“Seu Domingos, estão assaltando a sua casa!”: uma cena carioca, com intervenção e tudo

“Seu Domingos, estão assaltando a sua casa!”: uma cena carioca, com intervenção e tudo

“Seu Domingos” é meu velho amigo Domingos Meirelles, jornalista dos grandes e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Nós dois fomos convidados para participar de um debate no sábado, e ele já estava quase chegando à Casa Pública, em Botafogo, no Rio, quando ligou aflito para Marina Amaral, a organizadora do evento, contando o que lhe aconteceu.

Marina estava tão assustada quanto ele ao nos dar a notícia e iniciar o debate sem o principal convidado, que mora em Jacarepaguá, e voltou correndo para lá.

Desde o momento em que pisei no Rio, na hora do almoço, este era o assunto de todas as conversas, a começar pelo motorista de táxi que me deu as boas vindas. “É melhor fechar o vidro. Tem muito assalto aqui no Aterro do Flamengo”.

É a mesma coisa que a minha mulher me diz quando vamos para qualquer lugar de São Paulo no carro blindado dela (faz tempo que deixei de dirigir).

A diferença é que o Rio agora está sob intervenção militar na segurança, mas a insegurança é a mesma em qualquer lugar do país.

Voltamos a viver com medo, com medo de tudo, como naquela época em que qualquer pessoa podia ser presa em qualquer lugar, com ou sem motivo, em nome da segurança nacional.

No Rio, anda todo mundo assustado, por justos motivos, com medo da bandidagem, das milícias e operações da polícia que costuma atirar antes de pedir documentos.

Até agora, a intervenção não mudou este clima.

Nas poucas horas que passei na cidade, não vi militares nem tanques nas ruas, mas achei melhor voltar no mesmo dia a São Paulo, onde pelo menos tenho meu canto que imagino seguro.

Estava tão encucado que, numa lanchonete do Santos Dumont, achei que tinham me batido a carteira, fui falar com um segurança, e demorei até descobrir que a carteira estava no meu outro bolso da calça.

Fazia tempo que não ia ao Rio. O velho aeroporto agora foi transformado num grande shopping center com várias praças de alimentação.

A parte antiga foi abandonada e está cheia de tapumes. De um lado, parece Miami; do outro, um lugarejo abandonado no interior do Paraguai.

É a síntese do que virou nosso país, que mistura luxo e gente dormindo na calçada no mesmo espaço público, as pessoas andando com pressa e olhando para os lados.

Achei melhor ir logo para o portão de embarque que ficava a alguns quilômetros de distância.

Já em São Paulo, depois de me arrastar com minha bengala por coloridas alamedas de lojas de outro shopping center aéreo, entrei aliviado no táxi.

Ao abrir o vidro, ouvi o conselho impositivo: “É melhor fechar essa janela.”

Por via das dúvidas, estou achando que é melhor mesmo perder esse velho hábito de andar com os vidros abertos.

Certa vez, já faz tempo, quando eu ainda tinha carro, estava distraído parado no farol em frente ao cemitério da Dr. Arnaldo. Ao dar por mim, ouvi a ordem e vi a arma apontada para a minha cabeça.

“Vamos, vamos logo, passa o dinheiro, se não te mato”.

Estava com pouco dinheiro no bolso, e o guri armado deu o ultimato: “Isso é micharia, quero tudo. Não estou brincando!”.

Sem mais dinheiro e sem outra saída, perguntei se ele aceitava cheque.

Deu certo: “Pode fazer um cheque de cenzinho aí!”.

Nesse meio tempo, o farol abriu e fechou, os carros atrás buzinando, mas escapei vivo.

Devidamente preenchido e assinado, o cheque tinha fundos e foi descontado.

Espero que o lorde Domingos tenha tido a mesma sorte ao negociar com os assaltantes.

Vida que segue.

 

 

7 thoughts on ““Seu Domingos, estão assaltando a sua casa!”: uma cena carioca, com intervenção e tudo

  1. Tenho um parceiro de trabalho no Rio que afirma com absoluta convicção, preferir ser parado por um falsa blitz do que por uma verdadeira. Segundo ele, na blitz verdadeira a violência e a extorsão são maiores.

  2. O Rio, município, homônimo do Estado de mesmo nome, cidade entre montanhas e mar, com diversos centros paisagísticos e culturais; parece, que, com o crescimento da violência, açodada por conflitos mais de ordem social do que estratégica tem na localização paisagística grande beleza natural não o suficiente para dar a tranquilidade necessária de seus moradores no geral. Não sofrem com isso, somente um renomado simples jornalista, como o Domingos Meirelles. Todos. Parece que a cidade maravilhosa, que faz o melhor carnaval do mundo, se esqueceu mesmo foi de sua infraestrutura, de sua sobrevivência futura e tranquila de seu povo; hoje,afetada, sobretudo, pela falta de geração de empregos. Se preocupou mais com o turismo – preparando-se para receber um número cada vez mais crescente de turistas, – mas que vem perdendo seu poderio econômico, o principal, agravado pelas crises que perpetram no Brasil afora. Faz lembrar do próprio Cristo que na Bíblia manda sempre o indivíduo fugir das confusões; dos conflitos; que só aumentam pros cariocas. Aquele mesmo Redentor de abraços abertos, não demora muito vai colocar em definitivo as suas mãos na cara; sofrer uma pane providencial e descer morro abaixo. A mudança da capital nacional para Brasília através de Juscelino, não foi lá muito boa para o Rio; e nem para o Brasil. Cada prédio dos ministérios lá situados na capital federal, Brasília, ficam muito distantes uns dos outros, dificultando a circulação dos funcionários públicos. Nenhum projeto do Oscar Niemeyer vem dando bons resultados definitivos, nem aqui nem no mundo lá fora; por se pautar na falta de uma visão real e futurista para as gerações futuras. Não bastante, tudo se resume na falta dum planejamento mais rigoroso da Administração enquanto pública, mais competitiva, a nível de nação.

  3. Kotscho, a descrição lúcida da “revitalização” comercial dos “novos” aeroportos antigos, Miami com Tríplice Fronteira, merece aula inaugural nos cursos de arquitetura. Uma experiência mais traumática do que o risco simétrico de ser assaltado nas principais capitais brasileiras: ver um jogo na prótese do ex-Maracanã e depois esperar a ponte aérea no Santos Dumont. E olha, sem bairrismo: ninguém bate o trem que não “chega” no aeroporto de Guarulhos, o lugar mais confuso do planeta.

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