Eleições 2018: Lula estica a corda, anda no fio da navalha e está dando certo

Eleições 2018: Lula estica a corda, anda no fio da navalha e está dando certo

“Quantos votos você teve na última eleição?”, costumava me perguntar o Lula quando, como seu assessor nas campanhas e, mais tarde, secretário de Imprensa no governo, eu dava palpites em assuntos políticos.

Certa vez, durante um momento de folga, durante viagem ao exterior, sem mais nem menos ele me perguntou:

“Ricardinho, me diz uma coisa: você já pensou em ser presidente da República?”.

Não, não tinha pensado nisso, assim como também não tive votos em nenhuma eleição, até porque nunca fui candidato.

Quando discordava de alguma decisão dele na Presidência, dava risada, e respondia na lata: “Vem sentar um dia na minha cadeira pra você ver o que é bom pra tosse. É fácil falar, vem fazer”.

Embora velhos amigos, nossa relação de trabalho nas campanhas e no governo era bastante conflituosa porque o candidato e o presidente não gostavam de ser contrariados nas suas certezas, baseadas no mais das vezes em pura intuição.

Ele gostava de ouvir a opinião dos outros antes de tomar uma decisão, mas só quando ele perguntava.

Se você tomasse a iniciativa e viesse já com uma proposta qualquer, dizendo que seria uma boa ideia fazer isso ou aquilo, cortava logo:

“Se é muito boa, guarda pra você, não precisa me contar”.

Acontecia também de, em sua primeira reação, descartar qualquer proposta de trabalho na minha área, ou seja, tentar melhorar as relações com a mídia, para dias depois admitir que talvez fosse uma boa ideia.

Como as relações com a imprensa em todos os níveis, desde sempre, eram permeadas por sentimentos de amor e ódio, a depender do momento e das circunstâncias, não era fácil meu trabalho.

Lembrei-me destas passagens da nossa longa convivência de 40 anos nestes dias em que, mesmo preso faz quase cinco meses numa cela de 15 metros quadrados em Curitiba, Lula dita os rumos da atual campanha eleitoral.

A última vez que falei com Lula foi na véspera da prisão dele, quando ainda decidia o que fazer, em sucessivas reuniões no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, e só posso imaginar o que se passa na sua cabeça neste momento.

Pelas decisões que tomou até agora, esticando a corda ao máximo no seu embate com o Judiciário, e adiando até o limite legal o anúncio oficial de Fernando Haddad como seu substituto na chapa, me dá a impressão de que age como nos tempos em que comandava as greves no sindicato.

Lula sempre andou no fio da navalha quando tinha que decidir o momento certo de prosseguir ou encerrar uma greve, quando ainda vivíamos no regime militar.

Chegou a ser deposto da presidência e preso no meio de uma dessas greves, mas nada o fez mudar seu modo de agir, arrostando os perigos e pesando até o fim ganhos ou perdas de cada decisão.

Para quem não é do ramo, como eu, fica difícil entender o que move Lula, contrariando o senso comum de analistas da cena eleitoral, entre os quais me incluo, por restar cada vez menos tempo para operar a transferência de votos dele para Fernando Haddad.

Os mais antigos lembram que Getúlio fez a mesma coisa na eleição de 1945, ao deixar para o último momento o anúncio de que apoiava o marechal Dutra como seu candidato, que acabou vitorioso contra o brigadeiro Eduardo Gomes.

Sabemos todos que a história não necessariamente se repete, mas vejo cada vez mais semelhanças entre Getúlio e Lula, os dois grandes líderes políticos da nossa República, nos momentos decisivos de suas trajetórias, entre a glória e a tragédia.

Mais do que ninguém, Lula sabe que não pode errar, porque nestes dias está decidindo não só o seu destino político e pessoal, mas também o do partido que criou e, principalmente, os rumos do país nos próximos anos, em meio a uma profunda crise de valores e de identidade, entre muitas outras, que se prolongam desde a última eleição.

O fato é que até agora a estratégia de Lula está dando certo, como mostram todas as últimas pesquisas, e posso notar o resultado disso no desespero que está batendo nos seus adversários.

Basta ver que as baterias do Judiciário, do Ministério Público e da mídia voltam-se agora para Fernando Haddad, na tentativa de inviabilizar a campanha do PT, mesmo se o nome de Lula não estiver na urna eletrônica.

Sou obrigado a reconhecer: quem entende de política neste país, se alguém ainda tinha alguma dúvida, é mesmo o velho Lula, a caminho do penta nas eleições presidenciais, algo inédito na nossa História.

Pena que eu não tenha aprendido nada com ele. Mas eu também não sou candidato…

Vida que segue.

 

11 thoughts on “Eleições 2018: Lula estica a corda, anda no fio da navalha e está dando certo

  1. Não só de politica entende o Lula. De muitos outros assuntos indigestos que atravessam a garganta de muita gente. Seu grande erro estratégico foi achar que ele faria da justiça o que fez com os politicos e empresários.. se deu muito mal.

    1. “Seu grande erro estratégico foi achar que ele faria da justiça o que fez com os politicos e empresários…”
      Justiça? (sic), qual Justiça?
      Ah, sei!
      A “Justiça” do compadrio, capitaneada pelos “probos”, Sérgio Moro (sua Rosângela e seu Zucollotto), e mais o Gebran, o Paulsen, e, o Laus?
      Da próxima vez, veja se escreve algo sério, sujeito!

    2. Realmente Lula é o maior e melhor presidente e político que já governou o Brasil.
      Apenas não é blindado como FHC, Serra, Alckmin, Aécio, Perrela, Moro e outros picaretas do PSDB menos votados porque não comprou a proteção da justiça, do MPF e do STF . Foi republicano demais e acreditou na isenção e na imparcialidade que a verdadeira justiça deveria praticar.
      LULA LIVRE!

  2. A questão maior é se haverá eleição para presidente, algo me diz que os golpistas em conluio as laranjas podres do judiciário e militares com apoio da mídia, podem melar ou barrigar até 2020 com alguma solução esdrúxula.

  3. Como sempre excelente artigo Kotscho. Desde muito leio seus textos e é sempre um prazer acompanhar seu raciocínio e suas análises.
    Confesso que como você, de início pensei que a estratégia do Lula estava equivocada. Mais ainda, achei um grande erro ele se entregar ao Moro. Mas olhando agora, depois de bem pouco tempo, chego a conclusão que entendo bem pouco de política, apesar de ser apaixonado por ela.
    E o Lulão segue aí firme e forte, como você disse, rumo ao penta.
    Abraço.

  4. A situação de Lula ja está na esfera Divina. Só quem arrancou da miséria mais de 30 milhões de almas, consegue isso. Lula trilhou o caminho do evangelho, mais que muitos prelados…Por isso tem a proteção Divina, e tudo irá se consertar…Há quem dia ( estou entre esses ) que isso já está ocorrendo. Veremos ainda Lula triunfar, para que, de fato, a Justiça e a decência voltem a esse país.

    1. Meu Deus…

      Vontade de chorar. Pobre é o país cuja população ainda acredita em divindades politicas, salvadores da pátria e demiurgos sociais. O Salvador da Pátria da vez é o Sassa Mutema fardado.

      Lula é apenas mais um embusteiro, assim como todos os outros politicos brasileiros desde nossa redemocratização, com a diferença que é muito bom de lábia. É o nosso Macunaíma, o herói sem caráter do povo brasileiro.

      É deprimente ter que assistir esse espetáculo vergonhoso beija-mão, submissão e servilidade à um farsante que insiste em ser tratado como imperador. Pior que é atendido por grande parte da população. Que o ignorante ainda o faça, eu até entendo, mas pessoas esclarecidas e educadas? Pobre Brasil. Eu tenho dó do Brasil, já do brasileiro….

  5. O comentário de Arbex no Nocaute é bem plausível: ou Lula ou nada. Arbex, que não pode ser considerado suspeito – fundou e dirigiu a Caros Amigos durante larga jornada -, avalia que o ‘Andrade’ (Lula errou de poste mais uma vez) não tem como governar se chegar ao segundo turno (os números ainda não garantem a passagem do primeiro turno dada a dispersão dos votos lulistas entre Marina, Ciro e o ex-capitão). Arbex só não explica a razão pela qual, mesmo sabendo disso, Lula acredita que pode acender outro poste sem luz no Alvorada. Como diz bem o Kotscho, Lula sempre confiou mais do que tudo em sua própria intuição. Não custa lembrar que essa notável virtude errou um bocado, a ponto de levá-lo a ver o sol nascer quadrado, sobretudo em confiar (com base na sua intuição) no Judiciário da Casa Grande. A exatidão (da tática astuciosa de Lula) só vai poder ser aferida quando ‘Andrade’ (o povaréu não sabe quem é Haddad) entrar em campo com a camisa 10 do PT. Lula considera favas contadas que seu camisa 10 tem bola para ganhar o jogo de ida na prorrogação, e depois vencer facilmente no jogo da volta reunificando todas as forças contra a “candidatura militar”. Lula confia na sua intuição de que não vai chover na sua principal e decisiva batalha de Waterloo. Como se sabe, o Corso só perdeu em Waterloo, porque uma chuva torrencial liquidou o seu plano de combate na hora H.

  6. Hoje é dia 30 e leio que o TSE convocou uma reunião extraodinária para amanhã, aquilo que o Fernando Brito no Tijolaço chama de ‘A fria hora da execução’.
    Pois bem. Visto do exterior, onde moro, a grande jogada do Lula foi não ter aceite o exílio, entregando-se e partindo para a imolação. Acho que foi este gesto que tocou fundo na conscicência universal – ONU, estadistas, mídia internacional. Porque quando chega na hora de ir dormir, melhor o fazer numa boa cama que naquela que está em seus 15 m2 na Superintendência da PF em Curitiba. Isso a Rosa Weber e o Barroso – que se preparam para executá-lo – jamais poderiam imaginar. Nem o Kotscho, que o acompanhou durante uma vida, vejam só, poderia imaginar esta virada de mesa na reta final rumo ao penta do PT. Está dando certo, Ricardo, e torçamos para que termine certíssimo.

  7. Prezado Kotscho: Pelo seu post de hoje e pela intuição certeira do Lula, acho que vale a pena citar um trechinho de “Querem acabar comigo” do Roberto Carlos: “Querem acabar comigo / Isso eu não vou deixar / Me abrace assim, me olhe assim / Não vá ficar, longe de mim”.

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