Anular o voto não é uma opção: a escolha agora é entre liberdade e violência

Anular o voto não é uma opção: a escolha agora é entre liberdade e violência

Fosse esta uma eleição normal entre dois candidatos disputando a presidência da República com diferentes propostas de governo, não teria problema.

Em todas as eleições, há os que preferem não votar em ninguém, digitando branco, nulo ou simplesmente se abstendo de votar.

Na antevéspera da eleição de 2018, no entanto, a taxa dos sem candidato ainda é de 14%, um recorde para este período da disputa, segundo a pesquisa Datafolha.

Ocorre que esta é uma eleição totalmente fake, fora de qualquer padrão de normalidade, definida por antecipação pelos tribunais e pelas redes sociais, fora de qualquer controle, sem regras nem punições aos contraventores.

Neste cenário, chegamos ao dia da eleição colocados diante de uma escolha entre liberdade e violência, que põe em risco a jovem democracia brasileira, ameaçada de voltar 50 anos no tempo, à época da ditadura militar, como já prenunciou um dos candidatos.

São tão gritantes as diferenças entre os dois finalistas no segundo turno, que não dá mais para ninguém ficar neutro e se recusar a fazer uma escolha que pode definir os rumos do país por muitos anos.

Se covardia é uma palavra muito forte, digamos que, no mínimo, é falta de responsabilidade para com o conjunto da sociedade e o destino das nossas famílias.

Durante as últimas semanas, esse foi um tema de muita discussão no animado grupo de zap-zap da minha família, que no primeiro turno votou em Ciro Gomes.

Gostei muito de uma mensagem postada pela minha filha caçula, a cineasta Carolina Kotscho, jovem senhora de 42 anos, dois filhos, que relata sua experiência pessoal meio traumática ao se situar entre os dois polos da disputa.

Chamada de “petista e comunista” por defender o voto contra o candidato militar, Carolina procura colocar um pouco de razão no clima de ânimos exacerbados e desânimos profundos que se alternam nesta ensandecida campanha eleitoral.

Abaixo, reproduzo, com muito orgulho, o depoimento de Carolina, mais uma prova da evolução da espécie. Acho que ela merece uma boa reflexão nas horas que antecedem a abertura das urnas.

Como amanhã estarei fora num compromisso de família, deixo aqui esta contribuição para quem ainda não decidiu o voto. Volto ao ar no domingo.

***

Por Carolina Kotscho

Julho de 1989. Enquanto o Brasil se preparava para escolher o primeiro presidente depois de 21 anos de ditadura militar, meus amigos estavam na Disney, o muro caia em Berlim e eu participava de um acampamento de jovens em Cuba. Eu tinha 13 anos. Para o mundo — e para mim — o comunismo acabou ali.

Passei o resto da adolescência e toda a vida adulta questionando e criticando o PT e por isso ganhei o quadro acima de Frei Betto, com quem tive o prazer de debater e discordar desde criança. Não fosse tão trágica a nossa situação, seria engraçado ser chamada de petista e comunista quase 30 anos depois. Não fosse em um tom tão agressivo, seria apenas cafona. Além disso, depois de 13 anos de governo do PT alguém ainda achar que “petista e comunista é a mesma coisa” também pode parecer piada, mas não passa de ignorância.

Nessa eleição, ser contra um candidato que defende a tortura e o assassinato ou a prisão de opositores, não me faz ser a favor do populismo ou da corrupção. Ser contra uma pessoa que não consegue formular uma única frase que faça sentido e que não contenha erros, mentiras, preconceitos ou impropérios, não me faz defender um regime que em nome da igualdade também calou, torturou e matou opositores mundo afora.

Não é hora de ofensas baratas. Não é hora de acreditar em frases de efeito ou de esperar soluções simples. É hora apenas de tomar consciência e unir forças a fim de evitar o pior para o Brasil e para cada um de nós.

Em todas as eleições entre 1994 e 2014,  PSDB e PT colocaram o projeto de poder acima do projeto de país, abriram mão da coerência ideológica e se aliaram ao que há de pior na política brasileira para se eleger e reeleger. Bolsonaro, com seu discurso nefasto, pode agora consertar o erro histórico de Lula e FHC ao unir o Brasil democrático contra ele e devolver alguma dignidade para a nossa política.

Reunir os eleitores, as lideranças, os bons quadros e as bancadas democráticas contra a barbárie é um bom recomeço para o Brasil. Ainda há esperança e se anular, embora pareça confortável, não é mais uma opção: qualquer movimento agora é uma escolha definitiva entre a liberdade e a violência. @cirogomes @viravoto #todoscontraele #haddadpresidente

(Texto publicado no Instagram @carolinakotscho).

***

Bons votos a todos.

Vida que segue.

 

22 thoughts on “Anular o voto não é uma opção: a escolha agora é entre liberdade e violência

  1. Parabéns, Carolina, lindo texto que retrata o que nós, cidadãos conscientes do que seja uma democracia, estamos vivenciando. É absurdo constatar como a ignorância do brasileiro é tão grande! Sabia que existiam pessoas sem nenhuma noção política, mas que brigam para defender o tal de boçalnaro, já é demais.
    Com o coração apertado, continuemos lutando.
    Amanhã vai ser outro dia. Quem sabe domingo…

  2. Quem representa a liberdade e quem representa a violência? Na minha opinião Haddad representa mais perigo a falta de liberdade e a violência do que Bolsonaro.
    Basta comparar os dois programas de governo. No programa do Bolsonaro não tem nenhuma ameaça a liberdade de imprensa e nem ameaça de violência. Só promete ser duro com a criminalidade. Já o de Haddad deixa muitos viés de dúvidas

    1. Quanta bobagem você escreveu em tão poucas linhas, J. Leite.
      Tenho certeza que você não leu nenhuma linha dos dois programas e está aqui só repetindo o que leu ou ouviu nas redes sociais do Bolsonaro.
      Tá na hora de você ter uma opinião própria, baseada em fatos e não em delírios. Já tem idade pra isso, como eu.

      1. Calma mestre. Eu tenho opinião própria. Li os dois programas sim. Ajudei a criar esse monstro chamado PT mas ao ser traído pelo Lula em 2003 virei oposição. Vi o PT transformar o governo numa milícia de corruptos que arrasou a economia do país. Hoje estou feliz ao ver o governo petista chegar ao fim.

  3. Caro Kotscho,concordo totalmente com a Carolina, quando voçê tem de escolher entre o bem e o mal não há que se ter o direito da dúvida!
    Quando terminou o 1°turno eu e todos os democratas deste país acreditavamos numa ampla frente democrática contra o mal que vimos insurgir,mas a maioria dos politicos de outros partidos agiram como aves de rapina,na espreita aguardando a proxima eleição!
    Somente o Boulos subiu no palanque,o resto é resto mesmo, se omitiu e ou se acovardou no momento mais critico da nossa democracia.Mas todos serão julgados pela história e condenados ao ostracismo pela insignificâancia que estão demonstrando neste momento!!!

  4. Parabéns pelo texto precioso da jovem Carolina…
    Principalmente por ter tido capacidade de conseguir encontrar uma escolha menos pior para o Brasil. Sim, qualquer escolha domingo será ao País. Tenho a humildade de declarar que pela primeira vez, desde 1992, (votei pela minha Cidade natal na Bahia, depois por mais de 12 anos entre SBC e São Paulo, e desde 2004, em João Pessoa, jamais anulei um voto sequer, seja para Vereador, prefeito, Dep Estadual, Federal, Senador(es), Governador ou Presidente), não consigo encontrar um “menos pior” dentre duas opções. Sendo assim, irei respeitar a escolha dos mais de 80% que escolherão uma das opções. Que escolham o menos pior!
    Nem me peçam opinião, que não faço a menor ideia.

  5. Haddad vai virando
    Com a verdade nua
    É o ódio se apagando
    Gritos libertários na rua
    Bozo ainda berrando
    Não quer democracia
    Chama-nos de coitados
    Reverbera suas asneiras
    Mas não ouvimos calados
    Levantamos bandeiras
    Para dizer não ao terror
    Somos um Brasil Calejado
    De gente trabalhador
    Coitado é um “Capitão”
    que não sabe o que é amor
    Imaginando ter acertado
    Quando nunca nem mirou
    Pagando pelo nome de “Fujão”
    A campanha enfim lhe ensinou
    O maior professor é educação.

    Por Hallyson Jucá
    #elenão #democraciasim #haddadsim

    1. Ricardo meu querido .
      Fiquei sabendo que o face censurou .
      Lanço aqui meu protesto .
      Eles não irão nos calar .
      #haddadpresidente13.
      Salve Ricardo Kotcho

  6. Nesta fase, a militância, o corpo a corpo faz a diferença, um bom sinal da mudança veio de minha mulher voltou hoje da academia dizendo que não se falava em outra coisa, gás a 49,00, aumento do salário e aposentadoria de acima da inflação.

  7. É isso, Kotscho. Democracia ou ditadura.
    Na linha do comentário da Karla em outra das suas postagens.
    Dia 28 é o dia de plebiscito.
    Confirmar na urna, trinta anos após a Carta de 88, o legado do Doutor Ulysses.
    Domingo é o dia de digitar o número da democracia e declarar um sonoro não à ditadura.
    Domingo é o dia de digitar Rubens Paiva e declarar um sonoro não aos facínoras que o mataram.

  8. Valeria a pena revisitar a célebre entrevista de Pier Paolo Pasolini no La Stampa, quarenta anos atrás, um dia antes do seu assassinato. Sob o título “Siamo Tutti in Pericolo?”, Pasolini foi profético. Se vivo estivesse, Pasolini daria a mesma entrevista. Apenas substituiria o ponto de interrogação pelo de exclamação. Não por acaso, o primeiro-ministro italiano já trocou gentilezas com o “filhote da ditadura”. As direitas vigaristas italiana e brasileira, já ensaiam um “pas de deux”.

  9. Prezado Kotscho: Recebi de um amigo por email um panfleto que gostaria de reproduzir, se você permitir, aqui no comentário do seu post, e que pode ser redistribuído: “Duas grandes verdades para você ter em conta na decisão do seu voto para presidente do país: 1) Caros irmãos evangélicos, não se deixem enganar por mentiras, apoiar Bolsonaro significa crucificar Cristo mais uma vez!!; 2) Garantir a democracia, a liberdade e os direitos do trabalhador, só com Haddad!!!”

  10. Prezado Kotscho: Depois dizem que a CIA (ou sua terceirizada) não está por trás em mais esse golpe contra a democracia brasileira com o seu apoio ao capitão nazifascista: “[…] Steve Bannon fez elogios rasgados ao candidato brasileiro, que descreve como alguém “líder”, “brilhante”, “sofisticado” e “muito parecido” com Trump.”, segundo matéria do Uol de 26/10/2018.

  11. Prezado Kotscho!

    Acompanho seu trabalho jornalístico desde 2006. Minha idade: 59 anos, chegando nos sessenta. Você é detentor de conhecimento político e adquiriu respeito dos brasileiros que pensam um Brasil democrático e livre.

    Usualmente evito afirmar que sou fã de alguém, mas desde que li o livro “Do golpe ao Planalto” – edição 2006 -, que reli em 2016 e mais recentemente [em maio de 2018], pela terceira vez, tornei-me um atento observador da sua linha de pensamento.

    Claro que não concordo com tudo que você escreveu na longa trajetória, mas saiba que me alinho à maioria da sua obra jornalística. Inquestionavelmente, um expoente da dita imprensa.

    Mas, no momento eu não estou vindo aqui apenas afirmar isso. Quero dirigir a minha admiração e aplausos para a sua filha caçula. Por favor, repasse para a senhora Carolina essas minhas palavras:

    “Ler – e pensar sobre – seu texto, nesse momento histórico, nos enche de orgulho e de esperança. Por que? Porque sintetiza, com brilho e inteligência, verdades indiscutíveis. Civilidade, coerência e isenção. Permita-me assinar essas lições de vida. é filha do “velho” Kotscho, afinal. Parabéns”.

    Abraços.

  12. Vi que inclusive Jose Ramos Horta, o ex presidente de Timor Leste deu tambem ao outro candidato os nomes e adjetivação que merece.
    Horta entende do assunto: 24 anos de luta contra a opressão indonésia. E ate hoje lutam contra a interesseira Australia, que quer a parte do leão no petroleo timorense… que coincidencia, não?

  13. Caro, Kotscho

    Dada as circunstâncias, chego a conclusão que faltou uma semana ou dois debates pra a virada.
    Evidente que total incapacidade do mito de sua turma é alarmante, sem contar todo o seu autoritarismo.
    Porém acredito que Haddad sai muito fortalecido da eleição, para ser uma nova liderança (se ele quiser, pois tenho minhas dúvidas), como também o PT. Basta agora fazer uma análise de situação, e pensar pra frente.
    A luta continua…..bom Domingo dentro do possível..

  14. Texto incrível!! Nunca foi tão difícil, mas também nunca foi tão necessário votar. Agora não é uma questão de lados, mas sim de dignidade, moral, empatia e direitos humanos mesmo.

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