“O Processo” é muito chato: reduz o golpe a embate entre acusação e defesa

“O Processo” é muito chato: reduz o golpe a embate entre acusação e defesa

Achei estranho encontrar a platéia do cinema quase vazia no final da tarde de sexta-feira, mas logo entenderia os motivos.

Ao ver as primeiras cenas de “O Processo”, documentário sobre os momentos decisivos do impeachment de Dilma Rousseff, até me arrependi de ter ido porque vi que o filme não sairia disso: um embate entre acusação e defesa, como se fosse apenas um julgamento jurídico normal em torno de supostos ilícitos fiscais para justificar um crime de responsabilidade da presidente.

Mas como foram minhas netas de 12 e 15 anos que me convidaram para ver o filme, resisti bravamente até o final das 2 horas e 20 minutos de exibição, que se arrastam em plenários e salas do Congresso Nacional.

Poder comentar com elas depois episódios recentes da história brasileira foi a melhor coisa de “O Processo” para mim. Valeu a pena.

O filme não ajuda muito os jovens a entenderem o que aconteceu naqueles dias entre 17 de abril, quando sob o comando de Eduardo Cunha a Câmara aprovou o início do processo de impeachment, e 31 de agosto de 2016, com a cassação de Dilma pelo Senado e a posse de Michel Temer.

Quem não acompanhou o noticiário do período continuou não sabendo do que tratavam as famosas “pedaladas” fiscais que serviram de álibi para a cassação da presidente.

Tudo se limita aos discursos dos parlamentes do então governo do PT e da oposição liderada por PSDB e MDB, como se isso pudesse mudar alguma coisa neste jogo de cartas marcadas em que já se sabia o resultado final.

Dos dois lados, pontificavam o advogado de defesa, José Eduardo Cardoso, ex-ministro da Justiça, e o da acusação, a até então desconhecida advogada Janaína Paschoal, a verdadeira protagonista do filme, com seus trejeitos faciais que consagraram o comediante Costinha.

Só ela conseguia arrancar alguma reação da pequena platéia quando se exaltava, gritava e chegava a chorar com a Constituição nas mãos.

Para simbolizar esta pornochanchada política que, em dois anos, jogou o país no fundo do buraco não poderia ter personagem mais perfeito que a advogada paulista, bem secundada por Eduardo Cunha, o chefe da tropa de choque do impeachment na Câmara que comandou a célebre sessão de abertura do processo.

Se o filme tem um mérito foi o de mostrar a mediocridade e a pusilanimidade da classe política brasileira expondo as caras dessa gente que, em sua grande maioria, só pensa nos seus próprios interesses.

Do lado do governo, além de Cardoso, pontificaram os senadores Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, que após a queda de Dilma disputaram a presidência do PT, com a vitória dela.

Nas reuniões dos petistas já ficava claro que eles iam perder a parada e tudo não passava de uma encenação para cumprir os rituais.

Não deu para entender porque Aloísio Mercadante, um dos principais ministros de Dilma até o fim, só aparecia de relance, como sombra, sem falar nada.

A própria presidente Dilma é mostrada apenas em alguns momentos capitais, sem que se possa saber o que aconteceu nos bastidores.

É uma história contada em grande parte pelos atores coadjuvantes, que certamente não vão concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O único fato novo do filme foi uma rara autocrítica do ministro Gilberto Carvalho mostrando porque o governo seria derrotado, embora precisasse dos votos de apenas um terço de deputados e senadores para continuar no poder.

De nada resolve colocar a culpa pela derrocada nos adversários. Isso só pode levar a novas derrotas.

Ficou estranho também omitir o importante papel da Lava Jato no processo político-judicial-midiático e das grandes manifestações dos patos amarelos que levaram ao impeachment em nome do “combate à corrupção”.

“O Processo” é um filme claustrofóbico que se passa quase o tempo todo naquelas duas bacias do Congresso, com raras cenas externas.

Filmado do alto, durante os protestos na Esplanada dos Ministérios, o povo não entra na história em nenhum momento.

Em resumo, trata-se de um documentário melancólico sobre um dos momentos mais vergonhosos da política brasileira, e nem poderia ser de outro jeito, reconheço.

Até os vencedores deste embate são figuras tristes vistos pelo ângulo do que aconteceu depois, a exemplo dos senadores Aécio Neves, Romero Jucá, Aloysio Nunes, Cássio Cunha Lima e outros menos votados, igualmente tragados pelas delações da Lava Jato.

O que sobrou de tudo isso? Revendo agora as imagens do golpe parlamentar, pode-se entender melhor porque o brasileiro anda tão desacreditado nas instituições.

De todo o processo, não restou nenhuma liderança respeitável nem de um lado nem de outro, o que explica também o alheamento do eleitorado na atual campanha presidencial.

Janaína Pachoal, Eduardo Cunha, Aécio Neves e Michel Temer venceram. Todos nós perdemos: esta é a imagem que fica de “O Processo”.

Vida que segue.

 

 

40 thoughts on ““O Processo” é muito chato: reduz o golpe a embate entre acusação e defesa

  1. Acabei de ver o tal Mecanismo do Padilha, com 8 capítulos. Não é ruim como disseram. A atuação do Chico Dias como doleiro vale um Oscar. Vou conferir o Processo no fim de semana.

    1. Considero uma estupidez não achar ruim uma obra de ficção que distorce a realidade pra prejudicar uma ser humano de carne e osso. Não acharia ruim se fizessem o mesmo pra prejudicar um familiar seu ?

      1. Estúpido é o teu juízo, se é que existe algum discernimento, minimamente vertebrado, nele. Nenhuma ficção substitui a realidade factual. Há quem saiba distinguir entre uma e outra. Há quem as confunda. Este parece ser o teu caso.

          1. Velho, voce, o maior caluniador do Balaio de todos os tempos, tem a cara de pau pra pedir o meu “impeachment” ? Se fosse Enio ou Dias, vá lá. Mas logo voce, picareta ?

          2. Emilio do argumento, ao seu dispor ‘cumpa…’, mas pode chamar de, João Paulo, João Carlos ou se preferir resumido, Camaleão, pau pra toda obra de desconstrução.

          3. Gostei Dias. Emilio…o David Bowie dadaísta…why not? e vc, seria “Dias…o Toffoli.?”..realmente, encaixa muito bem em sua personalidade…

          4. Muita nada calma essa hora, ‘hein cumpa’ três em um: goiabada, marmelada e pessegada?
            Deixar inconfundível ‘rabo de fora’ em personagens distintas, é como ‘XPTO’ sem o ‘X’, chama a atenção.

      2. O Victor Hugo é mesmo muito ‘confuso’, escreve uma coisa e há quem se abale e a confunda respondendo outra. Sem falar que o ‘confuso’ ao assistir ‘O Mecanismo’, sequer percebeu que o ator que diz merecedor do Oscar é Enrique Díaz e não Chico Díaz, o irmão.
        Pior ainda, no post sobre Zuenir Ventura, semanas atrás, além de abobrinha sobre o episódio de Xapuri, conseguiu por duas vezes ‘confundir-se’ e errar os nomes dos assassinos de Chico Mendes, à segunda para consertar a primeira, errando novamente.
        Vai ver que por isso ‘o velho Pinóquio’ logo se identificou e avesso ao contraditório, ainda mais se adequado a esse medíocre tempo, aproveitou pra comparecer e ofertar o pescoço de Victor, em turba, como é feitio fascista.
        Mano, com esse ‘bonde da mediocridade’, só com ironia e muito riso. E bota riso nisso!

    2. Vi a série do Padilha. Não é (tão) ruim quanto se fala. Karla, também confundi os fraternos Chico e Enrique. Concordo com suas distinções, que marcam as obras ficcionais tão-somente inspiradas em realidades factuais. Já quanto ao Processo, de que trata a postagem, há mais pano para a manga do que o cansaço de Kotscho permitiu-lhe apreciar. É preciso ter presente que um documentarista não tem a “estrada” de um jornalista velho de guerra, nem dá conta da trama completa. Mas as mais importantes obras cinematográficas, não são nem os filmes de Padilha e o da Maria Augusta Ramos, a respeito da derrubada de Dilma e da hecatombe que atingiu o lulo-petismo. Se o Processo já é o filme brasileiro mais premiado do ano no exterior, isso atesta que não é valioso apenas por buscar os lados e o centro da história, mas porque tem a qualidade que se espera dos grandes documentários.
      Melhor do que ambos, contudo, é “Manifesto – O Golpe de Estado”, da paulista Paula Fabiana, com a memória dos fatos e reações da militância no período entre as manifestações de 2013 e o impeachment de Dilma e dos primeiros “Fora Temer”. O canal de TV Arte exibiu “Brasil: O Grande Salto para Trás” (Brésil: Le Grand Bond en Arrière), das diretoras Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux, que tem como âncora Gregório Duvivier. Há também o “Tchau, Querida”, documentário produzido pelos ‘Jornalistas Livres’, narrado por quem estava do lado de fora do congresso. ” Muro”, de Lula Buarque, exibido no último Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, com estreia marcada no Canal Curta! para 29 de junho, destaca as “vozes” sobre o espetáculo dantesco da política nacional. O que mais gostei vi no festival de Havana, em dezembro último, “Esquerda em Transe”, de Renato Tapajós, um veterano documentarista das lutas sindicais e sociais. Há uma copiosa filmografia sobre os mecanismos todos que engendraram o golpe, o impeachment e o drama nacional, cujo desfecho foi a prisão da estrela guia do PT. Os filmes dessa história estão apenas começando, mas todo mundo já sabe como termina: de mal a pior!

  2. A presença da Janaína Pascoal na vice do Bolsonaro só reanima-, até eu que pensava anular o meu voto – mudei de opinião. Entre discurso direto (duas vezes) e indireto (uma vez), ela foi citada três vezes pelo nobre jornalista. Não entendo o motivo de tanta preocupação, pois quando a protagonista da Esquerda, impi-chada, foi apresenta como candidata pelo cacique-mór, lá no passado, ninguém se opôs.

        1. Caro Kotsho, infelizmente a política neste país tá mais pra leite azedo. A solução enquanto nação, não está no Estado nem na classe política, mas sim na liberdade de escolha dos indivíduos. Como cristão otimista, já que Deus é brasileiro, a luz do espírito santo saberá o que será melhor para o povo!

        1. Assuntos que só geram confusão, e até briga: futebol, tipo de cachaça, política, mulher alheia, religião, porque cada um tem a sua e na maioria das vezes as pessoas sem preparo psicológico e democrático, sobretudo, sem argumentos, partem logo pra ofensas pessoais; impondo até ameaças c/ agressão física aos parentes das vitimas. Você, o Hugo, são alguns dos exemplos. Não sou nenhum Fúhrer – líder (Hítler). Nem Duce, como Mussolini. Não entendo bem deste eixo Roma-Berlim: Pacto de aço. Petista gosta muito de confundir nazismo/facismo com a política atual brasileira. O Kotscho, que veio da Alemanha, deve saber- lhe explicar a diferença entre os dois melhor do que eu. Eu entendo mesmo é da região do Vale do Aço, tipos de aços, pois tenho a honra de aqui morar. Mesmo ofendido, não guardo no coração ódio de ninguém. Rezo o Pai nosso! Abraços.

  3. Sofrível a lamúrias da esquerda. Tentam repetir a mesma ladainha sem fazer uma autocrítica que se lambuzaram na corrupção como afirmado por Tarso e Jacques. Poderiam ter feito essa análise quando do mensalão mas o projeto de poder era prioridade. O povo enxerga outra coisa. Os políticos ditos socialista com patrimônios milionários além de suas proles. Temos hoje os esquerdas caviar. Esse filme é mais uma tentativa fracassada de mobilização que infelizmente só acontece em espaços e lugares estritamente freqüentados por cidadãos de ideologia de esquerda. Como constatado a frequência é baixíssima. Prova que não conseguem mais mobilização espontânea. O mecanismo produziu maior mobilização. Já tentou refletir os motivos? Os papos nos bares, ônibus, trens não são dominados por quem está preso e sim quem falta ser preso. Será que se vitimizar está trazendo resultados? Não está na hora de trilhar outros caminhos de renovação? Mas não adianta a esquerda é formada por seitas e seus donos não admitem dividir seus rebanhos. Somente irão pensar em se unir se tiverem algum representante no segundo turno. Não esquecendo que esse projeto pode dar água se nenhum representante conseguir ultrapassar 10% de votos. Vida que segue

    1. O onibus da Caravana de Lula atingido por tiros, cidadãos baleados no acampamento de Curitiba, Aécio e Temer soltos, dois pilantras acompanhados das esposas escarnecendo do povo brasileiro nas noites novaiorquinas, dólar a R$ 4,00 e um australopithecus tucanus
      Moroensis com o cerebro do tamanho de uma semente de mostarda alugando nossos ouvidos pra repetir o mesmo discurso anti-comunista patético e enfadonho. Sr Mauricio Texugo, procure ajuda. Basta um doidinho por blog e o Balaio já tem o seu. Bom domingo, Balaieiros !!!

  4. Eu tentaria subornar as meninas com uma visita aos museus de Paris e Londres pra poupar-me do martírio e parabenizo as netas pelo gosto apurado, apesar da tenra idade. Imagina assistir “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” !!! /// Em tempo: juro por tudo que é sagrado que achei que José Anisio estava pilheriando sobre votar numa chapa Jair Bolsonaro/Janaina Pascoal. Era sério e só resta vestirem-no numa camisa de força e internar no hospício mais próximo. E façamos nossa parte deixando que publique o que quiser no Balaio, sem embargos, se todos concordarem. Bom fim de semana, Balaieiros.

    1. A grande vantagem das redes sociais é permitir as pessoas falarem o que pensam e o que sentem, ao mesmo tempo, levando mensagens a recantos impensáveis. Só lembrando ao caro, que, o Trump venceu as eleições usando esta ferramente; e me parece que até hoje ele ainda conserva uma conta no seu twitter.

  5. Com certeza e muito otimismo, o Brasil encontrará o caminho do progresso com ética e uma democracia fortalecida!.VIVA O BRASIL!.

    1. Penso como vc, sempre positivo e esperançoso por um Brasil melhor.
      Kotscho, sua pergunta é complicada, mas o q tem q continuar é o combate a corrupção.

    1. Está muito bonito o mapeamento-histórico- político do Felipe: a questão não é vencer a próxima eleição; pois o gargalo está na manutenção do poder; frio e duro, quanto Maquiavel.

  6. Tais nomes colocados pelo jornalista, mais os nomes de carminha lúcia, serra, moro, barroso, alckimin,fux, boçalnazi, dallagnol, gilmar, bretas, rosinha webber, fhc, temer, mbl e etc…mostra em que abismo tenebroso nosso país foi jogado. A população cada vez mais despissuida dos seus direitos fundamentais.A pseudo classe média, batedora de panelas com cara de quem peidou na Igreja, totalmente sem rumo, e o Brasil que tinha angariado respeito internacionalmente, literalmente jogado na lata de lixo. Belissimo golpe, golpistas e apoiadores que permitiram que tudi isto acontecesse.

  7. Muito se fala aqui no Balaio sobre o GOLPE (parlamentar ou da classe dominante) a que a Dilma e o PT foram vitimas.
    Considerando que GOLPE DE ESTADO é coisa muito séria e não pode ocorrer sob qualquer pretexto;
    Considerando que a Presidente Dilma era a comandante em chefe das forças armadas, a quem deve proteger a democracia e a constituição do Pais (considerando ai que o golpe foi inconstitucional):
    Considerando ainda, que todo o processo foi acompanhado pelo presidente do STF, ministro Ricardo Lewandoski (o mais Petista deles depois do Toffoli), que deu de premio de consolação à Dilma não caçar seus direitos politicos;
    PERGUNTO: Porque a presidente Dilma não requisitou as Forças Armadas para sufocar o pretenso golpe e restabelecer a quebra da democracia e o respeito à constituição?
    Golpe é golpe e se combate com todas as forças à disposição do governo….. ou não…

  8. Kotscho: o documentário é excelente. Tuas observações apenas demonstram que você não entende de documentários. Aliás, o filme esta sendo aplaudido no mundo inteiro.
    Abs., Flavio Aguiar.

    1. Caro Flavio Aguiar, você deve ter razão.
      De fato, não sou especialista em documentários.
      Fiz apenas uma crítica política do filme.
      Não sou nenhum dono da verdade, apenas um comentarista das coisas que vejo. Abraços, Ricardo Kotscho

    2. A opinião do Kotscho é sensata e real, a sua é de total falta de razão.
      Ficou em 3º no Festival de Berlim em q na sua categoria de documentário, participavam 5 filmes.
      Li sobre outro prêmio em um festival de filmes para p/ público LGBT.
      No festival de Cannes qual foi o prêmio?
      O filme está em 60 salas de cinema, em um país q tem mais de 3mil salas, isto siginifica q o filme está passando em 2% dos cinemas do Brasil.

  9. Caro Ricardo Kotscho, não assisti ainda ao documentário, por isso não vou dar uma opinião sobre ele. Apenas contribuo com a correção de algumas datas, meros lapsos durante a digitação do texto. A Câmara dos Deputados aprovou o início do processo de impeachment de Dilma no dia 17 de abril (e não 17 de junho). O final do processo no Senado, com a condenação de Dilma, foi no dia 31 de agosto de 2016 (e não 3 de agosto.) A posse de Michel Temer, como interino, foi no dia 12 de maio, com o afastamento de Dilma. E a posse como titular do cargo foi no dia 31 de agosto. Abraços, Kátia Gerab Baggio

  10. Me fizeram uma indagação e nem consegui imaginar como responder.Pois bem,ei-la,por que não a Dilma candidata do PT em outubro próximo para Presidente da República,pois ela está plena em seus direitos políticos,tem experiência no cargo e com sua vitória estaria resolvida de vez a polêmica do golpe,com o reconhecimento popular desmistificando de vez a polêmica da perseguição ao Partido dos Trabalhadores,além da correção dessa injustiça que a Presidenta foi vítima.
    Alguém me ajuda?Vitor Hugo?Enio?everaldo?Ou o próprio Kotscho?

    1. É simples. Porque o candidato do Partido dos Trabalhadores É LULA !!!
      Mesmo preso por ter sido condenado por “atos indeterminados” (conforme consta na sentença do Moro) Lula PODE ser candidato, SERÁ candidato e VENCERÁ a eleição.

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