A arma da Palavra escrita na era da internet é um perigo

A arma da Palavra escrita na era da internet é um perigo

Muito cuidado ao escrever na internet: a arma da palavra escrita é como um bumerangue, ela pode voltar na tua testa.

Na era das comunicações digitais online, cada vez mais rápidas, muita gente ainda não se deu conta do perigo escondido na palavra escrita, que não tem volta. Fica na nuvem para sempre.

Como sou do tempo em que as pessoas usavam a palavra apenas para escrever cartas e postar no correio, redigir matérias ou publicar livros, a gente tinha tempo para ler, reler várias vezes, corrigir e, por vezes, se arrepender e jogar o texto fora.

Agora, não: é tudo online, full-time, ao vivo, zap-zap, vapt-vupt, vai e volta em segundos, como numa troca de tiros que deixa muitas balas perdidas no caminho.

A vítima pode ser você.

Tenho uma amiga, a Adélia, que preza muito a palavra escrita, tanto que só se refere a ela com maiúscula: Palavra.

Professora doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, Adélia Bezerra de Menezes, sabe do que está falando ou escrevendo.

Nas nossas trocas de mensagens sobre o assunto, me recomendou outro dia o livro Do Poder da Palavra (ensaios de Literatura e Psicanálise), “publicado no século passado”.

Lembrei-lhe que nós também somos do século passado…

E estamos obrigados agora a conviver num mundo cibernético para o qual não fomos preparados, uma revolução em movimento contínuo, que mudou completamente a comunicação humana.

Demorei para aderir ao computador, ao smarthphone (é assim que escreve?), ao lap-top, resisti a entrar nas redes sociais e, só no ano passado, por imposição das filhas, entrei no Facebook, me arrisquei no WhatsApp e em todas essas traquitanas tecnológicas.

Como ainda estou aprendendo a mexer com tudo isso ao mesmo tempo, já quebrei a cara várias vezes.

Isso pode dar uma confusão danada quando você não olha direito e, na pressa, responde a uma pessoa mensagem que recebeu de outra.

Não dá tempo nem de revisar o que você escreveu porque já vão pipocando novas mensagens e não dá nem tempo de pensar nas respostas.

Pior é quando, no meio de uma discussão, você perde a paciência e escreve o que não deve para se arrepender logo depois, mas aí já foi, não tem como corrigir.

Por isso, minha filha caçula, a cineasta Carolina Kotscho, me recomendou que certos assuntos só devem ser discutidos pessoalmente, nunca por escrito.

“Só escreva recados curtos e para elogiar alguém, nunca para criticar ou fazer cobranças a outras pessoas”, recomendou-me ela, com a sabedoria de quem já foi criada nesse mundo novo.

Tenho procurado seguir seu conselho, mas como também atualizo diariamente este blog, e os fatos se sucedem em ritmo alucinante, nem sempre paro para pensar antes de escrever.

Muitas vezes, na afobação das emoções da hora, me precipito e digo coisas que não deveria escrever, ou pelo menos não escrever daquela forma.

Menos mal que na internet os leitores podem nos chamar a atenção para erros factuais ou de avaliação que cometemos, e sempre podemos corrigir ou, se for o caso, pedir desculpas aos atingidos.

Vejam o caso desse alucinado Donald Trump, o imperador do Twitter, que em até 140 caracteres consegue deflagrar uma nova guerra por dia, depois desmente tudo, e começa outra, num moto-contínuo sem fim.

Nunca as pessoas escreveram tanto em todas as plataformas e, no entanto, nunca pensaram tão pouco antes de publicar _ e nunca leram tão pouco fora das redes sociais, ou seja, bons livros.

Antes da febre da velocidade nas redes sociais, eu já sacaneava um amigo jornalista, dos melhores do país, que é um exímio datilógrafo dos tempos da máquina de escrever e sempre terminava sua matéria antes dos outros.

“Esse cara é tão bom que escreve mais rápido do que pensa…”, eu brincava.

A amiga Adélia, que citei no início desta reflexão sobre a palavra, é também uma estudiosa da obra de Chico Buarque, para mim o poeta brasileiro que melhor trata a língua pátria, com muito zelo e carinho.

Não sei se o Chico também se rendeu às redes sociais, mas tenho certeza que ele revê, repensa, relê e refaz mil vezes o que criou antes de oferecer ao distinto público.

Para provar o que estou dizendo, encerro este texto com os últimos versos de “Todo o Sentimento”, uma obra prima que a Adélia me mandou esta semana e fico pensando como é possível dizer tantas coisas com tão poucas palavras:

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo de delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu.

Talvez esteja na hora da gente voltar ao velho hábito de conversar cara a cara, olho no olho, porque podemos corrigir na hora o que falamos, pedir desculpas, consertar os argumentos ou, como diz o Chico, “onde não diremos nada”.

Às vezes, é melhor mesmo não dizer nada, muito menos escrever na internet algo para ficar eternamente nas nuvens da cibernética.

Assim como o passado, o que está escrito não tem volta. Muito cuidado!

Vida que segue.

 

25 comentários em “A arma da Palavra escrita na era da internet é um perigo

  1. É meu caro, não só as palavras, como também a imagem e o som. Bateu na mulher na rua? jogou ela do 4.o andar… lá tem uma camara para registrar tudo… Pegou propinas e saiu correndo com a mala na rua? a camara flagrou…… “Isso tem que continuar”… maldita hora, hein…. tá tudo registrado, não adianta falar em contrário

  2. Tenho dito.
    Tenho postado poucas coisas no Facebook e o prefiro, dentre as mídias sociais, porque sempre me dá tempo para elaborar e até mesmo pensar se quero mesmo publicar.
    Quando o faço, geralmente utilizo um editor de texto, para corrigir, “lamber a cria” e, se for o caso, desistir.

  3. Perfeito, é isso mesmo. Em momentos como os que estamos vivendo, sempre no fio da navalha, o silêncio, às vezes, é um aliado poderoso. De qualquer forma, mesmo exagerando na tinta em algumas análises de conjuntura, acompanho teus textos no blog com muita atenção e prazer.

  4. Espero seus escritos com ansiedade e leio com prazer. Quanto ao Chico é só delicadeza nas suas poesias musicadas. Quanto à mim tornei me “monossilabica”.

  5. Não se deixe impressionar muito pelas aclamadas habilidades dos mais jovens com as novas tecnologias. A maior parte acha que pode dar atenção a várias coisas ao mesmo tempo (geração Y) mas na verdade não passam de desatentos.

    Uma dica: não edite textos diretamente nas redes sociais. Use um editor, como Word ou Bloco de Notas, revise e depois copie e cole na rede social. Dá um pouco mais de trabalho mas compensa. Você pode se acostumar melhor com um único editor e não se perde nas limitações do Facebook, Whatsapp, etc.

  6. Mestre, conciso na janela, como Carolina recomenda: Post divino, a remoer profundezas em águas rasas. Aplausos pelo prazer da leitura sabor de morango e leite condensado à boca.
    Já extenso à rua, como a vida, que é sonho e risco, encomenda: Grito feito pastor na Sé, Vinte e Cinco e Anhangabaú, que o contraditório, rápido como Bolt ou ‘lento’ e pensado como Rubinho, é seiva, que divergir, errar e acertar, são da natureza humana, como convergir, desculpar, decantar, entristecer e rir.
    ‘Não confinado’, concordar e só elogiar, não são e jamais devem ser absolutos, seria burro como ‘toda unanimidade’: não há caminhar sem atrito, não há erro, sem acerto, não há sal, sem açúcar, não há mel, sem pimenta, não há frio, sem calor, como não há amor sem briga e Chico sem Caetano.
    “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
    Gosto de ser e de estar
    E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
    E uma profusão de paródias
    Que encurtem dores
    E furtem cores como camaleões
    Gosto do Pessoa na pessoa
    Da rosa no Rosa
    E sei que a poesia está para a prosa
    Assim como o amor está para a amizade
    E quem há de negar que esta lhe é superior?
    E deixe os Portugais morrerem à míngua
    Minha pátria é minha língua
    Fala Mangueira! Fala!”

  7. Caro Kotscho

    Há mais de vinte anos trabalho com inclusão digital de idosos em Fortaleza. Tenho ensinado o uso crítico das tecnologias. O excesso de informação nos prejudica, nos perturba, é veloz e prejudicial.
    Parabéns pelas observações sobre o bom uso das Palavras! Vamos ouvir mais, filtrar e escrever/ falar com responsabilidade.
    Abraço fraterno!

  8. O mais arriscado Kotscho, creio que era sua participacao naquele programa da Record onde sua opiniao encontra-se gravada e muitas das vezes nao condiz com sua atuacao jornalística

  9. Dá direito a todos para lançar garrafas no oceano com mensagens cifradas ansiosamente redigidas e também cria um vasto lixo poluente que devora a paisagem em volta. Desfaz quase todas regras mínimas de etiqueta e de consistência discursiva, sem conseguir destruir uma relação antiga: o bom argumento de quem pensa diferente de mim tem o poder imenso de me atrair sem que eu perceba. Hábitos seletivos e habilidades para filtrar são tão mais decisivos quanto mais difíceis de adquirir e estabilizar. Sem estes, porém, a angústia existencial (ou o nome intercambiável que queiram dar!) é inescapável. Sintomático que seja infinitamente mais difícil convencer alguém a sair da rede do que fazê-la/lo entrar.

  10. Caro Kotscho, diz-se que as Palavras ficam melhores quando molhadas. Falando nisso precisamos fazer uma lavagem (goró). Da outra vez que marcamos lamentavelmente não pude ir porque choveu. Me arrependo até hoje porque teria sido a minha despedida do Audálio. Bora ???

  11. E POR FALAR EM PALAVRA: (Parte 1)

    (Emily Dickinson (1830–86). Complete Poems. 1924.)

    A word is dead
    When it is said,
    Some say.
    I say it just
    Begins to live
    That day.

    A parábola do padre confessor é conhecida. Pede ao pecador, a guisa de penitência, que leve o seu travesseiro até o telhado da casa e o rasgue libertando as penas. Ele assim o faz. No dia seguinte, volta para dizer que tinha rasgado o travesseiro como havia sido orientado. Agora, disse o padre, volte e cate cada uma das penas. O pecador replicou que não podia fazê-lo, pois o vento as havia levado para longe e elas estariam possivelmente em cantos ignorados, distantes.
    Assim é com as palavras, disse o padre. Tanto as edificantes quanto as destrutivas têm efeito multiplicador. Não controlamos seu paradeiro. O bem e o mal que causam. Têm vida própria.
    TRADUÇÂO DA POESIA ACIMA
    Uma palavra morre
    Quando é dita –
    Dir-se-ia –
    Pois eu digo
    Que ela nasce
    Nesse dia.
    (Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

    Palavra é morta
    Quando está dita,
    Dizem uns.
    Digo:inicia
    A só viver
    Em tal dia.
    (Tradução de José Lino Grunewald )

  12. E POR FALAR EM PALAVRA (parte 2)

    UMA PALAVRA (Chico Buarque)

    Palavra prima
    Uma palavra só, a crua palavra
    Que quer dizer
    Tudo
    Anterior ao entendimento, palavra
    Palavra viva
    Palavra com temperatura, palavra

    Que se produz
    Muda
    Feita de luz mais que de vento, palavra
    Palavra dócil
    Palavra d’agua pra qualquer moldura
    Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
    Qualquer feição de se manter palavra
    Palavra minha
    Matéria, minha criatura, palavra
    Que me conduz
    Mudo
    E que me escreve desatento, palavra
    Talvez à noite
    Quase-palavra que um de nós murmura
    Que ela mistura as letras que eu invento
    Outras pronúncias do prazer, palavra
    Palavra boa
    Não de fazer literatura, palavra
    Mas de habitar
    Fundo
    O coração do pensamento, palavra

  13. Zé Rodrix, que também queria uma casa no campo, diz, em “Feira Moderna”, “Alô, telefonista, a palavra já morreu”. Deve ter morrido mesmo. Eu, que me orgulhava do meu bom português até começar a revisar texto e perceber vagamente quanto ignorava, apesar de já ter lido muito, estou reduzida à apreciação desqualificada por quem, pelo pouco que sabe, achou mais prático decidir que já sabe tudo que é necessário, lamentando minha demência e recomendando, para que eu tenha qualidade de vida, que me case, seja notória e capriche na aparência. Solução irretocável para quem, como eu, é analfabeta funcional. O que nos equipara. Eu me orgulhava de ter alguma qualificação para que os textos que eu corrigia fossem compreensíveis. E festejava a melhora, na época, do mercado editorial no Brasil, enquanto na Europa ele se retraía. Descubro que, como tantos, tive distribuição de renda disfarçada de emprego. Nesta terra, em que alguns bradam pela volta da ditadura militar, já há uma ditadura. A da ignorância malcriada, que por ser maioria, democraticamente, pode se apropriar de qualquer espaço. Voltamos céleres à pré-história, com artefatos eletrônicos que ninguém saberá reproduzir ou consertar, e tendo conquistado a irracionalidade absoluta e a comodidade dela decorrente, não precisar nem ter o incômodo de nos alfabetizar, reduzidos que estaremos à comunicação por grunhidos. (Acho até que já estamos nela.)

  14. Reflexão extraordinária, reitero, as informações transitam em velocidade instantânea, sem limites de tempo e espaço. A era tecnológica influenciou diretamente a comunicação entre as pessoas. Muito se tem discutido recentemente a cerca do impacto das redes sociais nas relações da sociedade. Tudo que você posta deve ter revisão prévia, uma vez postado, as respostas são imediatas e as consequências também.

  15. Reflexão extraordinária, reitero, as informações transitam em velocidade instantânea, sem limites de tempo e espaço. A era tecnológica influenciou diretamente a comunicação entre as pessoas. Muito se tem discutido recentemente a cerca do impacto das redes sociais nas relações da sociedade. Tudo que você posta deve ter revisão prévia, uma vez postado, as respostas são imediatas e as consequências também.

  16. Ótimo texto, o uso indevido das redes sociais pode gerar prejuízos imensos a um usuário, pois uma vez dito, jamais esquecido. Saber o que dizer e como dizer e fundamental para que a relação nas redes sociais fique pacifica e tranquila. Concordo com o trecho do texto que diz “só escreva recados curtos e para elogiar alguém, nuca para criticar ou fazer cobranças a outras pessoas.” Entretanto, se tem alguma crítica ou cobrança que seja fundamentada em argumentos sólidos e concretos, para que não haja um desacordo desnecessário e fútil entre as partes.

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