Morre Osvaldinho Martins, um jornalista apaixonado

Morre Osvaldinho Martins, um jornalista apaixonado

De Osvaldinho Martins, meu amigo de quase meio século, pode-se dizer que era um jornalista apaixonado.

Tinha lado, caráter e coragem, não fugia da raia.

Um enfarte na noite de quarta-feira o levou embora das suas grandes paixões: Escola de Samba Primeira da Mangueira, Santos Futebol Clube, Mário Covas e o Estadão do século passado, não necessariamente nesta ordem.

Faria 78 anos em janeiro _ uma vida inteira dedicada à política, ao futebol, ao samba e ao jornalismo.

Em todas as áreas entrava de cabeça, jogava para ganhar, sem perder o bom humor _ um humor meio cáustico de beira do cais, da cidade onde nasceu e começou sua carreira de jornalista, na Tribuna de Santos.

Fazia parte da velha turma do “Estadão” dos anos 1960, onde o conheci, já como editor. Osvaldinho era o típico jornalista de redação, que pautava, reescrevia textos, escolhia fotos, fazia títulos, na eterna batalha de levar informações ao leitor, mesmo nos tempos da censura. Na redação do Estadão, enfrentava pessoalmente os censores até na oficina do jornal, para salvar o que eles queriam cortar.

“A liberdade de imprensa é a mãe de todas as liberdades e o direito de informação o pai de todos os direitos da cidadania”. Este foi o guia que ele seguiu ao longo das suas mais de quatro décadas de carreira, como contou em entrevista a Thiago Rosa, do Portal Imprensa, em janeiro de 2009.

Sobre os desafios que enfrentou para cumprir seu ofício de jornalista, foi direto ao ponto:

“O grande problema do jornalismo é a imprensa. O diabo é que um não existe sem a outra. A imprensa é a patroa do jornalismo. Embora funcionem juntos, jornalismo e imprensa são duas coisas distintas. A imprensa é um negócio, tem clientes e, como empresa, tem de dar lucro. Já o jornalismo não tem clientes, tem fontes; na empresa, só dá despesa. Diariamente, em todas as redações, ocorrem embates entre os interesses da imprensa e os deveres do jornalismo. Os interesses da imprensa prevalecem sempre”.

Desde Santos, o nome de Osvaldo Martins de Oliveira Filho sempre esteve ligado ao do ex-governador Mario Covas, um dos fundadores do PSDB e dos políticos de maior valor humano que conheci na vida. Nunca escondeu esta ligação; ao contrário, tinha orgulho dela:

“Fui amigo do Mario durante 40 anos. Ele político, eu jornalista. Acompanhei de perto toda a sua trajetória _ a de um homem sério, democrata, coerente, trabalhador e muito preparado. Para mim foi um longo e proveitoso aprendizado. Com ele aprendi mais sobre ética do que em todas as redações por que passei”.

Autor de 11 enredos da Mangueira, ofício ao qual se dedicou depois de deixar as redações, trabalhou em alguns dos maiores veículos de comunicação do país: Rede Globo, TV Cultura, Veja, Correio da Manhã e Jornal do Brasil. Criou o Instituto Brasileiro de Estudos da Comunicação, em 1987.

A última vez que nos falamos foi no sábado passado quando ele me ligou para saber como eu estava depois da queda que sofri há duas semanas e me deixou com a perna imobilizada. Combinamos de nos encontrar nesta sexta-feira na festa de Natal do Estadão na casa da Sila, irmã do Saul Galvão, que também era dessa turma, assim como o nosso querido Reali Júnior.

Numa profissão de alta rotatividade e amizades efêmeras, é quase um milagre. Comemoramos o Natal juntos há mais de 50 anos, sempre com muitas brigas, mas uma amizade maior do que qualquer divergência.

Osvaldinho vai nos fazer muita falta.

Beijos para Suely, sua inseparável companheira, e os filhos Alexandre e Paula, que já fazem parte da nossa grande família.

Para quem fica, vida que segue.

 

 

5 thoughts on “Morre Osvaldinho Martins, um jornalista apaixonado

  1. Caro e prezado grande repórter RK, lembro do Osvaldinho nas coletivas com o Mário Covas.
    Como assessor de imprensa do Covas, ele sempre foi cordial e atencioso com os repórteres. Isso não tem preço.
    Sei que é lugar-comum, mas vale repetir: Osvaldinho combateu o bom combate.

  2. Sentimentos à família e amigos. Kotscho, tocante texto. De uma felicidade ímpar. Comove saber que a história de ambos nasceu de amizade fraternal de dois jornalistas, antes, dois amigos. Esse sentimento não está em extinção. A leitura do Post é a certeza que a vida segue e mesmo com o coração em prantos, alimentando a alma e… elevando o pensamento às energias mais elevadas. Sim, combateu o bom combate, completou a carreira… certamente uma vida de fé.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *