Democracia ameaçada: Carta Aberta à Sociedade Civil

Democracia ameaçada: Carta Aberta à Sociedade Civil

Pode parecer muita pretensão minha escrever esta carta aberta sem destinatário determinado, mas foi o jeito que encontrei para chamar a atenção daquilo que já foi chamado de Sociedade Civil e que foi desaparecendo aos poucos depois de reconquistada a democracia.

Por onde andam os presidentes e líderes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), as quatro siglas que foram fundamentais na mobilização das Diretas Já, em 1984, o maior movimento cívico suprapartidário da segunda metade do século passado?

Hoje ninguém nem sabe dizer quem está à frente destas entidades, muito menos o que fazem contra a epidemia de ódio que se alastra pelo país no embalo da Lava Jato e dos seus aliados na mídia nativa.

Com as instituições e os partidos em franca decomposição, vivemos uma gravíssima crise institucional e não se ouve a voz das entidades que deram fim à ditadura e exerceram importante papel na redemocratização do país.

Os atentados a tiros se sucedem, e diante do estado de anomia social em que não há mais leis a serem respeitadas nem pelos tribunais, a impunidade impera com a falência da autoridade.

Primeiro, executaram Marielle e Anderson no Rio; depois, deram tiros nos ônibus da caravana de Lula no interior do Paraná e, nesta última madrugada, dispararam mais de 20 tiros contra o acampamento de apoiadores do ex-presidente diante da sede da Polícia Federal em Curitiba, que deixou um ferido em estado grave com uma bala no pescoço.

A rotina se repete: a polícia abre rigorosas investigações e não se consegue chegar aos autores dos crimes contra a vida, que evaporam no ar.

Mesmo vivendo sob intervenção militar na segurança, o Rio vê disparar o índice de crimes violentos envolvendo as milícias e o Paraná se tornou uma república independente onde reina o arbítrio jurídico-policial.

Enquanto isso, as hordas de bolsonaristas, pivetes do MBL e proto-fascistas em geral agem livremente contra o direito de ir e vir dos cidadãos, controlando áreas como os milicianos fazem nas favelas e subúrbios do Rio.

Sem encontrar resistência, a boçalidade invade as ruas e as redes sociais pregando mais violência contra quem pensa diferente.

O fim de feira que toma conta do país transcende as questões político-partidárias para se transformar numa ameaça ao próprio regime democrático a duras penas conquistado depois de mais de vinte anos de trevas.

Crescem os grupos que defendem a volta dos militares ao poder, achando que assim vão acabar com a baderna e a corrupção dos maus políticos, como fizeram em 1964 quando foram pedir aos quartéis a derrubada do governo constitucional de João Goulart.

Nesta marcha batida regressiva, a falta de reação da sociedade organizada faz lembrar a Proclamação da República, na verdade o golpe militar que derrubou a monarquia, enquanto “o povo a tudo assistia bestializado”, como escreveu o republicano Aristides Lobo que se tornaria ministro do governo provisório.

Em vez de chamar novamente os militares, tivesse este país hoje no comando das principais entidades da sociedade civil lideranças como as de 1984 certamente já estariam marcando uma reunião para segunda-feira em Brasília decididas a dar um basta a estes celerados que dia após dia vão destruindo as bases da vida civilizada.

Igrejas, universidades, confederações de empresários e de trabalhadores, movimentos sociais e populares, entidades de classe, artistas, intelectuais, onde foi parar todo mundo?

O desemprego voltou a crescer, o rombo fiscal aumenta fora de controle, a falta de confiança paralisa investidores e consumidores, a roda gira ao contrário e ninguém dá um pio.

Ficam só discutindo alianças e tempo de TV para eleger o síndico da massa falida, bovinamente caminhando para o brejo, em nome dos “brasileiros de bem”.

Chegamos a um ponto limite em que não há mais governo nem oposição, apenas uma geleia geral de interesses disputados no varejo, na vala comum da mediocridade.

Para saber a profundidade do poço que cavamos e de onde nos metemos com a nossa omissão basta abrir o Facebook.

Até quando?

Vida que segue.

 

 

27 comentários em “Democracia ameaçada: Carta Aberta à Sociedade Civil

    1. Geleia geral na sua opinião. Na minha, não, senhor. Muitos foram os que alertaram para o desvario de apoiar Eduardo Cunha, Geddel, Jucá, Aecio, FHC, Serra, Sergio Cabral e do próprio Michel Temer no golpe contra uma presidente honesta, digna e honrada. E V Sa, foi um dos paneleiros que apoiaram o golpe contra Dilma apesar de nem sequer saber do que a acusavam, como não sabe até hoje. Assuma que doi menos, sr Mauricio Teixeira. Admita que caiu feito pato na balela do impeachment.

      1. Alguém pode escrever a esse senhor que o texto é do Ricardo não meu. Demonstração clara que não lê o texto é sim os comentários. Digno de pena o nível da alienação que chegou. O Ricardo está apenas expondo o que a um tempo escrevo. Estão preocupados com seus patrimônios políticos e seus seguidores são patrimônios intransferível e o que podem sugar disso. O Brasil está em terceiro lugar na mente dessa gente. Infelizmente. Vida que segue

  1. “Por onde andam os presidentes e líderes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI), as três siglas que foram fundamentais na mobilização das Direitas Já, em 1984, o maior movimento cívico suprapartidário da segunda metade do século passado”?
    Sua pergunta, meu caro Kotscho, parece mais um lamento. E realmente é lamentável que homens de posturas corajosas como Mário Sérgio Garcia, Dom Ivo Lorscheiter e Barbosa Lima Sobrinho, que enfrentaram de frente a ditadura fardada, tenham seus lugares ocupados hoje pelas figuras, no mínimo vacilantes, de Claudio Lamachia, Dom Sergio da Rocha e Domingos Meireles, cujas vozes não se fazem ouvir contra a ditadura togada e muito menos contra a cleptocracia instalada no Planalto e seus arredores.

  2. (Aplaudo e assino via comentário destinado ao post anterior, quando deparei com esse necessário grito a razão).
    Antes que seja tarde, Mestre, pede mais que a união da esquerda, pede que se acorde, mesmo no tranco, o que resta de sociedade civil, para atentar que as famílias midiáticas, criminosamente, tentam furtar-nos saber que estamos todos indo pro fundo do brejo, chamando de ‘recuperação mais lenta’, índices apresentados sobre março: O maior rombo fiscal da história, empregos com carteiras assinadas no menor nível de toda a série, taxa de investimentos de 1,17% do PIB, a menor em 50 anos, produtividade do trabalho despencando, via informalidade, pela ‘reforma da CLT’ e as projeções de crescimento econômico rebaixadas.
    Voltando a Curitiba, atentar para o judiciário lavajateiro e a parceira mídia familiar, em processo de demência continuada, via convicção napoleônica, que não pede, exige, sanatório geral urgente.
    Enquanto o insano mor, enfrenta o STF, atropela a constituição e o que lhe atrapalhe, berrando, “a justiça sou eu”, a ensandecida mídia, para sustentar a farsa, ignora até atentado a tiros contra acampados no ‘Lula Livre’, a ponto de surrupiar o grave fato do conhecimento dos brasileiros, como antes feito em relação a ‘Caravana Lula no Sul’, o vergonhoso desmascaramento do ‘tripéques luxuoso’, pelo MTST e o desviar/esfriar o ‘assassinato’ de Marielle e Anderson.

    1. Dias, no que tange a Economia, talvez mais grave seja a entrega do Pré Sal, a “doaçao” de plataformas, ou seja, a venda, a preço de banana, de nossa maior geradora de empregos, tecnologia de ponta,
      royalties para Educação e Saude etc…

      1. Victor, exato, com o termômetro indicando os terríveis índices econômicos de março de 2018, dissimulados pela mídia, quis mostrar a que situação desastrosa as perpetrações golpistas (entre elas as do Pré Sal), nos levaram.
        PS: Não deu ainda para assistir ao Rainha, assistindo, te respondo. Abraço e ‘Lula Livre’.

      1. Este tem história como jornalista, escritor e deputado. Deve ser muito amigo do Ziraldo, de Caratinga, Mg, já que escreveu com perfeição a sua biografia.

          1. Conselho de discípulo (média 80% descartável):
            Zé Alísio, Mestre, ao sabor do vento não faz bem a saúde, por não acertar quanto a caixa.
            Deixe-o delirar sozinho que hora dessas não estará mais no Balaio, sem que perceba-se, senão, acaba-se delirando junto e, pior, instado a responder se está pegando da caixa certa, pelo próprio.

  3. Kotscho, após achar perdido em meio aos meus arquivos, gostaria de lhes enviar este texto, para reflexão, que me parece ser de autoria de Fernando Pessoa, o grande e mais universal gênio da língua portuguesa. E da língua inglesa.
    “Um dia é preciso parar de sonhar e de algum modo partir…
    É melhor tomar um caminho, desembarcar dos sonhos e tomar uma atitude.
    Mil vezes a perspectiva de enfrentar a pior tempestade do que as normais calmarias sem rumo, sem ir a lugar nenhum.
    Barcos de verdade não navegam por acaso…

    Não existem atividades humanas sem riscos…
    O risco maior da Grande Viagem está na capacidade de se preparar…
    É estranho! Mas, há muito mais “dentro do barco” do que no pior mar que se possa navegar.

    É muito mais fácil cometer erros imperdoáveis em águas tranquilas e favoráveis.
    O que importa, na verdade, é o material de que é feita a Vontade, e não, o Barco…
    No mar, conta muito mais, infinitamente mais que a experiência, a iniciativa, o respeito e a capacidade de aprender.

    É preciso ir além de mares demarcados…
    Uma Travessia não termina em qualquer lugar, mas num ponto preciso, escolhido e alcançado.
    E, enquanto não se toca esse ponto, Travessia nenhuma existe.
    A felicidade não depende do conforto, da tranquilidade ou de situações favoráveis.
    Mas simples e unicamente, da sensação de ir em frente, na silenciosa certeza de que vale a pena viver”.

    “A esperança é o sentido do homem que aprendeu voar.
    Não há limites para sonhar: basta acreditar”.
    – Finalizando, eu acrescento: – “Educar é ser um artesão da personalidade, um poeta da inteligência, um semeador de idéias”.

  4. Até pouco tempo atrás você estava em cima do muro enquanto nós enfrentávamos esta corja que comanda o país. Não há nenhuma surpresa. As pessoas estão anestesiadas pela grande mídia, onde, aliás, você está.

  5. Muito oportuno chamamento: memória certeira do q mais interessa na presente conjuntura, clamando atenção à gravidade dos fatos que já acontecem e dos que se insinuam no horizonte.

  6. OAB – Os afiliados estão ganhando verdadeiras fortunas defendendo os acusados na lava jato.
    CNBB – Inibida com o avanço dos Evangélicos,
    ABI – Domínio da informação pela Globo.
    Então? Caro Kotsho! Dá para ter esperança?

  7. Você Ricardo Kotscho acredita de verdade que a “República de Curitiba” prende apenas INOCENTES()!.Concordo com a sua mensagem em boa parte.

  8. Quanto a desobediência ao STF, é justo obedecer uma corte na qual ministros atuam como advogados defensores de criminosos? É só observar que os maiores beneficiários das decisões do STF são Lula e Aécio.

    1. Segundo a tua concepção de justiça “é justo obedecer uma corte na qual ministros atuam como promotores acusadores sem provas” ???
      É certo que o ódio cega e ensurdece mas deveria também emudecer e travar os dedos dos renitentes antes que falem ou escrevam suas costumeiras besteiras.

      1. Realmente, não há provas de que Aécio estava recebendo propina, só uma mala com 500 mil transportada pelo primo, por isso Carmem Lucia o liberou, e contra o Lula também não há provas, só fotografias dele dentro do imóvel e várias testemunhas. Respeito tua cegueira, Ênio, mas tenha dó…

  9. “hordas de bolsonaristas, pivetes do MBL e proto-fascistas em geral agem livremente contra o direito de ir e vir dos cidadãos, controlando áreas como os milicianos fazem nas favelas e subúrbios do Rio.

    Sem encontrar resistência, a boçalidade invade as ruas e as redes sociais pregando mais violência contra quem pensa diferente.”
    Que diferença a descrição acima tem das atitudes de lideranças do PT: Gleisi, Damous e Farias; e dos tais movimentos sociais?

  10. Prezado Kotscho,

    Eu li tudo com muita e preocupante atenção.

    Endosso tudo o que você escreveu.

    Reafirmo que sem ampla campanha pela tomada social do Congresso Nacional, a deterioração do tecido democrático só tende a se acelerar.

    Grande abraço,

    Saúde e paz !

    Sergio Govea

    ……………………………………………

  11. Isso ainda não aconteceu, e não vai acontecer, exatamente por um motivo simples: o PT não tem mais moral para aglutinar apoio das pessoas no geral, salvo os fantoches de sempre e os alienados esquerdista que acham que estão na década de 60. E essa falta de moral ocorre pelo fato do PT ter se aliado a tudo que não presta, tendo como primeiro objetivo a perpetuação no poder. Como se sabe, o esquema ruiu e eis aí o resultado. Cadeia e descrédito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *