Um muito feliz Natal feito de livros e sandálias (e uma bicicleta)

Um muito feliz Natal feito de livros e sandálias (e uma bicicleta)

Fiquei reparando nos presentes espalhados pela sala e me dei conta de que poderia estar passando o Natal num convento de franciscanos.

Entre pequenas lembranças e a primeira bicicleta da neta caçula, só tinha livros, dos mais variados gêneros literários, e uma penca de sandálias de todos os tipos e tamanhos.

Livros são comparativamente presentes baratos, eu sei, mas e as sandálias? Deve ter havido alguma grande liquidação no bairro…

Pelo jeito, por força das circunstâncias, a família no próximo ano vai ficar mais culta e mais humilde.

Cada Natal marca uma época nas nossas vidas e, se as orações são sempre as mesmas, como as canções do Roberto Carlos, os presentes variam conforme os humores da economia.

Foi-se o tempo da fartura, em que a gente até se perdia no meio de tantos presentes, e passava o dia seguinte curtindo as novidades.

Só eu ganhei nove livros, o que dá para começar a montar uma pequena biblioteca de inéditos, depois de ter lido e relido os antigos nesta temporada forçada, há um mês de molho em casa, sem ter o que fazer além de ler e escrever. Vou acabar virando um intelectual…

Quando mudamos da casa velha para um apartamento menor, uns dez anos atrás, tinha uma boa biblioteca que não cabia no novo endereço.

Resolvi então doar todos os livros, inclusive os que escrevi, para a Escola de Comunicações e Artes da USP, onde estudei. Em pouco tempo, a estante do meu escritório foi ficando atulhada de novo, a ponto de eu pedir para não ganhar mais livros de presente.

Agora, em meio à celebração da família, muito ansioso comecei a folhear meus presentes natalinos, mas logo parei no novo livro de Thomas Friedman, um veterano colunista de política externa do New York Times (uma espécie de Clóvis Rossi americano).

Atraiu-me o instigante título Obrigado pelo Atraso _ Um guia otimista para sobreviver em um mundo cada vez mais veloz. 

O livro começa assim:

“As pessoas decidem ser jornalistas por diferentes razões _ e elas, às vezes, são ditadas pelo idealismo. Há jornalistas investigativos, repórteres especializados, repórteres que fazem coberturas no calor do momento e jornalistas dedicados a explicar os fatos. Sempre tive a ambição de fazer parte desta última categoria. Abracei o jornalismo porque adoro ser um tradutor do inglês para o inglês”.

Dá para um velho jornalista parar de ler depois de uma abertura dessas? Comecei logo a lembrar dos diferentes momentos da minha careira.

Sou do tempo em que jornalistas, pelo menos a maioria, eram mesmo idealistas, uma palavra hoje em desuso.

Desde o começo, mais de meio século atrás, fui um típico repórter dos que fazem “coberturas no calor no momento”, mas quando as pernas já não me permitiam mais correr atrás da notícia acabei virando comentarista, tentando traduzir o português para o português, ou seja “explicar os fatos”.

Friedman dá um exemplo concreto do que aconteceu na campanha presidencial de 2016 nos Estados Unidos ao citar Marie Curie:

“Nada na vida deve ser temido, se formos capazes de compreendê-lo. Agora é o momento de compreendermos mais, para que venhamos a temer menos”.

Este poderia ser o guia para os repórteres que farão a cobertura da eleição brasileira de 2018, em meio a este clima de desconfianças generalizadas no qual o medo supera as esperanças porque temos dificuldades de compreender o que está acontecendo na vida real.

Ah, sim, até esqueci de falar das minhas novas sandálias. Ficaram perfeitas nos pés, já vou estreá-las hoje mesmo. Nunca tinha ouvido falar desta marca, mas para quem estiver curioso é “Birkenstock”, um produto alemão ideal para pés cansados (não, caros amigos, infelizmente não se trata de merchandising, é só uma dica para os amigos).

Com o que sobrou da ceia na Carolina, vamos agora fazer um belo almoço na Mariana, que ninguém é de ferro. E a Olguinha vai estrear sua bicicleta.

Vida que segue.

 

 

8 thoughts on “Um muito feliz Natal feito de livros e sandálias (e uma bicicleta)

  1. Embora não se trate de merchandising por enquanto, caro Kotcho, gostei muito das dicas dos livros (a sandalia ja conhecia e é mesmo muito confortável!). O único problema é que, atualmente, quanto mais entendemos mais apavoradxs ficamos… Grande abraço!
    Eliana

  2. Querido Kotscho, as vezes eu fico confusa se é um artigo, uma crônica ou um poema. Você consegue unir tudo isso quando se dedica ao cotidiano. Adorei! Livros, sandálias e uma bicicleta… E uma família unida! Por mais postagens assim!!! Beijo

  3. Nunca fui bom de ‘espírito natalino’; desde criancinha. Ficava-me e ficou-me pelo resto da vida, um gosto travoso no final da boca do ‘presente do outro’ (que nunca me faltava!). Aquele ‘outro’ que aparecia no dia 25 sem nada nas mãos, cujos pés descalços corriam, lado a lado dos meus, pelas peladas da várzea. Razão pela qual, sempre pedia a mesma coisa: uma bola. E ela chegava, novinha, de capotão brilhoso, todo ano. E por um simplório motivo. A bola acabava sendo da molecada toda. E, por isso mesmo, sempre foi a bola mais esperada e festejada do mundo. Aquela molecada toda junta era feliz correndo atrás daquelas bolas; mas nós não sabíamos.

      1. Grato, Kotscho, pelo complemento. A bola foi para nós um presente de todos. Permita-me trazer-lhe um poema alemão que fala do futebol. Os alemães são capazes de fazer poesia com quase tudo. Você sabe melhor do que ninguém. E não foi diferente com o balão de couro. Quem diria que fossem dar o troco estraçalhando o time do Scolari (aquilo não pode ser chamado de seleção brasileira) e encaçapando a Argentina com o Leonel e tudo. Enfileirar os dois gigantes sul americanos jogando em casa não é para qualquer um.
        O poema é: “Após a final” (original: “Nach dem Finale”), do escritor alemão Ludwig Harig. Enfoca a final da Copa de 1986 no México. Fraterno abraço!

        “Nach dem Finale
        Mexiko ´86

        Es lag an der Natur: am viel zu stumpfen Rasen,
        an Montezumas Zorn, am Klima, am Komplott
        der schnöden Fußballwelt. Im altbewährten Trott versuchte unser Team den Lorbeer abzugrasen.

        Doch Maradona kam, zum Strafgericht zu blasen:
        aus Argentiniens Elf entsprang der Rachegott.
        Ein Trost nur: Kaiser Franz versilberte den Schrott.
        Beim späten 2:2 erhoben sich Ekstasen.

        Vergebens hofften wir auf ein Elfmeter-Schießen,
        weil Burruchaga wir so frech gewähren ließen.
        Wir haben viel zu früh da hinten aufgemacht.

        Trotz Bundeskanzler Kohl versagte sich die Wende.
        Rolf Kramer sagte matt: “Das Endspiel ist zu Ende.”
        Es war zu Ende, ja, wer hätte das gedacht.”.

        Após a final
        México 86
        “Estava na natureza das coisas: na grama gasta demais,
        na ira de Montezuma, no clima, no complô
        do vil mundo do futebol. No velho ritmo bem comprovado

        Nosso time tentou alcançar o louro da vitória.
        Mas, então, veio Maradona anunciando a punição:
        dos onze da Argentina irrompeu o deus da vingança.

        Um alento apenas: o Imperador Franz prateou a sucata.
        No placar tardio de 2 a 2, os êxtases se elevaram.
        Em vão nós esperávamos por uma cobrança de pênaltis,
        porque nós permitimos a Burruchaga tão espertamente.

        Nós nos posicionamos lá atrás cedo demais.
        Apesar do chanceler Kohl a virada não se realizou.
        Rolf Kramer disse lacônico: “O fim do jogo chega ao fim.”
        Chegava ao fim, sim, quem teria isso pensado”.

  4. Prezado Kotscho.
    No meio de tantos livros veio-me a mente uma curiosidade; o sr, por acaso, leu FREAKNOMICS?
    A pergunta se deve ao fato de o Jornal Nacional ter mostrado hoje, 28-12-2017, a questão da queda brusca da criminalidade em Nova York, um fenômeno só explicado neste livro, tornando todas as outras ”explicações” muito a lá brasil, ou seja, simplistas,ineficazes e infantilizadas.
    N.York ostentava, nos anos 90, índices de criminalidade abrasileirados —31/100 mil— e, atualmente, segundo a matéria do JN está em 2.52. No Brasil ninguém tem coragem de comentar o milagre, que está cientificamente exposto em FREAKNOMICS.

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