JK, Copa do Mundo e Bossa Nova: “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”

JK, Copa do Mundo e Bossa Nova: “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”

A taça do mundo é nossa

Com brasileiro não há quem possa

Eêta esquadrão de ouro

É bom no samba, é bom no couro

(Primeira estrofe da música “A Taça do Mundo é Nossa”, de autoria de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô, cantada pelos brasileiros após a conquista da Copa do Mundo de 1958 na Suécia).

***

Faz 60 anos este ano.

Em 1958, quando o Brasil ganhou sua primeira Copa do Mundo, Juscelino Kubitschek entrava no seu terceiro ano de governo, a Bossa Nova e o Cinema Novo começaram a fazer sucesso aqui e no exterior, Brasília era plantada no cerrado, a Ford inaugurava sua primeira fábrica no Brasil.

Foi o ano de afirmação do Brasil como Nação, no embalo de um povo feliz e orgulhoso, a época de ouro em que largamos o complexo de vira-latas e demos início a um círculo virtuoso na economia, na cultura e na política.

Está todo mundo falando agora dos 50 anos de 1968, o ano que bagunçou o mundo, mas nos esquecemos de celebrar os 60 anos do inesquecível ano de 1958.

Quem me chamou a atenção para tudo de bom que aconteceu dez anos antes foi o amigo Ludembergue Góes, decano da velha Turma do Estadão, que completou 83 anos esta semana.

Eu tinha 10 anos, mas me lembro bem da grande festa depois da goleada por 5 a 2 contra a Suécia em Estocolmo, no dia 29 de junho de 1958 _  o Pelé com 17 anos e o Garrincha das pernas tortas barbarizando naquela final histórica que ouvimos pelo rádio, na voz potente de Edson Leite, pela rádio Bandeirantes de São Paulo, no comando da Cadeia Verde Amarela Norte Sul.

Ao fazer uma rápida pesquisa sobre os principais fatos daquele ano, encontrei um documentário de José Carlos Asbeg sobre aquela conquista, o melhor resumo do que foi 1958 para nós, “o ano em que o mundo descobriu o Brasil”.

E eu descobri na internet um fantástico projeto de José Henrique Fialho, pesquisador mineiro que publicou em seu blog a série “Década de 50 – Quando a felicidade parecia bater às portas do Brasil”.

Para quem viveu aquele ano lembrar e para quem nasceu depois ficar sabendo, listei alguns dos episódios e fatos mais marcantes de 1958 na sociedade, no teatro, na literatura, na vida, enfim:

  • 1958 foi o ano em que Fernanda Montenegro, a melhor atriz brasileira de todos os tempos, se consagrou com a peça “Panorama Visto da Ponte”, de Arthur Miller.
  • Dois dias após a vitória na Suécia, que enlouqueceu os brasileiros de alegria e orgulho, JK inaugurou em Brasília o Palácio da Alvorada, primeiro marco da nova capital do país.
  • No dia 22 de fevereiro, estreou no Teatro de Arena a antológica peça “Eles não usam Black-Tie”, de Gianfracesco Guarnieri.
  • Raimundo Faoro lançou no mesmo ano a sua obra prima sobre a formação política do país, “Os Donos do Poder”, uma “análise weberiana do caráter burocrático das classes dirigentes lusitana e brasileira”, segundo Darcy Ribeiro, e deu no que deu.
  • Jorge Amado lança “Gabriela Cravo e Canela”, campeão de vendas aqui e lá fora.
  • A USP instala o primeiro reator nuclear na América Latina.
  • Eder Jofre, que se tornaria o maior pugilista brasileiro da história, conquista o título de campeão brasileiro.
  • A Odeon lança em disco de 78 rotações “Chega de Saudade”, o hino inaugural da Bossa Nova, de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, interpretada pelo então quase desconhecido João Gilberto.
  • Elisete Cardoso grava o LP “Canção do Amor Demais”, também de Tom e Vinicius.
  • A tenista Maria Esther Bueno desponta no cenário internacional com vitórias em Wimbledon e no aberto da Itália
  • No dia 15 de maio, JK cria a Rodobrás e nomeia Bernardo Sayon para cuidar da construção da Belém-Brasília, a grande rodovia de integração Nacional.
  • Chamado de “Presidente Bossa Nova”, nosso presidente dançarino, sempre com um sorriso no rosto, promove a rápida industrialização do país para a substituição de importações de bens de consumo duráveis, com vultosos investimentos do Estado em energia elétrica, transportes, construção e modernização de portos e estradas.
  • Rock Hudson se esbalda no carnaval carioca e pula com uma faixa de “Princesa do Carnaval” no peito.
  • Inspirado na peça de Vinicius de Moraes, o filme “Orfeu Negro”, dirigido pelo francês Marcel Camus, com 42 atores negros, levou o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes.
  • Chega ao Rio o subsecretário do governo norte-americano, Roy Rubotton, para anunciar um programa de desenvolvimento econômico multilateral, a Operação Pan-Americana.

Esta semana, por coincidência, Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA, fez um giro pelos principais países da América do Sul. Só não veio ao Brasil.

Não é para menos: voltamos a ser um país anão e o mundo esqueceu o Brasil, 60 anos depois de descobri-lo.

Em lugar de Juscelino Kubitschek na Presidência da República, temos hoje o sorumbático bacharel Michel Temer _ e não é preciso dizer mais nada.

Não quero estragar o Carnaval de ninguém, que não é hora de falar destas coisas deprimentes, mas lembrar as glórias do passado pode nos ajudar a enfrentar as agruras do presente e sonhar com um futuro melhor. Pena que o tempo não volta.

O Brasil já foi um belo país e, como escreveu José Henrique Fialho no título da sua pesquisa, “a felicidade parecia bater às portas do Brasil”.

Pois é, parecia…

“Tudo certo pra dar merda” é o premonitório nome de um bloco do carnaval carioca citado neste sábado na coluna do filósofo popular José Simão, na Folha.

E vida que segue.

Em tempo: esqueci de registrar o fato mais importante para a minha vida. Em 1958, passei no vestibular para o ginásio do Colégio Santa Cruz, a melhor escola de cidadãos do país, onde hoje tenho cinco netos estudando.

Para o caro leitor, que já tenha nascido naquele ano, claro, qual o fato mais importante para a sua vida em 1958?

Como foi a comemoração da conquista da Copa do Mundo na sua cidade?

 

 

 

7 comentários em “JK, Copa do Mundo e Bossa Nova: “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”

  1. Falando em “m..” parece que o bolo fecal entrou no léxico brasiliense pelas mãos de FHC. Alguém se lembra do grampo das Teles na privataria tucana? Vejamos o áudio do Mendonção, hoje dono da Corretora Matrix, mas ontem ministro das Telecomunicações de FHC: “Quando der a m….”. A propósito, outro bloco de carnaval foi às ruas depois da queda do Mendonção batizado como “Que m… é essa!”. A mais famosa fica por conta de Churchill e pode ser conferida na telona dos cinemas: “Uma m.. de cada vez”. Teria dito após mais uma invasão bem sucedida de Hitler. Churchill estava no vaso sanitário quando recebeu a péssima notícia. Neste carnaval há um filme imperdível para quem ainda não conferiu a interpretação magistral do ator Gary Oldman em “O destino de uma nação”. Há quem diga que o codinome ‘MT’ na planilha da Odebrecht tornou-se a marca registrada do seu reinado: o governo da “m…total”.

  2. Acho que o pessoal daquela época lembrava do passado e percebia que estavam fazendo a diferença pra história e desenvolvimento do Brasil. Hoje muitos de nós ao ter esse rara reflexão e comparação com o passado sente um vazio, como se estivéssemos numa década perdida.

  3. A nossa república é muito jovem, se comparada com outros países asiáticos, europeus, e mesmo a americana. Ao falar do passado, pensei que o grande jornalista fosse chegar, na Carmem Miranda, no Ranchinho ou na Darci Gonçalves. O maior risco que países em desenvolvimento corre é, inevitavelmente, o caso da economia americana vier a quebrar, o tanto que o mundo Dela depende. Mas isso não está muito longe de acontecer. O que se teve de reforma na Educação brasileira se deveu graças ao futurismo pensado de Darci Ribeiro. JK, tb populista, nos deixou como herança João Goulart e o “homem da vassoura”, que o paulista bem conhece, pois que renunciou á presidência por força das multinacionais; mas ambos eram populistas. Se o Lula não quiser ser preso pode seguir a campanha de perseguido político como Goulart, e não faltarão convites nem da Colômbia nem da Bolívia-, ele só não pode ir é pra Cuba, nem pra Venezuela, pois da muito na cara. Voltando ao início, foi realmente o prof. Darci Ribeiro quem divulgou em primeira mão uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Lula tb é populista, e de esquerda, está fora do jogo político. Está em curso um projeto novo da CIA para acabar com a esquerda no mundo. Quando se fala em Economia, se fala em PIB, – e só haverá progresso sustentável em investimentos futuros se os cidadãos conseguirem poupar. Com essa contumaz baixa crescente da taxa da Selic não tem nem como investir pois a Economia acompanha a Política duma nação (principalmente da nossa que necessita do capital estrangeiro para sobreviver). Os investidores árabes investem na Europa, mas no geral os investidores do mundo ainda acreditam no país do Temer, mas sobretudo no Brasil dos brasileiros. Eleito um novo presidente, todas as esperanças serão de novo renovadas! É só acreditar! Vida que segue.

    1. Não se trata de discutir antropologia cultural ou social, nem de valores e regras da sociedade. Se o curitibano tem dificuldade em interagir com forasteiros, o problema é deles. Cada povo tem sim a sua maneira de ser. O importante é a contribuição que esses imigrantes deram á formação do nosso povo, seja de qual país de onde vieram. Cito como exemplo, os romenos bessarabianos, de Sta Catarina, que conservam até hoje as suas tradições. Pela História, podemos entender um pouco do momento político que vivemos.

  4. Por falar em momento político, lembrando que Lula da Silva inicia sua agenda visitando 14 cidades sulinas, terminando em Curitiba, em março, onde fará comício na região da “Boca maldita”; tomara que não seja visto como provocação, facilitando a sua prisão já condenado em 1ª e 2ª instâncias. Se fosse um pobre, já estaria preso.

  5. JK, o presidente megalomaníaco que construiu uma ilha da fantasia no meio do nada é considerado estadista. Uma capital projetada com as mazelas da nossa sociedade, a casta do funcionalismo no plano piloto, seus serviçais nas favelas, ou cidades satélites. O homem que acabou com as ferrovias para privilegiar carros e caminhões… Era sujeito moderno! Seu grande mérito era ser pegador e dançar bem.

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