Jornal do Brasil de volta às bancas: o dia em que entrei lá pela primeira vez

Jornal do Brasil de volta às bancas: o dia em que entrei lá pela primeira vez

Faz mais de 40 anos, mas nunca vou esquecer o dia em que entrei pela primeira vez na antiga sede Jornal do Brasil, no final de 1977.

Fui com meu melhor terno, um traje que jornalistas ainda usavam naquela época, e não cabia em mim de felicidade e emoção.

O JB era considerado o melhor jornal brasileiro daquela época e o convite que recebi foi irrecusável: trabalhar como correspondente na Alemanha.

Entrar para a equipe dos correspondentes do JB era como ser nomeado embaixador, tal a importância da função.

Se trabalhar naquele jornal já representava uma conquista para qualquer repórter, ir para a Europa, terra de meus pais, era um sonho de menino.

Ao subir os elevadores daquele portentoso prédio da avenida Brasil, e depois almoçar com a cúpula do jornal ao lado de Walter Fontoura no chiquérrimo restaurante da diretoria, tive a certeza de que estava mudando não só de emprego, mas de vida.

Tinha tantos copos e talheres na mesa que me atrapalhei um pouco.

Nem acreditei quando recebi o convite de Dorrit Harazim, a chefe dos correspondentes no bar de um hotel na avenida São Luiz, em São Paulo.

Para ajudar a me convencer, Dorrit levou junto o José Roberto Guzzo, rodado e respeitado jornalista que já tinha trabalhado como correspondente.

Não era preciso, mas foi ótimo conversar com aqueles dois, com uma experiência muito maior do que a minha, repórter provinciano do Estadão.

Minha única vantagem profissional era falar alemão desde criança e uma enorme vontade de descobrir e contar histórias.

E a Alemanha, naquele tempo ainda chamada de Ocidental, era um prato cheio: tinha atentados terroristas quase todo dia, no auge do grupo Baader-Meinhof, o acordo nuclear que causava grandes polêmicas aqui no Brasil, a Feira do Livro de Frankfurt acontecendo, grandes lideranças como Helmut Schmidt e Willy Brandt, pauta não faltava.

Mara, minha mulher, topou na hora, embora não falasse alemão. Nossas filhas tinham apenas um e quatro anos, mas a possibilidade de conhecer um outro mundo nos animou tanto que nem pensamos nas dificuldades da mudança.

Antes de partir, ainda tive que fazer uma cirurgia de hérnia inguinal por ter sido vetado no exame médico. A coitada da Mara teve que carregar tudo, as crianças e as malas, e eu só olhando…

Chegamos a Bonn, a pequena cidade então capital do país numa manha fria de outubro, e já tinha uma pauta da Dorrit à minha espera, levada pelo correspondente do Estadão, William Waack, que seria meu único concorrente, mas logo se tornou um grande amigo.

Deixei a família e a mudança no hotel Tuppenfeld, onde funcionava o centro da imprensa dos correspondentes e fui à luta atrás da minha primeira matéria.

A reserva do hotel era só para uma noite e, no dia seguinte, como todos os poucos hotéis da cidade também estavam lotados de enviados especiais do mundo inteiro, nos mudamos para uma pequena mas simpática pensão.

Semanas depois conseguimos alugar uma bela casa, graças ao bom salário que recebia do jornal, recomeçamos nossa vida, fomos muito felizes, e o resto eu conto no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter” (Companhia das Letras), pois hoje o que eu queria falar mesmo é da minha grande alegria de ver o velho novo Jornal do Brasil de volta às bancas.

Aqui em São Paulo o jornal ainda não chega, mas deu para ver nas matérias e nos vídeos publicados na internet o alto astral da equipe nos depoimentos e ao acompanhar a primeira impressão do jornal que circulou este domingo no Rio.

Claro que nada será como antes, o tempo não volta, mas o espírito do JB estava todo lá, a vontade de fazer algo diferente na imprensa brasileira, com toda liberdade, em busca da verdade dos fatos.

Não cheguei a trabalhar com a maioria dos integrantes da nova equipe, nas minhas três passagens pelo JB, mas só o fato dos meus amigos Tereza Cruvinel, Marcelo Auler e Otávio Costa estarem lá já é garantia que vem coisa boa por aí.,

Boto fé no projeto e torço para dar certo. Me falaram que o Catito, como é conhecido o empresário mineiro Omar Resende Peres, estava maluco quando resolveu comprar o sagrado título do jornal, que tinha parado de circular há oito anos, e resolveu relançá-lo nas bancas, bem no momento em que se fala tanto na morte da imprensa de papel. Pois o Rio hoje amanheceu mais feliz com o JB de novo nas bancas.

Conheci o agora publisher Catito num dos restaurantes dele, o badalado La Fiorentina, apresentado por outro amigo, o Chico Pinheiro, e fiquei impressionado com a animação dele para fazer as coisas e se divertir trabalhando.

Só quero saber agora quando o jornal chegará a São Paulo para matar a saudade daqueles velhos bons tempos.

Boa sorte, galera do novo JB!

Vida que segue.

 

12 thoughts on “Jornal do Brasil de volta às bancas: o dia em que entrei lá pela primeira vez

  1. Kotscho, gosto da cultura alemã, sou fã número um da cantora Andrea Berg. Filósofos alemães, devo conhecer todos. Você viveu na Alemanha como jornalista, agora imagino como é difícil viver lá, conseguindo sobreviver vendendo latinhas vazias de cerveja pra reciclagem. Citou Helmuth Schmidt (1974 – 1982), falecido em 2015; pai do euro; para mim foi o maior estadista do séc. XX, pois se a Alemanha é o que é hoje foi graças primeiro ao seu povo, depois a esse grande administrador. William Waack, jornalista, apesar da bobeira que deu, pela sua história é um grande jornalista; o fato é que a Globo vem com política de descarte de figurões com mais de 30 anos de empresa – pra economizar; mas Este, certamente já com a vida feita economicamente, pelo que tenho lido na mídia, fala até em voltar com programa online na internet. Falou de outros nomes conhecidos do jornalismo nacional. Todos torcem para a volta do JB, pela sua tradição passada, será sucesso garantido-, ainda mais quando está nas mãos dum jornalista e empresário competente.

  2. Caro e prezado grande repórter RK, que felicidade a volta do JB impresso. E foi um sucesso a reestreia.
    Por volta das 10h, noventa por cento dos exemplares já tinham sido vendidos nas bancas.
    Uma hora depois a edição se esgotou.
    Melhor impossível.
    Que bom! Muito bom!

  3. A saudosa Rádio Jornal do Brasil tinha uma programação de primeira qualidade (“Rádio JB: música e informação”, era o slogan). Adorava os programas “Pergunte ao João”, ouvir, às 18 horas, a “Ave Maria”, de Dunshee De Abrantes, o “Encontro Marcado”, com Dom Marcos Barbosa, OSB, “Primeira Classe”, com músicas clássicas… Enfim, essa emissora foi muito importante na formação de meu gosto musical em minha juventude. Mas, tudo indica que essa rádio, assim como a minha juventude, não voltarão mais…

  4. Assíduo leitor do JB nas décadas de 60 e 70, acompanhei com entusiasmo as coberturas da redemocratização da Espanha e da Revolução dos Cravos, em Portugal. Desta, guardo como relíquias os textos do grande jornalista-cientista Walder de Goés, aos quais me reporto com frequência para entender o mundo da política (já não ajuda muito). Não lembro os detalhes dos textos do estimado Blogueiro, pois éramos comunas ignorantes sobre a Alemanha Ocidental, e assim permanecemos… Dá até pra cortejar um pouco do que hoje se chama de ‘utopia reversa’, né? Ou é pura nostalgia mesmo?

  5. Sentado aqui no meu “Büro” em uma cidade do norte da Alemanha, me lembro da minha chegada aqui há mais de 15 anos. Só que nao falava uma palavra de Alemao….idioma realmente complexo.
    Olho pra fora e, mesmo com -5°C, entendo que tomei a decisao correta. Sei que meus filhos agradecerao as enormes dificuldades encontradas neste árduo caminho. Ainda assim, de longe, torco pra que o Brasil evolua e conquiste alguns valores similares aos daqui: seguranca, responsabilidade e respeito

  6. Fui direto ler a página da Economia. O JB voltou no velho e bom estilo. E não ficou jorrando a verborragia dos outros jornalões, que só repetem a lenga lenga da previdência e das agências de classificação de risco (que davam triplo A a vários dos maiores bancos que quebraram em 2008/2009, mas nunca deram um pio quanto a isso). Foi direto ao ponto: a Herança Maldita é a concentração de renda. E fez o melhor registro sintético do quadro geral: “Na maior recessão da história brasileira – de 2014 a 2017 – quando o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 9,9% e a queda da renda per capital em dólar (o bolo de produção e renda da economia gerado a cada ano), atualizada pela taxa de câmbio, tomou tombo acumulado de 33%, o JORNAL DO BRASIL não pôde trazer para o papel o tamanho da crise. A crise, mediu o IBGE, chegou a deixar mais de 14 milhões de brasileiros sem emprego. Mesmo com a tênue recuperação do ano passado, com um PIB positivo em torno 1,1%, ainda há 26,4 milhões de pessoas com a capacidade de trabalho subutilizada. Em relação à força de trabalho, é um contingente de 23,8% dos brasileiros aptos ao trabalho”. Logo depois fui procurar a coluna do Saldanha, que saudade! Dei de cara com o Renato Prado. Não dá pra comparar, né. Covardia. O próprio Renato reconhece. Gostei do JB que esgotou a edição nas bancas. A coluna da Hildegard ficou uma beleza. A volta do JB é um golaço de bicicleta.

  7. Caro Ricardo Kotscho, me orgulho cada dia mais de poder conhecer os detalhes de sua vida profissional. Você é sem dúvida nenhuma uma prova viva do verdadeiro jornalismo, o jornalismo de quem conhece os fatos de hoje e de sempre. Junte a isso a volta do JB e podemos acreditar que ainda existe vida inteligente nos jornais. Parabéns por ser do jeito que você é e escreve.

  8. Bom dia !
    Kotscho, confesso que o conheço como jornalista a menos de 1 ano e já admiro-o pelos textos que tão bem escreve.
    Há muitos anos li uma reportagem que dizia o seguinte: uma das armas mais perigosos que existe é a imprensa, à época não entendi o significado disso, mas hoje, menos ingênuo, sei o que isso pode significar.
    Aqui quero destacar o quão tem sido ruim para o país o papel que a REDE GLOBO se presta em manipular as noticias ao longo dos anos.
    Mas o que mais me incomoda é saber que a REDE GLOBO poderia ter um papel fundamental no desenvolvimento do país, sem que isso pudesse trazer qualquer prejuízo financeiro para os marinho.
    Caro KOTSCHO, caso você vá dizer alguma coisa sobre o que escrevi, queira por gentileza enviar para o meu email.
    Desculpe pelo tamanho do ” texto ” e perdoe os erros de português e concordância.

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