Em novo modelito, Marina Silva troca o verde pelo discurso feminista

Em novo modelito, Marina Silva troca o verde pelo discurso feminista

Marina Silva está diferente nesta sua terceira reaparição de candidata a presidente, como tem feito de quatro em quatro anos.

Além do figurino mais soft e descolado, a líder ambientalista trocou a causa verde pela defesa da mulher, o seu novo público alvo.

Nada em Marina é por acaso. Deve estar bem orientada por quem é do ramo e sabe para onde sopram os ventos.

Como Jair Bolsonaro, seu principal concorrente no momento nas pesquisas sem Lula, é amplamente rejeitado pelo eleitorado feminino, ela partiu para cima dele desde o último debate e adotou o discurso do neo-feminismo.

Ao final da morna entrevista que encerrou a série dos presidenciáveis no Jornal Nacional, na quinta-feira, Marina Silva olhou para a câmera, e mandou ver, como se estivesse em seu programa eleitoral:

“Eu sou mulher, sou negra, mãe de quatro filhos, fui seringueira, empregada doméstica, me alfabetizei aos 16 anos. E eu sei que muitas pessoas acham que pessoas com a minha origem não têm capacidade para ser presidente da República”.

Nem Duda Mendonça faria melhor.

Mas o problema de Marina não é esse. O maior desafio da candidata é explicar ao distinto eleitorado o que ela pretende fazer caso seja eleita, além de prometer um “governo de transição”, com “gente boa” de todos os partidos e de “dialogar com toda a sociedade”. Lembrou a “Ponte para o Futuro” de Temer.

Como até hoje não conseguiu construir um partido _ a sua nanica Rede tem só dois deputados _ não dá para saber como e com quem ela pretende governar um país com este Congresso, que sempre pode piorar, dominado pelo Centrão e suas bancadas do boi, da bala e da bíblia.

O único nome que conseguiu citar para um possível governo Marina Silva foi o do vereador paulistano Eduardo Suplicy, candidato ao Senado pelo PT, o partido que ela trocou pelo PV para ser candidata pela primeira vez.

Assim como Bolsonaro, Marina também é uma crítica feroz da “velha política” alvejada pela Lava Jato.

Na única hora em que foi confrontada pelos apresentadores, titubeou ao tentar explicar as alianças regionais que o seu partido fez com o Centrão, o PT e o MDB.

Mais prepotente e afirmativa do que de costume, Marina faltou com a verdade ao dizer que é a única que apoia a Lava Jato (antes dela, vários candidatos louvaram a operação que tirou Lula da eleição) e se gabar de ser também a única que foi à Transparência Internacional durante a campanha Unidos Contra a Corrupção (Guilherme Boulos também esteve lá), segundo a Agência Lupa.

Marina Silva adotou novo modelito para essa campanha, mas continua sendo um grande mistério.

Deixou de lado o ar angelical de “fadinha da floresta”, candidata a “santa”, como Lula brincou certa vez, mas ainda não dá para saber o que ela quer da vida.

Ficou a impressão de que Marina gosta mesmo é de ser candidata, não necessariamente para chegar ao Palácio do Planalto.

No balanço das quatro entrevistas com presidenciáveis, ela foi a que menos se expôs a críticas, mas também não disse nada que possa lhe dar mais esperanças de vencer a eleição em sua terceira tentativa.

E quem saiu perdendo ao assistir a série foram os pobres eleitores/telespectadores, que continuam, em sua maioria, sem saber em quem votar, além da dupla implacável Bonner-Renata, mais criticada nas redes sociais do que os próprios candidatos.

Continuamos no escuro, a apenas 37 dias da eleição, sem sinais de campanha nas ruas, com o candidato favorito preso e um presidente fantasma vagando solitário pelo Palácio do Planalto.

E nesta sexta-feira começa a propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Segurem-se nas poltronas, vai começar o tiroteio.

Bom final de semana.

Vida que segue.

 

13 thoughts on “Em novo modelito, Marina Silva troca o verde pelo discurso feminista

  1. Aqui, uma preocupação grande: Marina tem um trunfo eleitoral estranho. A candidata emerge repentinamente para desaparecer em seguida do radar em 2014. Herda pelo Norte a comoção em torno da morte de Eduardo Campos do Nordeste e, na sequência, é desidratada impiedosamente no meio do fogo cruzado entre PSDB e PT. O risco: somos nós de um amplo arco de esquerda aquelas com coragem de fazer a (velha e boa) autocrítica, mesmo em tempos que isso pareça um fair play extemporâneo, capaz de resultar em gol contra eleitoral.
    Apoiando Dilma, também atacada por todos os lados, fizemos coro na ocasião com, digamos, a exorbitante desconstrução de Marina. Agora isso será usado contra todas nós, apoiadoras de Haddad/Lula. A rigor, trata-se de erro histórico a ser bem delimitado desde já: o erro reconhecido internamente de uma constelação de esquerda que implementou, com extraordinário êxito, um arco de políticas de inclusão social no país mais desigual do mundo, sempre DENTRO dos marcos republicanos do moderno estado democrático constitucional de direito. É por isso que o partido social democrata alemão, com o seu máximo representante, vem ao Brasil pedir a liberdade e a restituição dos direitos políticos de Lula.

  2. Oi Kotscho,
    Você mencionou um ponto importante, que coloquei entre aspas mais à frente. Eu quero votar em quem não se alia à velha política e que tenha um programa de governo claro, com pessoas em volta capazes de executar o proposto. Porém, “com este Congresso, que sempre pode piorar, dominado pelo Centrão e suas bancadas do boi, da bala e da bíblia”, como será possível que este candidato governe? Concordo com você que Marina Silva não tem um programa de governo claro, e tenho a impressão que ela acabará se rendendo à velha política para a deixarem governar. Guilherme Boulos pretende se desvencilhar da velha política com maior participação do povo. Imagino que tenha inúmeros assuntos para escrever, mas poderia reservar um texto sobre se você acha ser ou não possível alguém governar sem esta velha política?
    Abraços,
    Christine

  3. Não estamos no escuro. Discordo da avaliação.
    Uma coisa é o discurso eleitoral e outra, bem diferente, é o enfrentamento dos problemas de governo.
    Não há candidato, em qualquer parte do mundo, rico ou pobre, que se exponha a discorrer sobre medidas de austeridade. Salvo, é claro, os que não têm chance alguma.
    Pelo andar da fala de cada um dá perfeitamente para antever quem será mais duramente atingido no proximo governo.
    Quando Lula liberou a “Carta aos Brasileros” qualquer um de mediana inteligência percebeu o rumo que tomariam as grandes decisões no campo econômico.
    Certamente hoje ele sofre as consequencias de algum “cavalo de pau” dado na trajetória de governo.

  4. No batidão que vão as notícias de hoje, será dada mais uma pérola para que Lula aumente seu prestígio como preso político. Toda a grande mídia, a PGR e alguns partidos estão ‘apertando’ o TSE para que declare logo Lula inelegível atropelando assim os ritos processuais. Vai ficar mais nítido ainda a persecução que estes órgãos vem se empenhando contra e ex-presidente.
    Quanto à transferencia de votos, acredito que ela ficara na casa dos 20%. Aí o Haddad ou “Andrade” como o estão chamando no Nordeste, pode preparar o lombo que vai vir chumbo grosso!!

  5. Realmente, caro Kotscho, vi nesta entrevista uma Marina mais mercado e menos ambientalista. E como o Bolsonaro tem alta rejeição pelas mulheres ( o que acho que é recíproco), Marina surfou nesta onda “feminista ” ao mesmo tempo que flertava com o setor agracio.
    Que mudou, mudou!

  6. E o aborto, Marina, como fica?
    E a equiparação dos salarios no livre mercado? Não basta ser mulher, negra, batalhadora, é preciso ser feminista. Numa terra em que o termo feminicídio é visto como afronta, em que varias juízas denigrem a imagem do gênero, as mulheres esperam mais. E este mais, no momento, acho que só Manuela e Sonia, ainda que vices, podem garantir. Afinal, nesta terra vice manda…
    Abraços!

  7. Na análise do Data Poder 360, a candidata da Rede-Globo é quem mais se beneficia da dispersão dos votos consagrados a Lula, quando o ex-presidente é substituído na cartela por Haddad. De acordo com a pesquisa tabulada pelo Data Poder, cerca de 40% dos eleitores de Lula deixam de votar no substituto do ex-presidente. E é a candidata da Rede-Globo quem absorve o maior percentual dos votos anteriormente destinados a Lula. De quaisquer pontos de vista, o fato eleitoral é que há, pela primeira vez desde 1974, uma reedição da disputa entre uma “candidatura militar” contra uma “candidatura civil”. O Doutor Ulysses lançou-se como “Anticandidato” em 1974 para enfrentar o “Candidato da Junta Militar”. Há dois militares da reserva formando uma chapa puro-sangue que defendem até hoje a ditadura militar, sem reparos. Trata-se, não só de uma “candidatura militar”, mas de uma candidatura da “corporação militar”. Um ex-capitão e um ex-general de 4 estrelas, formados na Academia Militar de Agulhas Negras e ideologicamente vinculados aos cânones da Escola Superior de Guerra – ESG. Os mesmos dados tabulados pelo Data Poder 360 apontam que uma fração não desprezível dos votos cativos de Lula também são absorvidos pela “candidatura militar”, em lugar de serem destinados a Haddad. Na próxima sexta-feira já teremos novas pesquisas capturando os efeitos do horário eleitoral gratuito e da decisão do TSE relativa a Lula. A conferir.

  8. Prezado Kotscho: No seu post “Mídia derrotada mais uma vez pelo PT de Lula” de 29/10/2012 você iniciava assim: “Perderam para Lula em 2002. Perderam para Lula em 2006. Perderam para Lula e Dilma em 2010. Perderam para Lula e Haddad em 2012.” Será que hoje daria para arriscar e dizer: “Perderam para Dilma em 2014. Ajudaram a dar o golpe em 2016 e tem tudo para voltar a perder para Lula/Haddad em 2018”?

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