objetivo (talvez o mais sórdido), é ficar no poder pelo menos por mais uma geração. Pela movimentação toda não me parece que o golpe vai parar nessa eleição que terminou com a vitória dos fascistas. Lembro que após o golpe de 64 foi assim e o governo militar durou amargos 21 anos. “Alô, liberdade. Desculpa eu vir assim sem avisar, mas já era tarde. Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar. E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz. Vem, mas vem sem fantasia. É sempre bom lembrar que um copo vazio esta cheio de ar.” (Chico Buarque de Holanda).

  12. Quando é que os petistas vão se conscientizar que o Lula é um preso comum, condenado por roubo aos cofres públicos, formação de quadrilha (e que quadrilha) lavagem de dinheiro, apropriação in débita (que ainda não foi condenado pelos 10 containers que levou) e todo o mal que fez para a nação. Tem um rosário de processos no lombo por desvio de conduta e ficam aqui neste xororô que é preso politico, igual o famigerado golpe na Dilma, que foi deposta por absoluta incapacidade de governar.
    Chega, está onde está porque escolheu este caminho, assim como os membros de facção criminosa também o fizeram e estão presos.

  13. É preciso que se volte a dar o nome correto às coisas. Imoralidade é pouco. Agente público que se vale do cargo para ajudar agente privado e recebe em troca dinheiro, prêmio, compensação ou cargo trata-se de caso de corrupção

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