Sabatina de Moraes é um jogo de cartas marcadas

Sabatina de Moraes é um jogo de cartas marcadas

Alexandre de Moraes será sabatinado pelo Senado nesta terça (Foto: Isaac Amorim/06.01.2017/Ministério da Justiça)

Conhece aquele jogo em que todo mundo já sabe quem vai ganhar antes mesmo do juiz apitar o início da partida? São favas contadas e cartas marcadas. Não tem erro.

É este o clima que cerca a sabatina de Alexandre de Moraes no Senado nesta-terça feira, principal fato político da semana.

Desde que seu nome foi indicado por Michel Temer para a vaga de Teori Zawascki, Moraes desfila pelo Senado, sempre acompanhado de uma comitiva de assessores e seguranças, como se estivesse passando a tropa em revista.

Consta que já falou com todos os 81 senadores pessoalmente, mas nem precisava. Cabalou voto de seus eleitores até numa chalana ancorada no lago Paranoá, o momento mais emocionante da campanha.

Nunca houve em tempos recentes uma maioria governista tão esmagadora na Comissão de Constituição e Justiça, presidida por ninguém menos do que o ínclito senador Edson Lobão, e no plenário do Senado.

Feito candidato único em campanha eleitoral numa cidadezinha do interior em que todo mundo se conhece, o ministro licenciado da Justiça só está esperando a hora de correr para o abraço.

A única dúvida é saber quanto tempo vai durar a encenação até a votação em plenário _ se termina na própria terça-feira, ou no dia seguinte.

Ninguém ali está muito preocupado com o conhecimento jurídico ou a reputação ilibada do candidato ao STF, os requisitos básicos para a nomeação de um ministro.

O que todos querem ter no tribunal é um aliado de confiança na luta desesperada contra as denúncias da Lava Jato.

À oposição caberá o papel de time pequeno que entra em campo para enfrentar um grande na final de campeonato já decidido, apenas para cumprir tabela.

Pouco importa o que até agora se divulgou sobre alguns problemas na carreira acadêmica do candidato, como casos de plágio e currículo turbinado.

Não fosse todo esse cenário favorável, Alexandre de Moraes conta ainda com o retrospecto das sabatinas no Senado, mero ritual de confirmação daquilo que o governo de turno quer.

A última vez que um candidato ao STF foi vetado numa sabatina do Senado aconteceu há 123 anos, no governo do marechal Floriano Peixoto (1891-1894).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10 thoughts on “Sabatina de Moraes é um jogo de cartas marcadas

    1. Perfeito Jane. Tive o trabalho de procurar post igual quando Toffoli e Fachin foram nomeados e até quando o primeiro não se declarou suspeito no mensalão. Então qual motivo dessa revolta agora? Será que só queremos ética quando não seguem nossa linha ideológica? Mas se na época das referidas nomeações por acaso tiver algum post neste sentido peço desculpas antecipadamente.

  1. Considerando os escândalos de corrupção suprapartidários, infestados em praticamente todos os cantos da vida política nacional, natural que se depositasse esperança no poder judiciário. No entanto, aplicar a Lei em quem tem “foro privilegiado”, parece mais com missão impossível. Simplesmente ingenuidade, inocência. A considerar todas as ações penais concluídas em quinze anos pelo STF e apenas 0,74% resultando em condenações, indica um sinal claríssimo de que os políticos que cometeram atos ilícitos no exercício da função, provavelmente não serão responsabilizados ou na melhor das hipóteses, cerca de 1% de chance de se verem apanhados pelas garras da Justiça. Desanimador, ilusão. Perdemos, eles venceram, esperar que o STF lave a alma do povo e reconduza a esperança em uma nova nação é sonhar demais. Alexandre Moraes é apenas mais do mesmo, do velho Brasil das oligarquias e dos coronéis…

  2. Para melhor compreender, numa frase, o ‘jogo de cartas marcadas’, basta traduzi-lo em adágio popular, bem conhecido como “toma lá, dá cá”. De forma categórica e erudita, quem melhor expressou o estado histórico das relações da suprema magistratura com a estrutura de poder das classes dominantes na economia e seus representantes políticos no Parlamento foi Fábio Konder Comparato. Ouçamos o jurista, entre aspas: “Aplicou-se o velho costume do “dá lá, toma cá”. A reflexão do jurista vai mais longe e bem mais fundo, senão vejamos: “Até a promulgação da Emenda Constitucional nº 45, de 8/12/2004, que instituiu o Conselho Nacional de Justiça, não havia nenhum órgão de controle da atuação dos magistrados, incumbido de julgar o cumprimento de tais deveres. Verificamos, portanto, que durante um século e meio após a Independência, os nossos magistrados atuaram isentos de qualquer controle, a não ser o mui esporadicamente exercido por eles mesmos. Dois exemplos históricos são ilustrativos dessa tradição de irresponsabilidade.Em sua viagem ao redor do mundo, pela qual comprovou sua teoria da evolução das espécies, Charles Darwin fez uma estadia de vários meses no Brasil em 1832. Pôde então verificar o seguinte, conforme reportado em seu diário de viagem: “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer vantagem sobre os miseráveis e os pobres”. O segundo exemplo diz respeito ao Supremo Tribunal de Justiça, o mais alto órgão judiciário no tempo do Império. Ao final do seu reinado,em declaração ao Visconde de Sinimbu, D. Pedro II não pôde conter-se e desabafou: “A primeira necessidade da magistratura é a responsabilidade eficaz; e enquanto alguns magistrados não forem para a cadeia, como, por exemplo, certos prevaricadores muito conhecidos do Supremo Tribunal de Justiça, não se conseguirá esse fim”. Se o Supremo, desde o Império, foi um ‘puxadinho do Senado’, o que se poderia esperar, quase dois séculos depois, de um ‘puxadinho’; presidido pelo “Índio”, liderado pelo “Justiça” e sabatinado na CCJ capitaneada pelo ‘Caju” ?!?! (Jucá insiste que o apelido não é dele, mas de Edson Lobão, por conta da tinta usada para ocultar as cãs). Se Dirceu fosse Eduardo Jorge e Barbosa fosse Gilmar, o que teria acontecido no caso da AP 470? Há quem diga que Lula e Dilma ‘erraram na mão’, quando indicaram ‘suas cotas’ de ministeriáveis.

    1. Caro Netho,
      o grande diferencial deste velho blog são alguns dos seus comentaristas, muitas vezes melhores do que seu autor _ como você acaba de demonstrar com a perfeita citação de Fabio Konder Comparato, que resume bem a opera bufa marcada para amanhã.
      Grato pela participação, um abraço
      Ricardo Kotscho

    2. Netho, Kotscho e amigos: o Brasil é assim, desde o império. Quando D Joao VI abandonou Portugal, fugindo de Napoleão, uma das primeiras medidas que tomou, apos desembarcar no Brasil (ventos desfavoráves desviaram a esquadra, impedindo o desembarque no Rio Janeiro) foi conceder pensao vitalicia ao proprietario (um tal de ….. Hypolito !!!!) do unico jornal da colonia, impresso no Rio de Janeiro. Ou seja, comprou a imprensa. D Joao, administrativamente falando, era um rei imprestável, uma espécie de Alkmin da epoca e como pessoa também não valia grande coisa. Por esse motivo, há que se impor limites ao poder da imprensa de incensar juizes, politicos e empresarios imprestáves, como esses da Lava Jato. Sei que muitos, como Meia Coxa, Gilvanildo Costa e Johnny devem estar reticentes com tudo que afirmei acima (podem conferir tudo no livro “1808” de Laurentino Gomes) pois um rei, não sendo eleito, mas aclamado (nasce-se rei e pronto), nao precisariam cooptar jornais. Ledo engano: à epoca de D Joao, em algumas colonias da America Central, escravos revoltaram-se e trucidaram seus algozes, gerando um clima de tensão e terror ao redor do mundo. Já falei demais. Parabéns, Netho, boa noite a todos.

  3. Governo e oposição estão tão desmoralizados perante a opinião pública que as pessoas parecem anestesiadas.
    Como a oposição, que outrora tinha os holofotes sobre ela, por conta da mesma lava jato, terá moral pra se indignar? Ta difícil. O país segue dividido em pedacinhos. Ninguém se entende e ninguém quer abrir mão de suas razões. O poder é o que interessa. Que se dane o que o outro tem a dizer.

  4. O Kotscho tá precisando reler o curriculum do Toffoli, se é que ele tem, e alguém lembrá-lo quem o indicou ao STF. Ser advogado do próprio partido é ser alguém qualificado? Atirar pedra no telhado dos outros tendo telhado de vidro na própria casa é interessante!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *