Sem Lula, apenas Ciro e Boulos se salvam em debate chato e medíocre

Sem Lula, apenas Ciro e Boulos se salvam em debate chato e medíocre

Com Lula ainda preso em Curitiba, o primeiro debate entre oito presidenciáveis na TV Bandeirantes foi de uma mediocridade comovente, um retrato da degradação da política brasileira.

Lula seria o último remanescente do primeiro debate pós-ditadura, em 1989, do qual participaram, entre outros, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Mário Covas, o que dá bem uma ideia de quanto regredimos em matéria de lideranças nacionais, até chegarmos ao capitão Bolsonaro e ao cabo Daciolo, uma regressão que ninguém poderia imaginar.

Eu estava neste primeiro debate, como assessor de imprensa de Lula.

Ao ver o desta quinta-feira, senti uma tristeza tão grande e tanto tédio que não consegui assistir até o fim. Me deu sono. Só aguentei ver dois dos cinco blocos.

Cacarecos sempre tivemos em eleições, mas desta vez eles eram maioria.

Daqueles oito candidatos, só se salvaram Ciro Gomes, do PDT, e Guilherme Boulos, do PSOL, os únicos que falaram coisa com coisa, defenderam com firmeza seus pontos de vista e atacaram as reformas do desgoverno Temer.

Como bem disse Boulos, os restantes não passavam de “50 tons de Temer”, com seus discursos de República Velha, prometendo mais educação, saúde e segurança, a favor da energia elétrica e de água encanada, como ouvimos todos os dias naquela entediante enquete da Globo sobre “o Brasil que eu quero”.

Logo no começo parecia que o debate poderia esquentar, com o candidato do PSOL partindo para cima de Bolsonaro, do PSL, mas desta vez o troglodita pré-histórico, que lidera as pesquisas sem Lula, estava manso, refugou.

“Não vim aqui para bater boca”, queixou-se, e devolveu o tempo ao moderador Ricardo Boechat, o melhor ator da noite neste teatro de horrores.

Dali para a frente, o ex-militar só chamou a atenção por ficar sentado o tempo todo, enquanto os outros permaneciam em pé diante do púlpito.

Mais do que ele, ganhou destaque o folclórico cabo Daciolo (quem?), do Patriota, bombeiro e pastor evangélico, que bombou nas redes sociais, sempre invocando Deus em suas pitorescas intervenções.

Eleito pelo PSOL de Boulos, Daciolo já passou por três partidos em seu primeiro mandato de deputado federal pelo Rio.

Mas quem mais apareceu na telinha foi o tucano Geraldo Alckmin. Só não sei se ele ganhou ou perdeu votos com isso, tão monocórdica era sua fala anódina, com o mesmo discurso previsível da campanha de 2006, em que foi derrotado por Lula, tendo menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Depois de passar por tantos marqueteiros estrelados em suas campanhas, é incrível como Alckmin não consegue melhorar nem na forma nem no conteúdo, não diz nada de novo, como se ainda fosse candidato a prefeito de Pindamonhangaba.

Tempo de televisão é um perigo: se for muito, como é o caso dele, depois da super-aliança negociada no balcão do Centrão, tanto pode ajudar o candidato como espantar o eleitor.

Alckmin defendeu as reformas do governo Temer com mais enfase do que o ex-ministro Henrique Meirelles, do MDB, ao dizer que a reforma trabalhista é moderna e vai criar mais empregos. Até agora, aconteceu exatamente o contrário. Nenhum dos dois se arriscou a citar o nome do presidente em exercício, rejeitado por nove em cada dez brasileiros.

Com o carisma de um vaso chinês, Meirelles sumiu no debate junto com Marina Silva, dois candidatos que até agora não explicaram o que estão fazendo nesta campanha.

Como já tinha feito com Aécio na campanha de 2014, no papel de linha auxiliar dos tucanos, Marina acabou servindo apenas de escada para Alckmin declamar siglas e números que não dizem absolutamente nada para o eleitor, não emocionam ninguém.

Em trajes de publicitário antigo, Álvaro Dias, de um partido chamado Podemos (o que?), dá mais importância à impostação de voz de locutor de FM do interior do que ao conteúdo para pregar a “Refundação da República”, sem explicar o que quer dizer com isso. Falou mais da Venezuela do que do Brasil. Maduro que se cuide.

E o que mais? Ah, sim, esqueci de falar de Ciro Gomes, mas é que até onde vi ele foi pouco provocado pelos outros candidatos e jornalistas e, desta vez, estava bem light, até sorridente com Jair Bolsonaro, sem escorregar em cascas de banana do outro lado da calçada.

Ciro pelo menos tem um projeto nacional de desenvolvimento, consegue explicar e defender um programa de governo coerente para ressuscitar a economia nacional e dar um pouco de esperança aos brasileiros de que algo possa mudar para melhor a partir de 2019.

Assim como Ciro, Guilherme Boulos tem facilidade para se expressar, usa uma linguagem simples e direta que o povo entende e, em alguns momentos, lembrou o Lula daquele debate de 1989 ao se posicionar contra tudo isso que está aí para combater a indecente desigualdade social, sua principal bandeira.

Mas, sem nenhuma estrutura de campanha, ao contrário do que o PT já tinha naquela época, Boulos não consegue desempacar nas pesquisas.

É o que temos para o momento.

E vai ser assim por mais 57 dias, até a abertura das urnas, a não ser que libertem Lula antes da eleição, algo tão improvável neste momento como acertar na mega-sena.

Vida que segue.

 

18 comentários em “Sem Lula, apenas Ciro e Boulos se salvam em debate chato e medíocre

    1. Na verdade, SEQUESTRADO pelo Partido da ‘Justiça Lavajateira’, cada dia mais ‘Hamletiana’ quanto Lula ser ou não ser mais letal SEQUESTRADO que LIVRE, ‘that is the question’.

  1. Sem falar que são de Ciro o momento de maior inteligência, ao dizer que a República é uma delícia, mas tem seu preço. Mas desconfio de que o Cabo não entendeu a ironia até agora.

  2. Diante de alucinações “Daciólicas” semelhante a de pregadores da Praça da Sé:
    Populismo do Ciro (como alguém que promete limpar o nome do SPC de 63 milhões de endividados), que critica a reforma trabalhista, mas não explica, por qual motivo da nova lei, o empregador deixaria de empregar;
    O “não me toque” da Marina, que criticou a incoerência da chapa alheia para atrair tempo de TV, mas foi relembrada que ela também teve que colocar em sua “Rede limpinha”, alguém de um partido que ela saiu dizendo que não tinha coerência com o que ela defendia. Passando pelos olhos esbugalhados do Boulos, que por pouco não invadiu os púlpitos alheios, e um Capitão medroso, que preferiu ficar sentado, certamente com receio de passar a vergonha de dá uma tremedeira, como fez o filho na eleição recente para Prefeito do Rio;
    De um Meirelles, que ninguém entende nem do que ele fala, e até por isso, como ele conseguiu fazer tanto sucesso no mercado financeiro;
    Tropeça-se no Alvaro Dias que parecia principiante em debate, que fez um discurso de encerramento quando na verdade lhes foi feita a primeira pergunta, isso tudo junto e misturado, mantenho minha preferência pelo Geraldo Alkmin, que preferiu não inventar, e ao seu modo explicou, que o resto do Brasil fosse como São Paulo, ao menos o número de homicídios não atingiriam 20 mil em todo País, ao contrário da carnificina atual, onde mais de 63 mil perderam a vida só em 2017.
    Enfim, “a carroça da eleição, com sua carga de melancias foi vista a caminho da feira”.
    Alguns podem reclamar que frutos podres não foram embarcados, e outros também vão reclamar que frutas verdes demais também foram deixadas no local de embarque.
    Segue a carroça!

  3. “Tempo de televisão é um perigo: se for muito…”
    Há vários anos, tive de defender uma posição de que discordava em parte feita pelo meu grupo. O tempo era de dez minutos. Senti ali o gosto da eternidade
    Não assisti o debate, mas, pelo que li, o Ciro, de quem não sou eleitor, foi censurado. Bem, estamos falando da Band, não?

  4. Meus parabéns ao Ciro e Boulos!!! (Depois assisti o debate da Manu, Gleisi, Haddad e Gabrielli na mídia alternativa)

    Única falha q vi no Ciro, que ñ foi uma falha, quando cabo Daciolo falou sobre aquele fórum e o Ciro, podia ter usado o minuto e meio, p falar das suas propostas de governo além da resposta irônica (que foi ótima)…tb Ciro foi excelente, quando cutucou o Álvaro Dias sobre MOROadia….na minha opinião a Marina, perdeu oportunidade dar uma resposta curta e matadora (sobre assunto de corrupção), mesmo que fosse em outro bloco p/ o Alckmin…foi tréplica dele, quando disse para ela mais ou menos isso…EU NÃO FUI DO PT, NÃO FUI MINISTRO DO PT. (Em outro bloco poderia ter matado, POR ISSO QUE VC É O SANTO).

  5. A reforma da previdência é uma necessidade…kkkk mas, ninguém disse nada sobre uma auditoria à se apurar sobre as despesas pagas pela instituição que não são de responsabilidade dos segurados. (Tivemos notícias de compra de computadores que foram instalados numa distribuidora de bebidas, recentemente, como exemplo). Isto é, vamos fazer uma reforma visando somente a idade ”precoce” que o idoso ”possa ter” para se aposentar…isso é progresso de ”ideias”????

  6. A Band e Boechat foram muito mal em dois aspectos. Primeiro, ao não apresentar os candidatos, um a um. Quem conhece e acompanha a política nacional, não precisaria disso; mas há 51% do universo de votantes que estão indecisos ou votariam nulo, caso não branqueiem seus votos. Por exemplo: quem era e de onde vinha o tal Cabo? Que se diz encarregado de missão divina para transformar o país de colônia em potência imperialista!? A Band deve explicações por ter enfiado o Cabo (sem trocadilhos) goela abaixo do telespectador. Qual o critério para enfiar o Cabo na grade eleitoral? Ao mesmo tempo em que desconsiderou outros candidatos, que inclusive têm pontuado em algumas pesquisas, como o partido ‘Novo” e o PSTU? O painel da Band ficou, na sua correlação de forças políticas e ideológicas, bem desequilibrado: dois à direita (candidaturas militares), dois ao centro-direita (Podemos e tucanos), dois ao centro (MDB e Rede), um apenas do centro-esquerda (PDT) e um à esquerda (Psol). No mínimo, o PSTU deveria estar representado à esquerda, e obviamente, um ao centro-esquerda, o PT. Creio que o PT levou grande vantagem no debate, porque não se expôs às cobranças da Lava Jato e da AP470, além da política levyana que inaugurou a depressão econômica à brasileira em 2015. Todos os desempenhos deixaram a desejar, porque a forma do debate continua uma camisa de força, mas, sem dúvida, o pior desempenho, claramente desastroso, foi o do Meireles. Nenhum dos candidatos partiu para uma ofensiva aberta descarregando suas artilharias. O máximo a que o PSOL chegou foi apenas tocar de leve na variação patrimonial da candidatura militar, mas sem provocar-lhe nenhum efeito deletério. O mais beneficiado, de acordo com o Data Google foi, risivelmente, o ‘cabo de Deus’. O que por si só, já atesta o fracasso do formato de debates da Band. Não aprenderam nada, não esqueceram nada. O cidadão continua sem mato nem cachorro. O Boechat tentou fazer piadinhas, mas esteve longe, muito longe, de agradar, porque o clima no país não está para humor e gracejos.

  7. Muito interessante a percepção de José Roberto Toledo na Piauí, ao denominar a atual conjuntura como “Era da Desconfiança”. E anotar o fato com os sinais que “já estão aparecendo nas pesquisas, tanto as de opinião quanto as feitas pelos brasileiros no Google, com um crescimento lento mas constante das buscas na internet pela expressão “como anular o voto”. Não se pode crer que o debate na Band tenha colaborado para alterar tal tendência.

  8. Mestre, também assistia, mas menos resistente, após Boulos, uns três ou quatro ‘perguntando ao outro’ à frente, paraguaio por paraguaio, passei ao jogo, retornando ao final para verificar se restavam em pé. E não é que restavam, na mesma marcha, ‘lenta quase parando’, duas horas depois.
    No que assisti, Boulos destacou-se, sobretudo na enfase da entonação, que ajudava a Band manter, Alckmin, Alvaro e Meirelles, despertos.
    Mas no que vi, o incontestável vencedor do debacle, sem dúvidas, foi ‘Cabo Daciolo’, ao completar a ‘involução por seleção não natural das espécies’: General, Capitão e Cabo (o TSE não permite mais prosseguir-se à ‘involução’).
    Não dá para passar o traço no comentário sem observar que finalmente, surgiu o NOVO na campanha: O ‘Bolsonaro Plus’, não o Capitão, o Cabo.
    Só rindo!

  9. Boulos só fez ataques rasteiros. Só serviu para fazer contraponto ao Daciolo. O plano do Ciro é uma maravilha: tirar 63 milhões do SPC. Com certeza os melhores da noite da esquerda. Até porque é só o que sobrou do que se auto intitula, esquerda.

  10. Prezado Kotscho: Estou de pleno acordo com você que “Daqueles oito candidatos, só se salvaram Ciro Gomes, do PDT, e Guilherme Boulos, do PSOL.” É o que temos hoje no cardápio para a nossa política. “A política é a arte de procurar problema, achá-lo, fazer um mau diagnóstico e, por fim, aplicar o remédio errado.” – Groucho Marx.

  11. Acabei de ler a ‘nova’ biografia de Lima Barreto – Triste Visionário da Cia das Letras. Um catatau espetacular, com uma atualidade imorredoura, infelizmente. Uma frase do autor: “É notório que aos governos da República do Brasil faltam duas qualidades essenciais a governos: majestade e dignidade”.

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