Como uma reportagem pode ajudar a salvar vidas

Como uma reportagem pode ajudar a salvar vidas

Entre as centenas de mensagens que me mandaram depois da entrevista no programa “Conversa com Bial”, uma delas me fez recordar reportagem publicada há tanto tempo que já nem me lembrava dela.

Veio do leitor Jorge Nascimento no Facebook:

“Você não sabe como esta reportagem salvou vidas humanas nas plataformas”.

Não sabia mesmo. Junto à mensagem, o leitor anexou a reportagem “Operários reclamam da falta de segurança nas plataformas” que saiu na primeira página da Folha no dia 19 de agosto de 1984, um domingo.

A lembrança me fez voltar no tempo. Estava há dias junto com o fotógrafo cobrindo um incêndio florestal no parque do Itatiaia, na divisa do Rio com São Paulo.

No meio da tarde, veio a ordem da chefia de reportagem para irmos o mais rápido possível para Macaé, na Bacia de Campos, onde uma plataforma da Petrobras pegou fogo e desabou.

Chegamos já no comecinho da noite, paramos o carro em qualquer lugar e fomos correndo cada qual para um lado com pressa para tentar levantar a história a tempo de entrar no jornal do dia seguinte. Deu tempo.

Na manhã do domingo, colocaram uma vaga à disposição de cada veículo no helicóptero que sobrevoaria a área.

Olhamos um para o outro, e aí: quem vai? Ambos medrosos de carteirinha, foi difícil escolher, mas o Jorge acabou indo porque seria só um sobrevoo e a imagem nesta hora é mais importante do que o texto, que segue abaixo:

“Oito homens com macacões cor de laranja da Petrobras remexendo nos escombros, junto à torre da sonda que desabou depois do incêndio da madrugada de quinta-feira: foi isso que o repórter fotográfico Jorge Araújo, da “Folha”, viu ontem de manhã na plataforma central de Enchova I, na Bacia de Campos, depois de 50 minutos de voo de helicóptero até o local do acidente.

O tempo fechado e a chuva tornavam ainda mais sombrio o ambiente no aeroporto de Macaé. Mesmo assim, os helicópteros continuavam levando e trazendo os garimpeiros do ouro negro na plataforma da Petrobras, as ilhas de aço espetadas em alto mar.

Tensos, quase cochichando no ouvido do companheiro quando têm algo a dizer, os trabalhadores da Petrobras e das empreiteiras que servem à estatal esperam na vila próxima ao aeroporto o momento de embarcar para mais 14 dias nas plataformas. Pedindo para não serem identificados, com medo de represálias, eles fazem um apelo aos jornalistas: “Vocês precisam denunciar a falta de segurança no nosso trabalho, que começa com os helicópteros”.

A matéria continuava na página 23.

Em seguida à mensagem de Jorge Nascimento, veio a da Internauta Beatriz Carrasco Fujimoto:

“Que sua vida siga por muito tempo porque o senhor é um repórter que dá gosto e dá esperança”.

Foram os maiores elogios que já recebi na vida. Sei que em boca própria elogio é vitupério, mas tinha que registrar para agradecer aos dois pelas palavras generosas sobre meu trabalho.

É isso que me anima a continuar contando minhas histórias.

Bom final de semana a todos.

Vida que segue.

 

9 thoughts on “Como uma reportagem pode ajudar a salvar vidas

  1. Tudo que aprendi nos seus livros e reportagens, ao longo do curso de jornalismo é que me fez e faz comprometida com a notícia contada por quem vive a realidade diariamente.

  2. Que vitupério, que nada, mostrar o reconhecimento, a satisfação e o respeito, do outro, em tempo de mediocridade e individualidade ‘meritocrática’, exacerbadas e sem modéstia, é mais que preciso, é obrigação pedagógica.
    E mesmo assim, ao permitir o democrático e saudável exercício do contraditório, há quem permaneça pensando que o Balaio é de gatos.
    Não ferinos, é ‘do Kotscho’, o tolerante ‘Mestre da reportagem’, há 54 anos ‘sujando o sapato’ e “dando gosto e esperança”, na estrada da vida que segue.
    Portanto, respeito!

  3. Faço minhas as palavras da Beatriz para insistir, e não desistir, de alimentar o seu “Do Planalto ao Golpe”, que seria o grande lançamento do ano da Companhia das Letras. A história que faria o país saber o verdadeiro gosto da esperança, porque somente Você saberia contar essa história.

  4. “Vocês precisam denunciar a falta de segurança no nosso trabalho, que começa com os helicópteros”. Segurança no trabalho é direito trabalhista. A maioria das categorias não param porque não consegue viver sem o mísero salário. Do jeito que tá a crise, hoje, o sindicato dos petroleiros conseguiria segurar uma greve? E será que teria o apoio das outras?

  5. Ricardo, hoje aos 58 anos e mestrando em antropologia, com o curso iniciado em meados de março posso me arriscar a dizer que seu trabalho é trabalho de “campo” e o que você nos narra é etnografia e seu oficio ativismo jornalístico. Posso levar um “zero” mas o elogio e gratidão ao seu trabalho já registrei. Abraço fraterno.

  6. “Mesmo assim, os helicópteros continuavam levando e trazendo os garimpeiros do ouro negro na plataforma da Petrobras, as ilhas de aço espetadas em alto mar.” Parabens (um dia ainda vou escrever assim) !!! Mas corrija, Kotscho, pois no post está escrito “outro” negro e não “ouro” negro.

  7. Amei sua entrevista no Conversa com Bial!
    E vislumbrei uma luz no túnel, pois há 8 anos procuro um jornalista que se sinta pertencente ao lugar que mora e saiba da importância das histórias de vida, pois são elas que definem e registram o momento histórico de cada comunidade, que somadas retratam um país.

    Espero que minha sugestão de pauta possa lhe interessar:
    CONDOMÍNIOS – CIDADE SEM LEI, CIDADE DE NINGUÉM

    Ninguém mais fala do prédio que desabou…

    Ninguém se interessa pelos problemas no condomínio que moro. A Prefeitura fez vistas grossas para as irregularidades. O Juizado homologou que fossem dadas as devidas explicações, mas Síndica e Administradora debocham porque sabem não haver fiscalização e se escondem por trás de assembleias e atas irregulares.

    Daí são obras e obras inacabadas, obras quase que milionárias sendo executadas sem detalhamento, sem capitação de recursos em meio a uma inadimplência altíssima.

    E eu, que tenho meu banheiro destruído há 8 anos por uma obra de individualização de água invasiva, que não se conclui, saí de Dom Quixote.

    Sou Conselheira e fui, durante 2017, colecionando documentos, como a cobrança à Administradora da prática de protocolos que garantam a transparência das decisões tomadas em reuniões, mas em vão.

    Sou ameaçada, já fui parar na delegacia pela venda indevida de bicicleta de morador e tenho, agora, a orientação da OAB de registrar B.O. e encaminhar denúncia à Comissão de Fiscalização da OAB, pois o administrador, que se diz advogado, não tem inscrição na Ordem e sequer pode administrar, uma vez que sua razão social é de uma outra categoria.

    Socorro!

    Além da edificação, que está em estado de abandono, conforme o técnico da Defesa Civil, que assim a definiu, mas sequer cobrou itens obrigatórios de segurança, tem a minha segurança pessoal que está sendo ameaçada.

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