Qual é a saída? É viver um dia de cada vez?

Qual é a saída? É viver um dia de cada vez?

Sexta-feira, seis horas da manhã, 7 graus: escadaria ao lado do estádio do Pacaembu, zona nobre de São Paulo (Foto: Heródoto Barbeiro)

“Um dia de cada vez, que é pra não perder as boas surpresas da vida” (Clarice Lispector).

“Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido, aprendi a viver um dia de cada vez” (Renato Russo).

***

Com a podridão da política e a economia em frangalhos, fica difícil encontrar alguma coisa boa para começar e animar o dia.

Por isso, conheço cada vez mais gente que, por uma questão de sobrevivência, simplesmente deixou de ler jornais e acompanhar o noticiário.

“Não quero mais saber disso, tenho que viver a minha vida, e dane-se o resto”, ouve-se com frequência nas conversas por aí.

Quando a alienação e o egoismo imperam nas relações humanas, fica mesmo mais difícil encontrar uma saída para o conjunto da sociedade.

Se todo mundo passar a cuidar só da própria vida e do futuro da família, quem é que vai zelar pelos destinos da pátria comum?

O problema de quem não quer mais saber “falar de política” é que acaba sendo governado por quem gosta muito de política para fazer negócios e manter seu poder a qualquer preço.

No final da história, quem acaba pagando este preço somos todos nós, cada vez mais endividados.

Já são 61 milhões os brasileiros inadimplentes e mais de 5 milhões as empresas afundadas em dívidas, como mostrei ontem.

Mas hoje gostaria de mudar de assunto para pensar um pouco sobre o que estamos fazendo das nossas vidas e do nosso país.

Morreu gente de frio nesta madrugada de terça para quarta-feira em São Paulo, onde aumenta a população que dorme nas calçadas e acorda sem ter o que comer.

Não basta cobrar providências dos poderes públicos, que alegam falta de recursos para tudo, menos para comprar votos e salvar a própria pele.

Será que não temos nada a ver com isso? Vamos ficar todos encolhidos em casa debaixo de cobertores esperando o inverno e a crise passarem para ver o que sobrou?

E você está fazendo o que, além de escrever?, poderiam me perguntar os leitores deste blog, e eu também não saberia responder, pois não tenho a menor ideia nem de por onde começar a procurar uma saída.

Penso como Clarice Lispector, que é preciso viver um dia de cada vez; ao contrário de Renato Russo, porém, me sinto cada vez mais perdido, sem saber para onde ir.

Durante a maior parte da vida, participei das lutas coletivas da minha geração, no sindicato, na igreja, nos movimentos populares, movido pela esperança de que poderíamos, cada um e todos juntos, ajudar a melhorar o mundo em que vivemos.

Aos poucos, no entanto, sem nem perceber, ultimamente fui deixando de ir a debates, palestras, simpósios, esses lugares todos aonde as pessoas se reúnem para discutir saídas comuns.

Talvez seja por que se fale mais do passado do que do futuro, sem apontar um horizonte, um projeto de país, e não só de poder, sem partidos nem lideranças capazes de, pelo menos, sinalizar caminhos, em vez de ficar só um culpando o outro pelos desatinos do presente.

Se alguém souber onde isto está acontecendo, por favor me informe.

Já nem sei, a esta altura do campeonato, quais poderiam ser “as boas surpresas da vida” de que fala Clarice, além de ganhar na mega-sena acumulada que corre hoje.

Só nos resta viver um dia de cada vez, sim, mas precisamos fazer alguma coisa com essa vida que não seja só sobreviver biologicamente e sonhar com a loteria.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21 thoughts on “Qual é a saída? É viver um dia de cada vez?

  1. Grande Clarisse, só agora, está sendo levada á sério pelos americanos. Quando voltemos ainda á história, e não á História como ora desejamos que fosse, pois, com a morte de Tancredo, Sarney acabou ficando com a responsabilidade da efetivação da Nova República.
    Ainda hoje Sarney enfoca o sonho de esperança democrática dos brasileiros que tem o seu estado do Maranhão como o maior celeiro de trabalhadores escravos da nação. “Em linhas gerais, o maior desafio de luta do Lula e o seu PT é amar o passado, melhorar o presente e projetar um futuro promissor”. Só ficou no discurso, legado de ânsia pelo poder.
    Mistério da inconsequência de atos praticados por nossos antepassados que também viveram a mesma ilusão democrática do reflexo intelectual de realidades sociais vazias praticáveis nunca postas á prova diante de seus contemporâneos; se é que o senhor, meu caro blogueiro, faz jus à realizar reforma geral no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, deve ser medida mais que necessária.
    Só sei que seu sucesso dependerá da eficácia da máquina administrativa de estar em sintonia com os acontecimentos sócio-políticos e econômicos da globalização que vai depender, sobretudo, da maneira como enfrentam questões colocadas por sua época, indo além ou ficando aquém delas. Geralmente, quando a Justiça age ou se coloca em ação, apenas pune alguém que agiu de forma má-intencionada. A essa altura, assumir os erros praticados nada mais é do que agir com bom senso, principalmente quando prejudica terceiros, pois geralmente errar todo mundo pode – mas persistir no erro é burrice; e cada dia que se vive de maneira inteligente, é apenas mais uma linha na grande página da vida!

  2. Lindo! Matou a pau. Isso é o que gostaria de escrever. Contento-me em ler o Post. É parar e pensar, pensar e agir. Sem atitude e coragem, o sonho não virá. As surpresas da vida de todo dia constroem o futuro e nos aproximam dos sonhos. Valeu. Pausa para reflexão

  3. Estamos tão atrasados com relação ao futuro que teríamos que voltar ao tempo e pensar justamente como JK, 50 anos em 5. Viver um dia de cada vez já não muda nada.

  4. “Qual é a saída?”, pergunta Kotscho. “Aonde fica a saída?”, perguntava Alice ao gato de Chescheire no País das Maravilhas. O gato respondera: ‘depende’. Depende de quê?, persistia Alice. O gato respondeu, conclusivamente: “Depende de para onde você quer ir”.

    1. Adorei o teu comentário meu caro Netho !!! Eu nem preciso mais escrever o meu pois tu resumiste tudo o que eu diria com essa tua lembrança de Lewis Carroll. Só acrescentaria que eu sei bem para onde eu gostaria de ir também como sei para onde muitos dos que aqui escrevem deveriam ir. Parabéns !!!

  5. O povo brasileiro paga o preço de sua omissão/ingenuidade/burrice/esperteza/acomodamento e sabe-se lá de quantas qualificações mais que possam ser encontradas para definir a atitude da maioria do povo brasileiro em relação a política e aos políticos. “Rouba mas faz”, “Mente mas convence”, “Rouba mas deixa roubar”, e várias outras expressões foram consagradas na boca do brasileiro para definir políticos e até justificar seus votos nesses calhordas que infestam a política brasileira. É muito engraçado ler os comentários de alguns balaieiros que se preocupam com posições ideológicas, culto a personalidades, ídolos criados pelas diversas correntes de pensamento político/ideológico. Entendo que o primeiro aprendizado de nosso povo deverá ser “aprender a votar”. Não se iludir com promessas, avaliar o passado e o curriculum de cada candidato, preocupar-se menos com ideologia e mais com integridade, ética, capacidade. Nem a Direita nem a Esquerda nem corrente ideológica nenhuma tem o monopólio da integridade/ética e da capacidade de governar/legislar. Precisamos de homens honrados e capazes legislando e governando. Isso já seria um grande passo para a construção de uma nação mais justa nos próximos 50 anos. Enquanto isso, meu caro Kotscho, a melhor solução é viver e trabalhar no dia a dia e não se deixar levar pelo clima altamente negativo que tem sido gerado por nossos governantes, legisladores, julgadores etc. Abs

  6. O povo vive a desilusão da política. Algum tempo atrás quando infelizmente a esquerda era oposição o seu discurso sempre foi que seria diferente quando virasse situação. O que demonstrou aos brasileiros honestos? Se mostrou pior que a direita. Montou uma organização criminosa que dilapidou o patrimônio público em prol unicamente do poder. Os empresários inescrupulosos viram na esquerda a maneira mais rápida de transformarem milhares e bilhões. Ricardo quando diz aqui não existe mais um líder não é por acaso. Pois todos os ditos líderes se lambuzaram no pote da corrupção. Sugando tudo de bom que o dinheiro sujo pode proporcionar, não esquecendo seus amigos e familiares. Talvez esse seja o seu principal motivo de não mais comparecer a palestras, simpósios etc. Pois sabedor que irá escutar as mesmas ladainhas e mentiras que por um tempo acreditou que estivessem falando com o coração e não com o único objetivo de alcançarem o poder. Apodreceram seus discursos. Apodreceram suas mentiras. Única coisa que não apodreceu dessa camarilha toda foi a ganância pelo poder. O engraçado é quando dizem somente nos últimos anos os filhos dos pobres se formaram ou que só puderam andar de avião. Esses mantras não enganam mais ninguém, pois exemplos temos a borbotões de filhos de pobres que alcançaram o sucesso com muito esforço e dedicação. O que temos hoje é a vergonha do resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 75 países ficamos em 69 lugar. Isso é real. Sem a velha tentativa de maquiar ou enganar com números as pessoas e os organismo internacionais ao qual os esquerpatas fazem questão de não ler e comentar. Velha coragem que nunca foi uma qualidade da esquerda. Viver um dia após o outro é o que nos resta. Sem fazer assepsia nas urnas em 2018, expurgando todos os políticos que estão em todas as listas da lava-jato, infelizmente Ricardo esse seu post terá que ser reeditado por muitos e muitos anos. Vida que segue

    1. Maurício Teixeira,
      enquanto ficarmos nesta disputa entre esquerda e direita para saber quem é pior, não vamos sair do lugar.
      Não tem santo nem vencedor neste jogo. Somos todos perdedores.
      Ricardo Kotscho

    2. Prezado Ricardo concordo. Mas não é disputa. É pura constatação. Não estou aqui dizendo que a direita é melhor, pelo contrário, sempre foi e será sórdida e corrupta. O que quis dizer e me parece que Você também quando afirma que deixou de ir a muitas reuniões é que a esquerda se mostrou mais corrupta e perversa que a direita. A população é apenas uma massa de manobra para esses políticos canalhas que temos. Mas não posso deixar de apontar o dedo para aqueles que se dizem a favor do povo e se basearam apenas num projeto de poder. Querem democracia e diretas já no Brasil, mas hipocritamente são adoradores dos castros e maduros. Afirmo novamente se não fizermos uma assepsia em 2018 arrancando toda essa corja que estão nas listas da lava jato estaremos lendo esse post daqui a 4 anos, quer apostar? Apesar do grande Sérgio Moro tentar limpar esses corruptos e ladrões da vida política, ainda têm adoradores desses bandidos os defendendo. Meu bandido favorito. Brasil talvez uns dos únicos países do mundo que corrupto e ladrão tem fã clube. Abraços

  7. Só para resumir em uma frase: “Precisamos cada vez mais de pessoas e menos governo”.
    A partir do momento que “governos” se arvoram no poder querendo ser a solução para tudo, começou ai o problema para todos.

    1. …ótimo…beleza…que se apresentem as pessoas dispostas a construirem estradas, pontes, ferrovias, oferecerem ensino básico às nossas crianças pobres, saúde aos desassistidos…e por aí vai…

    2. …é incompreensivel que uma cidade como São Paulo, onde todos se orgulham de ter a nata da sociedade brasileira, aconteça que tenha surgido uma cracolândia, e que moradores de rua ainda morram de frio.Sei que isto acontece em outras cidades, mas em São Paulo não era para acontecer.Sabemos que vc e outros como você, estão prontos para fazerem alguma coisa, mas caberia à elite social e econômica desta cidade, encabeçarem e organizarem estes programas independentemente de órgãos do estado. Mas a plutocracia paulista, que eu chamo de IEP ( Imprestável Elite Paulista ) não é sensíveil aos problemas humanos que aí existem.

  8. Enquanto não formarem um conjunto de responsalves pelos gastos da união, não teremos sossego dos larapios. Os da direita ou da esquerda que fassa sua parte e o dever. Os grandes responsaveis serão não politicos e com pessoas de grau superior como , financeiro, engenheiro, policia federal e outtos com poderes de aprovar ou reprovar com toda responsabilidade do conjunto. Atualmente são todos responsaveis e nenhum se responssbiliza pelo seu ato.

  9. Á francesa, Mestre, não a “de fininho”, mas a do “14 de julho”, inclusa a consequente Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de fato e direito.

  10. O governo atual apoiado pela direita PSDB, DEM, e Demais Partidos de Balcão Já ENCONTROU A SAÍDA para resolver o caos que o País está passando com desemprego gritante, baixos salários, retirada dos direitos trabalhistas, aposentadoria bengala, falta de investimentos públicos em educação, saúde, segurança e infraestrutura. Nesta quinta feira será anunciada aumento de impostos. Combustíveis que no Brasil custa uma fortuna ficará mais caro ainda se tornando um produto de luxo. Este País está caminhando há alguns meses a passos largos para se igualar a Bolívia ou Paraguai ou coisa pior.

  11. Prezado Kotscho: Com esse seu artigo de hoje me lembrei dessa triste canção: “Nesta longa estrada da vida / Vou correndo e não posso parar / Na esperança de ser campeão / Alcançando o primeiro lugar / Na esperança de ser campeão / Alcançando o primeiro lugar / Mas o tempo cercou minha estrada / E o cansaço me dominou / Minhas vistas se escureceram / E o final da corrida chegou / Este é o exemplo da vida / Para quem não quer compreender / Nós devemos ser o que somos / Ter aquilo que bem merecer / Nós devemos ser o que somos / Ter aquilo que bem merecer / Mas o tempo cercou minha estrada / E o cansaço me dominou / Minhas vistas se escureceram / E o final desta vida chegou” – Estrada da Vida – Milionário e José Rico.

    1. Caro Heraldo,
      muitos anos atrás, tinha um programa na Rádio Cultura chamado “As Canções da Sua Vida” e me pediram para fazer a lista das minhas dez preferidas.
      “Estrada da Vida” era uma delas, a música mais ouvida pelos garimpeiros em Serra Pelada e pelos viajantes como eu, sempre longe de casa.
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

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