Mapeamento das redes sociais: todo mundo está de olho em você

Mapeamento das redes sociais: todo mundo está de olho em você

Muita calma nesta hora: tem milhões de olhos, softwares e robôs acompanhando neste momento tudo o que você escreve e publica nas redes sociais.

Chegamos a um ponto em que qualquer informação disponível na internet estes robôs espalhados pelo mundo conseguem mapear para saber o que você faz, pensa, consome,rejeita ou quer da vida.

As grandes plataformas digitais (Google, Facebook e Twitter) e empresas especializadas podem saber mais sobre você do que tua mulher ou teu marido _ ou você mesmo.

Semi-analfabeto digital, descobri esse fantástico mundo novo, pelo menos para mim, dos bites e seu controle num debate sobre redes sociais promovido pela Folha na semana passada.

Ali conheci Manoel Fernandes, 48 anos, jornalista, dono de uma pioneira empresa apropriadamente chamada Bites, criada há dez anos, que me convidou a conhecer o seu trabalho.

Com o auxílio de três robôs, 37 softwares e uma equipe de 31 funcionários, ele  é capaz de te dizer neste momento quantas pessoas estão acessando o quê nas redes sociais em todo o país.

No comando do seu modesto laptop Dell Inspiron 7460, Manoel faz o trabalho de “entrevistar” planilhas para te dizer, por exemplo, qual o nível de compartilhamento e a relevância de cada publicação nas redes sociais.

Ex-revisteiro com carreira na Editora Abril, usando sempre critérios jornalísticos, ele apura, interpreta, contabiliza e depois analisa 17 mil sites e blogs, e é capaz de te dizer na hora quais os temas mais procurados no Google neste momento.

Em ano de eleição, aumenta o interesse por esses números para mapear o alcance e o conteúdo das publicações dos e/ou sobre os candidatos nas redes sociais, mas a Bites só trabalha para empresas privadas, não atende a campanhas, políticos nem partidos.

Assim fiquei sabendo que o nome de Jair Bolsonaro, por exemplo, registra 450 mil buscas por mês, enquanto Geraldo Alckmin tem apenas 22 mil.

Além do seu esquema próprio para alimentar as redes, Bolsonaro conta também com o apoio da estrutura montada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que comunga com as ideias do candidato da extrema direita e compartilha suas publicações.

Manoel Fernandes mostra com números a importância das redes sociais, que vão assumir nestas eleições um protagonismo inédito na história da democracia brasileira: 75% dos 145 milhões de eleitores já estão conectados à grande rede e eles gastam em média 3 horas e 43 minutos por dia plugados nas mídias sociais.

No estudo da Bites sobre riscos digitais nas eleições de 2018, Ana Luiza Tetzlaff lembra que o tempo de propaganda eleitoral na televisão foi encurtado este ano para 35 dias, ao mesmo tempo em que foi liberado o “impulsionamento de conteúdos” nas redes sociais.

“O Tribunal Superior Eleitoral determinou a ´punição de produtores de fake news, mas sabe-se que é virtualmente impossível identificar certos IPs dinâmicos e, além disso, o que faria nossa honorável Justiça contra ações perpetradas em outros países?”, pergunta Ana Luiza.

Em seu estudo, Ana Luiza conta o que aconteceu na recente eleição presidencial no Chile, quando foram descobertas 50 contas de WhatsApp com origem em São Paulo e no Rio de Janeiro, que se infiltraram em grupos chilenos e dispararam notas e vídeos falsos contra Sebastian Piñera, o candidato de centro-direita.

No Brasil, uma investigação feita pela BBC identificou um grande esquema dessa natureza já nas eleições de 2014 na qual cerca de 10% das discussões foram geradas por robôs que teriam beneficiado pelo menos treze políticos.

“Presume-se que agora, com tecnologia mais avançada, as ações se sofisticarão, bem como o nível de dificuldade de se localizar a origem”, prevê Ana Luiza Tetzlaff.

É preciso tomar muito cuidado com os números frios das planilhas levantadas pelos robôs, ensina Seth Stephens-Davidowitz, fundador do Google Trends e autor do livro “Everybody Lies” (Todo Mundo Mente), em que mostra a diferença entre o Google e o Facebook.

No Facebook, em que o autor da publicação é identificado, você mostra quem você gostaria de ser. Já o Google mostra quem você realmente é.

Seja como for, está todo mundo de olho em você.

Vida que segue.

 

 

9 thoughts on “Mapeamento das redes sociais: todo mundo está de olho em você

    1. Caro Netho, ia falar exatamente isso.
      Você tem razão. O BBB do Orwell observa mais do que o telescópio Huble.
      E um alô pro RK: também não manjo patavina de internet e esses babados todos, mas mesmo assim tenho que me virar para manusear dois computadores, pois só assim consigo pôr no ar o meu programa de rádio(pois é, agora sou “artista da rádia”).

      1. Tem sentido, geralmente um escritor relata o momento por ele vivido: Inglaterra do final de 1940; 1948 é década de 1940). Invertendo os dois últimos algarismos – tem-se : 1984. George Orwell (anarquista) previra que se o totalitarismo do Regime “democrático” não fosse vencido, países de língua inglesa sobreporiam os outros com o auxílio das máquinas. 1984, início da guerra fria?

        1. 1984 tem uma das citações que reputo a mais marcante da literatura realista dos nossos tempos: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Esse romance, apesar de contar a história no futuro, partiu dos regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940, trazendo uma profunda reflexão e crítica ao fato de cidadãos comuns serem reduzidos a peças servis do estado, sob controle absoluto, amplo, total. Além do nazismo é possível traçar paralelos com as diversas formas de controle estatal e de mercado além da vontade da sociedade e do indivíduo, inclusive as supostamente democráticas e libertárias.
          No tocante à cultura ‘pop’, nem é novidade que o reality show, Big Brother, foi inspirado no Grande Irmão da ficção, trazendo a mesma ideia para o programa: indivíduos ficam confinados e são vigiados por câmeras 24 horas. David Bowie tem uma faixa ‘1984’ no seu clássico álbum de 1974 intitulado “Diamond Dogs”, que pode ser vista e ouvida no seguinte endereço:https://www.youtube.com/watch?v=KByxC7B9WH0. Não se consegue mais pedir sequer uma média com pão com manteiga tostado, sem a mediação de um maldito aplicativo. Kotscho, no Balaio, faz as vezes do Winston Smith, o personagem do Ministério da Verdade, que acaba decodificando meridianamente as notícias, comunicados e manchetes oficiais, sejam as estatais, sejam as mercantis. É isso, caros Villar e Guimarães.

  1. Até o celular do Kotscho pode estar sendo monitorado pelo Google. A tática é a destruição da Esquerda no mundo, a onda de propagação do terrorismo ao mundo prometido pelos terroristas do Oriente médio; além da contenção de imigrantes como política perpetrada pelo governo de Trump. Afinal, os EUA são a maior potência econômica do mundo.

  2. “Bolsonaro conta com a estrutura montada pelo MBL“. Bom, o MBL traiu a esperança de milhões de brasileiros que imaginavam ser um movimento apolítico, focado unicamente contra a corrupção, se mostrou uma espécie de movimento moralista seletivo e partidário, milhões sentiram-se enganados e ainda tendo que engolir um desaforo das dimensões do Temer e sua turma. Hoje o MBL não engana a quase mais ninguém, porém será uma boa ideia um candidato ser apoiado, mesmo que pelas redes por um movimento desmoralizado? O tempo dirá, o jogo está aberto, ainda mais agora com 75% dos eleitores conectados as mídias sociais, o campo eleitoral pode transformar-se em areia movediça para muitos candidatos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *