No tempo em que ainda havia esporte amador

No tempo em que ainda havia esporte amador

Além de emoções e alegrias, esta Olimpíada do Rio, que termina daqui a pouco, me trouxe também boas lembranças dos tempos em que fui repórter e editor de esportes amadores, ainda no início da carreira.

Na passagem dos anos 60 para os 70 do século passado, tempos de ditadura e censura no velho Estadão, o noticiário político era o mais visado e cortado sem dó, tornando muitas vezes inútil o nosso trabalho de contar o que estava acontecendo.

Por isso, achei até bom quando fui transferido para uma super editoria de esportes que estava sendo criada pelo jornal. Clóvis Rossi tornou-se editor de futebol e eu virei editor de esportes amadores, ambos sob o comando de Ludenbergue Teixeira de Góes, que nos deu toda liberdade para implantar reformas gráficas e editoriais numa redação que ainda usava o termo tento em lugar de gol por não admitir anglicismos no texto.

Sem a pressão da censura e da direção do jornal, que não se interessava muito por esses assuntos, o “exílio” na editoria de esportes permitiu que sobrevivêssemos ao período mais duro da ditadura sem maiores sustos, num ambiente de trabalho muito agradável e com mil histórias para serem contadas.

Por “esportes amadores”, que já naquela época não eram tão amadores assim, entendia-se tudo o que não fosse futebol. Aberta ou veladamente, quase todos começaram a receber patrocínios e subvenções, que permitiam aos atletas largarem suas outras ocupações para viverem só do esporte, mas nas Olimpíadas ainda não se admitia o profissionalismo. Não me lembro quando isso mudou, mas hoje duvido que tenha um único atleta amador disputando os Jogos da Rio 2016.

Nossas equipes de futebol masculino, por exemplo, eram formadas só por garotos das divisões de base dos clubes _ o que explica porque só neste sábado, no Maracanã, conquistamos nossa primeira medalha de ouro. Futebol feminino ainda nem existia.

Também o automobilismo, desde o início altamente profissionalizado, que ainda estava começando a despertar interesse por aqui, entrava na minha editoria, e assim pude acompanhar de perto as primeiras corridas de Emerson Fittipaldi na Fórmula 2, e depois na Fórmula 1, onde ele se tornaria nosso primeiro campeão mundial. Havia ainda grandes ídolos como Thomas Koch, no tênis, e Éder Jofre, no boxe, que sempre rendiam boas matérias.

Discute-se hoje no Brasil se quem mais colaborou para a formação e preparação dos nossos atletas olímpicos foi o Ministério dos Esportes ou o Ministério da Defesa, uma polêmica que surgiu quando muitos medalhistas começaram a bater continência nos pódios. Na verdade, tanto faz quem bancou mais bolsas-atleta, já que a grana, nesse caso, vem da mesma fonte, o Tesouro Nacional.

O fato é que o Estado, principalmente, é quem mais investe no esporte brasileiro, junto com alguns patrocinadores de empresas públicas e privadas, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, onde são as universidades e as fundações que formam e sustentam os atletas olímpicos.

São ainda rarefeitas as atividades esportivas nas nossas escolas públicas e privadas, em todos os níveis, que deveriam ser o grande celeiro de atletas, como acontece nos países que mais conquistam medalhas em todas as Olimpíadas modernas, antes e depois do profissionalismo. Não se trata só de uma questão de mais ou menos recursos para o esporte, seja de que ministério for, mas de priorizar e investir em educação e cultura, algo que ainda está muito longe de acontecer. Ao contrário, estamos regredindo neste campo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 thoughts on “No tempo em que ainda havia esporte amador

  1. Perfeito. Adicionaria o falso uso do termo amador. Cito como exemplo os corredores e comentaristas de esporte “amadores” que são patrocinados e vivem integralmente do esporte. Se isso é amador, não sei o que é profissional. E quanto ao peso do estado adiciono a consequente dificuldade de estudar e treinar. Enquanto o modelo americano permite e incentiva ao atleta que estude, o nosso dificulta, uma vez que em muitos casos os atletas são deslocados de suas vidas, famílias, escolas para irem para centros de alto rendimento. Esporte no Brasil virou um ramo de marketing, seja de grandes marcas ou do governo.

    1. Falando em amadorismo, deslocar policiais do Acre, Rondônia, Pará, etc. para patrulhar área que não conhece, termina com a ocorrência fatídica daquela viatura que entrou numa via ‘comandada’ por delinquentes, que determinam quem pode ou não por lá trafegar. Foi um tiro no pé dos nossos governantes. Aqui em São Paulo, o uso indiscriminado de explosivos, já está se alastrando para outros estados. Só vão dar a devida importância quando começarem usar contra pessoas tidas como ”importantes”, pois, o povo não tem importância alguma para os nossos governantes.

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