Notícia rara: Tostão, gênio do futebol, recusa anúncio em nome da ética

Notícia rara: Tostão, gênio do futebol, recusa anúncio em nome da ética

Num tempo

Página infeliz da nossa história

Passagem desbotada na memória

Das nossas novas gerações

Dormia

A nossa pátria mãe tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações

(Versos da música “Vai Passar”, de Chico Buarque de Holanda, lançada em 1984, ano da Campanha das Diretas Já).

***

Em meio às tenebrosas transações que continuam em Brasília, apesar do recesso natalino, com os Maruns escrachados e os marajás de toga fazendo a festa com o nosso dinheiro, encontrei uma notícia rara: um cidadão brasileiro recusou convite para gravar o comercial de uma marca de TV ao lado de Tite, em nome da ética.

O nome dele é Eduardo Gonçalves de Andrade, 70 anos, mineiro de Belo Horizonte, mais conhecido por Tostão, campeão do mundo em 1970 ao lado de Pelé, que o chamou de gênio do futebol.

Nesta terra de coitadinhos e malandrões (título de um livro de crônicas que escrevi nos anos 90), é sempre gratificante a gente poder falar bem de alguém e, não sei por quê, me lembrei na hora de “Vai Passar” para abrir esta coluna.

Tostão e Chico têm tudo a ver, além do talento e da paixão pelo futebol: o compromisso com seus princípios e o país onde nasceram.

Na sua coluna desta quarta-feira na Folha, Tostão precisou de poucas palavras para explicar seu gesto, que é o oposto do levar vantagem em tudo dominante neste final de 2017:

“Recusei. Já imaginaram um comentarista, que elogia ou critica o técnico da seleção, aparecendo na TV, um milhão de vezes, ao lado dele? Seria antiético, e eu perderia a credibilidade. É ou não é?”

É, sim, Tostão, mas quantas figuras públicas o caro leitor conhece capazes de tomar uma decisão dessas, baseada na ética e na credibilidade? Quem ainda está preocupado com isso?, pergunto eu.

Ao deixar o futebol, em 1973, após uma breve carreira de apenas 11 anos, Tostão, que era formado em Medicina, foi cuidar dos seus pacientes e, mais tarde, se tornou um dos mais sérios e respeitados comentaristas de futebol, um ponto fora da curva num meio de egos inflados e raciocínios rasos.

Basta ver como ele termina sua coluna, com o título “Pensamentos operatórios”, em que explicou o episódio do comercial recusado.

“Achar uma única explicação para as vitórias e as derrotas é uma obsessão dos pragmáticos, dos pensadores operatórios. O futebol tem muitos mistérios. Comentaristas costumam fazer ótimas análises sobre o que desconhecem”.

Em janeiro passado, quando completou 70 anos, Tostão deu uma alentada entrevista ao Globo, em que fez um balanço da sua carreira:

“Fui um grande jogador, mas estou num segundo ou até terceiro escalão de jogador”.

Pelé discorda, e o quer a seu lado no time dos melhores jogadores de todos os tempos. Acrescento: Tostão é gênio tanto dentro como fora dos gramados. E um gênio com caráter, algo mais raro ainda.

Autor de dois livros primorosos sobre os bastidores do futebol, Tostão nunca mais calçou chuteiras para entrar em campo. Foi medicar e escrever, dois ofícios que domina, e levar sua vidinha mineira longe dos holofotes.

Só virou notícia de primeira página porque ousou tocar em duas palavras há muito ausentes do nosso cenário político: ética e credibilidade.

Vai passar, um dia vai passar esta página infeliz da nossa história, podem ter certeza, e Chico e Tostão serão para sempre lembrados.

Com estes dois, ninguém pode perder as esperanças.

Vida que segue.

 

11 thoughts on “Notícia rara: Tostão, gênio do futebol, recusa anúncio em nome da ética

  1. Por isso e mais um pouco, acredito em 2018. Menos egos inflados e raciocínios rasos (boa, Kotscho), na certeza de um Ano Novo feliz para dominantes e dominados. Ao atender o telefone, ri muito com minha irmãzinha de 79 anos e passo adiante: Feliz 2018, fora tender e dietas, já! Beijos, maninha Walkiria. Valeu, Vai para o Balaio do Kotscho.

  2. Sou tendente a assinar embaixo tudo que o Kotscho escreve, mas comparar a ética de Tostão com a do Chico é forçar a barra demais. Tostão,em termos de ética, está anos-luz à frente da maioria dos mortais, inclusive Chico. Não há comparação.

  3. Tostão é o nosso Drummond de Andrade da cancha verde. Poesia construída com a bola dos pés à cabeça. E seria a nossa Hannah Arendt dos gramados. Sabe que o Homem, no momento azado, faz sua “opção moral”.

  4. Uma pequena correção ao seu belo texto: Tostão quando deixou o futebol foi estudar medicina. Prestou vestibular pata a UFMG, onde se formou e, então, foi cuidar de seus pacientes.
    Se não me engano, Tostão era formado em administração enquanto jogava.

  5. Muito oportuno o texto e seu tema, tendo em vista os tempos tenebrosos por que estamos passando.
    Fica o ponto de interrogação, como o do Gílson, relativamente à observação do José de Assis Tito, a respeito de Chico Buarque. Já que o José ousou questionar, publicamente, a conduta moral do Chico, de certa forma ele tem a obrigação de esclarecer. a não ser que seja uma atitude meramente mesquinha de alguém menor.

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