O livro de Jô: dono de mil talentos e uma memória de elefante

O livro de Jô: dono de mil talentos e uma memória de elefante

Guimarães Rosa dizia que quem lembra tem. Sempre tive uma memória boa e enorme curiosidade por coisas que a maioria das pessoas, as quais não costumam prestar atenção em nada, tomam como frívolas (pé da página 29  de “O livro de Jô”, de Jô Soares e Matinas Suzuki Jr., editado pela Companhia das Letras).

***

Jô vai fazer 80 anos em janeiro, e lembra de tudo. Dono de mil talentos (até onde deu para contar), José Eugênio Soares não só lembra como conta nos mínimos detalhes, histórias reais que viveu, mas parecem ficção.

O que mais me chamou a atenção neste primeiro volume das memórias do mais completo artista brasileiro, logo nas páginas iniciais, foi a sua incrível capacidade de lembrar de fatos, personagens e lugares desde que veio ao mundo para brilhar.

Estava pensando nisso quando encontrei a citação de Guimarães Rosa. Com ela, o próprio Jô mostra de onde vem a sua inesgotável inspiração para fazer rir: prestar atenção em tudo e ver o que os outros não enxergam.

Em parceria com o jornalista Matinas Suzuki Jr., Jô vai recordando causos da sua vida como se estivessem conversando num Programa do Jô em que o entrevistado é ele, o melhor personagem dele mesmo.

Vultos da nossa história confundem-se com personagens anônimos em situações dramáticas ou prosaicas e a todos Jô trata da mesma forma, com seu humor sarcástico, que não livra a cara de ninguém.

Certa vez, num jantar no apartamento do Washington Olivetto, ele estava com seu inseparável amigo Thomaz Souto Correa, e os dois riam discretamente enquanto eu fazia meu prato. Finórios gourmands, estavam inconformados com o que viam:

“Ô Kotscho, você esta estraçalhando esta salada no prato. Pega uma comida de cada vez, não precisa ter pressa…”, ensinou-me o Jô, embora ele não faça questão de ensinar nada a ninguém, apesar da sua proverbial cultura.

Nada escapa aos seus olhos e ouvidos. Parece estar sempre caçando alguma situação nova, inusitada, para usar em seus programas, shows e livros. É capaz de acompanhar várias conversas sobre diferentes assuntos ao mesmo tempo _- e não tem assunto em que ele seja ignorante.

Leva tudo na boa, flutuando pelos salões, e é capaz de encontrar graça até nas desgraças da vida.

Ao ler o livro, você vê o Jô inteiro na tua frente e fica com vontade de participar da conversa.

Só uma vez vi o Gordo bravo. Tínhamos tudo acertado para uma entrevista dele com o então presidente Lula na Globo, na volta do seu programa, depois de uma temporada de férias. Ele iria a Brasília para gravar o programa.

Nesse meio tempo, Lula acertou diretamente com seu amigo Ratinho, sem eu saber, uma entrevista no SBT, que iria ao ar antes do Programa do Jô.

Furioso, Jô cancelou a entrevista.

Muitos anos depois, fui ao programa dele para ser entrevistado quando dois jovens jornalistas, Mauro Júnior e José Roberto da Ponte, estavam lançando o livro Lugar de Repórter Ainda é na Rua sobre a minha carreira.

Jô com certeza nem se lembrava daquele episódio, me tratou superbem, e juntos demos boas risadas com as mancadas que eu dei.

Lá pelas tantas, ele começou a projetar no telão do estúdio algumas fotos que estavam no livro e me pediu para identificar os personagens.

_ Quem é aquela mulher toda enlameada com quem você está conversando?

_ Ah, não lembro, deve ser de alguma reportagem que fiz na Transamazônica…

_ Como assim? Aquela não é a Sonia Braga?

Na verdade, eu tinha esquecido os óculos e não estava enxergando direito as fotos. Era Sonia Braga mesmo, durante as filmagens de Gabriela, com Marcelo Mastroanni, em Paraty.

_ E essa turma aí no aeroporto?

_ Acho que é a equipe do Estadão embarcando para cobrir a Copa da Alemanha, em 1974 _ chutei.

_ E o que o Lula e o Marcadante estão fazendo ali no meio?

De fato, olhando melhor, a foto era da comitiva do PT numa viagem à Europa antes da campanha de 1989.

A platéia não parava de rir e Jô desistiu das fotografias.

Me desviei um pouco do assunto do livro, que ainda não acabei de ler, mas já saíiram tantas boas resenhas que não vai fazer falta a minha.

Como o Natal está chegando, só queria me antecipar para recomendar esta obra-prima de inteligência e bom humor. Dá gosto de ler cada página, sem pressa, para aproveitar melhor o livro.

É um belo presente para você mesmo ou para quem você gosta.

“Não vá para a cama sem ele”, foi uma das chamadas do Programa do Jô, que ia ao ar no fim de noite. Agora, não dá para falar isso porque o livro é um catatau pesado, de quase 500 páginas, difícil de ler na cama.

Nada que um tablet não resolva.

Para quem começou na TV em branco e preto, O Livro de Jô é uma bela viagem pelo tempo, que vai desfilando as mudanças no Brasil e no mundo pelo olhar sempre atento de quem fez da vida uma comédia.

Que venha logo o segundo volume.

 

4 thoughts on “O livro de Jô: dono de mil talentos e uma memória de elefante

  1. Fora Alckmin, fora… fora! Como assim, pô, o livro é do Jô. Que me desculpe o artista mais completo do Brasil (boa, Kotscho), mas o arremedo de Governador dos paulistas, enredado até os calos do pé… na Lava jato, há quatro anos vem negando reajuste de proventos aos professores aposentados. Nem unzinho centavo de reajuste. “Fora Alckmin” significa que não tenho condições de comprar o novo livro formidável Jô Soares. Lecionei 31 anos… e alfabetizando crianças, PEB I de formação polivalência, que sou, e com muito orgulho dos projetos que desenvolvi. Se alguém puder COMPARTILHAR COMIGO O LIVRO DO JÔ, devolverei com urgência. Perdeu o voto dos aposentados, Senhor Alckmin, futuro presidente do…. PSDB. PSDB de FHC, ex Presidente, deveras infeliz… ao chamar o aposentado de vagabundo. Hmm… Ainda bem que as urnas eleitorais tem memória de elefante e os alfabetizadores, alguns talentos. Sucesso, Jô.

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