A tribo dos grandes repórteres fica sem Geneton

A tribo dos grandes repórteres fica sem Geneton

Foi-se embora, tão cedo, nesta segunda-feira, uma ave cada vez mais rara no jornalismo: um grande repórter eternamente apaixonado pela profissão, daqueles que fazem do seu ofício não só uma opção profissional, mas uma opção de vida.

Morreu do coração, no Rio de Janeiro, o pernambucano Geneton Moraes Neto. Tinha apenas 60 anos de idade, dos quais dedicou 44 à arte de contar histórias. Jornalista de papel e de imagem, documentarista e escritor, produtor, editor e diretor, Geneton era, acima de tudo, um repórter, e assim gostava de ser chamado. Entrou nos anos 1980 na Rede Globo, onde ocupou diferentes cargos e funções, e comandava desde 2009 o programa Dossiê GloboNews.

Entrevistador discreto, que não gostava de aparecer mais do que o entrevistado, mas sempre direto, respeitoso e implacável nas perguntas, tratava todos os seus personagens da mesma forma, de ex-presidentes da República a astronautas, de prêmios Nobel a grandes ídolos populares, de generais a jovens estudantes do sertão nordestino e, durante 20 anos, preparou sua obra prima: “Garrafas ao Mar”, um documentário sobre a vida de Joel Silveira, considerado por ele e por todos nós o maior repórter da história do Jornalismo brasileiro. Dele Geneton foi um fiel seguidor, até ser internado em maio na Clínica São Vicente, vitimado por um aneurisma na aorta, que o acabou matando.

“Minha tribo é esta”, disse aos colegas que o rodeavam ao receber o Premio Embratel de Telejornalismo pelas entrevistas com os generais Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves, dois dos antológicos depoimentos que recolheu ao longo da sua carreira. Isso foi em novembro de 2010.

O melhor resumo da sua vida e obra quem escreveu foi ele mesmo no texto “Pausa para um refresco (ou: pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo Jornalismo)”, publicado após receber o prêmio, apenas mais um na sua coleção, mas não era isso que o movia. O que o fazia vibrar era uma boa pauta, que na maioria das vezes ele mesmo criava, como costuma acontecer nesta tribo que está em processo de extinção.

Escreveu Geneton neste depoimento, que é uma verdadeira declaração de fé na profissão:

“Sou um quase dinossauro. Tenho 54 anos. Comecei a trabalhar em redação aos dezesseis. Posso dizer que aprendi duas ou três coisas.

Em homenagem aos colegas que suam a camisa, gastam sola de sapato na rua, atazanam os poderosos, levantam escândalos e, por fim, vibram quando são reconhecidos, publico o que tentei dizer mas não disse totalmente na hora da premiação.

Era algo assim:

Toda atividade _ seja qual for _ precisa de um lema, uma bandeira, um slogan. O meu poderia ser qualquer outro, mas é: fazer jornalismo é produzir memória. O jornalismo pode ser útil, então.  Pode jogar luzes sobre o passado. Por que não?

É preciso ter convicção. Pois bem: posso estar errado mas acredito que fazer jornalismo é olhar o mundo, os fatos, os personagens e as histórias com os olhos de uma criança que estivesse vendo tudo pela primeira vez; somente assim, o jornalismo será vívido, interessante, inquieto _ não este monstro burocrático, chato e cinzento que nos assusta tanto. Fazer jornalismo é saber que existirá sempre uma maneira atraente de contar o que se viu e ouviu.

Se um estreante perguntasse, eu diria: deixe o tédio em casa. Traga a vida das ruas para a redação. Porque, em noventa e oito por cento dos casos, o que a gente vê na vida real é mais colorido e mais arrebatador do que o que se publica nos jornais ou o que se vê na TV.

Diria também: não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público!

Fazer jornalismo não é praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulhagem ideológica. Um general – seja quem for _ deve ser ouvido com tanta atenção quanto o mais renitente dos guerrilheiros. Lugar de votar é na urna. Não é na redação.

Eu disse ao general Newton Cruz: não quero parecer bom moço, jornalista vive procurando escândalo e declarações bombásticas, mas, como personagem jornalístico, o senhor me interessa tanto quanto Luís Carlos Prestes, a quem, aliás, entrevistei algumas vezes.

Por fim: fazer jornalismo é desconfiar, sempre, sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem _ seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro de música _ pergunte sempre a si mesmo, intimamente: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?

Não existe pergunta melhor”.

O que é um repórter, afinal? “Repórter é um ser que pergunta”, costuma responder Audálio Dantas, outro dos grandes da tribo, que ainda está na batalha, um sobrevivente dos tempos de Joel Silveira.

Posso imaginar Geneton Moraes Neto chegando ao céu e pedindo licença para fazer uma pergunta a Deus:

_ Me diga: o Senhor acha justo eu ter vindo para cá tão cedo, com tanta coisa ainda por fazer?

Vamos ficar sem esta resposta…

Eu não acho justo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 thoughts on “A tribo dos grandes repórteres fica sem Geneton

  1. De fato era um jornalista como poucos… O documentário sobre os ex presidentes é uma aula de jornalismo. A entrevista com o Maluf então… Até achava que era mais velho, partiu daqui muito cedo, justo num momento tão farto de fatos “jornalísticos.
    O programa “Dossiê Globo News” era do tipo, que o entrevistado temia a não ir, e quando decidia era do tipo: “eu vou lá na entrevista do Geneton… ou saio pior que entrei ou absolvido para a história”.
    Minhas condolências à família e amigos.
    Em tempo, quero destacar a reportagem “Genetoína” do jovem repórter Felipe Santana, (que eu nem conhecia) da Globo de Nova York, para o JN, com o nadador Ryan Lochte, uma primazia de entrevista. Tenho certeza que causou orgulho ao saudoso Geneton e a todos que gostam do bom jornalismo.
    Para quem não assistiu, vale a pena rever.
    http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2016/08/em-entrevista-ao-jn-ryan-lochte-diz-que-foi-imaturo-e-pede-desculpas.html

  2. Kotscho, hoje, depois do Geneton, Papai do Céu reforçou ainda mais sua equipe de divinos repórteres, e chamou o Goulart de Andrade: “Vem comigo!”

  3. Caro Kotscho, amainada em parte a dor da vergonha após ter cometido um terrível erro aqui no Balaio do qual jamais me perdoarei, volto a escrever seguindo o teu conselho eis que, como tu diz, “escrever é o que nos mantém vivos” e eu acrescento “mesmo depois de mortos”. E o faço nesse post que nos relata a perda de um raro “Jornalista”, o Geneton. Ainda ontem assisti um filme “Kill the messenger” que conta a história do repórter norte-americano Gary Webb, que descobriu e publicou o envolvimento da CIA no tráfico de drogas para financiar as ações dos EUA contra a expansão do comunismo na América Latina durante o governo Reegan, fato esse que deu início à tragédia do “crack” naquele país. O que aconteceu com Gary Weeb depois de fazer o seu trabalho (contar a verdade) prova que a mídia não apodrece apenas no Brasil mas sim trata-se um fenômeno universal . O jornalismo deveria ser a carreira mais apaixonante do mundo não fosse a indigência moral e ética dos donos de jornais e da maioria quase absoluta de seus subjugados e contratados bajuladores profissionais. Mas ainda assim um ou outro escapa desse lodaçal e nojento lugar comum. É o caso do Geneton Moraes Neto cuja perda, dada as circunstâncias, torna-se colossal, irreparável e faz com que nós, os leitores, nos sintamos cada vez mais arrasados, impotentes e desesperançosos da boa e velha simples informação da notícia. De todos os grandes trabalhos que li e assisti do Geneton, uma recente entrevista para mim se destaca que foi com o Geraldo Vandré. Instigado por ela, durante uma festinha em família pelo aniversário do meu sobrinho Pablo, perguntei ao músico Heraldo do Monte que é avô dele e que pertenceu ao Quarteto Novo (formado por Heraldo, Aírton Moreira, Theo de Barros e Hermeto Pascoal) por que o Vandré ficou louco depois da ditadura ?. O Heraldo, que arranjou e acompanhou o Vandré durante toda a sua carreira me respondeu que ele sempre foi louco, pois só sendo louco para compor as músicas que fez durante aqueles terríveis anos de chumbo. Não sei se o Geneton também foi um louco no seu meio e naquilo que fazia mas tenho a absoluta certeza de que só os loucos é que podem mudar esse mundo posto que ELES NADAM CONTRA A MARÉ !!!

    1. Caro Enio,
      no caso do Geneton, com 11 livros publicados e dezenas de entrevistas antológicas gravadas, ele continuará nos gratificando com sua obra mesmo depois de morto.
      Se nadar contra a maré é ser louco, ele era mais louco do que nós dois juntos…
      Abração,
      Ricardo Kotscho

  4. É mestre, não bastasse Geneton partir precocemente, levou junto à base do “vem comigo”, outra fera da reportagem, essa mais da telinha e longeva, Goulart de Andrade. Triste, pois parece que o legado deixado para substitui-los, quando não medíocre ou contido em caracteres, é falso ou inexiste.

  5. Caro Kotscho, ninguém parte desse mundo antes da hora. Se ele foi é porque estava concluída sua missão de vida. Todos aqueles que o amaram em vida sentirão sua falta e considerarão sua precoce ida uma injustiça. Porém não existe injustiça divina. Todos iremos no momento em que concluirmos nossa missão aqui na terra. O problema é que não sabemos quando isso acontecerá. Enquanto isso vamos tocando nossa vida, cuidando de nossas famílias, dos nossos negócios, dos nossos amigos, do nosso País. Quando chegar a hora de nossa passagem, não há como evitar. Abs

  6. Procuradores direitistas peitam STF, agora por conta da declaração do Gilmar Mendes, vão se vingar do Mendes chamando o Aécio, o Serra, o Nunes e etc… para …….

  7. E O PULSO, AINDA PULSA, como dizia aquela musica do titãs! -Não é muito pequeno o espaço: que a Globo dá ao Ancelmo Gois, que a record dá ao Herodoto Barbeiro e que a folha dá ao Juca Kfouri? – Meu, a grande midia brasileira parece o Barcelona e o Real Madrid, que contratam craques midiaticos, para ganhar dinheiro com o marketing deles; e contratar grandes craques de verdade, de maneira a cala-los, privar outros concorrentes de contar com o talento deles, se prevenindo do estrago que o talento desses seria capaz de fazer a serviço da concorrencia. -Incrivel como o talento corajoso do Geneton Moraes Neto, conseguiu sobreviver a censura velada que a globo lhe impôs, como se a globo contrata-se o Silvio Santos e o colocasse trabalhando no cedoc da emissora; pois mesmo com poucas grandes entrevistas sendo aproveitadas pela globo, ele conseguiu deixar sua marca; que certamente fez tremer quem preparou e apresentou aquela curtissima e merecida homenagem a ele no jornal nacional.

  8. O texto de Ricardo Kotscho faz justiça a Geneton. E lembra Joel Silveira, que merece monumento em praça pública, repórter de guerra e paz, da campanha da FEB na Itália à Avenida Paulista dos tempos do Conde Matarazzo, que casou uma filha e não se lembrou de convidar o repórter para festa.Mas Joel passou dias a perguntar a quem gravitava em torno do grande evento: cabeleireiros, motoristas, costureiras, cozinheiros, porteiros, convidados, para escrever a reportagem “A milésima segunda noite da Avenida Paulista”.Uns 30 anos depois, o americano Gay Talese escreveu, usando a mesma invenção de Joel Silveira, uma reportagem sobre Frank Sinatra, e com isso ganhou fama no mundo inteiro. A fama de Joel ficou só por aqui…Vim depois dele e tentei seguir seus rastros, assim como Geneton.

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