O "fogo amigo", de Vargas a FHC até Lula/Dilma

O "fogo amigo", de Vargas a FHC até Lula/Dilma

O que há em comum entre os personagens do título?

É o tal do “fogo amigo”: a raiz das muitas crises dos seus governos pode ser encontrada mais dentro do que fora dos palácios. Foram as intrigas palacianas, as disputas do poder pelo poder dentro do poder e as traições de aliados que mais infernizaram a vida destes presidentes, mais até do que os adversários políticos, como pudemos ver ainda agora na agonia do governo de Dilma Rousseff, o segundo caso de impeachment em curto espaço de tempo.

Mas aliado não é para nos defender e o papel do adversário é nos atacar? Assim deveria ser o jogo, mas nem sempre é assim.

Ao lermos em sequência livros sobre a nossa História política contemporânea, desde a Revolução de 30 de Getúlio Vargas (a trilogia de Lira Neto), passando pela ditadura militar de Castelo a Figueiredo (os cinco volumes de Elio Gaspari) e os anos FHC contados pelo próprio, até chegarmos aos governos petistas de Lula e Dilma, que ainda estão à espera de um autor, é impressionante constatar como os enredos se repetem de um século a outro em diferentes regimes e contextos.

Ao contrário do Heródoto Barbeiro, não sou historiador, minha memória está cada vez pior, mas vou tentar lembrar de alguns fatos por ordem de entrada em cena dos seus principais personagens.

Foram o irmão Benjamim Vargas e o chefe da sua segurança pessoal, Gregório Fortunato, que acabaram empurrando Getúlio para o “mar de lama”, no ocaso do seu período de governo democrático, ao envolverem diretamente o presidente da República no episódio do “atentado” ao adversário Carlos Lacerda.

Era o que faltava para deflagrar a campanha final contra o presidente eleito movida pelos udenistas moralistas daquela época, aliados aos generais dissidentes, a interesses estrangeiros e à imprensa oligárquica. Todos sabemos como esta história acabou na tragédia do suicídio em 1954, ensaio para o golpe desfechado dez anos depois contra João Goulart, pelos mesmos atores, depois de uma breve trégua de bonança nos anos dourados de JK até a renúncia de Jânio.

Estou terminando de ler agora A Ditadura Acabada, o quinto e último livro da obra do jornalista Elio Gaspari sobre os 21 anos do período militar, encerrados com a eleição indireta de Tancredo Neves, do oposicionista PMDB, que morreu antes de tomar posse, e foi substituído pelo vice José Sarney, até meses antes presidente do PDS (ex-Arena), o partido do governo.

Durante todo seu caótico governo, João Figueiredo, o último general presidente, teve que enfrentar a “tigrada” amiga, os radicais que eram contra a anistia e a abertura política, e a disputa pela sua sucessão, envolvendo Paulo Maluf, Mario Andreazza e Aureliano Chaves, o seu vice, com quem rompeu, e que acabou se bandeando para o lado do conterrâneo Tancredo Neves.

Alguma semelhança com tempos mais recentes?

Nas quase mil páginas do primeiro volume da autobiografia do seu governo, Fernando Henrique Cardoso passou mais tempo reclamando das intrigas dos seus velhos amigos palacianos, da base aliada (PSDB-PMDB-PFL) e da imprensa idem, do que criticando a oposição liderada pelo PT. Foi implacável com José Serra e Sérgio Motta, que disputavam o protagonismo com Pedro Malan, o ministro da Fazenda que segurou o Plano Real, e o acompanhou até o último dia de governo.

Da mesma forma, a grande crise política do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que o sucedeu ao derrotar José Serra, não foi provocada pela oposição liderada pelo PSDB de FHC, mas por um deputado aliado, Roberto Jefferson, do PTB, que denunciou o “mensalão”.

E quem comandou a oposição implacável ao governo de Dilma Rousseff, que a levou a enfrentar o processo de impeachment, também não foi o PSDB, mas o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do principal partido aliado, o PMDB velho de guerra, que emplacou o vice Michel Temer como presidente interino quando ela foi afastada.

No fundo, no fundo, no fundo, a gente anda, anda, anda, mas parece que tudo continua no mesmo lugar.

Foi o que senti ao reler outro dia Do Golpe ao Planalto, meu livro de memórias, que tenho citado muito ultimamente aqui no blog. No final do posfácio, escrito em dezembro de 2005, lembrei um episódio que confirma a frase acima. Transcrevo:

A cada crise, fala-se novamente na necessidade de uma reforma política, que nunca acontece. Olhando as coisas agora de trás para a frente, fico com a impressão de que a raiz do problema não está nas pessoas ou nos partidos, mas num sistema político condenado a não dar certo. Para chegar ao governo, um candidato, qualquer candidato de qualquer partido, tem que fazer tantas concessões e alianças, mobilizar tantos recursos, que acaba amarrado a um conjunto de antigos interesses _ de tal forma que não consegue implantar as reformas reclamadas pelo país há muitas décadas. 

Em meio ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, no final de uma entrevista, já na hora do café, depois de ouvir as queixas dele sobre a dificuldade de conviver com sua base aliada, perguntei-lhe singelamente:

_ Presidente, o senhor conseguiu a reeleição, já está no segundo mandato, por que não dá um murro na mesa e governa do seu jeito, com quem acha melhor para o país?

_ Você está maluco? Se eu fizer isso, meu governo acaba no dia seguinte…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

20 thoughts on “O "fogo amigo", de Vargas a FHC até Lula/Dilma

  1. Caro Kotscho, há alguns meses atrás numa conversa por telefone com nosso amigo em comum Alex Solnick, ele estava me dizendo justamente isso. Desde a proclamação da República o Brasil vive um estado permanente de tentativas de “derrubar” governos vigentes. Parece que está no DNA dos políticos brasileiros. Com ou sem justificativa plausível, todos os Presidentes da República que assumiram desde o General Deodoro da Fonseca, foram vítimas de tentativas de derrubadas. Todos sem exceção, segundo ele. Desde intrigas palacianas, traições, com ou sem base legal, todos foram vítimas de tentativas de derrubadas. A impressão que passa é que o Brasil vive numa eterna briga pelo poder. Pior, poucos visam a melhoria das condições da população. A maioria só pensa em enriquecer e se perpetuar no poder. Lendo seu post lembrei-me dessa conversa com o Alex que me falava algo muito parecido. Um abraço

  2. Kotscho, o que você acha do parlamentarismo? com algumas mudanças, claro, como cláusula de barreira, voto distrital, etc. Não seria uma tentativa válida?

    1. Paulo,
      parlamentarismo como? Com estes parlamentares? Com este parlamento?
      A meu ver, a questão não é mudar o sistema de governo, porque nenhum dará certo com esta turma.
      Já tentamos de tudo. O fato, ao que parece, é que a República não deu certo.
      Daqui a pouco, alguém vai sugerir a volta da Monarquia…
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

    2. Como acertadamente propõem meu irmão, desde o final da década de 80, nem um, nem outro, precisamos é eleger o presidente certo, ou seja, o das organizações Globo, que continua mandando no eleito por nós, o da República Federativa do Brasil, e quando não manda absolutamente, cedo ou tarde, derruba-o. O resto é fim de tarde em Paquetá, conforme alguém (que não recordo) escreveu por aí, entre um golpe e outro (ou seria gole?).

    3. Paulo… Creio que seria muito válida a tentativa do regime Parlamentarista. Assim, em caso como este não levaria 10 meses!
      Lembremos da “monarquia parlamentarista” da Inglaterra… em uma Semana, mudou-se o Primeiro Ministro, que é uma espécie de CEO do País… se falhar, bota outro no lugar sem “traumas impitimais”!

  3. Muito bem lembrado Kotscho, e me atrevo a dizer que hoje o grande “fogo amigo” do Temer é o PSDB……….se o Temer fizer tudo que precisa ser feito, com certeza chegará em 2018 como forte candidato, assim como o Meireles…..será que o PSDB aceitará isso?, claro que não, porém o PSDB quer ver alguma coisa feita, como bandeira para 2018, mas sucesso total JAMAIS !!!

  4. Não existe amigo em relações institucionais,existem interesses e interessados,existe queda de apoio por término de interesse.Com relação à semelhança com o governo Figueiredo,existe uma sutil diferença que o Sarney recebeu o governo com superávit de 1% do PIB,daí o motivo que foi passado como manda o figurino,ao término do mandato.

  5. Cada vez mais minha percepção que a política brasileira se iguala a guerra nas favelas do Rio de Janeiro. Apenas quadrilhas tentando tomar território para continuar a destruir a vida de sua população. Baseados em dois pilares: poder e dinheiro. Nada mais.

  6. Vamos falar a verdade. O Brasil só andou pra frente no governo Getúlio Vargas e nos governos militar. Tuco o que foi construído no governo Vargas e nos governos militar, nos últimos 30 anos virou sucata.

    1. Não concordo com a a tua afirmação, caro J. Leite. A vida de cada país é feita de ciclos, que dependem também da conjuntura internacional, e o nosso país avançou muito em diferentes áreas, melhorando a vida das pessoas.
      Vivemos hoje bem melhor do que há 30 e 50 anos. O grande desafio nosso continua sendo dar acesso a todos às novas conquistas e oportunidades para distribuir a renda de forma mais justa.
      Para isso, precisamos de novas ideias e novas lideranças, não podemos esperar que tudo venha dos governos ou dos salvadores da pátria.
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

    2. Não concordo com sua discordância R. Kotscho.Um país como o Brasil que nem neve cai no inverno,sem deserto e de um povo trabalhador vai melhorar sempre.O parâmetro para nós brasileiros é o índice que conseguimos alcançar com relação aos últimos 50 ou 30 anos e para isso devemos comparar se no caso da afirmação acertada do J. Leite se o país evolui tanto quanto conseguiram os militares ou Getúlio Vargas quando também comparados com 50 ou 30 anos que os antecedeu.Está na cara que nos dias de hoje estamos devendo .

  7. Sr. Ricardo. Olha, está muito triste esta situação, a que ponto deixaram chegar o STF, o Senado, a imprensa, e mesmo nós comuns mortais, essa coisa horrível que é este golpe arranjado por um turma poderosa que não nos deixa esquecer de uma frase: governo é uma instituição montada para defender os interesses da classe dominante. Triste ver que não adianta votarmos, irmos para a fila, torcer para o nosso ou nossa candidato ou candidata faça um bom trabalho, seja honesta,trabalhe com afinco, etc, etc. Vem uma turma com um programa de governo que uma maioria decidiu não ser o ideal, e dá um jeito de tirar quem recebeu os votos necessários para ganhar as eleições. É facinho, facinho. Ontem mesmo o senhor fez uma crônica responsabilizando a Sra. Dilma e seu governo por tudo e dizendo que o país estava parado. Não vejo nada parado, o que leio e o que eu entendo é que essa turma nova se apoderou e está realizando o programa de governo de quem perdeu as eleições e aqui neste espaço de discussão de idéias algumas pessoas consideram isso normal. O senhor mesmo diz que foi o Eduardo Cunha o responsável pelo encaminhamento do impedimento da Sra. Dilma, mas quem colocou o Eduardo na Presidência da Câmara, com a ajuda de quem ele conseguiu chegar lá, mesmo todo o mundo sabendo de seu comportamento? O Sr. Michel queria ser o articulador político no início do segundo mandato, conseguiu, depois desistiu. Por que? Lembro que na época responsabilizaram o Mercadante, e não sei mais quem. Não consigo aceitar uma traição como essa, também não entendo como pessoas que foram anos filiadas, hoje votam pelo impedimento, senadores e senadores que foram ministros e ministras do governo, hoje votam pelo impedimento, como se não fossem responsáveis pelo governo. Uma grande parcela da classe politica, da imprensa, da população, não respeitou o resultado da eleição para a presidência da república em 2014, e foram minando tudo pelo caminho. O senhor vê alguma crítica contundente da grande imprensa com relação a esse governo interino? Até cancelar delação antes do impedimento se cancelou. É tudo coincidência? Eu ainda não sei o que o senhor pensa desse governo interino, mas sinto que o senhor tem não tem nenhuma simpatia pelos governos da Presidente Dilma, até de mentirosa o senhor já a adjetivou, mas o Sr. Temer é preferível, o programa do PSDB, é preferível ao do PT? Repito, mais uma vez, não foi esse o programa que ganhou as eleições.

    1. Cara Carmem Leite,
      entendo perfeitamente tuas angústias, que são as minhas também e constato esta triste situação em todo lugar, mas não sei onde está a saída para podermos ter novamente uma vida normal.
      Daqui a pouco mais de um mês, teremos eleições municipais, e não vejo nenhum interesse da população em participar deste debate que vai decidir o futuro das cidades.
      Hoje começou a campanha na TV e dá desanimo ver os candidatos, com os mesmos discursos vazios de sempre, sem nos dar alguma perspectiva de que as coisas possam melhorar.
      Eleição, para mim, sempre foi uma renovação de esperanças, mas desta vez, vendo o vazio das propostas e o desinteresse dos eleitores, noto como o problema não se limita aos políticos e aos partidos.
      É o próprio sistema de representação político-eleitoral que se exauriu, já não oferece formas de participação antes, durante e depois das campanhas.
      Quem colocou o Eduardo Cunha na presidência da Câmara foi esse sistema que perpetua esquemas de poder a serviço de grupos de interesse, totalmente dissociados das demandas da população.
      Confesso que não sei o que podemos fazer neste momento. Limito-me, como todo mundo, a constatar esta realidade e não vejo como transformá-la.
      Todos temos os mesmos diagnósticos, mas quando você pergunta qual é a receita, o que podemos fazer para mudar esse jogo, ninguém sabe dizer.
      Se você tiver alguma sugestão, mande pra nós.
      Grato pela participação,
      Abraços,
      Ricsardo Kotscho

  8. “Fazer concessões e alianças” é democracia, pro bem ou pro mal. A alternativa é o poder absoluto na mão de uma pessoa, o autoritarismo. Onde e quando foi que isso já deu certo, na história da humanidade? Na Venezuela atual?

  9. Seria um feito e tanto, se o Temer conseguisse destruir tudo que a Dilma e o lula fizeram nesses 13 anos, quando reconstruiram o Brasil depois que o FHC o destruiu. Mas o Temer tem se esforçado muito pra isso, pois em apenas 3 meses de governo ele ja cortou verbas de varios programas do governo Dilma, e acabou com o otimismo do mercado, com a inflação e o desemprego aumentando. Sem contador o seu ministro e conhecido desagregador José Serra, que ao invés de tentar convencer o mundo de que esse governo Temer, não é ilegetimo fruto de um golpe, fica agindo como bom peessedebista que é, de maneira arrogante criticando entidade respeitaveis internacional, como a OEA, ao invés de explicar. O Serra não sabe que a Venezuela é o país da ameria do Sul que mais compra do Brasil, e que a Russia e a China são os paises do mundo que mais compram do Brasil; e portante se ele continuar fazendo o mesmo que fazia o FHC, achando que somente os Estados Unidos é importante, ele vai cometer os mesmos erros que cometeu o governo FHC que destriu o Brasil, ainda mais porque ao contrario daquela epoca a impressa dos Estados Unidos está contra esse governo Temer, e a imprensa americana, tem muito poder junto ao mercado americano e a opinião publica de lá, visto que não faz muito tempo, a França, um dos maiores aliados dos Estado Unidos, ao qual os Estados Unidos é infinitamente grato, por conta de que a França, foi peça fundamental para a Independencia Americana, sofreu muito com a campanha que a midia dos Estados Unidos encabeçou para os americanos boicotassem os produtos franceses. Naquela epoca era comum ver produtos franceses sendo jogados no lixo nos Estados Unidos.

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