Já reparou? Está cada vez mais difícil se comunicar com palavras

Já reparou? Está cada vez mais difícil se comunicar com palavras

Para deflagrar a guerra, basta uma palavra, mas para restabelecer a paz muitas vezes milhões de palavras não são suficientes.

Nesta época da grande revolução nas comunicações sociais, a maior desde que Gutemberg inventou a imprensa, com as informações globalizadas online e full-time na internet, parece que nunca foi tão difícil se fazer entender.

Você diz uma coisa e o interlocutor entende outra, às vezes antagônica, e estabelece-se um diálogo de surdos, com as pessoas falando cada vez mais alto para vencer a batalha verbal.

Seja falando de viva voz ou por escrito nos 140 caracteres do twitter, nas palavras abreviadas do whatsapp, nas mesas redondas de futebol na televisão ou no papo de boteco, a cacofonia de letras e sons torna os diálogos cada vez menos inteligíveis.

Todo mundo quer ter razão e nem presta atenção no que o outro está dizendo.

Não é que estamos ficando todos surdos ou cegos, mas é que não ouvem ou leem aquilo que a gente quis dizer.

Pouco importa o que você fala, o outro já tem uma opinião formada, tanto faz qual seja o assunto, e é definitiva.

Nada muda o pensamento do dono da verdade, como se pode notar nos comentários enviados pelos internautas para este blog, ou qualquer outro nas redes sociais.

Também não interessa o que você escreveu, que muitas vezes nem é lido até o fim.

O cara bate o olho no assunto do título e manda ver, geralmente repetindo sempre as mesmas verdades absolutas. O diálogo se torna inviável.

É como acontece no Supremo Tribunal Federal em que cada ministro interpreta as palavras da Constituição a seu modo particular.

Seja sobre futebol ou política, o tempo que está fazendo lá fora ou a moça passando na janela, estabelece-se o conflito, que não leva a lugar nenhum.

Ninguém admite mudar de ideia, todos estão convictos das suas certezas, tanto faz se estão falando baseados em fake news ou hard news. Os fatos que se danem, o que vale é o que eu penso.

A leviandade com que se fazem acusações e maledicências nos comentários é assustadora, sem falar nos kkkkkkkkkkk e rsrsrsrsrs daqueles que se acham grandes humoristas.

O resultado de tudo isso é a incomunicabilidade cada vez maior nas relações humanas, pois inventam fantasias as mais absurdas, e acabam acreditando nelas, de tanto repeti-las.

Fico pensando no trabalho insano que terão os historiadores do futuro para entender em que língua falavam os humanóides deste início do século 21.

“Não foi isso que eu quis dizer” é o que mais se ouve nestas conversas em que um nem presta atenção no que o outro fala.

E não são só os políticos que desmentem o que acabaram de falar antes ou reclamam que foram mal interpretados.

As palavras foram perdendo a força e o sentido, são meros adereços descartáveis, simplesmente não são mais respeitadas no seu significado original.

Um princípio básico da comunicação ensina que ela só se dá quando uma pessoa exprime uma ideia e a outra entende o que ela quis dizer.

Isso vale tanto para uma campanha eleitoral como para discussões familiares ou entre amigos.

Se eu falo uma coisa e você quer entender outra, a priori, não há comunicação possível.

Dessa forma, as pessoas vão se afastando cada vez mais umas das outras e os silêncios se estabelecem no lugar do diálogo que poderia levar a um entendimento.

Perde-se assim a principal diferença entre os homens e os quadrúpedes.

Um bom exemplo dessa incomunicabilidade vemos agora na Copa do Mundo nas discussões entre juízes e jogadores.

Não sei se existe uma língua oficial do futebol, imagino que seja o inglês, mas nem todos falam este idioma.

Como é que o juiz da Croácia vai advertir um jogador do Panamá ou explicar o pênalti que acabou de marcar?

É assim que me sinto ao tentar explicar a importância e a beleza da democracia e da liberdade a alguém que defende a tortura como método de persuasão.

De que adianta tentar convencer um motorista de táxi de que aquilo que ele ouviu de outro passageiro não existe, não é verdade, nunca aconteceu?

Como a vida é dura e o mundo é cruel com quem não sabe amar nem perdoar quem errou, os infelizes se refugiam nas suas fantasias para culpar os outros pelos seus infortúnios.

Palavras, palavras, palavras, para que servem ainda?

O mais incrível nesta história é que, quanto mais a tecnologia avança, multiplicando e tornando mais rápidos os meios de comunicação, menos as pessoas se conseguem fazer entender.

Talvez esteja aí a razão de tanta violência verbal, que no limite acaba levando às ofensas, à troca de tiros e às balas perdidas, às guerras e aos conflitos sem fim, que destroem famílias e sonhos, países e instituições.

Palavras como compaixão, solidariedade, idealismo, carinho, respeito, bem querer, entendimento, paz e bem, e tantas outras do gênero, foram sumindo do vocabulário, viraram coisa de antigamente, frescura de poeta.

Quem não se comunica se trumbica, era o bordão do grande Chacrinha, que morreu há exatos trinta anos, fazendo muito sucesso e achando que era um incompreendido.

Vida que segue.

 

20 thoughts on “Já reparou? Está cada vez mais difícil se comunicar com palavras

  1. Interpretação de texto é um óbice. Lavagem cerebral e propaganda subliminar por parte da grande imprensa idem. E a insegurança crescente no seio da sociedade completam o caldo de cultura para voltarmos a nos relacionar por meio do tacape. Só falta liberar geral o porte de armas. Difícil o ofício de opinar nestes dias “estranhos”.

  2. Ricardo, seu texto é definitivo. Voce resumiu com precisão nossos tempos atuais. Comunicar-se se tornou a maior dificuldade de todos os tempos, um exercicio de reapredizagem faz se fundamental para não cairmos em armadilhas traiçoeiras . Parabéns. Vida que segue e longa.

    1. Prezada Eliane, você está certa ao lembrar que o Kotscho “resumiu com precisão nossos tempos atuais”.
      A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, já dizia o poeta Vinicius de Moraes.
      Eu acrescento que, nestes tempos estranhos e tristes, a vida está repleta de mal-entendidos.
      Parece que o Apocalipse já começou e poucos perceberam.
      Parabéns pelo comentário.

  3. É razoável supor que o castigo divino aos homens que tentaram construir uma torre –DE BABEL– para chegar ao céu chegou aos nossos dias. À época daquela obra, o criador , vendo aquilo, mandou um vendaval que derrubou tudo e, em seguida misturou as línguas dos operários e engenheiros de tal forma que, como disse o sr., ninguém entendia ninguém. Delfim Netto diz que, a construção de Brasília foi a 2ª maior estupidez dos humanos, sendo Babel a primeira ,portanto, tem algo ver os conflitos idiomáticos atuais com os da antiguidade. Brasília, no entanto, foi em frente e nenhum vendaval divino a derrubou ainda, o que ,ao que parece, os senhores ministros do STF estão se propondo a fazê-lo. Agora, sinceramente, ouvir os discursos eruditos de Celso de Mello e Marco A.de Mello, dá azia até em urubu.

  4. Por isso os cães estão tão em alta. É proporcional o amor ao cão (que só lambe) e o ódio ao ser humano que contrapõe.
    Tempos difíceis. Monologais. Vida que segue.

  5. Pois é: tempos de Incomunicação, quando um juiz sem juízo, condena um inocente, por convicção; quando um juiz supremo, esquece seu discurso e arquiva uma tese de defesa, do inocente, quando um golpista e seus aliados vendem a pátria, e o pré-sal em pleno certame mundial!? Oque será……? O que será……?

  6. Ricardo, moro em Portugal e observo que tem havido muitos movimentos por parte de diversos segmentos em países diferentes cuja finalidade é que a Justiça no Brasil atue em consonância com a Constituição, o que daria a Lula a possibilidade de aguardar em liberdade suas apelações.
    Noto também que começa a haver um cansaço por parte desses mesmos segmentos – ou será porque estamos em período de Copa? – porque oesses supremos da vida não somente não cedem um palmo como continuam atuando em contra de pirraça.
    Temo, sinceramente, que a energia de Lula acabe se esgotando, vendo tanta maldade e insensibilidade em volta. Tomara que não – mas os últimos movimentos em Brasília são de mau agoiro. Jamais poderia imaginar que o brasileiro fosse tão cruel.

  7. Mestre, ‘com a internet’ os medíocres passaram a ignorar o filtro da modéstia e, no Brasil, ‘futebolizaram’ a vida por completo e, como isso não bastasse, o pior, a vida que segue, cada vez mais, passa obrigatoriamente a ser de ‘torcida’ única, para evitar-se confrontos e violências, rumo a ‘torcida individual única’, com cães por companhia, conforme arguto comentário de Mário, que reforça ‘brilhantemente’ o excelente post.

  8. Um grande humanista dizia a 2000 anos, se levares um tapa, da-lhe a outra face, enquanto outro líder belicoso pregava, o olho por olho, dente por dente. Quem tem o dom da palavra deve mediar esse conflito.

  9. Não é à toa que um número grande de internautas tem abandonado o Facebook pelo Instagram que não comporta – ou não demanda – tanta escrita nem maiores articulações de pensamento.
    Se uma de suas contestações, Kotscho, é com o kkkkk, uma de minha fortes é com o que se tornou quase uma “pontuação” para os muitos que usam “a questão da, de, do” antes de qualquer coisa. Certa vez – e o cacoete vem de longe! – um aluno me disse que faria um trabalho sobre “a questão da ecologia”! Perguntei-lhe: A questão do Gilberto Gil ou do Gilberto Mestrinho sobre a ecologia?! Qual é a sua questão sobre… já que a ecologia não pergunta. Um horror! Passou a ser uma “vírgula“ na linguagem falada e escrita.

  10. Realmente um texto começa com a reflexão da beligerância da comunicação. Principalmente no mundo virtual. Mas até aproveitar para incluir hoje seus inimigos. Juízes, Ministros (claro aqueles que votam contra a esquerda), os eleitores do lider elegível das pesquisas para presidente, aí o texto perde a essência dos primeiros capítulos para se tornar defesa de quem está preso e ataque de quem é a favor que permaneça. Ficamos cegos e surdos quando nossa mente não consegue mais escrever ou pensar sem desviar do título para defesa subliminar de um condenado que no mínimo praticou o crime de omissão diante de bilhões roubados das estatais e fundos de pensão. Por isso sou chato ao apontar as incoerências. Não pode dizer que estou fora do tema é só ler os comentários acima. Com a palavra o moderador. Vida que segue

  11. “A comunicação só se dá quando uma pessoa exprime uma ideia e a outra entende o que ela quis dizer.” Pode-se até não concordar com essa ideia, mas é preciso refletir antes de expressar a sua. Acontece Kotscho que, como você também escreveu neste brilhante texto, muitos “gênios” já se consideram donos de verdades absolutas e ai de quem discorde.

  12. Fantástico post, super original.Boa idéia para teses de estudos sobre sociologia e comunição.
    Só espero que quando não mais comunicarmos com palavras, usemos mais abraços e gestos de afeto, do que coices e tapas.
    Por enquanto estas duas últimas formas estão ganhando espaço.

  13. “Palavras como compaixão, solidariedade, idealismo, carinho, respeito, bem querer, entendimento, paz e bem, e tantas outras do gênero…..” Kotscho há dois mil anos, uma multidão crucificou um pregador de discurso semelhante, optando por libertar um ladrão. Sempre foi assim e sempre será. Donald Trump enjaulou crianças mexicanas pra separa-las dos pais. Já imaginou se fosse em Cuba ou Venezuela ? Alguns balaieiros defendem a ditadura, outros participam apenas pra desejar a morte do Enio. Não vejo nenhuma dificuldade em dialogar com “gente”. Mas conversar e se entender com os coxinhas paneleiros do Balaio nem voce está conseguindo, pois pra essa cambada só vale o que ouvem nos telejornais golpistas. Estamos no fundo do poço, no mato sem cachorro, sem luz no fim do tunel, f…… e mal pagos. E com conversa nao resolveremos coisa alguma. Muito triste isso, que Allah, o misericordioso, e Maomé, seu profeta, intercedam por nós. Bom domingo a todos.

    1. Seja macho e vá para rua com seus camaradas para defender seus ideais. Esqueci que a covardia é uma das principais características da esquerda. Esbravejar e falar grosso atrás de um teclado é fácil e bem covarde. Vamos mostre um mínimo de coerência e coragem e saía da covardia para ação. Isso é só para os fortes. Junte 10% de sua tribo e depois escreva com toda desenvoltura e dignidade. Isso deixou de pertencer a 99% dos mortadelas e trintas reaus. Continue com sua máscara de caricata da coragem que aqui todos já sabem que depender de inciativas da esquerda até o Ricardo já desistiu e lacrou o armário. É chato esses que apontam nossas hipocrisias e covardias. Vamos agora para as ofensas. Seguindo a linha dos comentários. Com a palavra o moderador. Vida que segue

  14. Os malditos coxinhas só pensam em acusar Lula e o PT. Como não tem conhecimento político e cultura menos ainda, acreditam, como bem disse o Victor Hugo, nos telejornais, rádios e revistas golpistas. É ignorância demais para minha paciência. Seria bom deletá-los, Kotscho, pois já encheu o saco ler todo dia o mesmo argumento de dois ou três imbecis.

  15. Com a “maxima concessa venia”, estimado Kotscho, permita-me discordar, amplamente, do seu entendimento a respeito das dificuldades de se fazer entender, isto é, da comunicação entre os seres, a despeito das tecnologias recentes disponíveis. A dificuldade é congênita e antiquíssima. Por exemplo, para ficar nos ‘clássicos’, há um rol de esplendidos guias aos insondáveis meandros, não apenas da dificuldade dos seres comunicarem-se, vale dizer, entenderem-se, exceto superficialmente, quando se trata da leitura de sinais de trânsito e códigos simples, que símios também lograriam êxito em discernir. São conhecidos como ‘cronistas do absurdo’: Kafka, Büchner, Brecht e Ionesco. Há outros, porém de menor expressão literária mundial. A raiz profunda dessa incomunicabilidade reside na própria natureza humana e resumida no fato de que a maior parte do comportamento humano repousa no inconsciente. A consciência humana propriamente dita seria tão-somente a ponta do iceberg. De qualquer modo, a sua sensibilidade para o tema apenas reforça as qualidades insuperáveis do ‘decano do jornalismo’ e o mentor dos melhores repórteres brasileiros.

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