Frei Betto: “Não basta o protesto; urge ter propostas”

Frei Betto: “Não basta o protesto; urge ter propostas”

Ao abrir o computador na manhã desta primeira sexta-feira do ano, me deparei com um texto de Frei Betto enviado pela nossa amiga Marisa Marega, e logo desisti do que pretendia escrever.

Nada poderia resumir melhor o que gostaria de dizer neste momento do que esta reflexão do Betto sobre o valor da espiritualidade em momentos de crise.

Uma pessoa atropelada por um caminhão que escapa viva, como ele escreve na abertura do seu artigo sobre o Brasil de 2018, é exatamente como me sinto: escapei vivo até agora, mas ainda não sei o que farei daqui para a frente quando o médico me der alta.

Indignação e apatia é o que percebo à minha volta, sem saber como reagir.

Betto mostra o caminho para resgatar o nosso ânimo ao lembrar que toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança.

Destaco um trecho que para mim resume a atitude mais lúcida que podemos adotar para continuar tocando a nossa vida depois de ler o noticiário cada vez mais repetitivo e massacrante:

“Não basta o protesto; urge ter propostas. Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida”.

Melhor mesmo é ler na íntegra a bela lição de vida que nos dá este já septuagenário frade dominicano, um guerreiro do bem que sempre encontra na espiritualidade forças para espantar o ceticismo e as marés negativas:

Espiritualidade em tempo de crise

“O Brasil parece, hoje, uma pessoa atropelada por um caminhão e que, apesar de graves ferimentos, escapa viva. Machucados e maculados estão a política, a ética, a cidadania, a representação parlamentar, embora a economia dê sinais de recuperação, malgrado os 14 milhões de desempregados.
Dizia Santo Agostinho que a esperança tem 2 filhas diletas: a indignação e a coragem. A indignação, para contestar o que não está bem. A coragem, para mudar a situação.
Frente a tão nefasta conjuntura, associada à crescente violência (homicídios, assaltos, drogas), a nação reage com indignação (em conversas e redes digitais) e apatia (nas ruas e movimentos sociais).
A indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior…
O que isso tem a ver com espiritualidade? Ora, dela depende o nosso ânimo. Quando nos deixamos levar pelo niilismo somos tragados pela inércia e pelo individualismo. Essa indiferença corrói a nossa subjetividade, e objetivamente legitima o poder que nos submete a seus degenerados propósitos.
Toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança. Não há nela um único livro que não retrate o conflito histórico e o embate entre opressores e oprimidos. No entanto, Javé suscita o novo quando em volta tudo parece decrépito: da gestação de Sara, já idosa, à ação libertadora de Moisés contra o faraó em cuja família ele cresceu; da brisa suave de Elias ao pequeno Davi, de quem nada se esperava.
Deus se encarnou em uma conjuntura profundamente conflituosa. A Palestina estava submetida pelo Império Romano. Herodes promoveu o infanticídio. José, Maria e Jesus se refugiaram no Egito. João Batista assassinado pelo governador Herodes Antipas. Jesus criticado por fariseus e saduceus; expulso da sinagoga; traído por um dos discípulos; preso, torturado e julgado por dois poderes políticos e executado na cruz. Sua ressurreição, entretanto, comprovou que a justiça prevalecerá sobre a injustiça e a vida sobre a morte.
Tempos de crise requerem a espiritualidade do grão de mostarda: pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história. Espiritualidade do tesouro escondido e de quem sabe que vale a pena cavar o terreno até encontrá-lo. Espiritualidade do cego Bartimeu que, por confiar na ação divina, voltou a ver com clareza.
A espiritualidade é uma atitude subjetiva de paciência histórica e atuação confiante para mudar o atual estado de coisas. Não basta o protesto; urge ter propostas. Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida.
A espiritualidade impede introjetar-nos o que ocorre à nossa volta. Não somatizar a realidade circundante. Ao contrário, desse distanciamento brechtiano reunir energias para transformar o velho em novo, o arcaico em moderno, o ceticismo em esperança.
Nos anos 60, eu pensava que meu futuro pessoal haveria de coincidir com o tempo histórico. Hoje, sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.
O futuro será sempre fruto do que semearmos no presente. Não há saída pela inesperada irrupção de um avatar político nem pelo retrocesso ao passado. A espiritualidade em tempos de crise exige cabeça fria, mente alerta, coração solícito. Não se deixar afogar nas marés negativas.
A história está repleta de exemplos de homens e mulheres que tinham tudo para se enclausurar em seus nichos familiares e profissionais e, no entanto, ousaram erguer a bandeira de um futuro melhor: Gandhi, Luther King, Mandela, Chico Mendes, Zilda Arns e Anjesé Gonxhe Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá.
Aos olhos de seus contemporâneos, Jesus fracassou. Aos olhos da história, marcou definitivamente a história humana. Porque confiou que a menor das sementes se transforma na mais frondosa árvore.”

Vida que segue.

 

7 thoughts on “Frei Betto: “Não basta o protesto; urge ter propostas”

  1. O dominicano esqueceu um detalhe. O que não faltam – nunca faltaram – são as tais ‘propostas’. Há de todos os naipes e calibres. O que falta mesmo – porque minguaram – são os protestos em massa. Mino Carta em seu editorial de ontem (A sensação do tempo perdido) deu alguma explicação do marasmo. Uma coisa é certa no Brasil: o país só desperta depois do Carnaval, quando desperta.

  2. Mestre, perdoe se considero ‘fora da casinha’ o ‘trecho escolhido’, mas piores, ‘além quintal’, temos ainda: ‘… embora a economia dê sinais de recuperação, malgrado os 14 milhões de desempregados’ e não citar entre violências, a mais extremada, terem jogado no lixo mais de 54 milhões de votos de brasileiros e junto os programas sociais voltados para um país mais justo e soberano, através do golpe que nos empurrou para essa paradoxal tragédia, onde a economia bomba na mídia parceira, para tentarem manter-se capataz no Brasil colônia.
    Que frei Beto ou Betto, preferindo, tenha a santa paciência, mas ‘Espiritualidade em tempo de crise [num pote …]’, não passa de placebo conformista para confortar espíritos, pura água com açúcar e bentas destinadas gotículas ofídicas, pelo que está até aqui no pote.

  3. Propor o que Betto?
    Mudar a Constituição, talvez, por que não? Mas ,quem faria isso? Sabemos agora que, entre os 2 % mais ricos do país estão os servidores públicos e que o IBGE mostrou que 40% dos brasileiros vivem abaixo da linha da miséria. Sabemos ainda que, na saúde pública, 80% dos recursos vão para salários, assim como na educação cujos servidores levam 75% do orçamento da pasta. O Brasil não desperta nunca e o eleitorado, ao que parece, vai trazer de volta ao poder o mesmo do mesmo de sempre e, assim, entre bolsas isso, bolsas aquilo, como fez Cabral com os Índios em 1500, como muito bem disse o então candidato Lula, quando na oposição em 2001. Lula, como candidato disse à época que o navegador Português conquistou os índios com quinquilharias e penduricalhos.
    Oremos ,pois.

  4. Obrigado Kotscho por dividir conosco as reflexões do Frei Betto. Sim, faltam propostas, mas também luzes e serenidade qu espero sejam abundantes em 2018. Nosso abraço carinhoso a toda a família. POC

    1. Amigo POC, muito bom te reencontrar por aqui. Apareça mais vezes porque precisamos mesmo disso: luzes e serenidade para enfrentar o ano que nos espera.

      Quando passar pelo Brasil, me avisa pra gente fazer um churrasco.

      Tudo de bom pra você e a família, abração, Ricardo Kotscho

  5. Obrigado Kotscho pelas sua palavras e as de frei Beto. Temos que reconstruir a Esperança, com propostas sim. E coma nossa força interior. confesso que tenho andado debilitado até na minha Espiritualidade. Um abração. Luiz Salgado, Santa Cruz 1965

  6. Somente um adendo ao comentário sobre o português que “conquistou os índios com quinquilharias e penduricalhos” – na verdade, tanto portugueses como espanhóis souberam conquistar alguns índios insatisfeitos com seus chefes e convence-los a colaborar com sua deposição. Quando estes índios perceberam que haviam trocado chefes ruins por outros piores era tarde demais. Por estas e por outras ainda acho mais eficaz o chamado “lulismo”, que chamou a todos e tentou resolver, na medida do possível, as necessidades (e desejos) de ricos e pobres, sem dividir e hostilizar um ou outro. Porque divididos perdemos todos. Pelo menos assim tem mostrado a história…
    Abraços
    Eliana

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