“Calma, espera eu chegar aí”. Vó Mara resolve tudo

“Calma, espera eu chegar aí”. Vó Mara resolve tudo

Mariana já estava desistindo de montar o armário no quarto das meninas na casa nova.

Depois de dois dias de batalha, monta e desmonta, o marceneiro não conseguiu colocar de pé o dito cujo, e Mariana jogou a toalha.

É disso que a vovó Mara, minha mulher há quase meio século, mais gosta: um desafio.

O armário usado foi presente de Carolina, irmã de Mariana, e as duas ficaram trocando zap-zap um tempão sobre o que fazer.

Até que Mara mandou esta mensagem: “Calma, espera eu chegar aí”.

Fiquei o dia inteiro sem a mulher, mas valeu a pena.

Já era noite quando ela deu o serviço por concluído, com um discreto sorriso de vitoriosa.

Mara sempre foi assim desde que começamos a namorar na praia Martim de Sá, em Caraguatatuba, na semana em que o homem chegou à Lua.

Dizem que amor de praia não sobe a serra, mas ela tratou de desmentir essa bobagem, e cá estamos no planalto até hoje.

Para ela, nunca teve causa perdida.

Por maiores que fossem os obstáculos, Mara sempre dava um jeito em qualquer coisa que parecesse impossível.

Certa vez, voltando de viagem, não a encontrei em casa e comecei a ouvir barulhos no telhado, pensando que era algum ladrão.

Fui ver, era ela engatinhando para colocar as telhas no lugar, feito uma Gabriela urbana.

Assim é com tudo: problemas elétricos, hidráulicos, informáticos, telefônicos _ ela conserta tudo.

Como eu não sei fazer nada, a não ser escrever e cozinhar, quem cuida de tudo em casa é ela _ dos pagamentos aos recebimentos, passando por todos os pepinos domésticos e existenciais.

Por mais complicada que pareça a situação, ela nunca se afoba, nem reclama. Acredita sempre.

Deve ser a tal da meditação que minha mulher faz todo dia, e eu venho tentando também, sem ter os mesmos resultados.

Acho que isso é coisa de nascença, de força interior, sei lá.

“A que horas vocês vêm?”, pergunta Mariana, na primeira mensagem do dia.

“Acabei de levantar e seu pai está escrevendo”.

Deve ser algum outro problema que surgiu na casa. Daqui a pouco ela vai resolver.

Fico pensando se não é isso que está nos faltando para sair desta inhaca federal em que nos encontramos.

Em vez de jogar a toalha, entregar os pontos, maldizer o destino, acreditar que tem jeito.

A cada manhã, para a santa Mara, é um novo dia para encarar os desafios, botar a mão na massa, fazer os outros felizes.

Com uma mulher dessas, não posso reclamar da vida.

Vida que segue.

 

12 thoughts on ““Calma, espera eu chegar aí”. Vó Mara resolve tudo

  1. Só posso comparar este artigo com um dia de calor de 40 graus, todo mundo esbofado, desanimado e sem coragem para nada. Sem esperar aparece alguém com uma caixa de cerveja gelada. Todo mundo toma cerveja, os ânimos renasce. A felicidade volta e a alegria de viver continua.
    Este texto é a cerveja que faltava para afastar as agitações dos últimos dias.

  2. Super vó. Compreende-se, Kotscho porque tua família é feliz. Protagonizar a Gabriela urbana não é nada para quem fez o amor de praia subir a Serra. Mulher de fé e virtuosa, aquela citada no texto sagrado. Homenagem e um respeitoso abraço à Vó Maravilha. Espero não causar ciúmes ao jornalista, se bem o imagino, ele não lerá nada disso. Segundo a matriarca dos Kotscho, é escrevendo que ele contempla a vida que segue. O Post acima é uma declaração de amor.

  3. Beleza ! Conhecendo ambos, concordo com tudo, testemunha privilegiada de muito do que foi dito.
    Belo texto, Ricardo. Faz justiça aos dois. Recebam um abração, com toda a minha amizade.
    Quanto ao Brasil, é isto mesmo que deve ser feito.
    Como diz você, vida que segue.
    Antonio Carlos

  4. Que linda declaração de amor! Um amor que gerou um belo fruto, Mariana! Ela é uma mulher romântica, doce e guerreira, como a mãe.
    Abraçop para você, para a MARAvilhosa e para a princesa Mariana!

  5. Bom dia, Ricardo! Moro na Martim de Sá e ontem, aniversário da minha sogra, fui jantar na casa dela. Depois do bolo, conversa vai, conversa vem, eleições na mesa, enviei para meu sogro o texto que você publicou no Balaio em 22/08 sobre a estratégia de Lula. Ele abriu a mensagem e disse que te conheceu nos anos 1960/1970. O nome dele é Tito e vinha com um amigo, Lica, na casa onde você ficava hospedado, na Rua Guanandi, local de reunião de um pessoal de teatro no tempo da ditadura. Hoje eu moro nessa casa com meu esposo, na rua paralela à do Tito. Ele contou também que você ficava na janela do meu atual quarto de hóspedes paquerando a Mara, que ficava na casa do outro lado da rua, e que acabaram se casando. Como ele ficou curioso para saber se vocês continuavam casados, fiz uma pesquisa com o nome dela no Google e cheguei a esse texto, que li ontem para os meus sogros e esposo. O Tito gostou muito e pediu pra te dizer que o amor dele e da minha sogra, Minho, também começou na Martim, subiu e depois desceu a serra, pois eles vieram morar aqui há uns 20 anos. Ele também te mandou um abraço. E eu fiquei muito feliz com toda essa coincidência, pois acompanho e gosto muito do seu trabalho. Se um dia você e Mara quiserem rever a casinha, são nossos convidados! Abraços.

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