Entrevistas mostram porque o “Mito” fugiu dos debates com Haddad: seria massacrado

Entrevistas mostram porque o “Mito” fugiu dos debates com Haddad: seria massacrado

“Você não acha que quem atua na sombra oculta a escuridão do seu passado?” (pergunta enviada pelo leitor Heraldo Campos ao Balaio).

***

As primeiras entrevistas de Jair Bolsonaro depois de eleito a emissoras de TV, na noite de segunda-feira, mostraram que os estrategistas nacionais e estrangeiros estavam certos ao não permitir que ele fosse aos debates com Fernando Haddad no segundo turno.

A diferença de preparo e conhecimento entre os dois candidatos era tão gritante que teria sido um massacre.

Tem toda razão o leitor que me enviou a pergunta que está na epígrafe, com o seguinte comentário: “Essas milícias da nova ordem já estavam aí atuando e agora elegeram um presidente para dar respaldo e legitimidade para elas”.

Passo a palavra ao colega Hélio Schwartsman, que lhe dá a resposta na coluna “Explorando as ambiguidades”, hoje na Folha:

“Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser eleito presidente sem ter dito o que pretende fazer depois de 1º de janeiro”.

Também não precisou sair de casa no segundo turno para olhar na cara dos eleitores mantidos a distância.

Se escapou de falar do seu passado nada recomendável, como militar e deputado, Bolsonaro também não conseguiu dizer nada sobre o futuro nas entrevistas, pois não tem a menor ideia de como enfrentar os principais problemas brasileiros.

Para se ter uma ideia, até agora o presidente eleito nada disse em discursos e entrevistas sobre a grande tragédia do desemprego, que atinge 12,5 milhões de brasileiros, segundo os novos números divulgados pelo IBGE nesta terça-feira.

Em suas respostas, com dificuldades para dar sentido a duas frases seguidas, o “Mito” só repete platitudes e generalidades, sem sair do varejo para apresentar um programa concreto de governo. “Precisa ver isso aí”, costuma repetir ao responder sobre qualquer assunto.

Eleito sob a bandeira do combate à corrupção, surfando na onda do antipetismo, com uma pauta evangélica nos costumes, a única coisa concreta que conseguiu dizer em cinco entrevistas é que vai convidar Sergio Moro para integrar o seu governo e cortar a verba de publicidade oficial dos órgãos de imprensa críticos e independentes.

A ameaça direta feita à Folha é um aviso para os demais: ou vocês me apoiam ou eu corto a grana.

Repete dessa forma o que Fernando Collor fez em 1989, quando levou para o Ministério da Justiça o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Francisco Rezek, que tinha lhe facilitado a vida durante a campanha e sumiu nas horas decisivas daquela eleição.

E também repete o general Hugo Abreu, que no auge da ditadura cortou as verbas oficiais do Jornal do Brasil, um dos poucos que manteve posição crítica ao regime militar.

“Começou mal. A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem”, escreveu o ex-governador Geraldo Alckmin no Twitter sobre as ameaças à Folha.

Estamos agora vendo tudo acontecer de novo, as piores práticas anti-republicanas recicladas pelo presidente eleito.

Nomear Moro é mais ou menos como convidar o juiz da partida decisiva do Brasileirão para ser o novo diretor de futebol do clube vencedor.

Não é para menos a gratidão: foi o juiz Sergio Moro, no comando da República de Curitiba, quem mais se empenhou para tirar da disputa o ex-presidente Lula, principal concorrente de Bolsonaro, que liderava todas as pesquisas antes de ser impedido de participar das eleições pelo TSE.

Cada dia o presidente eleito fala uma coisa diferente, desmentindo hoje o que os integrantes da sua equipe anunciaram ontem, como no caso da reforma da previdência, em que ele não tem a menor ideia do que pretende fazer.

Depois de levar um susto com a queda da Bolsa e a alta do dólar, no dia seguinte à eleição, ao contrário do que se esperava, agora Bolsonaro já admite aprovar “ao menos parte” da proposta de Michel Temer, tão criticada pelo futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que disse no começo de outubro:

“O Jair não era a favor dessa reforma, eu não sou a favor dessa reforma, a maioria das pessoas que apoiam o Bolsonaro não são a favor do que o Temer propôs porque ela é ruim, uma porcaria”.

Então, como ficamos? Que parte da proposta ele pretende que seja aprovada ainda este ano? Como não lhe perguntaram, também não se deu ao trabalho de esclarecer o distinto público.

Seus homens de confiança vivem dando trombadas entre si e com ele, dando uma ideia do que nos espera quando todos forem para o Palácio do Planalto em janeiro.

Assim como abri a coluna de hoje com uma pergunta do leitor Heraldo Campos, encerro também como uma frase de Carl Sagan que ele me enviou:

“Não seria demasia lembrar que os arautos das devassas ilegais, odiosas e fascistas acabam por ter que quebrar seus próprios espelhos”.

Ainda faltam dois meses para a posse.

Mas agora não há mais o que fazer a não ser rezar, de preferência bem longe do pastor Magno Malta, o capelão oficial, e do coroinha Alexandre Frota.

É o que nos espera.

Os primeiros sinais da nova ordem são assustadores e nada indica que as milícias bolsonarianas deponham as armas tão cedo, como relatei no post anterior.

Vida que segue.

 

 

 

28 thoughts on “Entrevistas mostram porque o “Mito” fugiu dos debates com Haddad: seria massacrado

  1. Caro kotscho,hoje após passado o terremoto das eleições tive coragem e curiosidade de conversar com alguns amigos que votaram em bolsonaro,uns por serem militares e ou parentes de militares,outros por serem evangelicos e ainda outros por serem por natureza anti pt.
    Todos me evitaram na reta final da eleição e agora me disseram que é por eu ser “muito chato”.
    Mas o que me surpreendeu nesta conversa e o nível de desconhecimento que estas pessoas tem de seu candidato eleito e de suas propostas,e pasmem são quase todas as pessoas “esclarecidas” e com curso superior.
    Sem fake news e olhando olho no olho a mascara do bozo caiu e estas pessoas já começaram a perceber o tamanho do erro que cometeram!
    Mas ainda tem muito lunatico pisicopada comemorando a vitória do bozo e se achando acima do bem e do mal,com direito de pregar e praticar todo tipo de atrocidade com que pensa diferente!
    E são contra estas pessoas e atitudes que devemos mirar nossa resistência e nos preparar para daqui a 4 anos termos lideranças com conteudo e propostas para realmente tirar o Brasil das trevas.
    No mais amigo e nos prepararmos para sobreviver a 4 anos de trevas que se anuncia!
    Força amigo!Estamos juntos na resistência!

    1. E o PT companheiro?
      O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor”

      Brasil 31.10.18
      06:33

      Ciro Gomes sempre insinuou que tiraria Lula da cadeia.

      Só agora, depois de voltar de Paris, ele entendeu que fez o cálculo errado.
      Ele disse para a Folha de S. Paulo:

      “O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor que criou uma força antagônica que é a maior força política no Brasil hoje. E o Bolsonaro estava no lugar certo, na hora certa. Só o petismo fanático vai chamar os 60% do povo brasileiro de fascista. Eu não, de forma nenhuma.”

      1. Caro joão, o bozo foi eleito com 55 milhões de votos sobre um total de eleitores de 147 milhões, ou seja 39%. Logo não teve o apoio do restante 61%.
        Não critico quem votou no bozo conscientimente ,por ver nele um defensor de seus anceios,só critico aqueles alienados que votaram nele sem conhecer o cadidado e suas propostas,e facista não é quem votou nele e sim todos que compactua com suas idéias e ideologias facistas!

  2. Caríssimo, brilhante e certeiro, como sempre é esse Balaio. Dito isso, discordo em gênero, número e grau o que diz Hélio Schwartsman.
    Hélio e Ricardo, Bolsonaro disse claramente o que pretende fazer. O projeto está todo no discurso gravado para o ato da Av. Paulista do dia 21/10/18. Para o resto das cousas que precisam serem feitas para e pelo Brasil o fato é que não existe qualquer projeto. Ouçamos pelo menos agora: “Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia”….
    “Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil.” …. ”
    Vida que segue, só não sei como. Abs

  3. Os PTistas até agora não entenderam (ou se fazem de desentendidos) do que ocorreu nesta eleição.
    Os eleitores não estavam preocupados com o que o Bolsonaro ia fazer ou deixar de fazer, mas sabiam perfeitamente o que o PT pretendia fazer (caso fosse eleito) . E por isso, somente por isso, reprovaram a tese da volta do PT. Bolsonaro é subproduto do expurgo do PT.
    Quanto ao debate, o coitado do bom moço do Haddad não mata nem barata no canto da parede. Até hoje está zunindo no ouvido dele, a resposta dada pelo Alvaro Dias no primeiro debate. Desmontou o coitado por completo

    1. O anti-trabalhismo sempre existiu, (desde que Getulio Vargas fundou o PTB) existe e vai existir. A desgraca e que vc elegeu um fascista descarado, que ate o grito de guerra roubou dos nazistas, “Alemanha?Brasil acima de tudo”. A partir de hoje e vidraca passa a ser seu candidato, e vc deve se preocupar com o que ele vai fazer, nao o que a oposicao vai fazer.

    2. Apesar de concordar com o Kotscho com todas faltas de virtudes no candidato eleito, também concordo com você que a vitória se deu pela certeza da maioria de não querer o PT de volta.
      Esta maioria se encontrava desesperada com a possibilidade do retorno do petismo (imaginando o ministério formado por: Dilma, Percadante, Pimentel I(MG), Pimentel II (CE), Lindemberg, Graziotin, Ideli Salvati…(e claro, Lula). E por isso se abraçaram a qualquer coisa.
      Sempre fiz analogia, que a escolha de Bolsonaro e Haddad para o segundo turno, “fariam os brasileiros se sentir se afogando, e agarrariam na “cauda do crocodilo” achando que era uma raiz.”
      Particularmente, também me sentir como a maioria, desesperado por ver a possibilidade do petismo voltar, apenas não me abracei a “cauda do crocodilo”!
      Mas os petistas continuam “vendendo” a chacota que o governo do PT era a salvação…
      Nem se dão ao trabalho de perguntar pq 57 milhões preferiram tentar a travessia agarradas a cauda de um crocodilo (sujeitas a virarem refeição) do que contar com a “salvação” do petismo!

  4. Neste últimos tempos, houve muita comparação entre a Besta e o Hitler. Há porém uma diferença gritante: além de grande orador, o Hitler não era exatamente um despreparado. Infelizmente ele foi para o lado errado da história e deu no que deu

    1. Discordo, caro Ari. O Hitler era tão tosco e despreparado como este capitão, ambos cretinos furiosos.
      Ele não foi para o lado errado. O lado errado era ele, que juntou milhões de adoradores, como está acontecendo aqui.

  5. Mestre, ressignificar o “Mito” talvez ajude a iluminar a escuridão que está apagando o país.
    Antes de devaneios outros, “mito é diferente de lenda, porque lenda pode ser uma pessoa real que concretizou feitos fantásticos, como Pelé, Frank Sinatra, [Mandela, Lula] etc.
    Mito é um personagem criado, como Zeus, Hércules, Hidra de Lerna, Fênix, etc.”
    “São narrativas utilizadas pelos povos gregos antigos para explicar fatos da realidade e fenômenos da natureza, as origens do mundo e do homem, que não eram compreendidos por eles.”
    O ‘Mito da Caverna’ ou “Alegoria da Caverna”, parte de “A República”, de Platão, ilumina e muito à compreensão dessa escuridão.
    Seus adoradores, nesse recesso da fábrica de ‘fake news’, bem que poderiam ler sobre o “Mito da Caverna”, para melhor compreenderem o “Mito da Caserna” não passar de reles alegoria, mambembe e medíocre, que fará o Brasil e os brasileiros, pagarem um preço altíssimo pela ignorância depositada nas urnas.

  6. O pior dos mundos não está na área política, militar ou judiciária. Um cabeça de bagre ultraliberal vai comandar a área econômica. Uma catástrofe está anunciada. Ficou explícita no anúncio de que o modelo continental a ser seguido é o chileno. Não podia ser diferente vindo de um ex-aluno da Escola de Chicago: o Ipiranga’s Boy.
    Pode piorar? Sempre pode.
    Vai piorar? Vai.
    Por quê?
    Não há apenas uma bomba, mas algumas, nos tambores do posto Ipiranga.

      1. Esta informação não é correta. Sempre li q ele foi professor universitário no Chile e por pouco tempo. Fiz uma rápida pesquisa e não tem nada dele no Ministério da Economia do Chile.
        ———————————
        …até receber um convite para lecionar na Universidade do Chile, no momento em que o país vizinho vivia o auge da ditadura com Augusto Pinochet.

        “O reitor me ligou oferecendo salário de 10?000 dólares. Eu ganhava o equivalente a 3?000 dólares dando aulas em três faculdades. Foi uma proposta irrecusável”, contou em entrevista à revista. Seis meses depois, após a polícia política de Pinochet fazer uma inspeção em sua sala na universidade, que ele considerou abusiva, e um terremoto assustar a sua família, o economista decidiu retornar para o Rio de Janeiro
        https://www.noticiasaominuto.com.br/politica/638071/conheca-paulo-guedes-o-mentor-de-bolsonaro

  7. Não sabia desse “detalhe”: a militância pinochetesca do Posto Ipiranga.
    Fica-me agora explicado o porquê de um “ultra-liberal” afinar tão bem o seu violino no tom de um filhote da ditadura.
    O dito popularizado está certo: “o diabo mora nos detalhes”. Aquilo que denominei de “bombas” nos tanques do Posto Ipiranga, o Mino Carta compara, hoje, em editorial, com “A ameaça do Apocalipse”. Confira:https://www.cartacapital.com.br/revista/1027/a-ameaca-do-apocalipse

    1. Logo logo, a partir do momento em que as bombas ultraliberais começarem a medir seus coeficientes de atrito, menos no Parlamento, mais na sociedade, os mesmos jornalões que apoiaram a ditadura (o tal movimento na dicção do ridículo e patético conceito tofoliano) vão contratar seus repórteres para identificar a historiografia dos membros do governo miliciano e da economia à moda chilena, ambos com lupa. Importante lembrar que a “solução chilena” quebrou a Previdência. O governo chileno de Eduardo Frei (La Concertación) foi chamado (leia-se como sendo uma tosquia dos contribuintes) para fechar o rombo produzido pela equipe dos sonhos dos então meninos de recado de Milton Friedman da Era Pinochet. Nada de novo no front miliciano. Apenas o retorno de um período “Déjà Vu” de rotundo fracasso e pesarosa memória.

  8. Prezado Kotscho: Você acha estranho o capitão eleito “convidar Sergio Moro para integrar o seu governo”? Afinal, o juiz tucano não vinha sendo pago para isso? “É possível encher livros com as frases antidemocráticas, racistas, misóginas, homofóbicas e de glorificação da violência proferidas pelo próximo chefe de Estado brasileiro. Nos últimos dias, unidades da Polícia Militar invadiram universidades públicas, dissiparam debates sobre os “princípios da democracia”, fotografaram estudantes e confiscaram cartazes que alertavam sobre a eclosão do fascismo. Bolsonaro disse sobre as ações: “A universidade não é lugar de protesto.” Agora, os cerca de 45 milhões de brasileiros que não votaram nesse homem se perguntam, com razão, em que lugares ainda será possível se manifestar contra o presidente.” – trecho da matéria “A “vingança do brasileiro médio” e outras análises da mídia europeia”, por Deutsche Welle, publicado em 29/10/2018 na CartaCapital.

  9. “As SS Bolsonazi estão se organizando, apenas aguardando a liberação do porte de armas. Isso não vai acabar bem.”
    Só um reparo ao prezado César T.: as milícias SS do ogro já estão matando e espancando, sem esperar pelo “liberou geral” das armas. O furdunço já havia começado antes do pleito, com os tiros nas carreata petistas e nos acampamentos diante da prisão de Lula, em Curitiba. Prosseguiram até o dia do primeiro turno, quando pouco depois do encerramento da votação deu-se o covardíssimo assassinado de Mestre Moa do Katende, em Salvador, cometido por um indivíduo que até então, era o que popularmente sempre foi descrito como “cidadão de bem”, um trabalhador e pai de família sem qualquer crime nas costas. E recrudesceram, com novo assassinato por meio de um tiro a esmo disparado numa caravana petista, no Ceará, assassinando um jovem que estava em companhia de sua mãe, dirigente sindical. As feras já estão agindo, e sem mais delongas. Só falta agora agirem em grupo com estandarte e banda tocando um sucedâneo do Horst Wessel Lied. Todos nós estamos ameaçados. E vai piorar…

  10. Kotscho, enquanto a esquerda tentar achar a explicação em Bolsonaro para ele ter sido eleito, menos tempo terá para corrigir os erros e ter chance de voltar a governar o País em 2022.
    Não fosse eleito Bolsonaro, seria o Amoêdo, o Dias, qualquer um q levantasse a bandeira anti-PT teria os mesmos 55% de votos úteis.
    Ofender estes 55% de cidadãos brasileiros de fascistas, nazistas, idiotas q não sabem o q estão fazendo, burros q acreditam em fake news, pobre q acha q é rico, preto q acha q é branco….. só vai fazer aumentar o número de anti-petistas.
    Bolsonaro foi eleito pelos erros do do PT, pelos casos de corrupção que assolaram o país, por ter feito este bloco PT/PMDB/PP para assaltar a Petrobrás.
    Mas o PT não assume, o eleitor do PT nega.
    Se não mudar o discurso e não afastar os personagens envolvidos em investigações, será alontanado até pelos outros partidos de esquerda. Ciro já o fez.

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