O dia em que Darcy Ribeiro não deu Ibope

O dia em que Darcy Ribeiro não deu Ibope

O antropólogo Darcy Ribeiro (Foto: Luciana Whitaker/Folhapress)

Ainda bem que muitos se lembraram. Nesta sexta-feira, fez 20 anos que morreu o professor Darcy Ribeiro, um dos grandes mestres da brasilidade.

Brasileiro, acima de tudo, Darcy era um apaixonado pela sua terra e sua gente, e eu pelas coisas que ele escrevia e defendia.

Por isso, no dia da sua morte, 17 de fevereiro de 1997, cheguei mais cedo ao trabalho.

Na época, eu trabalhava como diretor de jornalismo da CNT/Gazeta, uma rede sediada em Curitiba. Logo pedi à minha equipe que preparasse uma edição especial do nosso telejornal sobre a vida e a obra dele.

Não existia Google nem nada, desconfio que alguns daqueles jovens nem sabiam de quem se tratava, mas eles foram à luta e fizeram uma bela pesquisa de texto e imagem em bibliotecas e arquivos, tão boa que resolvi dedicar quase todo o tempo do CNT Jornal a um só assunto: Darcy Ribeiro.

Teve quem achou um exagero, mas eles fizeram o trabalho com gosto e eu fiquei muito orgulhoso do resultado.

Quando terminou o telejornal, a equipe reunida na minha sala, como fazia todas as noites, até aplaudiu o encerramento, mas um deles cortou meu barato.

_ Chefe, ficou muito bom, mas acho que o nosso Ibope vai despencar…

E não deu outra. Como ainda não existia o acompanhamento do Ibope online, minuto a minuto, a gente só recebia um fax no dia seguinte com a média de audiência, que oscilava entre um e três pontos, mas tinha dias em que ganhava dos telejornais do SBT e da Bandeirantes.

Vocês podem imaginar minha decepção quando vi que aquela edição especial tinha dado só um ponto.

Ainda bem que não deu traço, pensei, conformando-me com a realidade de que a maioria do nosso público não sabia quem foi o antropólogo, educador, político, escritor de tantos livros, criador dos Cieps no Rio e da Universidade Nacional de Brasília.

Algum tempo depois, eu estava dirigindo o jornalismo do Canal 21, da Rede Bandeirantes, em São Paulo, para onde levei parte dos jovens de Curitiba.

No dia da morte do cantor Leandro, que fazia a famosa dupla com o irmão Leonardo, astros da música sertaneja, resolvemos ficar no ar ao vivo o dia inteiro, com várias equipes fazendo a cobertura completa sobre a vida, a obra, a família, os fãs e o velório do cantor, que causou uma comoção nacional.

Já havia no meu computador a medição online do Ibope, e a audiência não parava de subir, minuto a minuto.

Batemos nosso recorde de audiência, chegando a cinco pontos, uma enormidade para uma emissora em UHF dedicada à cobertura local de São Paulo.

Todo mundo sabia quem era Leandro, mas não quem foi Darcy Ribeiro.

Este é o Brasil real, que o professor mineiro nascido em Montes Claros, vice-governador de Brizola, ministro-chefe da Casa Civil de João Goulart, tanto amou e a quem dedicou seus 75 anos de vida.

Hoje, quem ocupa o mesmo cargo no Palácio do Planalto chama-se Eliseu Padilha.

E vamos que vamos.

Para onde?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 thoughts on “O dia em que Darcy Ribeiro não deu Ibope

  1. Kotscho, sobre o fracasso no Ibope: “Meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria …….”. Vida que segue, cada dia mais brega, graças aos paneleiros e aos golpistas.

  2. O mesmo fenômeno do voto direto, como tenho insistido. Mas, quanto ao Darci Ribeiro, é fundamental deixar claro que suas ideias e propostas sobre educação fracassaram completamente pela inexequibilidade e pela exacerbação ideológica . A proposta de manter alunos de escolas públicas durante 12 h no ambiente escolar, como se pretendia com os CIEPs é, economicamente inviável. Até mesmo pelo conceito pedagógico, pois escola é local de aprendizagem e não de convivência com as mazelas do dia a dia. Os CIEPS foram os elefantes brancos mais caros dos últimos tempos; 1,5 milhão de dólares/unidade (foram 400) que hoje servem de puleiros e galinheiros em muitos lugares.

  3. O mesmo fenômeno do voto direto, como tenho insistido. Mas, quanto ao Darci Ribeiro, é fundamental deixar claro que suas ideias e propostas sobre educação fracassaram completamente pela inexequibilidade e pela exacerbação ideológica . A proposta de manter alunos de escolas públicas durante 12 h no ambiente escolar, como se pretendia com os CIEPs é, economicamente inviável. Até mesmo pelo conceito pedagógico, pois escola é local de aprendizagem e não de convivência com as mazelas do dia a dia. Os CIEPS foram os elefantes brancos mais caros dos últimos tempos; 1,5 milhão de dólares/unidade (foram 400) que hoje servem de puleiros e galinheiros em muitos lugares.

  4. Darcy era apaixonado pelos costumes do índio brasileiro, lendo seus livros que me interessei pelo assunto, hoje quando perguntado se me arrependo de alguma coisa, sempre respondo, “me arrependo de não ter nascido índio”.

  5. Caro Kotscho, é fácil explicar porque Leandro ou Leonardos da vida (com todo respeito pela arte que fazem e sua contribuição para o desenvolvimento intelectual no Brasil) dão mais Ibope do que Darcy Ribeiro. Basta saber de quem a Globo mais gosta !!! É a Globo quem controla o Ibope já que é pelo Ibope que se atrai e se cobra mais de patrocinadores. E eu tenho como provar. Há alguns anos atrás bateu na minha porta um representante do Ibope querendo instalar o aparelhinho de medição deles na televisão de minha sala. Minha mulher atendeu e autorizou porque apesar de não pagarem nada prometiam presentinhos todo mês (faqueiros, abajures, panelas e outras bugigangas). O “contrato” era por 1 ano podendo ser extendido pra mais. Como na minha casa ninguém assiste Globo, quando deu três meses os caras vieram retirar o aparelho. Não explicaram o motivo e a minha mulher só ganhou um porta retratos, um joguinho de duas facas e uma panela. Esse é o tal do Ibope. E por falar em panelas, na mesma sexta feira dos vinte anos da morte do Darcy Ribeiro, não sei se por conta da crise econômica ou política, a Panex, grande e tradicional fabricante de paneles fechou as portas. Não deu Ibope evidentemente essa terrível notícia para os paneleiros do Brasil. E viva o Darcy !!!

  6. Ao lado de Celso Furtado, ambos fazem a melhor dupla da intelectualidade genuinamente brasileira. Uma pena que a Globo tenha destroçado Brizola em 1989, quando o engenheiro declarou que o seu primeiro ato como presidente seria cassar a concessão televisiva e radiofônica da Vênus platinada. Não teríamos passado por Collor nem por FHC. Darcy teria comandado a verdadeira revolução na educação do país. Mas como o próprio Darcy reconheceu, o seu mérito deu-se mais por suas ‘derrotas’ do que pelas ‘vitórias’. Salve Darcy!!

    1. Pensei nisso tambem, lendo as menções do Dias sobre o grande Darcy Ribeiro: o Brasil (sem o maldito golpe) governado por Goulart, Darcy, Brizola, Lula…….Imaginem os avanços e conquistas em dois mandatos de Darcy, se Lula fez tanto, tendo recebido um país arrasado por décadas de exploração, abandono e descaso. Muito triste, a sina do povo brasileiro…..

  7. Darcy foi a liderança política que alcançou mais proximidade com Allende. Assessor especial da Presidência, ele redigiu partes do famoso discurso de 5 de maio de 1971, que definia a via chilena de construção do socialismo, completamente distinta da soviética e cubana. Nesse pronunciamento Allende menciona explicitamente a via pacífica à sociedade socialista. Sua fala enfatizava que esse percurso seria trilhado “dentro dos marcos do sufrágio, em democracia, pluralismo e liberdade”. Em suas ‘Confissões’, Darcy relata que defendeu junto ao presidente a criação de uma legalidade democrática de transição ao socialismo como o primeiro objetivo de seu governo, sem a vigorosa ênfase na política de nacionalizações e estatizações defendida pela UP. Darcy vira muito bem de perto o efeito das ‘reformas de base’ de Jango. Assim, para ele, além das transformações estruturais da Unidade Popular – que deveriam ser sopesadas com enorme equilíbrio –, o principal desafio passava pela trajetória da institucionalização da via política para o socialismo. Allende tratava Darcy como ‘amigo-irmão’. Acreditando que a legalidade chilena suportaria as transformações em curso, adotou uma posição intransigente nas políticas governamentais, visando incrementar a industrialização do país mediante processos de nacionalização e estatização. A temática político-institucional, presente na reflexão de Darcy Ribeiro, permaneceu em segundo plano e, meses antes do golpe, quando Allende lhe perguntou se a alternativa que propusera teria sido mais viável e eficaz, o brasileiro avaliou que a dimensão econômica já havia chegado ao seu limite e o governo necessitava de um tempo que não mais dispunha, para enfrentar a tempestade. Para se ver como eram esses dois gigantes vale um registro. Após ser ovacionado na posse, Allende recebeu os cumprimentos das delegações estrangeiras, e rasgados elogios pelo discurso histórico. Allende, de pronto, agradecia, mas declarava que os cumprimentos deviam ser dirigidos diretamente ao ‘professor Darcy’, que o havia preparado. Darcy mais tarde registrou em seus depoimentos, que nunca ninguém houvera feito isso, solene e publicamente, embora ele houvesse redigido inúmeros discursos de muita gente. Allende, como se sabe, pelos registros hoje disponíveis, estava marcado para morrer, depois de uma reunião entre Kissinger e Nixon, realizada poucos dias após a sua vitória. Talvez, a tese de Darcy, caso abraçada por Allende, houvesse sobrestado o banho de sangue. Mas o ‘zeitgeist’ era outro. Não resta muito a fazer, exceto lembrar (reverencialmente) dessa gente, nessas oportunidades que o estimado Kotscho nos faculta. Vale depositar, para quem andar por Santiago, uma rosa vermelha na estátua de Allende, na Plaza de la Constitución, na Calle Morandé, defronte ao Palácio de La Moneda, onde de arma em punho, um valente não se rendeu à sanha assassina dos golpistas e pronunciou suas últimas magníficas palavras: “Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.”. Depois desse trecho, os aviões despejam seus disparos e a gravação da Radio Magallanes se torna inaudível, exceto pelos estrondoso canhoneio. Faltam Darcys e Allendes. E que falta fazem, não só pela ‘lição moral’, mas em tudo, por tudo.

  8. Ricardo, sua antepenúltima frase e parágrafo neste post é um soco no estomago, devastadora:
    ”hoje quem ocupa o mesmo cargo no planalto é Eliseu Padilha”.
    Pelo menos assim será sentida no ambito do ibóppe que tu, nosso luminoso escriba, ainda tens.

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