Brasileiro só quer um pouco de paz para trabalhar, estudar, viver

Brasileiro só quer um pouco de paz para trabalhar, estudar, viver

Estamos completando quatro anos de crises, uma pior do que a outra, sem parar.

Não passa uma semana sem julgamentos no STF, novas denúncias e operações policiais, prisões, más notícias na economia, desemprego crescente, tudo culminando agora com o caos nos transportes.

Quem aguenta viver assim, sem nenhuma perspectiva de melhora no país, em guerra permanente, com tropas militares nas ruas e a própria sobrevivência ameaçada?

Brasileiro é um povo que não nasceu para o conflito, quer viver sua vidinha em paz, sem precisar de muito, mas nos últimos anos se tornou um dos mais violentos do mundo.

Depois de mais uma semana com o país de pernas para o ar, posso estar enganado mas tenho a impressão de que neste domingo de fim de maio de 2018 o brasileiro gostaria, acima de tudo, de ter um pouco de paz para trabalhar, estudar, viver.

Ninguém aguenta mais esta tensão sem fim, a urgência dos noticiários em todas as mídias, martelando dia e noite nas nossas cabeças só fatos negativos.

Eu mesmo não suporto mais escrever todos os dias sobre as mesmas desgraças de um país desgovernado e sem esperança, as relações humanas se esgarçando por toda parte.

De nada adianta agora atribuir a culpa apenas aos governantes de turno, aos políticos, aos empresários, aos caminhoneiros, aos movimentos sociais, a um ou outro setor da sociedade.

Para sobreviver, precisamos colocar os olhos no futuro e ver o que podemos fazer todos e cada um para tornar melhores nossos dias, aprender a conviver na diferença, evitar em lugar de procurar mais conflitos, pelo menos ter o direito de sonhar, quaisquer que sejam as manchetes dos jornais.

Nem dá para imaginar se e como estaremos vivendo daqui a dez ou vinte anos. Por isso, acho melhor viver um dia de cada vez, olhando sempre para a frente e não para trás, com mais amor e menos ódio, se possível.

É difícil saber em que ponto da nossa trajetória perdemos o rumo, a vergonha e o orgulho de ser cidadãos brasileiros, nos engalfinhando em lutas e causas perdidas.

Localizo este momento de inflexão do país do futuro para a volta ao passado na guerra deflagrada durante e após as eleições presidenciais de 2014, em que os vencedores lograram o eleitorado e os derrotados partiram para melar o jogo.

De lá para cá, tudo foi piorando em todas as áreas da vida nacional e nada indica que nas eleições de outubro será diferente.

Ao contrário, com tanto ódio acumulado e sem nenhum novo projeto nacional à vista, uma bandeira sequer capaz de mobilizar a população e tirá-la do imobilismo, esta campanha eleitoral está parecendo um velório antecipado que vai se auto-realizar.

Eleição sempre foi ao longo dos tempos um processo de renovação de esperanças, de mudanças para melhor, de acreditar que sim, nós podemos pegar o destino em nossas mãos.

Em lugar disso, candidatos disputam para ver quem é mais beligerante, quem vai oferecer mais armas à população, tirar mais direitos e desunir esta população que já está tão dividida.

Nas casas, nas ruas, nas escolas, nas fábricas, onde quer que as pessoas convivam, o que faz mais falta é um pouco de paz, de olhar para o outro não como um inimigo, mas um parceiro de jornada.

Em lugar de ficar remoendo o passado e só ver onde erramos e perdemos, talvez seja o caso de recuperar os caminhos por onde acertamos e vencemos.

O que não dá é para continuarmos nesta luta fratricida, a cada dia mais acirrada, em que todos querem ter razão em vez de buscar um pouco de felicidade possível, apesar de todas as diferenças.

As crises não têm vida própria _ nós é que as criamos e depois não sabemos como sair delas.

Isso vale tanto para o coletivo como para cada pessoa em particular: descobrir onde erramos e acertamos, e como fazer para retomar o prumo e o rumo para seguir adiante.

Um pouco de paz faria bem para todos.

É o que desejo aos caros leitores do Balaio neste domingo silencioso, sem carros nem barulho nas ruas, o país ainda parado, em que podemos pensar um pouco no que estamos fazendo das nossas vidas.

Vida que segue.

 

29 thoughts on “Brasileiro só quer um pouco de paz para trabalhar, estudar, viver

  1. A melhor reportagem sobre a greve dos caminhoneiros foi feita pela Revista Piauí. A repórter foi suspicaz e pegou a raiz da crise criada por Pedro Parente, o banqueiro da Petrobrás. O movimento caminhoneiro está com a “candidatura militar” e a greve, até agora, só levou mais água ao moinho da direita. Talvez, a greve das refinarias, a partir da quarta-feira, puxada pela esquerda, tenha muito a ver com isso: disputar os dividendos eleitorais do colapso do abastecimento provocado por Pedro Parente. Por mais que se queira um pouco de paz, a situação da população brasileira está mais para os habitantes da faixa de Gaza: paz é uma palavra que não se pronuncia por lá. Desgraçadamente, Kotscho, o final de semana, cada um deles, geralmente fica pior do que o anterior. Parece estar se formando aquela onda do “Jânio vem aí”, com seu célebre “varre, varre, varre, vassourinha, varre, varre, a bandalheira”. Agora, a vassourinha foi substituída pelo capitão e suas metralhadoras. O que não retira o mérito da sua postagem. Ao contrário, só a valoriza, ainda mais.

  2. Nem um pouco difícil saber onde perdemos o rumo.O nós contra eles foi política de governo nas administrações do PT,um erro trazidos das campanhas,o brasileiro quer sim uma vida tranquila,mas não quer cotas raciais,não reconhece a comissão da verdade,rejeita a desvirtuação do tal empoderamento feminino,não enxerga o índio como um não nacional,nunca admitiu o(a) gay pior ou melhor que o(a) heterx e mais um cem número de pautas esquisitas que apareceram nestes tempos.Esses mesmos se descobriram maioria e tomaram gosto pela política,foi aí que acabou o céu de brigadeiro para o outro lado,que ainda não percebeu ,é tão absurdo que tem seguidor aqui no Balaio que ainda acredita que o Lula vai ser presidente.A intransigência está do seu lado ,tentado segurar sua mão canhota.Cadê a autocrítica ,esse processo virtuoso que até hoje tem aberto as portas para a esquerda?

          1. Li sim Ricardo Kotscho,mais de uma vez e li de novo agora,nada a acrescentar.Talvez algum professor de filosofia pudesse esclarecer sobre o alcance da verdade entre duas idéias destoantes.

    1. Oromar, foi pra nos provocar azia com baboseiras que voce e Luis Carlos Velho retornaram ao Balaio ? Ou perceberam que seus panelaços jogaram m…. no ventilador, arrependeram-se, mas não são capazes de admitir que foram ludibriados, pela milésima vez ? Tenha dó, Oromar !!!

      1. A questão é a falta de concessão: ação de concordar com uma opinião. Assim, é comum esperar que as concessões mais importantes ocorram somente na última hora. Quanto mais uma parte souber estimar o prazo limite do oponente, mais será o seu poder. Já no plano transcendental, pode ser alguma alma penada lá da Idade média, que não conseguiu entrar no purgatório, e está aqui no Balaio tentando plugar seus pegados. Pro céu ninguém vai. E o purgatório tem três divisões: dos sem nenhum pegados( os santos); dos de médio pecados e dos de muitos pecados. Em baixo está o inferno, e em cima o céu. Mas tem aqueles que ficam vagando! Brincadeira.

    2. Fale só por você, meu caro. Até porque se tirar todos os grupos citados no seu comentário não sobra… ninguém pra concordar contigo.

      1. O que eu disse tá dentro da Teologia. Mas, como disse uma filósofa alemã. H. Arendt. “Violência é a única forma de assegurar que a moderação seja ouvida”. Nem sempre ter certificados significa ter sabedoria.

    3. A autenticidade nas idéias quando aliada aos fatos e longe dos modismos choca facilmente os despreparados ,percebe-se claramente em uns e outros a dificuldade conceitual entre causa e consequência,o mundo nunca foi diferente disso,é que agora a tecnologia deu voz a todos .

  3. O Kotscho me faz lembrar escritores do passado. Já pensou se cada político tivesse o mimetismo que tem o camaleão, isto é, a capacidade de mudar de acordo com as mudanças sociais? Ou se cada político fosse um jardineiro – e se cada jardineiro fosse um político? (Hajam mais Rubem Alves e Raquel de Queiroz). Gabito teve como mestre Willian Faulkner que nasceu trinta anos depois da guerra da Secessão nos Sul dos Estados Unidos a qual foi marcada por movimentos religiosos, econômicos e políticos, tal qual Márquez foi escritor que sempre trabalhou na reconstrução de fatos e pessoas ao descrever múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impor bruscas mudanças de tempo narrativo.
    Obsessivo perseguidor de fatos criou o realismo mágico ou fantástico criando um fato fantástico através de um fato real e original. Tal característica o acompanha desde os primeiros textos narrados na infância deste grande escritor que além do jornalismo gostava de cinema, tanto assim que tem um filho cineasta.
    Ninguém melhor descreveu os traços desses mestres das letras, os melhores da América Latina-, refiro-me á Márquez e Neruda como magistralmente verificou o imortal escritor mineiro Fernando Sabino com quem conviveu e foi amigo. Sobre a realidade brasileira, tem muito entulho empilhado neste país, que necessita urgentemente ser removido através duma faxina; enquanto o beiçola arquiteta qual o próximo será solto! Em menos de um mês, já soltou dez pra gozar no exterior do dinheiro espoliado, aqui. A discussão política com a participação da Sociedade faz parte do jogo democrático. A questão é saber se estamos realmente todos preparados pra viver essa tal de Democracia-, onde somente uma minoria no poder desfruta das riquezas da nação.

  4. É urgentemente necessário acordamos – E olhar para o presente.Tomar atitudes proativas e racionais.O Brasil sempre foi considerado o país do futuro.Precisamos existir,para então,termos futuro.

  5. “Brasileiro é um povo que não nasceu para o conflito…”
    Não é bem isto que nos conta a história. O que temos nos últimos tempos provavelmente é um povo anestesiado pela mídia, a meu ver, nosso maior problema pela forma que existe entre nós

  6. Bolsonaro apoia a manifestação dos camioneiros. Não há algo de beligerante nisso. Nesta situação ele poderia ser classificado como rebelde ou insurgente.

  7. Brilhante texto, Kotscho. O brasileiro não precisa de muito para viver bem, mas sem paz não tem jeito. Está mais que na hora de pararmos de querer resolver tudo. Vamos baixar a bola e viver em paz, todos nós. Que a consciência dos políticos comece a guiá-los para o bem. Assim seja.

  8. Concordo com o Kotscho…
    Sei que não está fácil. Pois até em nossas casas há divisões e conflitos por pensamentos diversos…
    Nesta questão da greve dos caminhoneiros (que possui reinvindicações justas), mas por outro lado, não pode parar um País inteiro.
    Acontece que está acontecendo um “ódio generalizado” a política no geral. E nesta situação se revelam os oportunitas de plantão. Nesse ponto, até abro um parêntese, para de alguma forma elogiar boa parte dos petistas. Apesar da tentação em pegar o embalo e abraçar a causa, e se unir ao quanto pior melhor, está havendo relativa cautela. (Salvo a turma da FUP/petroleiros que estão querendo pegar a onda).
    Sei que o País precisa corrigir sua rota, mas não precisamos de propagadores do caos, para encher os olhos e pança dos oportunitas.
    Brasil precisa selecionar melhor os governantes, isso sim, mas não precisamos de caos para se fazer isso.
    Que tenhamos uma semana com mais soluções e temperança e menos desordem e conflitos.

  9. “Brasileiro é um povo que não nasceu para o conflito, quer viver sua vidinha em paz, sem precisar de muito, mas nos últimos anos se tornou um dos mais violentos do mundo.”
    Em espetacular texto, Mestre, enfileira a basilar frase acima, o diagnóstico preciso e o encaminhamento à solução mais que correto, perfeito, se não padecesse do mesmo engano de Lula e PT, enquanto governo de 2003 a março de 2014, em achar possível a compreensão da classe dominante em considerar bom para todos a conciliação com o desigual povo brasileiro, após cinco séculos de dominação, evoluindo rumo a constituição enraizada da possível nação brasileira, justa, moderna e soberana. Mas a classe dominante não quer conciliação, não quer nação brasileira, quer permanecer sem raízes e dominando o Brasil, como colônia, pró interesses internos e externos que representa. É inimiga e a depender dela jamais teremos sossego a não ser o da ‘paz dos cemitérios’. (Segue)

  10. (Sequência) – Não é difícil “saber em que ponto da nossa trajetória perdemos o rumo, a vergonha e o orgulho de ser cidadãos brasileiros, nos engalfinhando em lutas e causas perdidas.”
    Desde o Descobrimento ao dizimarem os nativos e o “momento de inflexão do país do futuro para a volta ao passado”, após breve esperança em governos do PT, começa em março/2014, quando a inimiga classe dominante lança a operação Lava Jato para vencer as eleições, desalojar o PT do poder e extingui-lo do processo político, através da criminalização e destruição de reputações e imagens.
    Nada que ocorre é por acaso, é guerra, onde um lado alinha a classe dominante (polícias, Judiciário e Mídia), o outro, o povo informado e no meio o povo desinformado ou aspirante à classe dominante.
    De fato, “em lugar de ficar remoendo o passado e só ver onde erramos e perdemos, seja o caso de recuperar os caminhos por onde acertamos e vencemos”, agora sem enganos de conciliação e sim combatendo e derrotando o inimigo.
    “As crises [no Brasil] não têm vida própria”, são em regra geradas pela classe dominante, que sabe como sair delas, debitando à conta do povo.

  11. Prezado Kotscho: “O que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem. Mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas.” (Leonardo Boff).

  12. Vamos atualizar as informações:
    O Wallace Landim, que se diz representante dos caminhoneiros, é presidente do PODEMOS de Catalão e o advogado, que representa os caminhoneiros, o André Janones concorreu à Prefeitura de Ituiutaba, pelo PSC, com coligação com PT, PCdoB e REDE.Tem facebook e tudoesse André…belos tempos de redes sociais,não enganam mais ninguém.

  13. Ricardo, texto espetacular. Um chamamento ao fim da intolerância, da gentileza e da paz!
    Paz que deve ser a tônica do mundo.
    Um abraço de paz e luz.
    Gratidão!

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