Cuidado: só Bolsonaro está em campanha no fim de feira de um Brasil falido

Cuidado: só Bolsonaro está em campanha no fim de feira de um Brasil falido

Acabou-se a ilusão do hexa, a Copa da Rússia está chegando ao fim, e o que sobrou para nós aqui é um país cada vez mais degradado, falido, sem vergonha, amorfo, entregue às baratas do fim de feira da “ponte para o futuro”, que nos levou de volta ao século 19.

Foi o que senti ao ler o noticiário desta sexta-feira, 13 de julho de 2018.

Se algum leitor conseguir encontrar alguma notícia boa para me animar um pouco diante de tudo que aconteceu esta semana, eu agradeço.

Começou com o vexame jurídico do domingo, em que rasgaram a fantasia das togas, e atravessou a semana toda com as pautas-bomba aprovadas no Congresso que inviabilizaram o próximo governo, arrebentando as contas públicas com mais uns R$ 100 bilhões de rombo fiscal.

Foi uma farra: liberaram aumentos e contrações para o funcionalismo, deram desconto de imposto de fábricas da zona franca de Manus, perdão da dívida para micro e pequenas empresas, anistiaram crimes e infrações, liberaram a contratação de cupinchas e parentes nas estatais _ , e ninguém, nenhum candidato presidencial ou representante da “elite” disse nada, como bem observou Vinícius Torres Freire em sua coluna de hoje na Folha, com o título “Autodestruição do país continua”.

Destruíram o presente e comprometeram o futuro, não deixaram pedra sobre pedra, deram uma banana para ao distinto eleitorado, a menos de três meses da abertura das urnas.

Mas nada pode expressar melhor o atual momento do que a fotografia publicada no pé da página A8 do mesmo jornal.

Único candidato em campanha aberta, empunhando a faixa presidencial no peito, Jair Bolsonaro aparece eufórico, como se já estivesse comemorando a vitória, ao lado de tipos assustadores como ele, no alto de um carro de som, em Marabá, no sudeste do Pará.

A foto de Ulisses Pompeu pode ir para a capa de um livro quando alguém escrever a história deste Brasil de 2018, que lembra cenas da ascensão do nazismo e do fascismo na Europa dos anos 30 do século passado.

Também não se levava muito a sério os malucos e celerados que apareceram do nada para salvar pátrias derrotadas na Primeira Guerra, e deu no que deu.

Da mesma forma, muita gente do bem das “elites” achou também até bom aparecer um Collor para derrotar Brizola e Lula na primeira eleição direta para presidente ao final da ditadura brasileira, depois do desastre Sarney, outro vice do MDB que chegou ao poder sem votos.

Somos especialistas em repetir farsas com tragédias, gostamos de brincar com fogo à beira do abismo.

Por que só Bolsonaro continua em campanha?

É que o candidato favorito nas pesquisas presidenciais está há 100 dias na cadeia e os outros parecem ter vergonha de se apresentar em público, sem nada para dizer de novo, como se pode ver nas entrevistas e sabatinas da imprensa.

Bolsonaro também não tem. É um poço de sandices, ameaças e contradições cada vez que abre a boca, mas a maioria do eleitorado até aqui está encantada com seu jeitão valente, desafiando a velha política e prometendo melhorar o país a tiros de fuzil.

Será que ninguém está se dando conta do perigo que todos estamos correndo com esta insanidade triunfante faltando poucos dias para decidirmos os destinos do país?

Em Marabá, Bolsonaro se empolgou com a propria voz e mandou ver, como relata Leonêncio Nossa, enviado especial do Estadão:

O que eles têm nós sabemos. O que temos eles não terão: o povo ao nosso lado”.

Dá para imaginar o que isso quer dizer .

Ao mesmo tempo em que foca seu discurso nas críticas à velha política, o ex-capitão afastado do Exército, não se abala quando o repórter lhe pergunta sobre a aliança que seu partido, o nanico PSL, está tramando com o MDB do Pará.

“Se o nosso foco é a cadeira presidencial, paciência. ”

Esta é a “nova política” que surgiu após a destruição dos partidos, das grandes empresas e das principais lideranças em nome do combate à corrupção para passar o país a limpo.

Quatro anos após o início da Operação Lava Jato e dois depois do impeachment da presidente eleita, é o que temos.

Lamento ter que escrever estas coisas mais uma vez. É como diz o genial Woody Allen, “a realidade é chata, mas é o único lugar onde ainda se pode comer um bom bife”.

Do jeito que as coisas andam, porém, não vai sobrar bife para todos, infelizmente. Nem bife, nem democracia.

Nossa liberdade e o Estado de Direito estão outra vez seriamente ameaçados, apenas 54 anos após o golpe militar que nos jogou nas profundezas da ditadura e três décadas depois de reconquistarmos a democracia.

Apesar de tudo, bom final de semana e de Copa para todos.

Vida que segue.

 

26 comentários em “Cuidado: só Bolsonaro está em campanha no fim de feira de um Brasil falido

  1. Aconteceu o que já não mais botava fé, Mestre, nosso tricolor conseguiu vender o Cuevas para os russos do Krasnodar, que deu-nos essa felicidade.
    PS: Nem interessa por quanto.

  2. (Corrija Kotscho (é uma farra, não fara). O campo popular progressista encontra-se cada vez mais fragmentado e a tática lulo-petista para garantir sua hegemonia entre os partidos supostamente de esquerda oferece combustível suficiente para a desenvoltura da “candidatura militar”. E isso não é de hoje nem de agora. Vem desde a prisão de Lula, que já se cogitava desde 2017. A tática do lulo-petismo é uma só. Garantir uma bancada para conferir ao partido a maior representação à esquerda e a mobilização para retirar Lula da prisão em que se meteu, quando deveria estar em uma embaixada, asilado. Uma só candidatura do campo do centro-esquerda é a única possibilidade de se garantir uma posição no segundo turno para confrontar a “candidatura militar” que não desidratou e consolidou-se definitivamente no segundo turno. O país vai ficando cada vez mais parecido com a República de Weimar. Espera-se que o desfecho seja diferente daquele tramado nas cervejarias de Munique.

  3. Enquanto isso o PT nos deixa opção mas firme na convicção de que Lula vai sair da cadeia e nos salvar de todos os males, amém. Eu também queria. Mas isso parece uma espera por D.Sebastião.

  4. Até domingo temos algo para comentar: A Copa do Mundo, sou Croácia. Mas… e depois…Qual será o assunto atual? O de sempre? O enterro do país por essa política encardida que nada assumiu e só ”trabalha” para vender tudo que não é seu e estiver no seu alcance? Lamentável…um povo sem sonhos, que vê a dignidade cada vez mais distante de si, que não enxerga (mesmo com a maior boa vontade) o futuro dos seus filhos e netos? Um desespero total instalado na mente de todos os brasileiros que desejam uma vida digna e saudável. Infelizmente, é isso que consigo ver no semblante dos meus compatriotas.

  5. O seu comentário está aguardando moderação.

    Boa tarde Ricardo (Coração de Leão),

    Antes de olhar os comentários da crônica, já estava imaginando: “o que será que Bolsonaro vai faria com Moro?”. O comentário já deu um certo tipo de resposta.
    Realmente, chega a ser depressiva nossa realiade.

    Bom fim de semana
    Um abraço!
    Cannindé

  6. O brasileiro está vivendo um enredo de Maquiavel, onde os nossos príncipes tramam as estratégias para nos subjugar.
    Somos um povo ideologicamente amputado; sem direita, sem esquerda. Há uma manipulação tacanha de desinformação propagada através de mídias sociais, sobretudo o MBL e seus pupilos, que deformam os indivíduos jogando-os em valas comuns, propagando informações sem nexo e nem contexto a ponto de incluírem a Rede Globo como sendo comunista.
    É assustador ler os comentários que os seguidores postam. Opinam sobre os vídeos como sendo fatos históricos irrefutáveis.
    O que está acontecendo no Brasil nos remete a uma similaridade muito peculiar com o “sequestro” da consciência da população praticado por J. Goebbels no nazismo, demonizando os judeus, os comunistas, ciganos, etc.
    Democracia? É como uma geleia escorrendo entre nossos dedos. Saboreá-la talvez não haja tempo! O que está ocorrendo é um acelerado movimento para estado de exceção. Exemplos? A intervenção militar no Rio de Janeiro, a atuação do judiciário, o discurso de Bolsonaro; são sintomas latentes do Estado de Exceção.

  7. Agora sim Sr.Kotscho Vsª foi no âmago da questão. É isso, e o que passa disso é fla-flu e palanque. O próximo presidente vai herdar uma economia com um déficit monstruoso que se aproxima dos 190 bilhões sem ter mais de onde tirar. E o senhor ainda não tocou noutra bomba: Por baixo dos panos os togados do STF estão forçando um reajuste que elevaria seus vencimentos para 45 mil por mês e, como se sabe ,aumentado lá ,aumenta cá, no famoso e conhecido efeito cascata. Veja que a Câmara ,na verdade, legalizou o furto de energia elétrica, fazendo com que os bons pagadores sejam penalizados com um aumento de mais de 5%. Na verdade o governo está tendo sérias dificuldades nos leilões da Eletrobras ,pois os interessados querem que o problema do furto de energia seja resolvido antes de fechar contrato. O seu post nos coloca no mundo real. Na Grécia, o FMI só fechou o acordo depois que o governo, que é de esquerda e radical, cortasse a energia gratuita que dava a uma parte da população ,tanto é que os velhos candieiros e lamparinas voltaram a iluminar milhares de domicílios da Grécia. Mas, os proventos de aposentadorias não teve jeito ,foram reduzidos em mais de 50%. Estou ”prevendo” uma Grecificação.

  8. Que é que isso, jornalista? Ao que sei Bolsonaro não chega nem a 20% das intenções de votos, que farão os demais 80%? Sua não coligação lhe dá tanto tempo de televisão, quanto tinha o não menos folclórico Enéas, que berrava apenas seu nome para um mesmo público, e nada mais. Talvez consiga eleger uns cinco deputados, se tanto. Lula continua candidatíssimo e aprovado pela maioria do eleitorado, impondo ao golpe uma escolha, ou partem para a ditadura pura e simples, se tiverem apoio e condições para suportar os problemas que advirão, certamente de difícil controle, aprofundando ainda mais a recessão, afastando mais ainda o povo, que certamente não desejavam, ou optam por eleições com Lula livre, que dará Lula lá outra vez. Quanto às decisões do Congresso, estão no amanhã, e haverá outro para deliberar mais favoravelmente à governabilidade, em 2019.

  9. Kotscho, uma notícia das redes sociais, em consonância com seu post, e que, uma vez confirmada, pode significar o golpe de misericórdia no maltratado e desesperançado trabalhador brasileiro: “Jorgina de Freitas, condenada em 92 por desviar R$ 310 milhões do INSS, foragida, presa na Costa Rica em 97 e ainda cumprindo pena em regime semi aberto, foi contratada pela Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro (CEDAE) como assessora do presidente da empresa, Wagner Victer.” Kotscho e amigos, nem vale a pena perguntar o que têm a dizer a justiça ou oficiais das forças armadas, pois entre canalhas achacadores e falastrões meia tigela, acho que não passam de três ou quatro os que abrem as cloacas pra constranger e ameaçar a liberdade de um condenado à revelia da constituição e sem provas. Durmamos com um barulho desses, vida que segue….. não se sabe até quando.
    Em tempo: Enio B Filho, tá faltando algo no Balaio, apesar do magistral post do Kotscho e dos estupendos comentário do Dias, Rui Rascassi, Netho e muitos mais (só participar do Balaio nos tem proporcionado algum alento nesse manicômio do Brasil pós golpe, pois até as baboseiras do Luis Carlos Velho contribuem pra desviar nossa atenção dessa dura realidade).

  10. Coisa impensável antes: e se, para combater Bolsonaro, houver um candidato que “é” de Fernando e também de Luís? Que “tivesse sido” antes de Luís e também de Fernando? Que costurasse fatias do Itamaraty, setores nacionalistas e democráticos das Forças Armadas (que não podem dizer de público que não são representados por Bolsonaro), democratas de todos o quadrantes. Que representasse com altivez o país em arenas internacionais, conversasse com franqueza com sindicatos e partidos. Pois se Lula, em alguns momentos, pode ser maior do que O PT; Fernando Henrique da mesma maneira pode ultrapassar o PSDB.
    Sem que ele venha a concordar com minha ideias, faço minhas as palavras do Kotscho: há semelhanças no Brasil com a ascensão do nazi-fascismo.
    (a propósito, recomendo a todas o papo de Ricardo Kotscho e Clóvis Rossi no YouTube; e também a descrição da distopia nacional feita por Lênio Streck, no ConJur, Senso Incomum, na última quinta-feira).

  11. Prezado Kotscho: Estou lendo o livro “Brás – Sotaques e desmemórias” de 2002 do Lourenço Diaféria. Esse livro me levou a encontrar a crônica de 1977 “Herói. Morto. Nós.”, que acabou levando-o à prisão, por ser considerada ofensiva às Forças Armadas. Um trecho dessa crônica: “O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal.” Espero, sinceramente, que este sentimento continue valendo para a próxima eleição presidencial.

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