A vida na encruzilhada dos 70 neste Brasil de 2018: recomeçar ou desistir?

A vida na encruzilhada dos 70 neste Brasil de 2018: recomeçar ou desistir?

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca” (Darcy Ribeiro, um gênio apaixonado pelo Brasil, como já não temos mais).

***

Hoje é 25 de julho de 2018, quarta-feira, um dia como outro qualquer neste Brasil de 2018.

Acordei pensando nos rumos que a vida vai tomando quando a gente chega aos 70.

Por coincidência, encontrei num comentário publicado aqui mesmo no blog este pensamento do grande Darcy Ribeiro, reproduzido na epígrafe, um bom resumo do que estou sentindo neste momento.

Gostaria muito de ser como ele, um cara eternamente entusiasmado e apaixonado pelo Brasil e pela vida, que se recusava a ir embora, e chegou a escapar do hospital para onde o câncer o levou.

Contra todos os diagnósticos dos médicos, ainda conseguiu sobreviver feliz por algum tempo, só fazendo o que gostava e amando todos os seus amores.

Mesmo já gravemente doente, Darcy continuava combativo e indignado como sempre, tocando seus projetos utópicos para os outros, mas sempre possíveis para ele.

Minha admiração por este brasileiro notável, um verdadeiro gênio da raça, era tão grande que quando eu dirigia o jornalismo de uma rede nacional de TV (a antiga CNT/Gazeta, também já falecida), no dia da sua morte resolvi dedicar quase todo o tempo do principal telejornal da emissora à sua vida e obra.

Ao falar desta minha ideia maluca na reunião de pauta, os jovens colegas da redação balançaram negativamente a cabeça, olhando um para o outro. Nunca vou me esquecer da cena.

Este cara pirou, devem ter pensando, tentando lembrar de quem se tratava, na certeza de que os telespectadores também não saberiam quem era Darcy Ribeiro. Não estavam tão errados.

Agora é fácil, basta abrir o Google, mas naquele tempo não tinha nada disso.

O jeito foi mandar o pessoal pesquisar nos arquivos e nas bibliotecas de Curitiba, sede da emissora, para recolher imagens e textos e, ao descobrir quem era esse cara, a equipe produziu um material primoroso.

Quando o jornal terminou de ir ao ar, estavam todos na minha sala, e batemos palmas de pé para o próprio trabalho, outra cena inesquecível.

“Chefe, foi muito bom, muito bonito, mas a audiência deve ter sido uma merda…”, previu um desses jovens, que entendem muito de televisão, mas pouco da vida, e acertou.

Deu apenas 1% no Ibope, a mais baixa que tivemos, quando a média era de 3%, por vezes até maior do que os telejornais de grandes redes.

Tempos depois, já dirigindo o jornalismo local da Bandeirantes em São Paulo, morreu o cantor Leandro, da dupla sertaneja que fazia com o irmão Leonardo um grande sucesso na época.

Desde cedo, já contando com melhores recursos técnicos, entramos ao vivo no Canal 21, com cobertura completa e links em várias praças.

Não saímos mais do ar até o final do dia. A morte do cantor, que toda a equipe e o resto do país conheciam muito bem, provocou uma comoção nacional.

Nesse dia batemos nosso recorde de audiência, chegando a 5 ou 6 pontos, uma enormidade para o porte da emissora dedicada ao jornalismo local.

Com trajetórias de vida tão diferentes, o velho Darcy e o jovem Leandro me revelaram com suas mortes, mais do que os livros, o país em que vivemos, medido pelo Ibope.

O Brasil chorou por Leandro e ignorou Darcy.

Os dois me proporcionaram o maior sucesso e o maior fracasso na TV.

Na encruzilhada da vida, agora que cheguei aos 70, fico lembrando dessas coisas e me descubro com sentimentos opostos diante do muito tempo passado e do pouco que ainda resta pela frente.

Tem dias em que acordo animado, com vontade de começar tudo de novo. Noutros, depois de terminar de ler o noticiário do dia, penso em desistir de tudo, e entregar para Deus.

Após sofrer vários acidentes de percurso nos últimos meses, olho para trás e procuro entender tudo o que me aconteceu, e como consegui chegar vivo até aqui, apesar de tudo.

De repente, me dou conta de que os altos e baixos da minha vida coincidem com os do Brasil, para o bem ou para o mal.

E fico entre a resignação e a indignação de Darcy Ribeiro, sem saber se vale a pena recomeçar tudo de novo ou desistir de vez.

Claro que fiquei muito contente ao ser indicado esta semana, mais uma vez, quando já não esperava mais nada, como finalista do principal prêmio de jornalismo do país, em eleição direta do público, graças a este Balaio (até pedi voto para vocês aqui).

Mas, pensando bem, de que serve tudo isso, como cantava o Roberto Carlos de antigamente, se já não encontro motivos de esperança ao olhar para a frente?

Basta entrar nas redes sociais para ver o grau de degradação humana a que chegamos, a intolerância crescente, a ignorância triunfante, a total falta de respeito por quem pensa diferente, a falta de educação agora escrachada pelos idiotas imodestos de Nelson Rodrigues que saíram do anonimato, a estupidez granjeando seguidores, a indigência desta campanha eleitoral, que apenas é reflexo de uma sociedade doente, resignada e submissa a uma elite deletéria.

Que diriam hoje Darcy Ribeiro e Nelson Rodrigues, dois brasileiros tão diferentes, se vivos fossem e encaracem esta realidade?

Eles foram de um tempo em que ainda era possível pelo menos sonhar com um país mais justo e fraterno. E hoje?

Sou de uma geração que venceu a ditadura, mas temo deixar para meus filhos e netos um país pior, em plena democracia, do que aquele herdamos de nossos pais.

Sei que não basta ficar indignado, como Darcy, mas não sei por onde começar de novo, se a cada dia mais nos resignarmos a aceitar como novo normal as maiores atrocidades, como se a vida tivesse que ser assim mesmo e não houvesse outro jeito.

Agora é cada um por si, e que se dane o resto, como se fosse possível ser feliz sozinho.

Onde se escondeu a tal da esperança? É proibido sonhar? Alguém sabe me dizer? Vocês estão vendo algum sinal de vida por aí?

Vida que segue.

 

40 thoughts on “A vida na encruzilhada dos 70 neste Brasil de 2018: recomeçar ou desistir?

  1. Calma, grande repórter RK, a esperança é a antepenúltima que morre.
    Eu também tenho 35 anos…em cada perna. Não sei o que farei com o que resta da minha vida, como diz a música do Michel Legrand.

  2. Caro Kotscho,
    O que me estimula no meu caminho é a convicção que essa criançada que está crescendo hoje, mais do que reconstruir o nosso país, vai construir um novo Brasil, diferente de tudo o que já tivemos e que não podemos nem imaginar. Como disse René Dubos: “tendência não é destino, a vida recomeça para todos nós a cada nascer do sol”.

  3. Querido Kotscho, como entendo o seu desânimo. Parodiando o nosso Manuel Bandeira – tive uns sonhos, perdi-os… Mas não os perdemos. Ou não estaríamos tão infelizes. Eu sou um profissional da esperança – professor, entra dia sai dia estou conversando com pessoas juveníssimas, de 17 anos. Preciso confiar nelas. Nelas o mundo vai recomeçar. Como nos nossos filhos.
    Ou não? Também não sei… Vamos juntar nossas desilusões e fazer uma esperança pequena.

    1. Também confio nos jovens de 17 anos, meu caro Márcio, na geração dos meus netos, mas para mim não vai dar tempo de ver nosso país virar um lugar decente de se viver.
      A nossa geração, infelizmente, perdeu a batalha para o que há de pior no Brasil, esta gente sem caráter e sem vergonha, que tomou conta de tudo e destruiu nossos sonhos.
      A bandidagem venceu, esta é a nossa realidade, nos três poderes e em todo lugar. Destruíram o Brasil do presente e comprometeram nosso futuro. Forte abraço, Ricardo Kotscho

  4. Ao Mestre, “desesperançar jamais”.
    Darci Ribeiro, antes de fugir do hospital – “Termino esta minha vida já exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras.”
    Nelson Rodrigues – “Sem paixão não dá nem para chupar picolé.”
    “A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.”
    “O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.”
    “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”
    “Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos.”
    Paulo Vanzolini – “Porém, com perfeita paciência, volto a te buscar…”
    “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima…”

      1. Venceram algumas batalhas,mas não a guerra.Aquela votação do impeachment serviu para demonstrar o nível do nosso parlamento na plenitude de sua mediocridade,na mesma marcha batida segue o judiciário, juntamente com o espectro que se julga executivo.Lembrando Darcy,gostaria de se perfilar ao lado deles?Também estou nos 70s e tenho absoluta certeza de ver os golpistas de hoje mortos e esquecidos como aqueles do golpe de 64.Não passarão,nós passarinhos……

        1. Estou contigo, irmão de sobrenome! Há sim jovens desesperançosos ainda a espera de super-heróis de botinas. Mas há uma garotada que pensa, retruca, se valoriza. Daí virão… os passarinhos.

  5. oi Kotscho,
    Obrigada por me proporcionar a reflexão. Pensando bem, tudo o que você falou pode ser estendido também à escala mundial. É preocupante que uma elite deletéria tenha poder, e que a sociedade fique passiva. Existem muitas pessoas espalhadas no mundo, como você, também contribuindo para um mundo melhor. Inclusive pessoas com mais de 70 anos, conscientes de que devemos resistir e fazer nossa parte. Sugiro que vá a este show, acho que você sentirá que sozinho nesta não está:
    https://www.facebook.com/rogerwaters/videos/a-note-from-roger:-the/1300753293301806/
    Abraços

  6. Kotscho, é mister saber tb do que falou Mandela sobre essa desolação que nos aniquila hj.
    “Sou fundamentalmente otimista. Se isso vem da natureza ou da criação, eu não posso dizer. Parte de ser otimista é manter a cabeça apontada para o sol, os pés se movendo para frente. Houve muitos momentos sombrios, quando minha fé na humanidade foi duramente testada, mas eu não iria e não podia me entregar ao desespero. Dessa forma, se estabelece a derrota e a morte.”

    1. Cara Íris do Vale,
      Mariela era bem mais do jovem do que eu. Também pensava como ela.
      E veja o que aconteceu… Até hoje, não sabem quem matou, nem quem matou matar. Como sou menos corajoso, ainda estou vivo, mas não sei se vale a pena…Grato pela participação, Ricardo Kotscho

  7. Caro comentarista contemporâneo, permita-me lembrar-lhe um filme que passou a muitos anos. Farenheit 451 era o título. Não tenho certeza do número mas é a temperatura da queima do papel. Numa época indeterminada o governo proibiu os livros. Então alguns fugiram para as florestas e cada um decorava um livro e o transmitia para um substituto para que não se perdesse o conhecimento e a cultura.
    Nestes tempos tormentosos devemos ser guardiães dos ideais democráticos e progressistas para que as próximas gerações não sejam vitimadas pelo pensamento único imposto pela “elite”.
    “Existem homens que lutam um dia e são bons. Outros lutam muitos dias e são melhores. Mas os que lutam todos os dias, estes são imprescindíveis.” Cervantes sempre atual.
    Um abraço vewlho guerreiro.

  8. Tudo o que mais nos uniu separou
    Tudo que tudo exigiu renegou
    Da mesma forma que quis recusou
    O que torna essa luta impossível e passiva
    O mesmo alento que nos conduziu debandou
    Tudo que tudo assumiu desandou
    Tudo que se construiu desabou
    O que faz invencível a ação negativa

    É provável que o tempo faça a ilusão recuar
    Pois tudo é instável e irregular
    E de repente o furor volta
    O interior todo se revolta
    E faz nossa força se agigantar

    Mas só se a vida fluir sem se opor
    Mas só se o tempo seguir sem se impor
    Mas só se for seja lá como for
    O importante é que a nossa emoção sobreviva
    E a felicidade amordace essa dor secular
    Pois tudo no fundo é tão singular
    É resistir ao inexorável
    O coração fica insuperável
    E pode em vida imortalizar

    *Mordaça – Paulo Cesar Pinheiro
    Em resposta a sua coluna, triste reflexão porém
    necessária nestes tempos sombrios….a caminhada é longa e a busca é constante….
    Parabéns, mais uma vez pela coluna merecedora da indicação
    Abraço, com admiração
    Castro

  9. Querido Kotscho, não perca a fé. Na vida, nas pessoas. Milagres acontecem. Se não forem os grandes, pelo menos os pequenos, nas entrelinhas do cotidiano, nestes tempos difíceis. Vamos olhar pra eles. Um grande beijo e a minha admiração.

  10. O que fazer, Kotscho? Esta é a clássica indagação. “Pra mudar essa m… que está aí, só uma revolução”, respondeu Oscar Niemeyer, à mesma indagação, em sua última entrevista na TV Cultura. O problema é que ninguém mais acredita em revolução, nem tem disposição para pegar em armas, exceto a soldadesca já recrutada pelo crime organizado espalhado de norte a sul do país. Creio que nem eu, nem nossos filhos, nem nossos netos verão um país melhor. O que não quer dizer que não se deva lutar todo dia – como Você faz, Kotscho, – ainda que só com palavras, a tal “luta mais vã” de que falava o poeta de Itabirito. Fique firme, Kotscho. Guenta a mão, nosso decano lutador das palavras.

  11. Prezado Kotscho: ““É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca.” – Dom Hélder Câmara.

  12. “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceua.” Darci Ribeiro.

  13. Quando penso que neste pais tem mais de 30% de eleitores propensos a votar num condenado pela justiça, da vontade de arrumar as malas e ir embora. Que vergonha de ser brasileiro envolto de tantos ignorantes.

    1. Então, Ana Carolina, melhor você já ir arrumando as malas: na nova pesquisa Vox Populi divulgada nesta quinta-feira, Lula venceria no primeiro turno, com 58% dos votos válidos.
      Daqui a pouco vou publicar novo post com todos os números da pesquisa.

    2. “Que vergonha de ser brasileiro envolto de tantos ignorantes.”
      Fez lembrar a charge com com um recruta marchando diferente do resto do pelotão e a mãe na platéia chamando a atenção para o pelotão.
      Boa viagem!

  14. Mestre!
    Sei muito bem o que sentes! Jean Jacques Rousseau nos ensina que há uma fase da vida em que devemos aprender a morrer( Segunda caminhada do livro Devaneios do Caminhante Solitário). Por favor, nåo entenda como a morte no sentido literal! Nós aqui do outro lado, talvez mais jovens que o senhor, sentimos a mesma coisa ( como a música Roda Viva do Chico). Mas, acredite! O senhor fala por nós! Nosso país escolheu a ignorância! Mas há ainda muita gente sábia que espera seus escritos e aprende muito com eles! Hoje por exemplo, o seu balaio me estimula a ler novamente O Processo Civilizatório e o Povo Brasileiro. Darcy faz muita falta! Florestan faz muita falta!Sergio Buarque faz muita falta! Mas temos o senhor que nos ajuda a se indignar e a NÃO RESIGNAR! Fiquem em PAZ! QUE ESSE PRÊMIO SEJA SEU! MESTRE RICARDO, A NOSSA VOZ!

  15. Caro Kotscho:
    Recomeçar ou desistir?
    Uma resposta talvez seja, simplesmente, continuar.
    O mundo não mudou, basta lembrar as guerras e matanças desde o começo da humanidade, a escravidão, o nazismo, o fascismo, Hiroshima, Nagasaki, os bombardeios contra civis na Coréia do Norte e no Vietnã do Norte, o Gulag, a guerra do Paraguai, Filinto Muller, Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel, Franco, Pi nochet etc. etc.
    É preciso ter pessoas que possam denunciar continuamente as maldades. Mudando um pouco o que o leitor Mauro Fleck propôs, “Kotscho, não desista de nada, muito menos de escrever. Teus textos iluminam estes dias escuros em que estamos vivendo.
    Abraços,
    josé maria

  16. Apenas como curiosidade, há uma frase memorável de Darcy Ribeiro em uma sucinta definição do PT, sobretudo quando estabelecido no centro do poder: “a esquerda de que a direita gosta”.

      1. Pode ser, Kotscho. Ambos estiveram juntos desde sempre e o Darcy pode ter repetido a frase originariamente cunhada pelo Brizola. Faz sentido, porque Brizola foi um desses notáveis frasistas do nosso folclore político. Mangabeira Unger atribuiu a frase ao Darcy, recentemente, ao defender um suposto programa do PDT e registrar algumas diferenças entre o trabalhismo do PDT e a social-democracia do PT. Grato pela atenção. Kotscho.

    1. Caro Xikito, o Charbonneau, que oficiou meu casamento, faz mesmo muita falta. Ele não deixava ninguém desanimado perto dele.
      O nome é Prêmio Comunique-se 2018, mas sou apenas finalista. Os vencedores serão anunciados no dia 11 de setembro. A votação está aberta até 8 de agosto no site do comunique-se.com.br
      Grato pela participação, abraços, Ricardo Kotscho

  17. Tenho 4.9 mas consigo sentir exatamente o que você disse nas linhas e também nas entrelinhas… Compartilhei no meu Face e dei o seguinte título: caramba…

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