Longe de Brasília e da internet, os livros da vida

Longe de Brasília e da internet, os livros da vida

De vez em quando, quem vive de escrever sobre o cotidiano precisa dar uma parada para se reabastecer com palavras e experiências alheias que só encontramos nos livros.

Nesta última semana de julho, passando frio numa cidadezinha sem banca de jornal, e com a internet a toda hora sem conexão, fui pegando livros que ganhei de presente quando trabalhava nas grandes redações e juntando numa velha estante no sítio.

Foi ótimo. Acho que nunca li tanto na vida, um livro atrás do outro, longe do massacrante noticiário político de Brasília.

Acho que não perdi nada. Só ganhei. Ao voltar, encontrei a mesma lereia de sempre, como se o tempo tivesse congelado no dia em que viajei.

Li de tudo: das autobiografias musicais de Erasmo Carlos e Nelson Motta a crônicas de Machado de Assis e Lima Barreto, passando por histórias engraçadas sobre o grande poeta gaúcho Mario Quintana aos livros-reportagem de José Roberto de Alencar (“Sorte & Arte”) e Carlos Wagner (“O Brasil de Bombachas”), obras primas do chamado jornalismo romântico do pé na estrada.

Recomendo todos aos caros leitores do Balaio. Para quem se interessar, basta pesquisar no Google, está tudo lá.

Quase sem sair da varanda de casa, viajei por vários Brasis nos altos e baixos de diferentes épocas, a demonstrar que crises de todo tipo sempre tivemos e, apesar de tudo, sobrevivemos.

Em leituras tão diversas, encontrei um fio condutor: a vida das pessoas, assim como a das nações, não é uma história linear, pois o destino depende de como cada um enfrenta a cada momento os permanentes desafios da vida.

A grande surpresa para mim foi a autobiografia de Erasmo Carlos (“Minha Fama de Mau”), o eterno parceiro do rei Roberto, que me fez rir sozinho das suas muitas trapalhadas e me emocionar com algumas passagens dramáticas da vida pessoal.

Como li na sequência a história de Nelson Motta (“Noites Tropicais”), jornalista, compositor, produtor multimídia e grande festeiro das noites cariocas da segunda metade do século passado, pensei como podem ser diferentes os caminhos de dois personagens da mesma época, vivendo no mesmo meio, na mesma cidade, o Rio de Janeiro.

Os dois livrões foram lançados pela mesma editora, a Objetiva, na primeira década deste século, e também tiveram destinos diferentes.

Do livro de Erasmo, lançado em 2009, nunca tinha ouvido falar, e certamente não o compraria numa livraria por puro preconceito.

Pois o roqueiro romântico, anti-herói dele mesmo, é um excelente poeta popular, escreve muito bem e vai contando com leveza suas andanças da zona norte carioca à “Jovem Guarda” que o levou aos palcos do mundo.

Só pela comovente história da paixão dele pela mulher Narinha vale ler o livro.

“Noites Tropicais”, editado em 2000, logo virou best seller, com as revelações de Nelson Motta sobre os grandes personagens do show bizz e do high-society carioca, e dá boas pistas para a gente entender a decadência da antiga Cidade Maravilhosa.

Também contemporâneos, o mineiro José Roberto de Alencar e o gaúcho Carlos Wagner passaram boa parte de suas vidas nas estradas para contar a saga de brasileiros anônimos que não estão na mídia, mas contam a história alegre e trágica deste nosso belo país tão maltratado.

Quem não viveu estes tempos não sabe o que perdeu, mas sempre dá para recorrer aos livros. Boa viagem.

Vida que segue de qualquer jeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 thoughts on “Longe de Brasília e da internet, os livros da vida

  1. ‘Memorias da II Guerra Mundial’, volume II, de Churchill, ‘A nova Face do Império’ de Tarik Ali, ‘O sistema periódico’ de Primo Levi e ‘El casino que gobierna el mundo’ de Hernándes Vigueras têm sido ótimos parceiros nestes ‘tempos tristes’ (para usar a expressão do fabuloso Dickens). Segundo Paulino do Datafolha, os indicadores mostram os dias atuais como os piores já registrados pelo instituto desde que as pesquisas começaram a ser registradas. Sábio conselho, Kotscho!

  2. Caro Kotscho, você que participou da FLIP 2017, lá esteve uma palestrita que falou das aprendizagens via oral ou da experiência de vida, em prática no Brasil. Cultura denominada de livro da vida. Haja vista, muitos pessoas não têm nenhum diploma de faculdade, mas têm sabedoria de vida; basta ter somente humildade para aprender. Pro outro lado, seu post chamou-me atenção pois o dono do jornal que publicou a reportagem sobre um destes músicos, citado por você, faleceu hoje aos 87 anos de idade aqui no Vale do Aço, foi dono dos principais jornais da região. Deixou um legado de bons serviços prestados. Certa vez, ele contextualizou sobre esse roqueiro, citado por você, que, você não sabe, aposentou-se aos 36 anos de idade, trabalhando apenas um dia na empresa que referi, Timóteo-Mg, em sua única passagem pela cidade pacata de Minas. Verdade ou não, só Deus sabe. Enquanto muitos trabalham a vida toda e não se aposentam. “Vou me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei” .(risos).

  3. O mais estranho é o silêncio em relação ao caos e os assassinatos sumários na Venezuela. Apesar dos pesares as instituições no Brasil mesmo capengas ainda funcionam. Graças a Deus nos livramos de termos seguido o mesmo destino. Não posso ser acusado de sair do assunto pois só segui a linha de raciocínio de outros comentários já publicados. Vida que segue

  4. Garimpeiros dos verbos! Livro, mestre dos mestres. Em qualquer lugar, o amigo pra toda hora. Não manda bilhete aos pais, não avalia, educa e reprisa a lição, incansavelmente. Livro, bálsamo da vida, faz o coração pulsar, ilumina o horizonte e cria o futuro. Livro, quem, infelizmente, não os tem, virgens na estante, a espera dos garimpeiros do verbo? O leitor… sábio por excelência, bebe dessa fonte universal de imaginação. A imaginação espera ser pautada pelo leitor. Eis a realidade! O Balaio do Kotscho ao agasalhar de tudo um pouco, educa, se faz… fonte cultural. Difícil agradar um escritor. Livro e leitor em apaixonante cumplicidade. Vamos pela vida afora pegando o gosto. Desde o nosso nascimento caímos num caldo cultural. Ebulição de sabedoria. Vamos nos acostumando ao amor materno, familiar, dos vizinhos, dos amigos da escolinha, do livro que lemos, dos filmes que vemos, dos encontros que temos, dos escritores que conhecemos… Longe de Brasília e da internet, os livros da vida. Nascemos então, pela primeira vez. Eis o desafio maior, nascer pela segunda vez. Estamos num caldo cultural e em que momento, cada um de nós, poderá dizer: eu sou eu? O Balaio ajuda nesta evolução de seus leitores. Quando nosso livro da vida… sair do prelo, Ricardo Kotscho, honrando-nos, será um dos coautores.

  5. …pois é meu bom véinho, com tantos livros para serem lidos, inclusive o maior deles que é a observação isenta da nossa própria realidade, vemos gente preocupada com o que está ocorrendo na Venezuela, mas não citam o que está ocorrendo no Uruguai.Como cegos que não sabem braile.

    1. Pois é, caro Everaldo, fazer o quê?
      Parece até que aqui no Brasil todos nossos problemas estão resolvidos e precisamos cuidar dos vizinhos…
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

  6. É isso mesmo Kotscho!! o país está desanimador,deprimente,vc fez certo ter esse tempo livre para relaxar e viajar na boa literatura q pelo menos isso ainda temos Abs

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