Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal?

Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal?

Acho que nunca na história da humanidade tantos se dedicaram com tamanho empenho a escrever sobre todas as coisas como nos dias atuais.

Por onde passo vejo pessoas digitando sem parar como se fossem mudar o mundo com o que escrevem.

Me dá a impressão de que hoje se escreve mais do que se lê e isso não é bom, não deve fazer bem.

Haverá leitores para tudo o que escrevemos no zap-zap e nas redes sociais? Será que as pessoas não têm outras coisas mais prazerosas para fazer?

Tenho para mim que ler é uma forma de se alimentar com as experiências dos outros e aumentar nosso conhecimento.

É sempre bom ler antes de digitar, informar-se bem, pois nem sempre o que escrevemos tem algum interesse para os outros.

Só deveríamos escrever quando for absolutamente necessário, como falar ao telefone numa emergência ou tomar um copo d´água para saciar a sede.

Caso contrário, corremos o risco de ficar repetitivos, batendo sempre nas mesmas teclas gastas.

Em primeiro lugar, é preciso ter alguma coisa nova para dizer, algo que possa ser útil aos outros, para informar, fazer pensar, divertir, se for o caso, ou consolar nos momentos de aflição.

Tirante os que escrevem por dever de ofício, como os jornalistas, escrivães de polícia, cartorários, advogados, juízes e burocratas em geral, que tal se em vez de digitar freneticamente voltarmos a conversar com as pessoas, pessoalmente, sem intermediários eletrônicos?

Nesta febre de evasão da privacidade, em que todo mundo conta para todo mundo o que está fazendo, comendo, pensando, caminhamos para a incomunicabilidade nas relações pessoais em plena era da comunicação total online e full-time.

Se dermos uma boa peneirada, vamos ver que 90% de tudo o que é publicado neste preciso momento em que escrevo é absolutamente dispensável _ a começar, quem sabe, por este texto mesmo.

Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal: a pergunta do título fiz a mim mesmo esta noite enquanto pensava sobre o que iria escrever amanhã neste espaço.

Conheço gente que escreve para ser admirado, por sua erudição ou ideias geniais, mas esse nunca foi, certamente, meu caso.

Não escrevo para agradar nem agredir ninguém. Sou um contador de histórias da vida real feito aquela senhorinha que passa o dia na janela e depois conta ao marido o que viu _ do seu ponto de vista, é claro.

O marido, no caso, são os leitores que me acompanham faz mais de meio século e, como não sei fazer outra coisa na vida, continuo escrevendo todos os dias.

Em certos dias, tem assunto demais; noutros, é preciso tirar leite de pedra. Assim é a vida.

Se pudesse, só escreveria sobre coisas boas, inspiradoras, agradáveis de ler e, se possível, engraçadas, mas a vida real não é assim, teima em nos jogar na cara a toda hora fatos abomináveis, personagens execráveis, becos existenciais sem saída.

Às vezes tem gente que me pergunta quando vou lançar um novo livro e eu me pergunto: por que devo escrever outro livro, o que me falta dizer?

Já contei aqui a sacanagem do meu amigo Humberto Werneck, também escrevinhador prolífico, que certa vez comentou numa rodinha de jornalistas que eu era o único cara que já tinha escrito mais livros do que lido. Ou seja, que sou um autor inculto.

Pois lhe digo agora, caro Werneck, que ultimamente estou tirando o atraso, lendo um livro após outro e, por vezes, dois ou mais ao mesmo tempo _ e tenho gostado muito dessa experiência.

Se as pessoas lessem mais e escrevessem menos, acho que o mundo seria bem mais saudável. Então vou parando por aqui para dar a minha contribuição.

Hoje ganhei um livro novo, Variações sobre o prazer, do grande educador Rubem Alves. Dizem que é muito bom. Como saber? Só lendo…

E vida que segue.

 

13 thoughts on “Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal?

  1. O grande poeta Rainer Maria Rilke em seu livro Cartas a Um Jovem Poeta, respondeu ao jovem que correspondia com ele sobre ser ou não ser poeta: “na noite mais escura pergunte a si mesmo se conseguiria viver sem escrever, se a resposta for não vc é um escritor.” Talvez clareie a crise sobre para quem escrever.

  2. “Nesta febre de evasão da privacidade, em que todo mundo conta para todo mundo o que está fazendo, comendo, pensando, caminhamos para a incomunicabilidade nas relações pessoais em plena era da comunicação total online e full-time.”

    PURA VERDADE! OUTRO DIA VI UMA CHARGE EM QUE UMA PERUA, COM A ÓBVIA CARA DE IDIOTA, OLHA PARA A MÃO DIREITA, FAZ CARA DE ESPANTO E DIZ “MEU DEUS! DESCASCOU O MEU ESMALTE! PRECISO POSTAR ISSO NO FÊICE BUQUE!”…

  3. Post atual e oportuno. Pedagógico, feliz e didático. Antídoto. Eficaz contra a ditadura dos idiotas, denunciada por Nelson Rodrigues. Kotscho, segundo Rubens Alves, não basta ter a faca e o queijo na mão, é preciso vontade de comer. Este, o teu segredo.

    1. Cara Valéria,

      terminei de ler esta semana “O Livro do Boni”, a história do homem que inventou a televisão brasileira contada por ele mesmo e comecei agora a ler o do Rubem Alves citado no texto.
      Recomendo também “O Grande Livro do Jornalismo”, de Jon E. Lewis, e “Uma Forma de Saudade”, de Carlos Drummond de Andrade.
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

  4. Tem sentido, ultimamente tenho me preocupado muito em ler muito, ler não no livro dos homens – mas no livro da vida. Porque a dignidade outorga ao homem a prerrogativa de de ser respeitado, e não apenas em um momento de sua vida, senão em todos. Trocando em miúdos: o verdadeiro sábio é aquele que mais ouve e menos fala; isto é, aquele que está mais disposto em espalhar ao mundo mais Paz, do que rebeldia. Cada indivíduo veio ao mundo somente com uma missão, e está aqui só de passagem. E você, Kotscho, já cumpriu toda a sua missão? (brincadeira)

  5. Drummond faz coro à sua postagem, Kotscho!
    “Lutar com palavras é a luta mais vã,
    Entanto lutamos
    mal rompe a manhã.
    ……………………………
    Lutar com palavras
    parece sem fruto.
    Não têm carne e sangue…
    Entretanto, luto”.
    Prossiga, Kotscho. Firme e claro, como sempre.

  6. Fica a sugestão de um livro para sondar as profundezas do que vai pela alma do povaréu que corre atrás dos caraminguás, todo santo ou maldito dia. Para avaliar a angústia dos subalternos, a inquietação operária, a pulsão plebeia e a opressão classista dos explorados. Uma canja do livro “A política do precariado” do autor Ruy Braga: “O recente aumento dos acidentes e das mortes no trabalho, a resiliência do número absoluto de trabalhadores submetidos à informalidade, a concentração da massa dos empregos na base da pirâmide salarial ou a elevação da taxa global de rotatividade e de terceirização da força de trabalho dão ideia da desagregação social que a ortodoxia rentista afiançada pela “Carta ao Povo Brasileiro” assegurou ao país na década de 2007″. Vale a pena também conferir “A rebeldia do precariado”, do mesmo autor. Há um mar de rancor nas correntezas subterrâneas, que as festas de Momo represam, mas não desaparecem.

  7. Interessante a sua reflexão, Kotscho. Afinal de contas até um Bolsonaro da vida pode escrever sobre sua tosca concepção de sociedade para sua bolha nas redes sociais. Mas te digo que fomos perdendo o terreno das idéias e não de agora, já que habitamos terrenamente num pais em que é possível encontrar analfabetos funcionais até entre universitários. Dai que essa grande dúvida persiste: escrever para quem?

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